Generalizando


Ana Vidal,

 

Há dois erros que procuro não fazer, embora nem sempre com os melhores resultados, sobretudo no que toca ao primeiro: cair em generalizações perigosas e dividir o mundo em dois blocos, a direita e a esquerda. Nada é assim tão taxativo, há muito que aprendi essa regra básica. Mais: faço questão de aplicá-la a mim própria (correndo o risco de ser considerada incoerente, coisa que não me incomoda nada) e diverto-me a fintar os infalíveis vedores do pensamento político alheio. Mas – e é aqui que começam as generalizações – tenho de admitir que há tiques que facilmente identificam cada uma das barricadas nas suas versões mais radicais: à direita, uma espécie de desprezo blasé por tudo o que pareça ter sido conquistado com esforço; à esquerda, o apego arrogante ao estafado baluarte da superioridade intelectual.

 

Tive hoje mais uma demonstração deste último, que me deixou a pensar em como a esquerda continua a considerar-se dona e senhora da cultura neste país. Não é que eu não reconheça alguma legitimidade histórica nessa pretensão, afinal a direita sempre teve a seu desfavor uma tradicional preguiça e as limitações impostas pela religião. Mas aquilo de que a esquerda parece não dar-se conta, ao refugiar-se no seu inatingível Olimpo cultural, numa atitude que tem tanto de elitista como de preconceituosa, é da negação liminar de um dos seus mais caros cavalos de batalha programáticos: a democratização da cultura.

10 comentários em “Generalizando”

  1. Fesquinha e elegante só a nossa Crista Agricola…
    Não sei se é da dieta à base de hortaliças ou da boa pinga que prova ( certamente leva um garrafita para casa) por essas feiras fora…

    Por falar em feiras… o nosso Paulinho, não perdeu a elegancia e juventude… Os ares da estranja fazem bem!
    De facto o resto , precisa mesmo de negociar com a TroikabatoKe! Principalmente o Gasparinho!

    saudações boa disposiçao e bom trabralho.

  2. Cara Ana Vidal,

    As suas primeiras palavras fizeram-me sorrir. O erro que tanto procura evitar, é aquele do qual também tento fugir, mas, infelizmente para nós, tem um senão.
    …
    Eis o que escrevi acerca disto, no post “Pensar País”, do Antologia de Ideias:
    …
    “Mas que tem a ver os glúteos com os fundilhos? Tem a ver, a meu ver, porque, infelizmente, a honestidade, ponderação e maturidade de discurso, não são formas eficazes de retórica mediática. Não se ouvem no ruído que esta produz. Daí que, quem quer fazer-se ouvir, na defesa de grandes causas ou dos seus próprios interesses, cedo descobre que nada funciona melhor que certezas, extremos e estereótipos (com toda a certeza!). Não é por acaso. Ninguém atenta ou segue alguém com dúvidas. “Antes uma decisão errada, que decisão nenhuma”, diz esse lugar comum da gestão. Extremos são mais fáceis de transmitir. Percebemos bem o preto e o branco; já cinzentos, há muitos. Por fim, estamos geneticamente programados para estereotipar. Durante milhões de anos de evolução, essa foi uma forma fundamental de sobrevivência (na dúvida, todos os cogumelos são venenosos).”
    …
    (post completo aqui: http://antologiadeideias.wordpress.com/)
    …
    Bem haja e não pare! 🙂
    O Autor
    Antologia de Ideias

    1. Caro Autor, eu bem sei que as dúvidas são mais incómodas do que as certezas. Só posso concordar consigo quando diz que “infelizmente, a honestidade, ponderação e maturidade de discurso, não são formas eficazes de retórica mediática. Não se ouvem no ruído que esta produz.” Mas a vida é mais do que a retórica mediática e, se excluirmos a gestão (em que a máxima citada faz todo o sentido), prefiro sempre gente com dúvidas e que não vê o mundo a preto e branco. Extremos e certezas são a matéria de que é feito o fundamentalismo.

      Obrigada pelo seu comentário.

      1. Cara Ana,

        Estamos de acordo. Desconfio de quem tenha muitas certezas. Infelizmente somos bombardeados com estas todos os dias. Mas isso tem uma razão de ser. A moderação não capta atenções das massas. É esse o sentido que esse trecho que fez referência adquire no contexto onde foi escrito.

        Ficarei atento a futuros posts. 🙂

        O Autor
        Antologia de Ideias
        PS: Caso entenda que existe compatibilidade entre os nossos blogs, vejo com bons olhos que nos mencionemos mutuamente nos nossos “blog rolls” (página “Um Mundo de Ideias”, no meu caso). 🙂

      2. Desculpe-me a intromissão, mas lembrei-me do que disse o Marquês de Maricá:
        “Os homens preferem geralmente o engano, que os tranquiliza, à incerteza, que os incomoda”.
        Saudações.

  3. Ana

    Percebi muito pouco do segundo páragrafo, contráriamente ao primeiro que tudo percebi.

    Tal como a gorada tentativa de definir o belo ensaiada por Sócrates* e Hípias em Hípias Maior, a democratização da cultura é, se me permites a ousadia, algo de impossível e até contraditório em si mesmo.
    Já o mesmo não direi da indústria subjacente à cultura, aí sim, a noção de democracia faz todo o sentido neste quadrante do planeta em que nos movemos.

    Como vês escapou-me algo neste teu post, mas, como para aqui chegar tive que passar por vários outros post em que comentei (feito estúpido), não quis deixar de contribuír para o tema que abordaste.

    *
    Não confundir com o tal gajinho que continuam a insistir ser o culpado de tudo 🙂

    1. João, ao contrário do que dizes acho que percebeste muito bem o que eu queria dizer. A não ser o caso concreto que me levou a esta reflexão, mas isso é natural porque eu não o identifico aqui. A democratização da cultura – e com isso quero dizer, é claro, um acesso mais alargado à cultura ou à indústria da cultura, se preferires – sempre foi um dos bastiões da esquerda. Acontece que, na prática, a esquerda é muito mais elitista nessa matéria, e gosta pouco de misturar-se com o “povo”.

      Quanto ao Sócrates, impossível e até contraditório é falar dele na mesma frase em que se fala de cultura… 🙂

      PS: Estúpido, tu?? Está bem, abelha.

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