Ode to Joy (Hino à Alegria), último movimento da Nona Sinfonia de Ludwig Van Beethoven, é possivelmente o mais célebre de todos os temas da música dita “clássica”. Tão célebre e tão representativo da excelência alcançada pelo génio humano, que, no arranjo do igualmente aclamado maestro Herbert von Karajan, foi incluído no disco de ouro de Carl Sagan enviado para o espaço na Voyager II, juntamente com outras informações consideradas essenciais sobre a humanidade, na esperança de uma possível comunicação com alguma forma de inteligência alienígena.
O Hino à Alegria tem um papel cultural de extrema relevância no mundo actual, já que se tornou no hino da União Europeia. Outra prova da sua importância foi o valor de 3,3 milhões de dólares atingido pela venda de um dos seus manuscritos originais, em 2003, pela Sotheby’s de Londres. Com Hamlet e Rei Lear, de Shakespeare, a obra foi considerada um dos maiores feitos artísticos de todos os tempos.
Não é portanto de admirar que o tema continue a servir de inspiração a muitos outros temas musicais. É o caso destas três canções que hoje aqui apresento: Road to Joy, de Conor Oberst/Bright Eyes (ironicamente parecida até no título), Mr. Brightside, de The Killers e Himno a la alegria, de Miguel Rios. Nos dois primeiros casos não houve qualquer referência a essa preciosa fonte de inspiração, talvez porque as semelhanças não são tão evidentes para ouvidos mais desatentos. Mas está lá a matriz, em ritmo e sequência, como poderá comprovar nos videos abaixo. Fica mal aos músicos não o terem reconhecido publicamente, até porque toda a obra de Beethoven era há muito do domínio público e não havia qualquer lugar a pagamento de direitos. No terceiro caso, seria verdadeiramente escandaloso não referir nos créditos o mestre: a melodia está lá toda, e também o título.
Road to Joy – Bright Eyes (2005)
A canção faz parte do álbum I’m Wide Awake, It’s Morning, de 2005, e abre com uma interpolação (a introdução de uma frase ou sequência musical, alheia ao resto da melodia, entre duas sequências lógicas) da melodia do Hino à Alegria, e depois segue em tom de marcha épica até ao epílogo, tão intenso que num dos espectáculos em que foi tocada Oberst e o trompetista Nate Walcott destruiram os instrumentos em palco, num gesto que contradiz absolutamente o espírito pacífico da melodia original. “It’s best to choose the side that’s gonna win”, um dos versos da letra, parece resumir a escolha segura desta “inspiração” musical. A verdade é que a canção se transformou num ícone da banda e encerra quase todas as suas actuações ao vivo.
Mr. Brightside (2004) – The Killers (> 2.58′)
Mr. Brightside foi considerada a “canção da década” por duas rádios inglesas. Em Abril de 2010 a Last.fm revelou ter sido o tema mais ouvido até essa data desde o lançamento do serviço de música online, com quase 8 milhões de acessos no Youtube. Esteve 71 semanas no Top 100 do Reino Unido. Os autores creditados são Brandon Flowers e Dave Keuning. Beethoven? Não consta.
Himno a la alegria (1970) – Miguel Rios
Gravada em 1969 pela primeira vez, Himno a la Alegria foi o maior êxito da carreira do espanhol Miguel Rios. É uma adaptação do tema de Beethoven (e reconhecida como tal nos créditos da gravação) feita pelo argentino Waldo de los Ríos, conhecido pelas suas versões pop de grandes obras clássicas. Surgiu em plena era do rock sinfónico e o sucesso foi tal que acabou por ser gravado também em inglês por Miguel Rios, com o título lógico A Song of Joy. O disco vendeu 7 milhões de cópias em todo o mundo e chegou ao primeiro lugar nos tops de muitos países.
Ode to Joy – Ludwig Van Beethoven

Perdoe-me o pedantismo, mas o último andamento da 9ª Sinfonia de Beethoven não se chama «Ode to Joy». O movimento tem por título original «Presto – Allegro assai – Presto – Recitativo – Allegro assai – Allegro assai vivace alla marcia) – Andante maestoso – Adagio ma non tropo ma divoto – Allegro energico e sempre ben marcato – Allegro ma non tanto – Presto – Maestoso – Prestissimo».
Algumas edições (não as das versões dirigidas por Karajan) acrescentam, entre parênteses, a indicação «Schlusschor über Schillers Ode »An die Freude«», indicação esta que, não sendo original, pode ser traduzida, é claro, para qualquer língua.
Não tenho portanto qualquer objecção a que lhe chame «Hino à Alegria», em português; nem a que use o título em inglês mais adiante no post, quando refere vídeos que têm de facto este título; mas início do post, quando se refere à composição em si, devia usar ou o alemão, ou o português.
Não é pedantismo, é rigor. E uma correcção perfeitamente legítima. Usei o título que é universalmente conhecido para facilitar, mas agradeço-lhe ter trazido aqui o original. Corrija-me sempre que for o caso, por favor.
Na segunda canção que mostras ouve-se uma leve referência na instrumentação. Coisa pouca, mas está lá. Já na primeira, é a própria linha vocal, disfarçada, que nos leva directamente a Beethoven.
Não conhecia as canções.
Subscrevo, se me permites, Paulo, e acrescento: não conhecia e vou esquecer rapidamente.
E faz muitíssimo bem, Gi! 🙂
Nem eu, Paulo, excepto a última que é uma pérola do kitch. As coisas que eu aprendo com esta série! 🙂
Não vou comentar os dois Rios, Miguel e Waldo. 😉
Mas deixaste uma versão de fora, Ana! O tigre feroz que só se acalma quando ouve o Hino à Alegria em Help!, dos Beatles.
Cena (hilariante) aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=LNjV-Jc8i ZE
Muito engraçada, Teresa, sobretudo o “crescendo” final 🙂
LOL. Delicioso, Teresa!
Mas devo dizer, em defesa do Miguel Rios, que ele teve melhores momentos mais tarde… 🙂
Também tenho essa ideia. Há uma música qualquer dele que está a fugir-me (lembra-me, por favor!) que até viria, muitos anos mais tarde, a ser usada num anúncio de televisão e a voltar a ser um enome sucesso. Tal como aconteceu com o Libre, de Nino Bravo. Que adoro, confesso, e nem me ralo se me chamares saloia.
A música saiu já depois da morte dele, com menos de 30 anos.
http://www.youtube.com/watch?v=tfpqKPsAj AM
Não corres esse perigo, Teresa. Eu sou suspeita, gosto imenso de música espanhola. E o Miguel Ríos é uma espécie de Rui Veloso de nuestros hermanos, foi sobretudo roqueiro e tem imensos sucessos. Não me lembro desse anúncio, confesso. Mas, imagina, até cantou Kurt Weill (com a Ana Belén, que eu adoro) num disco fantástico que eu ainda guardo religiosamente.
Lembro-me bem desta versão ligeira do “Hino à Alegria”, que na altura foi razão de grandes discussões. No meu caso, como modesto “Beethoveniano” que sou, achei na epoca, e continuo a achar agora, que foi um aproveitamento oportunista de uma das mais belas obras do velho Ludwig Van.
Muitos maestros fazem arranjos das obras que dirigem, e são responsaveis pelo resultado; esta versão do Waldo de los Rios é de fazer chorar as pedras da calçada, mas de tristeza.
Ora aqui está uma coincidência de todo o tamanho.
Esta versão e o Governo.
Os dois juntos não só não fazem chorar as pedras e cascalho, como a breve prazo morreremos todos completamente desidratados.
Metade! Os desidratados afogarão a outra metade em tanto pranto.
Tem razão, Alexandre: é uma desgraça completa.
Outra coincidência: O tema de “Ode to Joy” é praticamente decalcado de “Dona nobis pacem”, Agnus Dei da Missa IX Gregoriana, também, outra coincidência, denominada “Cum jubilo” (= com alegria)
Ora aí está uma excelente adenda a este texto, caro Jorge. Será que pode dar-me o link de um video, para acrescentar ao post? É sempre engraçado quando o plagiado também já foi plagiador.
Esta tua série é uma das melhores de sempre do DELITO, Ana. Original, divertida, controverssa q. b. e muito instrutiva. Aprendo sempre alguma coisa com ela.
Obrigada, Pedro. Dá-me trabalho, mas também muito gosto fazê-la. E também eu aprendo com ela.