
(…) “E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida”. (…)
[Inspirada pela série que o Pedro Correia começou agora sobre escritores que nunca receberam o Nobel, lembrei-me deste maravilhoso conto do nosso (único) laureado, texto que só descobri há pouco tempo numa viagem ao Brasil. Impossível não se ficar rendido. Tem tudo o que deve ter um grande conto, e mais aquilo que só têm os textos excepcionais: universalidade, clareza, simplicidade, mensagem, densidade. Apesar de eu não gostar de tudo o que Saramago escreveu, e de nunca mais um livro dele me tivesse encantado tanto como o Memorial do Convento, afirmo convictamente que este pequeno conto bastaria para justificar o prémio.]
conto bonito
É uma metáfora preciosa, Rita.
Fizeste bem em trazer aqui este belo conto, Ana. O Saramago contista, cronista e até poeta é muito menos conhecido do que o Saramago romancista, mas nem por isso menos interessante ou menos estimulante. Este carácter multifacetado da sua obra também justificou, sem favor, o Prémio Nobel.
Sem dúvida, Pedro. Hei-de trazer aqui também um poema dele, há alguns muito bons.
Conto estranho. Não me parece o Saramago. Há algo nele de metafísico que, infelizmente, não encontro nos seus últimos livros. Mas sou suspeita. Julgo que deveria ter sido a Agustina a ganhar o Nobel…
E eu torcia pela Sophia, Helena. Porque é uma poeta que adoro e porque gostava muito de que o nosso Nobel fosse para a poesia. Mas Saramago neste conto prova que é um escritor excepcional.
Obrigado pela descoberta desse conto, Ana.
Admito que não o conhecia; apesar de até me considerar um bom seguidor da obra de Saramago.
Quanto à mensagem final, continuo a manter a minha preferência no “Todos os Nomes”.
Ainda bem que gostou, CeC. Também me considero uma razoável seguidora da obra de Saramago, mas não conhecia este conto até que uma amiga brasileira, escritora, me deu o livro de presente. Raramente um conto me deixou tão deslumbrada à primeira leitura como este.
(acho que muita gente tem um “Saramago” preferido… 🙂
Eu já conhecia, por acaso. Apareceu-me à frente, na net (num site brasileiro), há algum tempo, e aproveitei para o ler.
Quanto às preferências, não de obras do Saramago – que são, como o vinho, todas boas, ainda que umas melhores que outras -, mas de autores portugueses, embora legítimas, para mim a questão não se coloca nestes termos. O Nobel que temos chama-se, e muito bem, José Saramago, mas nada impede que possamos ter mais. Ou há alguma regra escrita que o impeça?
Como sabemos, para lá do seu enorme valor, Saramago beneficiou do grande trabalho de promoção da sua mulher, bem como da sua “adopção” por parte da Espanha. Nada de errado com isto, simplesmente nenhum português antes ou depois dele pôde gozar de semelhante promoção. O nosso País é pequeno e o Mundo só repara nele, de vez a tempos, por causa do futebol ou dos défices.
Portanto, nunca teremos um novo Nobel se antes não o soubermos promover perante o Mundo.
Ora, como sabemos, neste Mundo simplista, imediatista e consumista, o marketing – que é um dos nossos principais calcanhares de Aquiles – é tão ou mais importante que o produto em si. Senão, como é que mistelas como a Coca-cola ou o Martini poderiam ser bebidas globais?
O Saramago morreu.
Viva o Saramago!