A falta que cá fazes, Carlos Pinhão


Pedro Correia,

 

«Embora entenda o pendor mercantilista do Acordo, a que acresce uma salutar preocupação progressista que faria as delícias de Bouvard e Pécuchet (Que se lixe o latim que só serve para confundir o povo!), não pude, porém, deixar de elencar (v.tr.: “fazer uma elencagem”, seja lá o que isso for) algumas dúvidas recolhidas por aí. O que faz um professor durante um ano letivo? Letiva? O que faz um espetador em frente da televisão? Espeta-la? E o que faz alguém ante um para sem acento? Continua a andar e pergunta “para… onde”? Num hotel, dirigimo-nos à recepção ou lembramo-nos da receção e regressamos a casa? E um medicamento ótico aplica-se nos olhos ou serve para tratar otites? O mês de Janeiro é maior que janeiro? A metafísica de Aristóteles é em ato ou não ata nem desata? Quem requer adoção é adoçante? E os habitantes do Egito são egícios? Uma presidente incontinente é igual a uma presidenta incontinenta? E fim de semana sem hífen tem quantos dias? Esta última questão é particularmente pertinente derivado à crise.»

(Ana Cristina Leonardo, na Meditação na Pastelaria)

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22 comentários em “A falta que cá fazes, Carlos Pinhão”

  1. não sou um adepto fervoroso do “ao”, portanto se não vingar, agora, menos me incomoda.
    mas acredito que “mais década menos década”, este ou outro acordo vai acontecer, caso não mudemos antes o idioma nacional para inglês ou chinês.
    a oposição a este ou outro qualquer “ao” é inevitável, e já está a envolver as vertentes da “legalidade” e da política.
    parece que também foi assim que aconteceu, recentemente, com as reformas das ortografias alemâs e francesa.
    está tudo a decorrer dentro do expectável, portanto.
    quanto ao texto da acl, é “marca da casa”, de quem prega como quem prega, ou seja: ouvi-la pregar é igual a ouvi-la a pregar.
    até parece que se lhe surgisse pela frente o tema “como pregar o evangelho” imaginaria logo em como pregá-lo à parede.
    há quem aprecie (e eu também).
    e agora é esperar pela pancada.

    1. Em França não houve reforma ortográfica. A Língua Francesa não serve para brincadeiras ou experiências e está a salvo da selvajaria.
      A Alemanha fez uma – a Alemanha às vezes faz coisas menos explicáveis – , que parece que está em fase de reversão. Em todo o caso a mudança foi de algumas dezenas de palavras.
      O Acordo do Castelhano, um documento digno, produto do labor de 19 academias da Língua Castelhana, muda oito ou nove palavras (sic) e trata de questões de nomenclatura
      Em Portugal a Língua Portuguesa seria alarvemente mutilada em milhares de palavras e criar-se-iam milhares de duplas grafias.
      É um verdadeiro genocídio cultural perpetrado pelo estado português em nome de interesses políticos de um estado estrangeiro (com atrozes índices de analfabetismo e ambições proporcionais).
      Felizmente, agora são dois professores da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra – um deles com a autoridade da sua cátedra, que vêm pôr em causa a legalidade do «acordo»
      http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2300823

      1. não tenho conhecimento profundo de reformas ortográficas noutras línguas. por curiosidade, pesquiso algumas coisas na net.
        em frança, foi publicada uma recomendação da academia francesa para uma reforma ortográfica.
        a recomendação é oficial e deve ser ensinada. a sua aplicação não é obrigatária:

        http://www.academie-francaise.fr/langue/questions.html#rectifaf

        L’Académie n’a pas souhaité donner un caractère impératif à ces rectifications ni se limiter à une simple tolérance orthographique : elle a choisi la voie prudente de la recommandation. Ainsi, elle a décidé de soumettre à l’épreuve du temps ces simplifications et ces ajustements – qui ne concerneront pas plus de trois mille mots…

        http://media.education.gouv.fr/file/special_6/21/8/programme_francais_general_33218.pdf

        NB : Pour l’enseignement de la langue française, le professeur tient compte des rectifications de l’orthographe proposées par le Rapport
        du Conseil supérieur de la langue française, approuvées par l’Académie française (Journal officiel de la République française du 6 décembre 1990). Pour l’évaluation, il tient également compte des
        tolérances grammaticales et orthographiques de l’arrêté du 28 décembre 1976 (Journal officiel de la République française du 9 février 1977).

  2. Não sei se ria, se chore.
    O texto é do melhor que há e a ilustração, uma delícia
    Cada vez mais subscrevo o dito.

    1. E Vítor Pereira revoltasse, porque se revoltasse era como se voltasse. Claro, quem é que não percebe?!
      Achei esta meditação delirante. De fato.

  3. Pedro, e ainda tivemos o “frio na Europa que matou 170 mortos”, para a qual a bolha abriu uma secção de notícias do mundo designada OM1 e OM2.

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