Um jardim que ninguém quer


Ana Vidal,

 

Durante trinta e quatro anos detentor do pouco edificante título de “maior lixeira a céu aberto da América”, o Jardim do Gramacho vai finalmente ser encerrado. E fá-lo mesmo a tempo de não envergonhar os brasileiros no Rio+20, a conferência internacional sobre o ambiente que este ano se realiza no Rio de Janeiro – exactamente a cidade onde se situa este mal amado “jardim” – marcada já para o próximo dia 20 de Junho.

 

Mas até numa lixeira pode nascer a arte. Este estranho e especialíssimo cosmos, policiado apenas por temíveis urubus, onde uma população residente de “catadores” e suas famílias disputa diariamente o seu tóxico habitat com todo o género de indesejável bicharada, foi o cenário inspirador para várias obras do artista plástico Vik Muniz*, a que ele chamou “Lixo Extraordinário”. Usando os residentes do Gramacho como modelos no seu cenário natural, Vik fotografou monumentais composições que depois expôs em vários países (em Lisboa a exposição esteve por vários meses no CCB). O originalíssimo trabalho, que alia a arte à consciência social através da denúncia de uma situação pungente, despertou enorme curiosidade e foi muito premiado. Dessa obra ficou, como registo, um documentário que vale a pena ver. Aqui fica o trailer, mas todo o documentário pode ser visto na net.

 

* Vik Muniz é conhecido por usar nas suas obras materiais pouco utilizados habitualmente nas artes plásticas: alimentos (compotas, café, chocolate), material reciclado, desperdício de papel, brinquedos, peças informáticas obsoletas, etc. Com tudo isto compõe figuras de grandes dimensões, que depois fotografa para deixar delas um registo para a posteridade. As obras, essas, são naturalmente efémeras.

3 comentários em “Um jardim que ninguém quer”

    1. Tive a sorte de ter por guia na exposição o próprio Vik Muniz. O trabalho dele é mesmo extraordinário, e o documentário está muito bem feito. Chegou a estar nos cinemas do circuito comercial aqui em Portugal, mas acho que pouca gente deu por ele.

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