“Fui eu quem o matou e nunca me descobriram. A ninguém passou pela cabeça que eu tivesse feito aquilo. Foi um crime limpo, perfeito, tão bem engendrado que ficou impune.
Já lá vão vinte anos e ainda hoje ninguém se atreveria a deitar-me as culpas, e muito menos pensar em meter-me na cadeia. Nunca ninguém poderá dar-me castigo e, como não acredito na outra vida, tão-pouco tenho medo do inferno.
Se hoje faço esta confissão, é porque me parece mais indecente continuar a viver com esta imagem que tenho, de boa pessoa, do que o próprio facto de o ter assassinado.
E tudo porque ninguém conseguiu descobrir que tipo de arma usei. Foi tão subtil, tão engenhosa, que parecia um morto de morte natural. Não deixei nem rasto: matei-o com a minha estupidez.”
(A arma homicida, um dos “Contos – Dúzia e Meia Deles”, da escritora asturiana Aurora Garcia Rivas. Tradução de Daniel Gouveia)
Ando fascinada com a escrita desta mulher prodigiosa, que conheci pessoalmente há dias em Gijón – onde estive a convite do Festival Arco Atlântico – e de quem fiquei amiga. Um dia destes falo aqui dela, da sua história surpreendente e dessa meia dúzia de dias mágicos nas Astúrias. Para já, fica este aperitivo.)

Genial!
Também acho, Fernando.
Procurei a Aurora na wikipedia, não encontrei (só uma poetisa colombiana com o mesmo nome).
O livro parece ser uma edição do próprio tradutor.
Pergunto, como posso obter mais informação, ou ver o livro?
O Daniel Gouveia é também editor, e foi ele que traduziu e editou esta versão bilingue de “Contos – uma dúzia deles”. A tradução foi a partir do galego-asturiano (ou asturiano ocidental, uma língua que está em extinção), mas a Aurora escreve habitualmente em castelhano. Pelo menos por agora penso que não encontrará os livros dela por cá. Embora já tenha ganho vários prémios (internacionais, inclusive) os livros ainda não estão traduzidos e distribuídos em Portugal, o que é uma pena porque ela é excepcional e muito versátil: escreve novelas, contos, poesia e literatura infantil.
Mas tem um blogue, vou pedir-lhe o link e ponho aqui.
Não percebo: o livro foi editado em português, mas não se encontra por cá?
Eu pergunto, se o livro se encontra editado, onde posso encontrá-lo para o folhear?
Qual é o interesse de a edição ser bilingue? Algum português estará interessado em aprender esse dialeto?
Esse dialeto tem a ver com o leonês ou, indiretamente, com o mirandês? Ou então com o riodonorês?
É uma história comprida, que não cabe contar numa caixa de comentários. Mas a edição, embora portuguesa, foi patrocinada por uma instituição asturiana relacionada com a linguística (a ideia é a de tentar salvar da extinção o galego-asturiano) e distribuída em Espanha e Portugal. Tudo isto se passou em 2008 e parece-me que a primeira edição está esgotada, mas vou tentar saber se ainda há livros e onde, já que se interessa tanto pelo assunto. Eu tenho um, oferecido pela autora, por isso vou pondo aqui mais alguns contos (são curtos) porque os acho muito bons.
Agora, se foi ás Astúrias e não bebeu/não gostou de sidra…mira que te mira Dios, mira que te está mirando…
Eu já conhecia sidra, Fanas, mas não acho a menor graça àquilo. Comecei por pedir vinho branco, mas fui tão bem recebida e com tanta simpatia que achei que tinha de fazer um esforço. Enfim, começaram a fazer-me sangria de sidra e digo-lhe que até já gosto, pelo menos dessa versão. 🙂
Bueno…perdonada…
Assim de repente pensei estar a ver o flashforward da confissão de Passos Coelho, sobre a forma com matou Portugal. A sério. A parte que me colocou no contexto, foi a consciência da desajustada imagem de boa pessoa. Teria que ser outra personagem.
Ah, Luís Rodrigues, por favor não misture as tricas da política nacional com boa literatura…
Ana, obrigada por a trazeres aqui. Gostei muito.
Hei-de trazer mais contos dela, são quase sempre curtinhos e fantásticos. 🙂
Gostei e invejo a viagem… saudades das Astúrias, da paisagem e da maravilhosa comida… tinha de ser!!! Quero mais contos… 🙂
Kiss Kiss e saudades
S., foi muita sidra, muita “habada” e muito peixe fresquíssimo. Uma delícia, mas agora estou de dieta rigorosa… 🙂 Beijos
Dieta rigorosa? É a dieta que é rigorosa ou tu? Tens de me ensinar como se faz… passei o verão a minis e bolas de berlim… 🙂
Hummm, assim não vais lá… loool
Bjs