Just for the record (2)


Ana Vidal,

 

Tal como o José Gomes André, também eu faço questão de manifestar o meu desacordo com o rumo que este governo está a tomar. A diferença é que eu teria ido à manifestação, só não o fiz porque não me foi mesmo possível. O que não significa que subscreva o lema “Que se lixe a troika”, que  me parece irresponsável e infeliz. Eu não quero que a troika se lixe, porque seria o mesmo que dizer que quero que a troika nos lixe. Mas, sendo certo que a alternativa ao cumprimento das imposições da troika seria ainda mais desastrosa para o nosso país, com duras consequências a curtíssimo prazo, a verdade é que há sempre alguma margem de negociação e este governo não está a utilizá-la. Esta atitude “mais papista que o papa” tem-se traduzido num esmagamento social intolerável e numa enorme cegueira a todos os indicadores de alarme. Cortar as pensões aos reformados não é retirar-lhes benesses porque os tempos estão maus, é recusar devolver-lhes o seu próprio dinheiro, que entregaram ao Estado confiando numa gestão capaz de assegurar-lhes uma terceira idade tranquila.

 

E também não quero que caia o governo. A última coisa de que precisamos neste momento é o caos que seria uma crise política, a somar a tudo o resto. Espero é que os responsáveis pelo destino das nossas vidas a curto prazo percebam que o significado de tantos milhares de pessoas nas ruas em protesto por todo o país não pode ser ignorado. Somos pacíficos, mas não estamos dispostos a aguentar tudo de cabeça baixa.

 

36 comentários em “Just for the record (2)”

  1. “Cortar as pensões aos reformados não é retirar-lhes benesses porque os tempos estão maus, é recusar devolver-lhes o seu próprio dinheiro, que entregaram ao Estado confiando numa gestão capaz de assegurar-lhes uma terceira idade tranquila.”

    Errado.
    O dinheiro que essas pessoas descontaram já foi gasto há muito… deu jeito fazer ofertas faceís para ganhar o poder no início do regime, agora chegou a hora da verdade começar a aparecer.
    Quiseram um sistema corrompedor em que as primeiras gerações nele se aproveitaram e as últimas que fechem a porta…
    O que se paga hoje depende do que os de hoje descontarem. E se não houver crianças hoje não haverá ninguém a trabalhar que pague no futuro.
    É um sistema que tem o próprio veneno da sua destruição.

    A propósito mais um rating para baixo no crédito dos EUA, claro que isto é uma agência que não faz parte das 3 boazinhas…
    http://www.foxbusiness.com/government/2012/09/14/fearing-qe3-egan-jones-downgrades-us-again/

    1. Errado porquê? Afinal está a concordar comigo em que houve má gestão (por razões ideológicas, estratégicas ou outras) do dinheiro que a geração agora reformada entregou ao Estado. E não pode ser essa geração a pagar a factura, porque não teve culpa nenhuma disso. Claro que não estou a falar de reformas douradas, mas sim da grande maioria de reformas actualmente recebidas.

      1. Ana:
        Concordo que não deve ser essa geração a pagá-la na totalidade, até por não ter grandes hipótese de poupar mais. Mas não concordo que não pague alguma coisa. Os erros foram tantos que garantir-lhe as pensões na totalidade (e também não estou a falar das douradas) tornaria a carga para as gerações seguintes absolutamente incomportável. O pessimista do Medina Carreira anda a alertar para isso há mais de uma década.

        1. Percebo o que dizes. Mas as novas gerações têm, pelo menos em princípio, saúde, energia e tempo pela frente para mudar o que está mal. Ou safarem-se de alguma outra forma, na pior das hipóteses. Os reformados de agora já não podem fazer nada disso e é tremendamente injusto que lhes seja negado um nível de vida mínimo (é o caso de muitos) depois de uma vida inteira de trabalho.

          1. Ana,
            Não poderia estar, mais de acordo.
            Depois de uma vida inteira de trabalho os reformados merecem muito mais do que estas medidas que me parecem absurdas e tremendamente injustas. Vejo o exemplo do meu pai, viveu toda uma vida para o trabalho, fui praticamente educada pela minha mãe, porque quase que posso dizer que sou filha de um pai ausente. E este ausente, implicava para ele dar uma vida digna à sua família. Não que eu concorde com tanto sacrifício. Mas respeito. Hoje e provavelmente terei um futuro melhor, nalguns sentidos, porque a ele o devo.

            Agora que se reformou, não pode desfrutar do esforço de toda uma vida. Não pode ter a qualidade de vida, que conquistou por mérito próprio, porque alguns dizem que tem que contribuir para as barbaridades cometidas por terceiros. Ora bolas! Para não dizer algo bem pior.

          2. Lamento pelo seu pai, Maria. É um de muitos casos parecidos, e é contra essa situação que me insurjo. Ora bolas é o mínimo que podemos dizer, tem razão.

          3. Ana, eu tambem sou reformado e portanto sou afectado pelo corte das pensões de reforma.
            Mas tenho a noção de uma coisa: se capitalizasse todos os descontos que fiz ao longo de 41 anos, teria realmente direito a pouco mais de metade do que recebo, e isso estende-se a todos os reformados, sendo que o caso é escandaloso, quando começamos a falar das tais reformas douradas, e das reformas dos politicos.
            Acresce a isto o seguinte: quem trabalha no sector privado, desconta 11% de seu salário e a entidade patronal 23,75% para a TSU, pelo menos até agora. Tenho grandes, enormes desconfianças, e estou a aguardar a respectiva confirmação com os papéis na mão, que no estado, os trabalhadores descontam os seus 11%, mas o a entidade patronal, ou seja, o próprio estado, não envia a sua parte para a CNP! e o buraco já será superior a 75000 milhões de euros.
            Se isto se confirmar, quer dizer que os privados andam a subsidiar as reformas dos funcionarios publicos.
            Em todo o caso não restam duvidas de que as gerações que se reformaram a partir do principio dos anos 90, andam alegremente a canibalizar as reformas e a sustentabilidade do estado social dos seus proprios filhos!
            A comentadora Maria Madeira preocupa-se com a reforma do Pai, e acho muito bem, mas deve preocupar-se mais com os filhos, se os tiver, porque esses é que vão ficar sem nada.

          4. O que diz é muitíssimo preocupante, Alexandre. O Estado tem provado continuamente ser o pior cumpridor de tudo o que impõe aos cidadãos e às empresas, mas isso é demais!
            Não vou perguntar-lhe quanto ganhava nem de quanto é a sua reforma, mas acredito que não seja um destes casos de que falo. Os reformados a que me refiro são os mais indefesos, os que tinham já salários baixos e agora vivem com pensões baixíssimas. Embora os cortes afectem todos (e temos de reconhecer que não há forma de evitá-lo, mesmo sendo injusto), nem todos sofrem as consequências com a mesma dureza.

          5. Caro Alexandre Carvalho da Silveira, você tinha estas dúvidas todas em 2012? é estranho que não lhe tivesse passado pela cabeça, que os reformados do estado, mesmo na reforma continuam a descontar para a CGA 11%. É do catano, ainda pensa que são os privados os prejudicados?

      2. Ana Vidal

        Se o dinheiro estivesse num banco e lhes fossem às poupanças, toda a gente achava que era uma roubalheira. Como estava na «segurança social», já não é uma roubalheira – são necessidades conjunturais. E também eu não estou a falar das reformas douradas.

        Aposentados e reformados depositaram na Segurança Social o que o Estado, através dos governos – gente inteligente -, estipularam.

        Depois do 25 de Abril, o que lhes foi dado escolher foi o VOTO. E ficaram tão dependentes das más escolhas e das aldrabices e vigarices quanto os outros cidadãos mais inteligentes.

        Não entendo por que razão aposentados e reformados deverão ficar sem condições minimas de vida (casa, alimentação e saúde) ANTES dos governos, deputados, emprendedores e outros infindáveis PROVAREM ser capazes de resolver problemas tão insignificantes quanto PPP, Institutos Públicos, Empresas , etc., etc., etc..

        Fazer sacrificios pelo país, é uma coisa. Contribuir para a boa seda das gravatas, é outra.

        Enquanto uns andarem de popó lustroso e outras migalhas não significativas que reformados e aposentados também pagaram – e continuam hoje a pagar em dor, angústia, humilhação e solidão -, ninguem tem o direito de exigir aos velhos que morram de fome à porta do hospital ou na rua.

        Não foi para isso que eles pagaram maternidades, escolas, hospitais, transportes que estão ao dispor dos, pelo visto, «novos inteligentes».

        Entrar no reino do «não é significativo», significa sempre «eu não sou significativo». E isso também se paga.

        Não se renda – custe o que custar – já agora!

        1. Mas onde é que lê nas minhas palavras uma rendição, Pilantra? Aquilo que penso é exactamente o que diz no seu comentário, como penso ter deixado bem explícito. E não tenciono nem preciso de render-me, até porque não devo obediência a ninguém nas minhas opiniões.

          1. Ana Vidal

            Por pensarmos de forma idêntica é que vim reforçar o seu comentário.
            Se me dirigi a si, foi por não ser da minha natureza implicar com os possíveis transeuntes de ocasião. Era a si que eu me dirigia e a ninguém mais.

            E não, não a acusei de rendição: apelei-lhe a que não se renda. Porque sei quanto é fácil , no emaranhado das palavras, subscrevermos parcialmente aquilo que não pretendiamos.

            O «custe o que custar» era um gozo com o Coelho e não qualquer provocação para si. Se a magoei, peço-lhe desculpa pelo despropósito, mesmo não sendo minha intenção.

          2. Não me magoou, Pilantra. Simplesmente interpretei mal o seu comentário, que me pareceu uma discordância e não um reforço. Culpa minha, não se preocupe.

      3. As suas expectativas é que estão muito altas porque as pessoas na época dourada do Estado Social iam para casa com reformas no valor do melhor ordenado.
        Muitas pessoas receberam 3x ou mais do que descontaram. Isto aumentou as expectativas.

        Era um sistema insustentável desde o âmago. Consequência natural do sistema político social-populista que temos em que a lógica é compra de votos com dinheiros dos outros e da dívida.
        Em que o que conta é sempre as necessidades do presente.
        Haveria de chegar o fim da linha e ela aí está.

        Se população do país diminui haverá cada vez menos dinheiro. Se a esperança de vida aumenta haverá cada vez menos dinheiro para cada ano. Simples matemática.

        Estamos numa tempestade perfeita em que várias vagas se estavam a formar há muito começam agora a chegar à praia onde estamos.

        Agora as pensões estão mais próximas do valor real de descontos, mas como há cada vez menos crianças não ficarão assim durante muito tempo, uma pirâmide etária invertida não o permite. É claro que os velhos podem obrigar os novos a pagar cada vez mais. É isso que já fazem há muito.

        1. Eu sei, Luck. As minhas expectativas são altas, mas os erros já foram feitos e aflige-me um mundo que não cuida dos seus velhos. Mais ainda, de pessoas que trabalharam uma vida inteira para que os filhos e netos tivessem uma vida melhor.

  2. Tem razão, o lema não é lá muito feliz.Mas a manif não foi organizada por profissionais, pois não? Deve ser por isso…Penso que as pessoas iriam a qualquer coisa que lhes parecesse vagamente “contra o governo”.Parece que este se esqueceu que ainda vivemos numa democracia, e é nosso dever relembrá-lo disso.Eu fui, e foi por esta razão.Acho que só agora, ao ler o seu post, me apercebi do titulo da manif.
    A propósito onde encontrou essa foto fantástica? já procurei e sem sucesso

    1. É esse o problema, vivermos em democracia sem limites ao poder da maioria. Assim a maioria democrática pode obrigar a minoria a pagar ou pedir dinheiro emprestado sem limites em nome também da minoria.
      Até ao momento em que deixa de haver minoria e a serpente começa a comer a própria cauda.

      1. É essa a essência da democracia, Luck, com todos os inconvenientes que ela possa ter. Limitar a democracia é negar essa essência, ou seja, anular-lhe o significado.
        Mesmo com esses inconvenientes, prefiro sempre uma democracia a uma ditadura.

        1. A Democracia não pode ser total, tem de ter limites ao que pode fazer.
          Por isso é que existe Republica e existem leis. É para limitar o poder da Democracia.
          Para não existir tirania da maioria.
          Mas a tirania da maioria continua existir na economia,
          ainda não demos o salto da Republica Política para Republica Económica onde haveria limites ao que os Governos podem fazer à economia das pessoas.
          A mal feita tentativa de limites de 3% ao défice e 60% à Dívida Publica acabou na sua violação sem apelo nem agravo, mesmo que assinada.

          E assim temos a tirania da maioria, que como se vai ver num futuro não muito longínquo nos levará à Argentina Peronista sem Peron..que é para onde está a caminhar boa parte da Europa.
          Talvez devamos agradeceremos a mediocridade institucionalizada do sistema de ensino publico por não termos ainda candidatos a líderes…

          1. Luck, não discuto macroeconomia pela simples razão de que não percebo o suficiente do assunto para isso. Percebo o que quer dizer, mas esses limites são difíceis de estabelecer. O grande mal da democracia é que foi concebida para seres perfeitos, íntegros e não concorrenciais, e é praticada por… humanos. Claro que falha, outra coisa não poderia acontecer.

      2. Ninguém disse que democracia era perfeita…!È só o menos mau que se arranjou até agora (de certeza que conhece a frase de W. Churchill, sobre a dita cuja). 🙂

    2. A imagem é do Facebook, Rosa. Procurei a origem para atribuir-lhe os créditos devidos, mas está de tal maneira disseminada que não consegui chegar lá.

      Sim, é perdoável que o lema seja desastrado. Não é o mais importante, mas acho que não dá a este protesto estrondoso a dignidade que deveria ter.

  3. Para o comentador “Joaquim”:

    Não sei qual foi a sua intenção ao transcrever para esta caixa de comentários um post inteiro do Arrastão, ainda por cima com um assunto que não é o do meu post. Quem quiser ler o Arrastão – ou qualquer outro blogue, já agora – pode fazê-lo na origem, se e quando quiser. Esta é a razão pela qual não publico o seu comentário.

  4. Sim, eu gosto de ver as folhas cair no Outono. Quanto ao governo, por não ser folha, também não o quero ver cair, mas tombar. Senhor Presidente, O senhor tem os mecanismos para constituir um governo de salvação nacional. Por favor, faça-o. Eu quero que o governo tombe, mas não a nação.
    Faça-o, porque já vimos que o CDS vai andar em campanha e o PSD será aquilo que já revelou ser, nada. Passos quer ir sempre mais longe, que faça o caminho pelo pé dele.

    1. Acho que pode esperar sentado por uma atitude de Cavaco Silva que não o comprometa pessoalmente. Pessoalmente, acho que neste caso, e só neste, ainda bem.

      1. Ana, ele já está mais que comprometido. Certamente já se deparou com aquela situação ingrata de não querer entrar em vielas mas haver sempre alguém que directa ou indirectamente nos conduz a tal sítio. Bem, quer Portas quer Passos agiram dessa forma. O Presidente não pode recuar: Nestas situações, entre a espada e a parede, tem de se escolher a espada. Eu estou sentado; e o Presidente, mais cedo ou mais tarde, vai ter de a empunhar. A ver vamos.

        1. A ver vamos, de facto. E não tardará muito. Cavaco só terá uma atitude de força se for mesmo obrigado a isso, e mesmo assim alguém vai ter de ajudá-lo a segurar a espada…

  5. Aquele ditado popular: casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão!
    Quase se poderia aplicar na sua totalidade à situação actual.
    (extensivo até aos comentários anteriormente feitos).
    Porém, não é certo que… ninguém tenha razão.
    Isto de generalizar considerações nunca é bom nem esclarece e/ou ajuda a perceber o sentido da “coisa”.
    Há situações que não podem ser comparadas sob pena de no mesmo saco serem metidas “vítimas e agressores”.
    A situação do Portugal actual é muito má? É!
    São necessárias medidas para reverter a situação? São!
    Mas não deveriam ser procuradas medidas que não sobrecarregassem os já carregados de medidas?
    Atrevo-me a dizer que os que provocaram e ganharam com a situação actual, em nada (significativamente) são afectados pelas restrições; acrescem casos (veja-se o BPN) em que são os impostos a tapar o buraco deixado pelos que encheram o bolso à conta da má gestão então feita.
    Não é justa a situação de milhões de portugueses, nem para os que cá continuam, nem para os que se obrigam a emigrar.
    Por tudo isto, mas não só, estive presente na manifestação de ontem. E voltarei a estar na próxima, se acontecer, com objectivos e comportamentos idênticos. Dispenso os arremessos seja do que forem.

    Cumprimentos.

    1. É isso mesmo. Os portugueses têm provado ser um povo capaz de fazer sacrifícios e entender a situação do país, mas eles têm de ser distribuídos com justiça. Enquanto algumas medidas de fundo – difíceis, é certo, mas é para isso que elegemos políticos que julgamos capazes de tomá-las – não se concretizarem, não podemos aceitar que todos os sacrifícios sejam à custa dos mesmos. Paciência tem limites.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *