A Fnac enviou-me um bonito cartão plastificado. Chama-se «cartão Fnac Rock in Rio Lisboa 2012» e garante-me o extraordinário desconto de 5% na aquisição de um bilhete para o referido evento. Promoções em que o nível de pompa está vários graus de grandeza acima do de generosidade deixam-me sempre a pensar se conseguirão gerar receitas suficientes para compensar os custos. Visto continuar a recebê-las, presumo que sim. Esta teve pelo menos o efeito positivo de me levar a olhar para o cartaz do Rock in Rio deste ano (vem na carta) e a comprovar uma ideia já antiga: o Rock in Rio é um festival para ouvintes da RFM e da Comercial; para gente que gosta de dizer ainda apreciar música rock (o termo é importante, numa época em que o rock está mais ou menos morto) ao ponto de até continuar a ir a concertos mas que, na realidade, se encontra entalada na porta de passagem da década de oitenta para a de noventa do século passado. Repare-se: Metallica, The Offspring, Lenny Kravitz, Ivete Sangalo, Stevie Wonder, Bryan Adams, Bruce Springsteen, Xutos & Pontapés, James. Não estou a dizer que toda esta gente é má. Inclui até pessoas que muito prezo. Por exemplo: gosto tanto de Bruce Springsteen que o fui ver a Valladolid em 2009; por alturas de And Justice For All e do Black Album chateei tanto colegas de universidade com gostos a tender para o Phil Collins fazendo-os ouvir Metallica que dois pediram transferência para direito (mentira, já lá andavam e era por isso que eu achava justo chateá-los); tornei-me fã dos Smashing Pumpkins aquando de Gish, o primeiro álbum deles, numa época em que raros eram os que desviavam olhos e ouvidos dos Nirvana e dos Pearl Jam (convenhamos, todavia, que, por muito que o Billy Corgan seja quase tão bom quanto ele pensa ser, os Smashing Pumpkins sem James Iha, D’Arcy Wretzky – desculpa, Melissa – e Jimmy Chamberlin não são os Smashing Pumpkins); e também ainda me lembro de um fantástico concerto que os James deram no Coliseu do Porto há cerca de dez anos. É a acumulação que impressiona. Não seria possível misturar este pessoal (ou parte dele, porque de outra parte nem vale a pena falar) com gente mais recente? Eu sei que a última década não foi pródiga no nascimento de grandes bandas capazes de agradar ao público em geral (coisa linda, o público em geral). Culpa da internet e do carácter cada vez mais efémero da fama, certamente. Mas ainda se arranjam algumas. Imagino que após grande esforço mental, os organizadores do Rock in Rio até conseguiram lembrar-se dos Kaiser Chiefs, colocados a abrir o palco «Mundo» na única noite que poderia levar-me a gastar dinheiro neste mastodonte para quarentões (a faixa etária em que o bilhete de identidade me coloca, note-se). Mas ficaram por aí. Melhor ainda: em vez de misturar, porque não organizar uma noite (uminha só) com música mais recente e alternativa? Não, desculpem, esqueçam. Era capaz de gerar confusões com um festival a sério, como o Super Bock Super Rock – esse sim, quase me convence a fazer trezentos e tal quilómetros para ficar a cinquenta metros de um palco respirando pó, fumo de haxixe e transpiração (ora comparem). Provavelmente é mais seguro assumir uma linha e mantê-la. Permitam-me, então, que dê umas sugestões à Roberta Medina para a edição de 2014: miúda, tenta conseguir os Beatles (sshhh – vocês acham que ela sabe que os Beatles se separaram?), junta o Roberto Carlos e o Júlio Iglésias numa noite gloriosa e, quanto ao recinto, instala cadeirinhas e duplica o número de casas de banho, que a idade não perdoa.
O festival geriátrico
escafandro,
A carta da Fnac. Por favor, não liguem à Kate Moss nua, lá atrás. Nem ela consegue tornar o evento mais excitante. Clicando na imagem verão melhor o cartaz do festival. E o sinal da Kate Moss.


Quando à dias estive no balcão da FNAC-Colombo a adquirir bilhetes para o “Espirito da dança” para o coliseu do Porto, a menina que me atendeu, olhou-me de olhos postos no além e perguntou-me, pensamento posto talvez num bisavô se eu já tinha 65 anos…
-Esta gaja tá pitosga, pensei, ou então, estou com pior aspecto do que penso.
Respondi-lhe que ainda não. Olhou de novo para o monitor e esclareceu-me, que se tivesse 65 anos, teria direito a um desconto. Então, com uma ponta de malícia returqui-lhe: nesse caso, se acreditar na minha palavra, torno-me imediatamente num sexagenário, ou num septagenário, ou até mesmo num octogenário, depende na percentagem do desconto…
Não ligou à minha resposta, ou então para se vingar do meu atrevimento, colocou-me nova pergunta: e não quer fazer um seguro de bilhete?
-Um seguro? Mas que tipo de seguro? Contra terceiros, de riscos prórios, de incêndio, contra fenómenos cismicos, raios ou explusões?
-Não, para o caso de à última hora não poder assistir ao espectáculo!
-Ah… nesse caso, como suponho que os bilhetes irão esgotar, coloco um anúncio na net e ainda os vendo, mais caros do que comprei. É a isto que se chama um sistema de economia capitalista…
-Então não quer fazer o seguro? Olhe que vale a pena, são só mais um euro e cinquenta por bilhete…
– Não brinque comigo, menina. Então ainda à pouco me queria oferecer um desconto de idade e agora está a querer encarecer-me o bilhete?! Afinal qual é o seu negócio; é vender bilhetes ou seguros?
Fechou a expressão facial, estendeu-me os bilhetes, olhou para o lado e relutante, anunciou: o próximo…
Eles tentam sempre vender esses seguros. Ainda assim, deve haver muita gente a usá-los porque o preço aumentou recentemente de €1 para €1,5. Mas também: o que são 50% nos tempos que correm?
E, para os miúdos de vinte, qualquer pessoa com mais de trinta e cinco, quarenta tem ar de avozinho. Ainda que esteja tão bem conservado como você certamente estará, Bartolomeu…
Sim, sim, sinto-me belíssimamente nos meus 95 anos.
Decerto que o problema reside nas dioptrias da empregada da FNAC…
;)))))
Estou ” de rodillas y en cruz ” !! Só um Homem do Norte como o jaa é que podia demonstrar esta magnanimidadde:
“…Permitam-me, então, que dê umas sugestões à Roberta Medina para a edição de 2014: miúda, tenta conseguir os Beatles (sshhh – vocês acham que ela sabe que os Beatles se separaram?), junta o Roberto Carlos e o Júlio Iglésias numa noite gloriosa e, quanto ao recinto, instala cadeirinhas e duplica o número de casas de banho, que a idade não perdoa. …”
Obrigado meu bom Amigo !! alguém que se lembra dos nascidos nas longínquas trevas que antecederam a década de 60…
E quanto à Catarina Musgo, espero que nesse festival de 2014 para diante ponham assim a modos que os sinais da Catherine Bach,Sybill Sheperd,Katleen Turner and so on …
O jaa ( além das belíssimas fotos da Invicta, que me fazem chorar de saudades…) a Presidente !! Grande abraço !!
Não sei porquê, cheira-me a ironia… Que se lixe, vou tomar a coisa pelo valor facial: muitíssimo obrigado, fernando.
P.S.:
1. Não me lembre a Kathleen Turner, que é demasiado doloroso pensar no que era e no que está;
2. Pronto, lá me vai fazer rever o The Last Picture Show (acontece sempre que alguém menciona a Cybill);
3. Eu via Os Três Dukes por causa do carro.
Um abraço.
Mas qual ironia !! nenhuma, a sério. E eu também via o Abismo, com o Nolte e a Bisset, para ver se conseguia ver a marca das garrafas de mergulho, nunca para ver a t-shirt molhada da Bisset…
Já desde a primeira edição (a que fui) que tenho mais ou menos essa impressão.
Na altura cheguei à conclusão de que as bandas contratadas se dividiam em três categorias:
1) bandas internacionais já em decadência ou semi-decadência, cujo cachê, embora alto, já era mais comportável, e que atraíam um mundo de gente, num país normalmente prejudicado pela sua distância do centro da Europa.
2) bandas portuguesas, cujo cachê era extremamente baixo mas que, sendo nacionais, atraíam muita gente em proporção do seu cache.
3) bandas internacionais em ascensão, mas ainda não no seu auge, com um cachê ainda em conta e que já atraíam um público considerável.
Era uma estratégia notável, reconheçamos, evitando os tubarões mas puxando cirurgicamente três outras cordas que, associadas ao forte marketing do festival, asseguravam a venda da ideia de um grande festival.
Agora apercebo-me de que a terceira categoria virtualmente desapareceu. Temos, pois, bandas nacionais e um sobreinvestimento em bandas internacionais decadentes. Se calhar dá resultado…!
É capaz de dar, sei lá. Para ser franco, o que me incomoda mais é a exposição mediática desta coisa, em comparação com outros festivais também realizados na zona de Lisboa e dispondo de cartazes muito mais equilibrados, como o Optimus Alive (http://www.optimusalive.com/musica/lin eup) e o Super Bock Super Rock (que mencionei no post).
Se a Roberta Medina ler esta sua idéia e resolver segui-la acrescentando mais alguns cantores e bandas da geração do R Carlos e J Iglésias, eu era “menina” para fazer uma chantagem sentimental até que o meu filho concordasse em levar-me ao Festival Geriátrico.
Acho muito bem, Maria. Mas – desculpe lá, não resisto – tadinho do seu fillho… 🙂
O Super Bock Super Rock? Não está mau, tem alguns nomes muito interessantes, mas comparado com o ano passado está muito fraqinho… e acredita: aquele pó é uma chatice. Após tantos anos a organizar o Sudoeste, a Música no Coração devia ter aprendido alguma coisa sobre pó. Enfim, fui aos três dias do ano passado, gostei muito dos concertos, mas dificilmente repetiria. Só há para aí duas ou três bandas que me fariam voltar ao Meco – uma delas, curiosamente, virá este ano ao Alive (Radiohead). As outras duas seriam os Okkervil River e os Yeah Yeah Yeahs. Talvez os Arcade Fire (novamente).
Ao Rock in Rio fui há quatro anos ver Muse. É provavelmente o festival (dos que conheço) com melhor recinto e melhor espaço para concertos. Pena que os ditos não sejam nada por aí além (apesar de ainda gostar de Smashing Pumpkins, sobretudo depois de os ter visto em Dezembro, e de ter Offspring e Linkin Park como as grandes bandas dos meus anos adolescentes) e que a cerveja seja tão cara.