Contos ínfimos (7)


Ana Vidal,

VERDADE

 

Ela merecia tudo, sabia-o desde o primeiro minuto. Por isso a olhou nos olhos e afirmou, convicto: “Às tuas perguntas, meu amor, responderei com a mais pura, luminosa e bela das verdades. Nem que para isso tenha de inventá-la”.

19 comentários em “Contos ínfimos (7)”

  1. A partir do momento em que homem inventa a verdade, ela passa a ser Lei!
    E como lei, será incontestávelmente justa, vertical e transparente.
    «in vino veritas»

  2. (decidindo-me por uma aguardente de mel que me aclarará a voz rouca)

    Minha cara Ana, vamos por partes. Antes de mais, não há mulher nenhuma que “mereça tudo”, logo o seu magnífico conto enferma logo à partida de uma incorrecção graúda. Depois, não é razoável esperar perguntas de uma mulher, normalmente elas brindam-nos com certezas indesmentíveis, que jamais nos atreveríamos a infirmar. Finalmente, o interlocutor assume como derradeira opção a possibilidade de inventar a verdade, o que é pouco aderente à realidade, uma vez que a invenção da verdade é, quase sempre, a primeira das opções.

    (riscando um fósforo e acendendo um matinal Partagas )

    1. Oh, meu caro Fábio Ivanildo, tem de moderar esses hábitos matinais! Aguardente e charuto, logo de manhã? Será por conta desses excessos, quero crer, que o infinito merecimento das mulheres lhe escapa.

      E as mulheres perguntam, sim. Perguntam muito. O que não significa que queiram sempre ouvir a resposta… Mas olhe que a invenção da verdade não está ao alcance de todos. É preciso arte, e sobretudo muito amor. 🙂

    1. Teresa, mais do que a honestidade, a sabedoria e a sensibilidade. As verdades não inventadas podem ser fatais para um amor, e geralmente servem só para acalmar a consciência de quem as conta. 🙂

  3. Adoro a síntese na escrita. Sou de “ciências”.
    Como é que 20 palavras dizem tanto?
    Para além de giro, deixou-me espantado. Tenho inveja!

    J. Menezes

      1. Ana
        Não considero a inveja um pecado, muito menos mortal. Pode ser um elogio ao invejado e um incentivo para o invejoso. Conhecer as nossas limitações, não retira o carácter de “limitação”. Maior limitação é desistir ou desvalorizar.
        Mas isto foi apenas um exercício de retórica. Não é caso para tanto.
        Considere um elogio!
        Se por acaso me passar pela cabeça um “conto ínfimo”, posto-o para si num comentário, mesmo que a despropósito.

          1. Semi-ínfimo

            Francisca. Seis anos. À sua volta os rapazolas corriam esbaforidos: “Pum pum, estás morto!”. E o morto sentou-se no muro.
            – Ah, já percebi!. Correu para um polícia que espreitava na esquina do prédio. – Faz pum, faz. Faz pum!
            E o outro fez “pum”, e desatou a correr atrás do ladrão.
            Francisca caíu no chão. Braços e pernas abertas. Olhinhos fechados.
            Peguei nela, flácida, e despejei-a na banheira.
            À noite tive de ouvir, mais de dez vezes, aquela impressionante aventura:
            – E a Chiquinha morreu, não foi papá?
            – Foi, Francisca, foi. Vá lá, come a sopa.

          2. Não é, não. É só treinar a contenção de palavras até ao limite do inteligível. Digo que é um bom exercício porque é o oposto do que nos é natural: o excesso explicativo.

          3. A Chiquinha de facto existe, está em Londres. A história foi inventada, não aconteceu. Estive a comparar os contos e cheguei à conclusão que para ser ínfimo, teria de ser outra história.
            O conto ínfimo tem de aparecer num flash, não pode ser procurado.
            Obrigado

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *