VERDADE
Ela merecia tudo, sabia-o desde o primeiro minuto. Por isso a olhou nos olhos e afirmou, convicto: “Às tuas perguntas, meu amor, responderei com a mais pura, luminosa e bela das verdades. Nem que para isso tenha de inventá-la”.
VERDADE
Ela merecia tudo, sabia-o desde o primeiro minuto. Por isso a olhou nos olhos e afirmou, convicto: “Às tuas perguntas, meu amor, responderei com a mais pura, luminosa e bela das verdades. Nem que para isso tenha de inventá-la”.
A partir do momento em que homem inventa a verdade, ela passa a ser Lei!
E como lei, será incontestávelmente justa, vertical e transparente.
«in vino veritas»
In vino?? Nada disso, Bartolomeu. Aqui só ela o embriagava.
(decidindo-me por uma aguardente de mel que me aclarará a voz rouca)
Minha cara Ana, vamos por partes. Antes de mais, não há mulher nenhuma que “mereça tudo”, logo o seu magnífico conto enferma logo à partida de uma incorrecção graúda. Depois, não é razoável esperar perguntas de uma mulher, normalmente elas brindam-nos com certezas indesmentíveis, que jamais nos atreveríamos a infirmar. Finalmente, o interlocutor assume como derradeira opção a possibilidade de inventar a verdade, o que é pouco aderente à realidade, uma vez que a invenção da verdade é, quase sempre, a primeira das opções.
(riscando um fósforo e acendendo um matinal Partagas )
Oh, meu caro Fábio Ivanildo, tem de moderar esses hábitos matinais! Aguardente e charuto, logo de manhã? Será por conta desses excessos, quero crer, que o infinito merecimento das mulheres lhe escapa.
E as mulheres perguntam, sim. Perguntam muito. O que não significa que queiram sempre ouvir a resposta… Mas olhe que a invenção da verdade não está ao alcance de todos. É preciso arte, e sobretudo muito amor. 🙂
Espero que ela tenha sabido valorizar a honestidade da resposta 🙂
Teresa, mais do que a honestidade, a sabedoria e a sensibilidade. As verdades não inventadas podem ser fatais para um amor, e geralmente servem só para acalmar a consciência de quem as conta. 🙂
Três linhas que dizem muito.
Obrigada, Pedro. É uma verdade inventada… 🙂
Adoro a síntese na escrita. Sou de “ciências”.
Como é que 20 palavras dizem tanto?
Para além de giro, deixou-me espantado. Tenho inveja!
J. Menezes
Também não é caso para tanto, José. Mas ainda bem que gostou.
(a síntese é um exercício muito útil)
Ana
Não considero a inveja um pecado, muito menos mortal. Pode ser um elogio ao invejado e um incentivo para o invejoso. Conhecer as nossas limitações, não retira o carácter de “limitação”. Maior limitação é desistir ou desvalorizar.
Mas isto foi apenas um exercício de retórica. Não é caso para tanto.
Considere um elogio!
Se por acaso me passar pela cabeça um “conto ínfimo”, posto-o para si num comentário, mesmo que a despropósito.
Claro, estava a brincar consigo. Faça isso, sim. Vou gostar de lê-lo. 🙂
Semi-ínfimo
Francisca. Seis anos. À sua volta os rapazolas corriam esbaforidos: “Pum pum, estás morto!”. E o morto sentou-se no muro.
– Ah, já percebi!. Correu para um polícia que espreitava na esquina do prédio. – Faz pum, faz. Faz pum!
E o outro fez “pum”, e desatou a correr atrás do ladrão.
Francisca caíu no chão. Braços e pernas abertas. Olhinhos fechados.
Peguei nela, flácida, e despejei-a na banheira.
À noite tive de ouvir, mais de dez vezes, aquela impressionante aventura:
– E a Chiquinha morreu, não foi papá?
– Foi, Francisca, foi. Vá lá, come a sopa.
Mais semi do que ínfimo, José. E tem aí uma Francisca com uma séria vocação de actriz.
Ana
O caminho do ínfimo é árduo. Custa. Quase inatingível.
Não é, não. É só treinar a contenção de palavras até ao limite do inteligível. Digo que é um bom exercício porque é o oposto do que nos é natural: o excesso explicativo.
A Chiquinha de facto existe, está em Londres. A história foi inventada, não aconteceu. Estive a comparar os contos e cheguei à conclusão que para ser ínfimo, teria de ser outra história.
O conto ínfimo tem de aparecer num flash, não pode ser procurado.
Obrigado
Não, não, pode ser condensado de uma história mais longa até ficar só o essencial. Vá treinando. 🙂
Como tabaco. Na casa de banho.