Encontros felizes (20)
Ana Vidal,
REDES
A carta dizia apenas: “Vem. A vida é um arame sem rede”. Ela sorriu e foi, porque sabia que a rede é um arame sem vida.
VOZES
Tinha dentro de si um coro de vozes dissonantes, sem pauta nem maestro que pudesse harmonizá-las, e todas com a secreta ambição de uma carreira a solo. Até que, um dia, só o silêncio subiu ao palco.
Um presente para os meninos do Delito.
(eu fico com a voz, se não se importam)
Muito útil nos dias que correm. Não resolve, mas alivia. E o francês dá-lhe um toque adicional, para arrasar com classe. É só pedir.
Une autre, mille millions de mille sabords !

Habituados como estamos a que as televisões nos sirvam mortos e estropiados entre a sopa e o puré, políticos corruptos à sobremesa e catástrofes ambientais ao café, poucas notícias nos fazem já levantar a sobrancelha ou interromper um monocórdico “passa o sal”. Mas hoje foi um desses dias de surpresa, de inusitada novidade: hoje assistimos, estarrecidos, à indesmentível cobardia de um comandante, chamado à pedra com todas as letras e aos berros por um capitão de porto. Mais do que confrangedora, é revoltante a choraminguice desorientada de um adulto que não só atira um paquete de cruzeiro para cima das rochas e descarta de imediato as suas responsabilidades no desastre, como ainda tenta salvar-se antes de todos os que deveria proteger e ajudar.
Enquanto assisto à gritaria, que desmascara aquela indigência como uma fractura exposta à vista do mundo inteiro, fico a pensar na família que este homem há-de ter algures, e na vergonha que essa família deve estar a sentir neste momento. Não sei quantas provas dadas e anos de carreira são precisos para se chegar ao importante posto de comandante de um navio que transporta milhares de passageiros, mas sei que alguma coisa de muito grave falhou neste caso. É evidente que esta criatura não tem perfil para honrar a mais básica – mas também a mais sagrada – de todas as regras da marinha: o comandante é o último a abandonar o navio. Não só não o fez, fugindo apavorado para dentro do primeiro bote que apanhou enquanto velhos e crianças morriam à sua volta, como ainda mentiu sobre a sua conduta miserável. A coragem física e moral só nestes momentos se revela inteiramente, mas é um atributo que deve ser previsível. Que este caso sirva de exemplo a quem treina e promove estes homens: uma farda de comandante tem de ser muito mais do que um instrumento de charme para a fotografia num cruzeiro turístico.
FUGA
De tanto ouvir Bach, acabou por especializar-se na arte da fuga. A última foi de si próprio.
Acabo de receber, de uma amiga escritora brasileira, este video sobre o encerramento da Livraria Camões do Rio de Janeiro, uma importante ponte cultural entre os nossos dois países. Aqui, uma petição de protesto a pedir assinaturas. Aqui, a página do facebook que foi criada para o efeito.
Os brasileiros que conheço estão inconsoláveis. E nós?
O texto da petição:
É mais uma presença portuguesa a ser rasurada à nossa volta, corroborando o que pensamos ser uma acentuada miopia de Portugal face ao Brasil no que tange às questões culturais.
A Livraria Camões é uma casa de cultura em nosso país e seu trabalho ao longo de décadas contribuiu concretamente para a divulgação da cultura portuguesa e o acesso à sua literatura. Nela, todos que se dedicam aos estudos portugueses e de cultura de língua portuguesa sempre encontraram um espaço maior de acolhimento e de diálogo.
Solicitamos que partilhem este abaixo-assinado de modo a questionar o caso e tentar que tal decisão, ao menos, seja reavaliada.
A cultura não pode ser tratada como item supérfluo!”
Nem sempre são inspiradas ou geniais – nem sempre se sabe que serão as últimas, e as circunstâncias também não ajudam – mas têm o peso de uma vida na memória dos que ficam. Aqui vos deixo, à laia de epitáfio, as de vinte e cinco escritores famosos.
O meu preferido é Voltaire, pelo humor requintado e lúcido no momento decisivo, de que teve plena consciência. Quando o padre, na extrema unção, lhe perguntou se renunciava a Satanás, teve esta resposta extraordinária:
Não é que eu esperasse muito da Lusa, mas aqui está mais uma prova de como os critérios editoriais têm vindo a mudar em Portugal nos últimos anos. Admito, por razões orçamentais, que sejam fundidas as secções “lusofonia” e “internacional” numa única editoria, mas que se extinga liminarmente a de “cultura”, passando os seus elementos para a de “sociedade”, diz tudo sobre o que é realmente importante para quem escolhe as notícias que nos faz chegar. Espera-nos, provavelmente, uma cultura cor-de-rosa.
Uma sociedade que desvaloriza a cultura – a sua e a dos outros – não vai longe, nunca.
Nota: Woody, passo a vida a citar-te. Desculpa lá o abuso.
CARPE DIEM,
tinha ela escrito na t-shirt, em letras fluorescentes. Mas o latim não era o seu forte, traduzira mal o lema: tudo o que fazia dos seus dias, era carpi-los.
De todos os Natais
aquele distante
com cheiros de musgo e doçuras fritas
de subir ao céu da boca
e espelhos no presépio que eram lagos
e um trio de reis que avançava
todos os dias mais um passo
até chegar ao rei-menino
E eu sofrendo com eles a viagem
e eu oferecendo também
o meu ouro mouro
a minha mirrada mirra
o meu incerto incenso
à espera do retorno
De todos os Natais
aquele outro
um brilho nos olhos como nunca antes
como nunca mais
e os mais belos cânticos a nascer todos de mim
e o poder do mundo na minha mão
porque um outro menino
só meu ainda
se agitava na sua concha
o meu íntimo mar
De todos os Natais
o que virá um dia
quem sabe um dia
Aquele que me falta
para dizer Natal
sem dizer Eu
À atenção da Dra. Assunção Esteves, algumas dicas úteis para reconhecer um maçon:
… que há muito espaço. Os de cá estão todos a fugir.