Não há coincidências (19)


Ana Vidal,

Uma grande canção, mil vezes ouvida ao longo de uma vida, pode ser o pior inimigo de quem faz… canções. Não, não estou baralhada. É que um clássico, uma canção de que gostamos muito, vai muito mais longe do que ficar-nos só no ouvido. Como canta o Chico na sua “Terezinha” (uma canção maravilhosa, a propósito), a melodia “instala-se feito posseiro” nos interstícios do nosso património musical e emocional, colando-se-nos irremediavelmente à pele e tornando-se nossa para sempre. Essa invasão amiga do inconsciente pela música é um fenómeno comum, e não é por acaso que determinadas sequências musicais nos evocam de imediato lembranças (boas ou más, mas sempre ligadas às emoções) a que estão associadas.

 

Para quê toda esta introdução? Para vos lembrar de que, se isso acontece a todos nós, mais facilmente acontece a quem faz da música a sua vida. Por excesso de exposição e interesse permanente, a mente não reconhece o déjà vu (déjà entendu, no caso) e “acredita” estar a criar uma nova sequência musical, quando, afinal, está apenas a reproduzir uma que tem gravada na memória. Esta é a explicação mais lógica para os muitos casos de plágio inconsciente, alguns deles já relatados nesta série, que atingiram compositores da craveira de Paul Simon, George Harrison, Mark Knopfler, Sting, John Lennon, etc, para já não falar nos compositores da chamada música erudita. Claro que não é por falta de criatividade própria que todos eles caem no logro da “cópia”, mas, quase sempre, devido à traição dos sentidos.

 

O caso que vos trago hoje é nacional, e por isso mais delicado: envolve músicos que conheço bem e respeito, que já nos deram inúmeras canções dessas que forram o património musical que gostamos de preservar. Falo de João Gil (Luís Represas é apenas intérprete nesta canção, segundo a informação da editora). Falo ainda de João Monge, um grande letrista português, porque também na letra há uma coincidência espantosa. A canção em causa é recentíssima – faz parte do último álbum de originais que Gil e Represas gravaram em Novembro de 2011 – e chama-se Quando eu voltar a nascer. Pois é, o título parece premonitório. Logo que a ouvi pela primeira vez, a melodia dos couplets soou-me a alguma coisa conhecida, de tal maneira que foi fácil trauteá-la e adivinhar-lhe os acordes sem nunca a ter ouvido antes. Não tardei a identificar a semelhança: havia uma terceira voz por detrás das vozes do João e do Luís, e essa voz era a do Caetano Veloso. Cantava, só para mim e em uníssono com eles, o seu terno e eterno Leãozinho. E o leãozinho voltou a nascer nesta canção.

 

 

 

Aqui estão os dois videos para o vosso próprio julgamento, porque às vezes penso que estou a ficar “apanhada” por este meu ouvido implacável. Acrescento uma curiosidade: reparem em como a palavra “entristecer” (na letra de João Monge) cai praticamente no acorde que corresponde, na letra brasileira, à palavra “desentristecer”. Que las hay, las hay.

16 comentários em “Não há coincidências (19)”

  1. Muito curioso. Gosto muito de “gosto muito de você” e de “gosto de te ver ao sol” e etc. E não consigo achar piada à canção de João Gil & Co. E sim, que há semelhanças, ah pois hay.

  2. Achei muito a música portuguesa demasiado sem graça (como diriam os brasileiros). Até porque acho que tudo o que seja cantado pelo Represas soa-me foleiro.

    Desafio-vos a linkar do youtube músicas realmente bons Represas e João Gil.

    1. Não estamos de acordo, por isso esse exercício de enumerar uma lista de músicas seria inútil. Se há coisa que seja subjectiva é o gosto musical.

  3. Ora aqui tens o meu aplauso, Ana: gostei muito que tivesses retomado esta tua série tão original sobre plágios, reais ou virtuais. De acordo contigo: a dupla Monge-Gil tem assinado algumas das melhores canções portuguesas das últimas duas décadas. Ocorre com frequência o chamado ‘plágio inconsciente’, que segundo dizia o Picasso é a melhor forma de homenagear alguém. Mas neste caso parece-me haver apenas uma vaga similitude entre os dois temas. Embora admita sem dificuldade que o teu ouvido é melhor do que o meu.

  4. Ainda com músicos consagrados: ouçam Stuck on you de Lionel Richie (1984) e Wonderful tonight de Eric Clapton (1977). E depois digam se o ouvido vos diz algo…

    1. Já passou por esta série Eric Clapton, também na qualidade de “plagiado”. E por outro grande músico: Mark Knopffler. Vou ouvir atentamente a sua sugestão, que até agora me escapou. Se me convencer, por aqui passará também. Obrigada.

      1. Já fui ouvir e convenceu-me plenamente, Ouvinte Atento. Tem toda a razão, há uma sequência de acordes exactamente igual. Continue “atento”, a sua sugestão há-de dar um post desta série.
        Obrigada mais uma vez.

    1. Caramba, é flagrante mesmo! Não conhecia esta música da Alanis Morissette.
      Obrigada pela dica, dará um post também. Só não posso citar a fonte porque não sei o seu nome…

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