contos ínfimos (18)


Ana Vidal,

SÍSIFO

Depois da notícia arrasadora, o homem obrigou-se a subir, sem uma única paragem, os dezanove lanços da escada de serviço. Foi aumentando o ritmo da escalada até ficar sem fôlego. Precisava de se aturdir, de dar ao coração uma outra razão para bater como uma bomba em contagem decrescente. Mas não bastou. Chegou ao topo com vontade de recomeçar tudo, uma e outra vez. Espreitou o elevador. Desceria nele e retomaria a penosa marcha da subida tantas vezes quantas fossem precisas para que o cansaço vencesse a angústia que o esmagava. Havia de conseguir ter paz. O elevador estava no rés-do-chão, podia ver-lhe o tecto sujo no fundo do fosso imenso, escuro. Hesitou um segundo, não mais. Não premiu o botão. E foi por ali mesmo que desceu, afinal.

14 comentários em “contos ínfimos (18)”

  1. Dezanove lanços de escada são cerca de 60 metros.
    O farol da Barra, em Aveiro, o mais alto de Portugal, tem 62 metros de altura. Pode-se subir (aceita visitas turísticas, alguns dias por mês) por uma escada, contínua (sem lanços). Não tem elevador.

    1. Para o homem do meu conto já não vai a tempo a informação, mas fica para um próximo angustiado com tentações suicidas…

      (obrigada pela emenda, já corrigi no texto)

    1. Com uma queda daquelas, o desgraçado furou o tecto do elevador e a pobre faleceu também…oh tragédia…

  2. A PJ prendeu o marido da vizinha do lado… que , naquela hora fatidica, estava junto ao elevador… Vá lá saber-se por quê….

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