Insultos a pedido


Ana Vidal,

Muito útil nos dias que correm. Não resolve, mas alivia. E o francês dá-lhe um toque adicional, para arrasar com classe. É só pedir.

 

A court d’inspiration lors d’un affrontement verbal? Demande au Capitaine Haddock et copie la réplique ci-dessous!

Hydrocarbure!…Ectoplasme!…Bachi-bouzouk!…Ostrogoth!…Froussard!..

 

Une autre, mille millions de mille sabords !

 

Naufrágio de uma honra


Ana Vidal,

Habituados como estamos a que as televisões nos sirvam mortos e estropiados entre a sopa e o puré, políticos corruptos à sobremesa e catástrofes ambientais ao café, poucas notícias nos fazem já levantar a sobrancelha ou interromper um monocórdico “passa o sal”. Mas hoje foi um desses dias de surpresa, de inusitada novidade: hoje assistimos, estarrecidos, à indesmentível cobardia de um comandante, chamado à pedra com todas as letras e aos berros por um capitão de porto. Mais do que confrangedora, é revoltante a choraminguice desorientada de um adulto que não só atira um paquete de cruzeiro para cima das rochas e descarta de imediato as suas responsabilidades no desastre, como ainda tenta salvar-se antes de todos os que deveria proteger e ajudar.

 

Enquanto assisto à gritaria, que desmascara aquela indigência como uma fractura exposta à vista do mundo inteiro, fico a pensar na família que este homem há-de ter algures, e na vergonha que essa família deve estar a sentir neste momento. Não sei quantas provas dadas e anos de carreira são precisos para se chegar ao importante posto de comandante de um navio que transporta milhares de passageiros, mas sei que alguma coisa de muito grave falhou neste caso. É evidente que esta criatura não tem perfil para honrar a mais básica – mas também a mais sagrada – de todas as regras da marinha: o comandante é o último a abandonar o navio. Não só não o fez, fugindo apavorado para dentro do primeiro bote que apanhou enquanto velhos e crianças morriam à sua volta, como ainda mentiu sobre a sua conduta miserável. A coragem física e moral só nestes momentos se revela inteiramente, mas é um atributo que deve ser previsível. Que este caso sirva de exemplo a quem treina e promove estes homens: uma farda de comandante tem de ser muito mais do que um instrumento de charme para a fotografia num cruzeiro turístico.

A lógica da cara conhecida


Ana Vidal,

 

Segundo Eduardo Catroga – que aparentemente ninguém consegue calar – foi essa a lógica que presidiu à escolha das nomeações na EDP. Se é assim, sugiro esta espécie de Dona Urraca do carnaval de Loulé para a próxima privatização. Não se pode dizer que não é uma cara conhecida.

Para acabar de vez com a cultura? (2)


Ana Vidal,

Acabo de receber, de uma amiga escritora brasileira, este video sobre o encerramento da Livraria Camões do Rio de Janeiro, uma importante ponte cultural entre os nossos dois países. Aqui, uma petição de protesto a pedir assinaturas. Aqui, a página do facebook que foi criada para o efeito.

Os brasileiros que conheço estão inconsoláveis. E nós?

 

 

O texto da petição:

“Frente ao iminente fechamento da Livraria Camões no Rio de Janeiro, por decisão da atual administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa, juntemos nossos protestos para que tal não aconteça.

É mais uma presença portuguesa a ser rasurada à nossa volta, corroborando o que pensamos ser uma acentuada miopia de Portugal face ao Brasil no que tange às questões culturais.

A Livraria Camões é uma casa de cultura em nosso país e seu trabalho ao longo de décadas contribuiu concretamente para a divulgação da cultura portuguesa e o acesso à sua literatura. Nela, todos que se dedicam aos estudos portugueses e de cultura de língua portuguesa sempre encontraram um espaço maior de acolhimento e de diálogo.

Solicitamos que partilhem este abaixo-assinado de modo a questionar o caso e tentar que tal decisão, ao menos, seja reavaliada.

A cultura não pode ser tratada como item supérfluo!”

As últimas palavras


Ana Vidal,

Nem sempre são inspiradas ou geniais – nem sempre se sabe que serão as últimas, e as circunstâncias também não ajudam – mas têm o peso de uma vida na memória dos que ficam. Aqui vos deixo, à laia de epitáfio, as de vinte e cinco escritores famosos.

 

O meu preferido é Voltaire, pelo humor requintado e lúcido no momento decisivo, de que teve plena consciência. Quando o padre, na extrema unção, lhe perguntou se renunciava a Satanás, teve esta resposta extraordinária:

 

 

Para acabar de vez com a cultura?


Ana Vidal,

Não é que eu esperasse muito da Lusa, mas aqui está mais uma prova de como os critérios editoriais têm vindo a mudar em Portugal nos últimos anos. Admito, por razões orçamentais, que sejam fundidas as secções “lusofonia” e “internacional” numa única editoria, mas que se extinga liminarmente a de “cultura”, passando os seus elementos para a de “sociedade”, diz tudo sobre o que é realmente importante para quem escolhe as notícias que nos faz chegar. Espera-nos, provavelmente, uma cultura cor-de-rosa.

 

Uma sociedade que desvaloriza a cultura – a sua e a dos outros – não vai longe, nunca. 

 

Nota: Woody, passo a vida a citar-te. Desculpa lá o abuso.

Balanço de Natal


Ana Vidal,

De todos os Natais

aquele distante

com cheiros de musgo e doçuras fritas

de subir ao céu da boca

e espelhos no presépio que eram lagos

e um trio de reis que avançava

todos os dias mais um passo

até chegar ao rei-menino

E eu sofrendo com eles a viagem

e eu oferecendo também

o meu ouro mouro

a minha mirrada mirra

o meu incerto incenso

à espera do retorno

 

De todos os Natais

aquele outro

um brilho nos olhos como nunca antes

como nunca mais

e os mais belos cânticos a nascer todos de mim

e o poder do mundo na minha mão

porque um outro menino

só meu ainda

se agitava na sua concha

o meu íntimo mar

 

De todos os Natais

o que virá um dia

quem sabe um dia

Aquele que me falta

para dizer Natal

sem dizer Eu