Porto sentido


Ana Vidal,

 

Encontrei o belo milhafre menos grave e sério, espreguiçando as penas sob um glorioso sol de Inverno. Habituado a tiritar num cinzento de chumbo, esse chumbo que lhe feriu um dia a asa, deixou-se por uma vez de lutos e mistérios e recebeu-me alegre como nunca. Por uma vez lhe vi sorridente o rosto de cantaria, franco e aberto o jeito fechado, resplandecente o timbre pardacento. Por uma vez o luto lhe foi aliviado por uma rara benção dos deuses. E vim pensando, no regresso a casa, que, de tão luminoso, o milhafre quase me parecia a minha gaivota moura.

25 comentários em “Porto sentido”

  1. Ainda bem, mas nota-se que tens andado distante há muito. Só ficou para trás o tempo de quem vinha e atravessava o rio junto à Serra do Pilar. Fizeram uma ponte nova para o metropolitano? Não: fizeram-nas para tudo o resto, mas pegaram no metro e plantaram-no no cimo da velha ponte. Nunca mais se atravessou o rio a olhar da Ribeira até à Foz do mesmo modo.

    1. Tens razão, mas olha que ainda fiz o gosto ao dedo e atravessei a velha ponte D. Luís até Gaia, para ter uma visão mais parecida com a de antigamente. Valeu a pena, com aquele sol magnífico.
      E gostei muito do cafezinho com um certo amigo refilão e o seu amigo “comentador”. 🙂

    1. Obrigada, Carlos. Se se refere ao Porto, tem muita razão. Se é ao meu texto, em abono da verdade tenho de dividir os créditos com o Rui Veloso. 🙂

      1. Pas de quoi. Refiro-me a tudo.

        Já agora, uma observação: é muito frequente pensar-se que a melhor vista é do tabuleiro superior da Ponte D. Luiz ou da Serra do Pilar — não é. A melhor vista obtém-se descendo a Rua General Torres, de carro ou a pé — deslumbrante.

        1. É mais do que justo destacar a fotografia, que é soberba (não sei de quem é, confesso).
          Exactamente assim estava o Porto – e Guimarães, já agora – no fim-de-semana. Uma beleza.

          Não sei qual é a rua General Torres… sorry. O meu conhecimento do Porto é antigo mas limitado na toponímia. Mas uma vista deslumbrante é a que se tem de Gaia, como Lisboa vista de Almada.

        2. Partilhamos o mesmo gosto.
          Apesar de ter sempre vivido no Porto até muito recentemente, descobri essa maravilha e páro por lá sempre que posso.
          Este texto, mesmo que em parceria, e esta foto fazem-lhe justiça.
          Uma beleza!

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