Há dois erros que procuro não fazer, embora nem sempre com os melhores resultados, sobretudo no que toca ao primeiro: cair em generalizações perigosas e dividir o mundo em dois blocos, a direita e a esquerda. Nada é assim tão taxativo, há muito que aprendi essa regra básica. Mais: faço questão de aplicá-la a mim própria (correndo o risco de ser considerada incoerente, coisa que não me incomoda nada) e diverto-me a fintar os infalíveis vedores do pensamento político alheio. Mas – e é aqui que começam as generalizações – tenho de admitir que há tiques que facilmente identificam cada uma das barricadas nas suas versões mais radicais: à direita, uma espécie de desprezo blasé por tudo o que pareça ter sido conquistado com esforço; à esquerda, o apego arrogante ao estafado baluarte da superioridade intelectual.
Tive hoje mais uma demonstração deste último, que me deixou a pensar em como a esquerda continua a considerar-se dona e senhora da cultura neste país. Não é que eu não reconheça alguma legitimidade histórica nessa pretensão, afinal a direita sempre teve a seu desfavor uma tradicional preguiça e as limitações impostas pela religião. Mas aquilo de que a esquerda parece não dar-se conta, ao refugiar-se no seu inatingível Olimpo cultural, numa atitude que tem tanto de elitista como de preconceituosa, é da negação liminar de um dos seus mais caros cavalos de batalha programáticos: a democratização da cultura.


Fesquinha e elegante só a nossa Crista Agricola…
Não sei se é da dieta à base de hortaliças ou da boa pinga que prova ( certamente leva um garrafita para casa) por essas feiras fora…
Por falar em feiras… o nosso Paulinho, não perdeu a elegancia e juventude… Os ares da estranja fazem bem!
De facto o resto , precisa mesmo de negociar com a TroikabatoKe! Principalmente o Gasparinho!
saudações boa disposiçao e bom trabralho.
??
Cara Ana Vidal,
As suas primeiras palavras fizeram-me sorrir. O erro que tanto procura evitar, é aquele do qual também tento fugir, mas, infelizmente para nós, tem um senão.
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Eis o que escrevi acerca disto, no post “Pensar País”, do Antologia de Ideias:
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“Mas que tem a ver os glúteos com os fundilhos? Tem a ver, a meu ver, porque, infelizmente, a honestidade, ponderação e maturidade de discurso, não são formas eficazes de retórica mediática. Não se ouvem no ruído que esta produz. Daí que, quem quer fazer-se ouvir, na defesa de grandes causas ou dos seus próprios interesses, cedo descobre que nada funciona melhor que certezas, extremos e estereótipos (com toda a certeza!). Não é por acaso. Ninguém atenta ou segue alguém com dúvidas. “Antes uma decisão errada, que decisão nenhuma”, diz esse lugar comum da gestão. Extremos são mais fáceis de transmitir. Percebemos bem o preto e o branco; já cinzentos, há muitos. Por fim, estamos geneticamente programados para estereotipar. Durante milhões de anos de evolução, essa foi uma forma fundamental de sobrevivência (na dúvida, todos os cogumelos são venenosos).”
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(post completo aqui: http://antologiadeideias.wordpress.com/)
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Bem haja e não pare! 🙂
O Autor
Antologia de Ideias
Caro Autor, eu bem sei que as dúvidas são mais incómodas do que as certezas. Só posso concordar consigo quando diz que “infelizmente, a honestidade, ponderação e maturidade de discurso, não são formas eficazes de retórica mediática. Não se ouvem no ruído que esta produz.” Mas a vida é mais do que a retórica mediática e, se excluirmos a gestão (em que a máxima citada faz todo o sentido), prefiro sempre gente com dúvidas e que não vê o mundo a preto e branco. Extremos e certezas são a matéria de que é feito o fundamentalismo.
Obrigada pelo seu comentário.
Cara Ana,
Estamos de acordo. Desconfio de quem tenha muitas certezas. Infelizmente somos bombardeados com estas todos os dias. Mas isso tem uma razão de ser. A moderação não capta atenções das massas. É esse o sentido que esse trecho que fez referência adquire no contexto onde foi escrito.
Ficarei atento a futuros posts. 🙂
O Autor
Antologia de Ideias
PS: Caso entenda que existe compatibilidade entre os nossos blogs, vejo com bons olhos que nos mencionemos mutuamente nos nossos “blog rolls” (página “Um Mundo de Ideias”, no meu caso). 🙂
Combinado. Vou acrescentar o seu blogue à nossa barra lateral. 🙂
Caríssima Ana,
Aqui fica a retribuição: m-mundo-de-ideias/
http://antologiadeideias.wordpress.com/u
🙂
Continuem!
O Autor
Antologia de Ideias
Desculpe-me a intromissão, mas lembrei-me do que disse o Marquês de Maricá:
“Os homens preferem geralmente o engano, que os tranquiliza, à incerteza, que os incomoda”.
Saudações.
Ana
Percebi muito pouco do segundo páragrafo, contráriamente ao primeiro que tudo percebi.
Tal como a gorada tentativa de definir o belo ensaiada por Sócrates* e Hípias em Hípias Maior, a democratização da cultura é, se me permites a ousadia, algo de impossível e até contraditório em si mesmo.
Já o mesmo não direi da indústria subjacente à cultura, aí sim, a noção de democracia faz todo o sentido neste quadrante do planeta em que nos movemos.
Como vês escapou-me algo neste teu post, mas, como para aqui chegar tive que passar por vários outros post em que comentei (feito estúpido), não quis deixar de contribuír para o tema que abordaste.
*
Não confundir com o tal gajinho que continuam a insistir ser o culpado de tudo 🙂
João, ao contrário do que dizes acho que percebeste muito bem o que eu queria dizer. A não ser o caso concreto que me levou a esta reflexão, mas isso é natural porque eu não o identifico aqui. A democratização da cultura – e com isso quero dizer, é claro, um acesso mais alargado à cultura ou à indústria da cultura, se preferires – sempre foi um dos bastiões da esquerda. Acontece que, na prática, a esquerda é muito mais elitista nessa matéria, e gosta pouco de misturar-se com o “povo”.
Quanto ao Sócrates, impossível e até contraditório é falar dele na mesma frase em que se fala de cultura… 🙂
PS: Estúpido, tu?? Está bem, abelha.