Momento umbiguista


Ana Vidal,

 

Desculpem o narcisismo, mas não resisto a partilhar aqui uma boa notícia: o destaque, no Jornal de Letras, de um livro que publiquei no Brasil recentemente e tenho lutado para trazer também para o mercado português. Parece-me que consegui, finalmente. Chama-se “A Poesia é para Comer”.

Passou despercebido, mas o livro que o presidente da Câmara do Comércio do Brasil ofereceu a Aníbal Cavaco Silva, em março do ano passado, durante a visita oficial a Portugal da Chefe de Estado brasileira, Dilma Rousseff, tinha a marca de um grupo editorial português agora a atuar no outro lado do Atlântico, a Babel. Provavelmente, foi uma boa forma de abrir o apetite a futuros negócios entre os dois países, na medida em que não só se afigurava como mais um exemplo do intercâmbio económico em curso, como a obra tinha o sugestivo título de Poesia é para comer. No interior, a seleção de poemas de Ana Vidal era acompanhada por receitas de alguns dos mais conceituados chefs portugueses e brasileiros, em autênticas iguarias para o corpo e para o espírito. Não se sabe se este livro deixou o Presidente da República com água na boca, mas para Nuno Barros, administrador do Grupo Babel, criado por Paulo Teixeira Pinto, foi um “sinal” do “prestígio” que a aposta no Brasil já conquistou. 

O resto do artigo do JL aqui.

Nova grelha


Ana Vidal,

Para os que têm a paciência de nos seguir com regularidade, arranca hoje mesmo uma nova grelha de séries no Delito. Aqui fica um amuse oeil como aperitivo:

 

1- Para começar, um “cadáver esquisito”. A quem não está familiarizado com o termo, adianto que se trata de uma história a muitas mãos, uma corrente de escrita ao sabor da imaginação e do capricho de cada um dos que acrescenta um novo capítulo à trama. Vale tudo menos tirar olhos (pensando bem, isso também vale), por isso prepare-se para acompanhar as aventuras e desventuras de personagens que vão aparecendo, tentando garantir o seu lugar no the end. Se quiser participar, poderá dar os seus palpites e fazer apostas sobre os destinos dessas personagens na caixa de comentários de cada capítulo. Não há promessas nem compromissos, no entanto. Quem decide é sempre o escritor seguinte, embora sujeito a algumas regras internas. Só no final (e uma vez que a história é imprevisível), a série terá um título. Será proposta uma pequena lista à votação dos leitores do Delito.

A partir de hoje, todas as segundas-feiras haverá novos desenvolvimentos. Esperamos que se divirta.

 

2 – Começará também em breve uma série denominada “O Delito à mesa”, também aberta a todos os membros do blogue, que consistirá numa crítica gastronómica a dar conta de restaurantes que experimentámos e recomendamos (ou que não recomendamos) aos nossos leitores. Não terá dia fixo, por isso sugiro que vá estando atento às novidades.

 

3 – A partir da próxima semana retomarei a série “Não há coincidências” sobre plágios, batotas e estranhas coincidências musicais. Durante este tempo em que a série esteve ausente, tive tantas sugestões e dicas de casos interessantes que não posso deixar de partilhá-las aqui. Será aos Domingos.

 

Há mais surpresas na calha, mas a seu tempo se saberão. Para já, tudo isto e muito mais neste blogue (sempre) perto de si.

Blogue da semana


Ana Vidal,

 

De astrologia percebo tanto como de futebol. Ou seja, quase nada. Sei, porque já mo disse quem entende do assunto mais do que eu, que sou uma aquariana praticamente sem misturas e que tenho, a bem da minha sobrevivência, um ascendente em Touro que me impede de levantar voo de vez, como os amantes do Chagall. De resto, nesta matéria sou como quase toda a gente: acredito firmemente no que me agrada das previsões e desvalorizo aquilo que não me convém. Mea culpa, mea maxima ignorância. Porque eu bem sei que las hay.

 

Por isso, não se iluda quem me estranhar: não elegi para blogue da semana um desses milagrosos oráculos que nos desvendam data e hora de chegada do príncipe encantado, da fortuna ou da morte. Na proposta que vos trago hoje não há sombra de charlatanice. É um exercício sério, lúcido e sem fins comerciais, feito por alguém que se interessa profunda e convictamente pela astrologia e a estuda há décadas. Mais: por alguém que vai muito além da habitual toada de adivinhações pessoais e se dedica à macroastrologia (não sei se existe o termo), analisando o colectivo. Nestes tempos de incerteza e incompreensão que nos tocaram em sorte, talvez, caro leitor, encontre aqui alguma explicação que lhe aquiete o espírito. Não acredita nisso? Ok, entretenha-se então com títulos tão insólitos como A crise do Euro nos Céus da UE ou Carta astral do governo Passos Coelho.

 

Esta semana, o Delito de Opinião andará pelos Céus!!, pela mão de Rosita Iguana. 

Premonições


Ana Vidal,

Lamento para a língua portuguesa

não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.

Vasco Graça Moura, in “Uma carta no Inverno”, 1997

O estado da arte


Ana Vidal,

 

Não deixa de ser revelador do estado da Europa que o dia de hoje, por todo o lado consagrado ao amor com a benção de S. Valentim, seja também o Dia Europeu da Disfunção Eréctil. Só Portugal parece salvar do fiasco a honra do convento, como lembra aqui em baixo a nossa Helena. Por uma vez, pobrezinhos mas… artistas.

Porto sentido


Ana Vidal,

 

Encontrei o belo milhafre menos grave e sério, espreguiçando as penas sob um glorioso sol de Inverno. Habituado a tiritar num cinzento de chumbo, esse chumbo que lhe feriu um dia a asa, deixou-se por uma vez de lutos e mistérios e recebeu-me alegre como nunca. Por uma vez lhe vi sorridente o rosto de cantaria, franco e aberto o jeito fechado, resplandecente o timbre pardacento. Por uma vez o luto lhe foi aliviado por uma rara benção dos deuses. E vim pensando, no regresso a casa, que, de tão luminoso, o milhafre quase me parecia a minha gaivota moura.

Palavras iluminadas


Ana Vidal,

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

 

(Carlos Drummond de Andrade)