Não seja indiferente. A sua assinatura é mais poderosa do que pensa.
Não seja indiferente. A sua assinatura é mais poderosa do que pensa.
Desculpem o narcisismo, mas não resisto a partilhar aqui uma boa notícia: o destaque, no Jornal de Letras, de um livro que publiquei no Brasil recentemente e tenho lutado para trazer também para o mercado português. Parece-me que consegui, finalmente. Chama-se “A Poesia é para Comer”.
O resto do artigo do JL aqui.
VERDADE
Ela merecia tudo, sabia-o desde o primeiro minuto. Por isso a olhou nos olhos e afirmou, convicto: “Às tuas perguntas, meu amor, responderei com a mais pura, luminosa e bela das verdades. Nem que para isso tenha de inventá-la”.
Para os que têm a paciência de nos seguir com regularidade, arranca hoje mesmo uma nova grelha de séries no Delito. Aqui fica um amuse oeil como aperitivo:
1- Para começar, um “cadáver esquisito”. A quem não está familiarizado com o termo, adianto que se trata de uma história a muitas mãos, uma corrente de escrita ao sabor da imaginação e do capricho de cada um dos que acrescenta um novo capítulo à trama. Vale tudo menos tirar olhos (pensando bem, isso também vale), por isso prepare-se para acompanhar as aventuras e desventuras de personagens que vão aparecendo, tentando garantir o seu lugar no the end. Se quiser participar, poderá dar os seus palpites e fazer apostas sobre os destinos dessas personagens na caixa de comentários de cada capítulo. Não há promessas nem compromissos, no entanto. Quem decide é sempre o escritor seguinte, embora sujeito a algumas regras internas. Só no final (e uma vez que a história é imprevisível), a série terá um título. Será proposta uma pequena lista à votação dos leitores do Delito.
A partir de hoje, todas as segundas-feiras haverá novos desenvolvimentos. Esperamos que se divirta.
2 – Começará também em breve uma série denominada “O Delito à mesa”, também aberta a todos os membros do blogue, que consistirá numa crítica gastronómica a dar conta de restaurantes que experimentámos e recomendamos (ou que não recomendamos) aos nossos leitores. Não terá dia fixo, por isso sugiro que vá estando atento às novidades.
3 – A partir da próxima semana retomarei a série “Não há coincidências” sobre plágios, batotas e estranhas coincidências musicais. Durante este tempo em que a série esteve ausente, tive tantas sugestões e dicas de casos interessantes que não posso deixar de partilhá-las aqui. Será aos Domingos.
Há mais surpresas na calha, mas a seu tempo se saberão. Para já, tudo isto e muito mais neste blogue (sempre) perto de si.
“No que resta das tias de Cascais, a moda é o «tiro ao Cavaco»”
Marcelo Rebelo de Sousa, há pouco no Jornal Nacional da TVI
De astrologia percebo tanto como de futebol. Ou seja, quase nada. Sei, porque já mo disse quem entende do assunto mais do que eu, que sou uma aquariana praticamente sem misturas e que tenho, a bem da minha sobrevivência, um ascendente em Touro que me impede de levantar voo de vez, como os amantes do Chagall. De resto, nesta matéria sou como quase toda a gente: acredito firmemente no que me agrada das previsões e desvalorizo aquilo que não me convém. Mea culpa, mea maxima ignorância. Porque eu bem sei que las hay.
Por isso, não se iluda quem me estranhar: não elegi para blogue da semana um desses milagrosos oráculos que nos desvendam data e hora de chegada do príncipe encantado, da fortuna ou da morte. Na proposta que vos trago hoje não há sombra de charlatanice. É um exercício sério, lúcido e sem fins comerciais, feito por alguém que se interessa profunda e convictamente pela astrologia e a estuda há décadas. Mais: por alguém que vai muito além da habitual toada de adivinhações pessoais e se dedica à macroastrologia (não sei se existe o termo), analisando o colectivo. Nestes tempos de incerteza e incompreensão que nos tocaram em sorte, talvez, caro leitor, encontre aqui alguma explicação que lhe aquiete o espírito. Não acredita nisso? Ok, entretenha-se então com títulos tão insólitos como A crise do Euro nos Céus da UE ou Carta astral do governo Passos Coelho.
Esta semana, o Delito de Opinião andará pelos Céus!!, pela mão de Rosita Iguana.
Lamento para a língua portuguesa
não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.
Vasco Graça Moura, in “Uma carta no Inverno”, 1997
O meu contributo para a compreensão do dia que passou:
L’amour platonique est toujours plat… et jamais tonique.

Não deixa de ser revelador do estado da Europa que o dia de hoje, por todo o lado consagrado ao amor com a benção de S. Valentim, seja também o Dia Europeu da Disfunção Eréctil. Só Portugal parece salvar do fiasco a honra do convento, como lembra aqui em baixo a nossa Helena. Por uma vez, pobrezinhos mas… artistas.
Encontrei o belo milhafre menos grave e sério, espreguiçando as penas sob um glorioso sol de Inverno. Habituado a tiritar num cinzento de chumbo, esse chumbo que lhe feriu um dia a asa, deixou-se por uma vez de lutos e mistérios e recebeu-me alegre como nunca. Por uma vez lhe vi sorridente o rosto de cantaria, franco e aberto o jeito fechado, resplandecente o timbre pardacento. Por uma vez o luto lhe foi aliviado por uma rara benção dos deuses. E vim pensando, no regresso a casa, que, de tão luminoso, o milhafre quase me parecia a minha gaivota moura.
LETRA
– Desculpa a minha letra, é ilegível.
– Pelo contrário, leio muito bem a tua letra.
– A sério?
– A sério. Ilegível és tu.

Ora aqui está uma excelente parábola sobre os estranhos tempos que atravessamos. Para reflectir neste fim-de-semana gelado.
LIÇÃO DE GRAMÁTICA
Zap, zap, a mão estalou na cara do rapaz.
– Então? Qual é o antónimo de paz?
E o rapaz, numa súbita inspiração:
– É… é zap!
Os Ombros Suportam o Mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
(Carlos Drummond de Andrade)
Se não concorda com o (des)acordo ortográfico, leia, assine e divulgue. A sua língua agradece.
Actualização:
Os tempos estão difíceis: já não basta aos políticos porem-se em bicos de pés. Agora têm de subir às mesas e mostrar o que valem.