Supunha eu que a prática do plágio é recurso de quem não tem talento próprio. Estava redondamente enganada, como têm provado à exaustão as pesquisas que vou fazendo para documentar esta série. Nomes de talentos consagradíssimos, tanto na música erudita como na ligeira, deixaram-se tentar pelo facilitismo ou pela preguiça de copiar melodias de outros, mesmo tendo capacidade de sobra para produzir os seus próprios êxitos. Em alguns casos, é muito possível que estejamos em presença de uma influência insconsciente, uma traição dos sentidos. Noutros, por maior que seja a nossa boa vontade, é impossível aceitar tanta coincidência sem acreditarmos em malévolos poderes ocultos…
O caso de hoje pertence claramente à última categoria. Quem mo deu a conhecer foi precisamente um leitor do Delito, na caixa de comentários do post anterior desta série. Gostaria sinceramente de acreditar tratar-se de uma dessas traições do subconsciente, até porque envolve uma parceria com Rui Veloso, por quem tenho grande, enorme consideração. É um dos meus músicos portugueses preferidos de sempre e autor de dezenas de canções de qualidade indiscutível, que fazem parte do património mais valioso da nossa música ligeira. Se ele foi apenas um convidado dos Per7ume para fazer este dueto no seu álbum de estreia, em 2007, a responsabilidade não pode ser-lhe atribuída. Por mais que procurasse, não consegui apurar se é ele ou os Per7ume quem reclama para si a autoria da música. Mas, mesmo não sendo Rui Veloso… será que ele não deu pelo gato? Até hoje, nunca ouvi ou li qualquer comentário seu sobre o assunto. Nem dos maiores beneficiados desta canção batoteira, que guindou o grupo para a fama em tempo record a ponto de ter sido eleita como “tema do ano” no Top de Rádios Europeu, feito nunca antes alcançado por um artista português. Os Per7ume foram ainda nomeados para os Globos de Ouro em 2009 como “Banda Revelação do Ano” e para os prémios EMA, da MTV, na categoria “Best Portuguese Band de 2010”. Com tanto e tão meteórico sucesso, nunca mais pararam. Bem podem agradecer a Alanis Morissette.
Não, neste caso não há desculpas. Qualquer ouvido sem acuidade especial detecta a semelhança melódica, que é óbvia e longa. Nem sequer o ritmo foi alterado. Em causa estão as canções Your House, o original; e Intervalo, a cópia. É inegável que a casa é de Alanis, já que foi “construída” em 1995 (a canção pertence ao ábum Jagged little Pill, o segundo álbum mais vendido na década de 90, só ultrapassado por Baby One More Time, de Britney Spears). Mais de dez anos depois, o intruso foi o grupo Per7ume, aproveitando um Intervalo e entrando na casa à socapa. “Went through your drawers / And I found your cologne”, diz a letra de Alanis. Pois aí está a confissão do crime: este perfume é roubado.
Ficam ambas as canções à vossa apreciação. Por mim, “não tenho dúvidas e raramente me engano”, como diria um reformado bem conhecido da nossa praça.

Caramba. Até eu noto…
Qualquer um nota, Rui. Não só é plágio, como é um plágio descuidado.
E já somos dois, Rui.
Pois.
É igual!
Eles bem dizem que já sabem de cor todas as canções de amor… 😉
Para a nossa leitora CR:
Apaguei sem querer um comentário seu, peço desculpa. Respondendo ao que me perguntava: aparentemente ninguém deu por nada, ou pelo menos eu não encontrei nada nesse sentido. É estranho.
Ana no que concerne ao apagão considere-se perdoada!

Obrigada, cr. 🙂


A progressão para o refrão é idêntica. O refrão é diferente. É uma escala típica da música POP. Provavelmente até vem em acompanhamentos pré-programados nas pianolas da Yamaha. Sinceramente não sei. Precisava de estudar os compassos todos e não sei quê e agora não tenho pachorra para isso.
Então não gaste a sua pachorra numa coisa óbvia, Vasco. É plágio.
OK, Ana. Combinado. 😀
É descaradamente igual no início e nem se deram ao trabalho de mudar a tonalidade. Mais para diante difere para pior. A harmonia de Alanis é bem mais elaborada e conduz a um desenvolvimento um pouco mais cuidado e não tão óbvio como a “imitação”.
Esta situação é recorrente na nossa música ligeira. O problema é que vão copiar músicas menos conhecidas cá e que eles trazem das incursões turísticas – que não há outras – lá pelos States .
Mas nunca vos aconteceu de escutar certas canções “portuguesas” nos programas do Conan e outros do género?
Mesmo assim, há por cá canções que de Portugal não tem nada. Mas a culpa é de “coisas” como Ídolos que põem os meninos e meninas a cantar tudo à americana… Ainda bem que eu já não suporto ver aquilo.
Nunca vi os programas do Conan, Jorge, confesso que não sei do que fala. Mas não culpo os Ídolos por atitudes pessoais pouco éticas… isso seria uma desculpa demasiado fácil.
Trata-se, claro, do Conan O’Brien como poderia ser do Jay Leno e outros… mas de que não me lembrava no momento…
A referência ao Ídolos tem apenas a ver com o facto de haver uma tal influência de música pop que as pessoas até dessa forma cantam a música portuguesa. Daí que seja fácil passar à “imitação” ou ao “plágio”. De qualquer forma eu não sou totalmente contra o “plágio” se com isso se significar a inspiração numa determinada melodia ou tema para fazer algo de novo. Uma espécie de “citação” que sempre existiu ao longo da História da Música. Era até considerada uma homenagem ao autor original. Não é propriamnete o caso aqui.
O facto é que eu não sinto nada portuguesas a maior parte das canções que se fazem por aí. Eu identifico cançõs italianas, espanholas, francesas e até inglesas apenas pela música… Portuguesas?… Mesmo que goste, não as sinto como tais. É evidente que há honrosas excepções, mas poucas.
Acabei por ir também ao “Não há coincidências” (4). É muito interessante a questão aqui colocada sobre Bach. A maior parte dos “corais” de Bach é a reelaboração rítmica de canções como a citada de Hans Leo Hassler. Logo no primeiro coro da “Mathaeus Passion” aparece um “coral” em notas longas “O Lamm Gottes” que é aquela canção infantil “Três galinhas a cantar” ou “Quand trois poules vont ao champ” ou “Twinkle, Twinkle litle star”… Bach passou a vida a roubar temas e adaptar temas de outros compositores como Vivaldi… Mozart fez o mesmo a até adaptou sonatas de Johann Christian Bach (o filho) para fazer concertos de Piano. Schubert faz também disso, Chopin tem temas nos Concertos para Piano que já aprecem em obras de outros anteriores até de professores seus… E Beethoven, depois de tanto magicar sobre o tema da “Ode to Joy” acabou por compor uma melodia que toda a gente conhece e que mais não é que o “Dona nobis pacem” da Missa IX “Cum jubilo” em canto gregoriano… Isto para não falar da prática renascentista de escrever “missas” com temas profanos mais ou menos camuflados. E poderíamos ir por aí adiante. Quem percebe um pouco de composição musical sabe perfeitamente que é quase impossível ser-se totalmente original numa melodia. A presumida originalidade não é mais, na maior parte das vezes, que um sintoma de crassa ignorância”. A música boa não é a original, mas a que está bem feita e, ao mesmo tempo, consegue ser bela… e isso é que é difícil conseguir.
Mas viva o debate!
Jorge, entendamo-nos: eu não tenho nada contra inspirações, influências, homenagens e modelos, desde que devidamente identificados. Tudo isso é normal que exista na música. O que tenho é contra quem se apropria de músicas de outros e as declara suas conscientemente (mesmo que seja só por omissão) porque isso é uma coisa completamente diferente.
Dito isto, essa sua tirada bombástica “Quem percebe um pouco de composição musical sabe perfeitamente que é quase impossível ser-se totalmente original numa melodia. A presumida originalidade não é mais, na maior parte das vezes, que um sintoma de crassa ignorância”… não me convence. É claro que percebo o que quer dizer: partindo de uma escala que não é ilimitada, necessariamente todas todas as combinações melódicas já foram inventadas, em séculos ou mesmo milénios de composição musical. Sabe-se que a esmagadora maioria dos compositores já copiou outros anteriores, intencionalmente ou não. Mas toda a diferença reside aí, na intenção ou na ausência dela. E também na extensão da sequência melódica. Porque se é verdade que as influências são inevitáveis e que há uma memória musical de melodias absorvidas ao longo do tempo que já funciona ao nível do inconsciente, também é verdade que certas composições são obviamente decalcadas de outras já existentes. Por alguma razão existe a figura jurídica do plágio, e por alguma razão essas batotas são alvo de processos judiciais. A propriedade intelectual pode ser difícil de definir, mas não é impossível. E é justo que assim seja.
Já agora, ofereceram-me há semanas uma compilação de hits de Paul Simon, chamada simplesmente “Paul Simon – songwriter”, que saíu há pouco tempo. Lá está, como não podia deixar de ser, a belíssima “American Tune”. E mesmo depois de toda a polémica que gerou, e mesmo depois de ter confessado a óbvia colagem ao coro de Bach, uma vez mais não consta no booklet outro nome na autoria da música a não ser o de… Paul Simon.
Como diz, viva o debate. 🙂
Jorge, não tinha percebido quem era o “Conan”. Pensei que era alguma série de aventuras em BD. Obrigada, agora já sei do que está a falar. 🙂
Caramba é igual! Como é que é possível….
Pergunto o mesmo, Tiago.
Tal como muitos pintores e poetas não indicam logo as suas fontes de inspiração, alguns músicos também demoram a revelar as suas fontes de inspiração. Não sei se vejo mal nisso, para ser franco.
Bach, por exemplo, nunca disse de quem pifou esta música (ao contrário de Paul Simon, que confessou prontamente quando foi confrontado com isso):
http://www.youtube.com/watch?v=B4JYwbWwN Ss
Essa “coincidência” já fez parte desta série. Foi das primeiras, aliás. Pode ver aqui o que descobri sobre o assunto: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/16 71930.html (no post tem o link para a história completa, passada bastante tempo antes).
Resumindo, o que diz em relação a Paul Simon não invalida a tese do plágio. “Confessou prontamente quando foi confrontado com isso”? Pois, mas isso não é exactamente o mesmo do que atribuir os créditos a quem de direito, antes que alguém descubra, e não depois. E uma coisa são fontes de inspiração e outra, bem diferente, o decalque de uma melodia.
Mas console-se, como eu me consolei: o próprio Bach roubou a sequência melódica. E sim, sabemos a quem.
O David Fonseca também tem na 80’s uma parte “sacada” de uma musica de Strokes.. ;>
min 2.03
http://www.youtube.com/watch?v=lg7KCO_6F Gs
min 1.40 (mas está espalhado pela musica toda)
http://www.youtube.com/watch?v=yFWVuVcPP iw
o DS faz-me lembrar (muito, mas mesmo muito) um grupo californiano chamado “It’s a Beautiful Day”.
FD, estive a ouvir ambos com atenção. Neste caso a semelhança é tem mais que ver com uma batida (um ritmo, se quiser) do que com uma sequência melódica, por isso é mais difícil de detectar. E bem mais perdoável, acho eu.
Ainda vocês se espantam.
Nem sabem o que ‘corri’ para por aqui uma frase que sempre ouvi, como sendo de Stravinsky: “Lesser artists borrow, great artists steal.“; acontece que até dessa frase há plágios atribuídos – uns dando razão, e dizendo que pertence a Stravinsky, outros dizendo que foi Picasso, e ainda outros afirmando que foi T.S.Eliot.
Já agora, para no final de tudo isso vos deixar a verdade, foi T.S.Eliot.
“Immature poets imitate; mature poets steal…” e continua, explicando: “…bad poets deface what they take, and good poets make it into something better, or at least something different. The good poet welds his theft into a whole of feeling which is unique, utterly different from that from which it was torn; the bad poet throws it into something which has no cohesion.“
CeC, a melhor de todas é um cartaz que corre no facebook, em tom indignado e alertando para aforismos que não são da autoria de Luís de Camões. Assina… o próprio. 🙂
Já agora, eu conhecia essa frase “Lesser artists borrow, great artists steal” como sendo de Picasso. Sempre a aprender.
A propósito de Rui Veloso – de quem não sou grande apreciador, e semelhanças melódicas eu indico outro caso/ música : o “Anel de Rubi” ( não sei se é este o nome damúsica) de RV, e a música “trasher de Neil Young ( Rust never dies ).
Vasco, confesso que não encontro uma semelhança relevante. Mas o meu ouvido também falha, é evidente.
Não diria que o perfume foi roubado. Sabe que nestas coisas do “coração”, quando nos aproximamos demasiado, ficamos sem saber de quem é o perfume. Penso que passa a ser dos dois e não de um só. Todavia, que há plágio lá isso há!
Anónimo, se concorda que há plágio… o perfume tem dono e e só um. Para mim não há dúvidas, neste caso.
Usei o “comentário” e não o “responder a comentário” para lhe responder. Foi um lapso.
Só pretendi dizer que não há roubo.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pl%C3%A1gio
http://priberam.sapo.pt/dlpo/default.asp x?pal=pl%u00e1gio
Ok, fiquemos então com os eufemismos. “Violação de direito de autor” ou “cópia fraudulenta” parecem-lhe bem?
De qualquer forma, seguindo os links que me sugeriu aprendi a etimologia da palavra “plágio”. Parece que vem do latim “plagium”, que significa exactamente… roubo de escravos.
Exactamente, só se aplicava ao roubo de escravos.