Representar


Ana Vidal,

Esta foi uma semana de emoções fortes para quem, como eu, vibra com uma boa representação no Teatro ou no Cinema. Três mulheres de personalidade forte, três excelentes actrizes, três difíceis papéis. Tudo isto me foi dado saborear em poucos dias e me encheu a alma.

 

 

Sobre Meryl Streep e a sua inesquecível Margaret Thatcher, já quase tudo foi dito. Não tenho muito a acrescentar, a não ser a minha eterna reverência perante aquele grau de perfeição na arte de representar. Ou melhor, aquilo já não é representar. Aquilo é desabitar-se até ao âmago, mudar de pele como se fosse uma coisa natural, diluir-se num outro ser até que ele se torne vida e sangue e respiração e essência. Há outros actores tão bons como ela? Talvez alguns, os dedos de uma mão. Mas não creio que haja um único que a ultrapasse.

 

 

Seguiu-se a prata da casa: Maria do Céu Guerra. Prata, não: ouro. Ouro puro em cima de um palco, sem artifícios nem qualquer distracção que nos faça tirar os olhos e os ouvidos dela, abismados pela força daquela mulher. Um monólogo à medida de uma grande actriz: a rainha D. Maria I e a sua loucura delirante, instável, confinada à exiguidade de um barco, numa viagem feita de tormentas de toda a ordem a caminho da sepultura em solo desconhecido. Um belo texto do brasileiro Antônio Cunha, desfiando dois reinados e uma das épocas mais atribuladas da nossa História. Fixei uma frase, das muitas que a rainha louca nos serviu: “A loucura não é uma porta que se fecha, são muitas janelas que se abrem. O pior é que se abrem todas ao mesmo tempo”. Enfim, uma peça que se pode ver ainda n’A Barraca, mas já só às quartas-feiras. Vale a pena.

 

 

Por fim, atraída pela memória de Mathilde em “La femme d’à côté” (quem poderá esquecer a magnífica Fanny Ardant nesse papel?) corri a vê-la e a ouvi-la ao vivo na pele de Joana d’Arc, numa passagem fugaz – só dois espectáculos, ontem e hoje – pela Gulbenkian. Continua elegante e sensual, com uma capacidade de interpretação invulgar, bem expressa nesta Oratória de Arthur Honegger em que era a principal narradora. Mas afinal as suspresas vieram de onde eu menos esperava: a beleza do auditório, aberto por uma parede de vidro e com os jardins iluminados em fundo de palco; a originalidade da peça musical, que eu não conhecia e de que gostei imenso; a qualidade do Coro da Gulbenkian, irrepreensível numa actuação muito exigente; o verdadeiro bailado que a maestrina autraliana Simone Yang executa enquanto conduz. Tudo isto me encantou, mas… por muito que eu admire Fanny Ardant e tenha sido emocionante vê-la em palco, não acho que a escolha para encarnar a adolescente mártir tenha sido a melhor: a personagem exigia uma voz fresca e inocente que os 62 anos da actriz, embora magníficos, há muito trocaram por uma vida bem vivida.

11 comentários em “Representar”

  1. Jeanne d’Arc au Bûcher ” foi apresentada no Teatro de São Carlos em 2003 (http://www.saocarlos.pt/gca/?id=490), com a extraordinária Isabelle Huppert e uma encenação belíssima de Luís Miguel Cintra. Recordo o grito de Joana d’Arc , J’ai peur , que fez o Teatro estremecer. Optei por não ir ouver Fanny Ardant.

    1. Fizeste bem, Paulo. Li que Fanny Ardant perseguia há muito este papel e que não tinha gostado de ser preterida em favor de Isabelle Hupert, mas eu percebo muito bem a troca. Felizmente desta vez não havia sequer encenação, porque teria sido mais flagrante ainda o desajuste da actriz em relação à personagem. E confesso que ainda não me habituei a esta nova forma de conduzir… tanto histrionismo num maestro (e numa maestrina ainda se acentua mais) distrai-me do essencial.

  2. Quanto a Meryl, 100% de acordo. Desabitar-se até aos olhos, como dizes… Merecia 10 óscares. Outra coisa é o filme em si, que não tem a abordagem que eu esperava. Mas há-de fazer-se. Só por ela, este vale a pena, para ver e rever aquela incessante “transformer”.

  3. Maria do Céu Guerra interpreta magnificamente, com o apoio do actor Adérito Lopes, D. Maria, a Louca, um texto do brasileiro Antônio Cunha.

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