
Habituados como estamos a que as televisões nos sirvam mortos e estropiados entre a sopa e o puré, políticos corruptos à sobremesa e catástrofes ambientais ao café, poucas notícias nos fazem já levantar a sobrancelha ou interromper um monocórdico “passa o sal”. Mas hoje foi um desses dias de surpresa, de inusitada novidade: hoje assistimos, estarrecidos, à indesmentível cobardia de um comandante, chamado à pedra com todas as letras e aos berros por um capitão de porto. Mais do que confrangedora, é revoltante a choraminguice desorientada de um adulto que não só atira um paquete de cruzeiro para cima das rochas e descarta de imediato as suas responsabilidades no desastre, como ainda tenta salvar-se antes de todos os que deveria proteger e ajudar.
Enquanto assisto à gritaria, que desmascara aquela indigência como uma fractura exposta à vista do mundo inteiro, fico a pensar na família que este homem há-de ter algures, e na vergonha que essa família deve estar a sentir neste momento. Não sei quantas provas dadas e anos de carreira são precisos para se chegar ao importante posto de comandante de um navio que transporta milhares de passageiros, mas sei que alguma coisa de muito grave falhou neste caso. É evidente que esta criatura não tem perfil para honrar a mais básica – mas também a mais sagrada – de todas as regras da marinha: o comandante é o último a abandonar o navio. Não só não o fez, fugindo apavorado para dentro do primeiro bote que apanhou enquanto velhos e crianças morriam à sua volta, como ainda mentiu sobre a sua conduta miserável. A coragem física e moral só nestes momentos se revela inteiramente, mas é um atributo que deve ser previsível. Que este caso sirva de exemplo a quem treina e promove estes homens: uma farda de comandante tem de ser muito mais do que um instrumento de charme para a fotografia num cruzeiro turístico.

Nem mais. Acompanho-a inteiramente, mas, temo que não seja ouvida e que quem treina gente para funções com responsabilidades desta natureza, que terão nas suas mãos a vida de muita gente, seja cega e surda. Infelizmente.
Espero que não, sinceramente. Um erro de avaliação de carácter deste calibre é gravíssimo.
Impressionante. Pergunto-me como foi possível ter uma pessoa daquelas à frente de um navio.
Eu também. Foi das figuras mais tristes que tenho visto ultimamente.
Questões de carácter, não?
As generalizações são perigosas, mas não me parece que essa seja a principal característica dos italianos…
São mesmo perigosas, António. Além disso, parece-me que os códigos de honra de uma corporação como a Marinha se sobrepõem às nacionalidades. Mas este tipo está abaixo dos mínimos, é vergonhoso.
Ana,
Concordo plenamente com o que escreveu.
Um verdadeiro líder (leia-se comandante) surge nos momentos mais críticos (lembra-se dos chefe dos mineiros no Chile, o Luis Urzúa?). Este italiano carecia de categoria para dirigir um navio. Deitou pela borda fora uma carreira e claramente um modo de vida.
Pior do que isso, José: deitou pela borda fora as vidas de outros, que talvez pudesse ter salvado e que estavam à sua guarda.
Lembro-me muito bem do caso do Chile, que foi precisamente o oposto: um líder exemplar numa situação delicadíssima que podia ter acabado em tragédia. Uma boa parte do êxito da operação ficou a dever-se à calma e à coragem desse homem.
Duas coisas inevitáveis: há-de aparecer rapidamente um psicólogo a justificar o comportamento do sujeito por “factores emocionais” ou algo do género e não tardará a surgir um sociólogo a culpar “a sociedade” do sucedido.
Vão aparecer de certeza, mas nenhum deles conseguirá limpar a imagem de um cobarde sem carácter…
Sem falar na culpa de quem morreu, ou porque não sabia nadar ou porque,simplesmente, resolveu ir naquele cruzeiro…
Pedro,
provavelmente se isto acontecesse em Portugal o comandante iria culpar as rochas por estarem naquele sítio ou no mínimo culpar o Governo porque não fez nada para tirar as pedras daquele lugar. Vamos aguardar para saber o que a justiça italiana vai “oferecer” ao energúmeno que se dizia, repito dizia comandante de um navio.
Não consigo tirar uma pergunta da minha mente: Será que naquela noite ao ser detido quando fugia rapidamente foi-lhe feita alguma despistagem ao uso de álcool e outras substâncias?
Não sei, Maria. Mas acho que a principal substância que lhe corre nas veias está lá sempre e chama-se cobardia.
Assim parece, mas la Palisse não diria outra coisa cuidado com julgamentos na praça publica.
Aparentemente o navio aproximou-se da costa para
Ou seja a informalidade típica dos países latinos. Saudar a família de um marinheiro retirado/falecido.
Mas já noutras ocasiões tinha feito parecido aproximar-se da costa para saudar as pessoas. O contacto humano e social sobrepôs-se ao cinzentismo e desmancha prazeres da segurança…
Provocação : Love Boat é “culpado” pela criação de uma imagem do que os comandantes devem ser?
Isso não é uma provocação, é uma simples constatação. Aliás, é isso mesmo que diz a última frase do meu post. Às vezes não é preciso ir muito além de La Palisse para nos fazermos entender.
(passa-se alguma coisa com o seu teclado??)
É uma provocação no sentido em que é um exagero dizer que foi por causa da série.
Com navios com cada vez maiores e mais passageiros as solicitações sociais do comandante aumentam naturalmente . Ou seja a hotelaria e divertimento sobrepõe-se cada vez mais à parte náutica.
Por exemplo a maior parte dos passageiros gostariam de ter uma fotografia com o comandante. Se forem 3000 passageiros a querê-lo imagina-se o que significa.
Não se passa nada com o teclado que eu saiba, devo ter feito um cortar colar errado. Erro humano…
webcam: ebcam/isola-del-giglio/webcam-giglio-por to-panoramica.html
http://www.giglionews.it/2010022440919/w
Pois então que passe a haver dois comandantes: um para a fotografia, bonito e de farda irrepreensível, e outro para o que interessa realmente. Ou seja, dirigir o navio e assumir responsabilidades quando a coisa corre mal.
As pessoas são atraídas pelo poder, mestre de cerimónias já existe. De qualquer modo nada disto explica o comportamento do comandante.
Pois, é inqualificável.
Que diferença entre este comandante e tantos que acabaram por morrer com os seus navios (e estou a lembrar-me do Titanic). Ou entre este comandante e aquele que há coisa de dois anos aterrou em plenio rio Hudson, sem que se perdesse uma única vida! Aposto que este se agarrava ao primeiro pára-quedas e saltava de fininho deixando os comandos.
É a diferença entre um homem e um rato, Teresa.
Nem mais.