O que ando a ler (19)


Ana Vidal,

Essa pergunta não é de resposta fácil, Ana Sofia. Acho que já disse por aqui que nunca leio só um livro de cada vez. Mas, como a maioria dos livros que empilho na mesa de cabeceira é de poesia – neste momento há uma invasão da maravilhosa poesia brasileira, vários livros oferecidos e com dedicatórias que me comovem – falarei aqui do último que li em prosa, acabado ontem mesmo (atravessou comigo o ano, por sinal). É O Túnel, o primeiro romance do argentino Ernesto Sabato. Dele, já tinha lido em tempos “Heróis e túmulos”, um livro empolgante que me deixou água na boca e foi considerado, penso que muito justamente, o melhor romance argentino do século XX. O Túnel é um texto muito diferente, embora nos agarre igualmente pelos colarinhos e não nos deixe respirar até à última página. A estrutura é quase policial: um mergulho lento e a cada capítulo mais profundo numa trama obsessiva e tão bem urdida que, mesmo revelado o desfecho logo na primeira frase do livro, a história não perde o suspense, pelo contrário.

 

 

Juan Pablo Castel, um pintor de talento reconhecido – embora despreze totalmente as opiniões dos críticos sobre a sua obra – repara, numa exposição sua, numa mulher que, por sua vez, observa um dos seus quadros atentamente. Maravilha-o que ela se fixe num pormenor do quadro que ninguém mais parece valorizar: uma pequena janela, a um canto, através da qual se vê uma mulher olhando o mar. Está dado o mote: esta sequência, aparentemente inocente, de observadores e objectos de interesse – pintor>mulher>quadro>janela>mulher>mar – dá início a um caleidoscópio alucinante, um jogo de espelhos em permanente mutação que nos desvenda a labiríntica e tortuosa mente do narrador, o próprio pintor. Sob a batuta  de uma paixão súbita e avassaladora (não mais do que um pretexto, já que o amor por Maria não passa da busca de um nome para um papel pré-definido), começa o opressivo bailado nupcial de predador e presa, dois seres desesperados e cada um deles perdido na sua própria e inescapável solidão: Maria, a vítima, que permanece triste e misteriosa até ao fim, e Castel, o implacável algoz, que nos vai conduzindo até à exaustão pelos abismos do seu pensamento, meticulosamente organizado mas circular: “Em geral, esta sensação de estar só no mundo aparece misturada com um orgulhoso sentimento de superioridade. Desprezo os homens, vejo-os feios, sujos, incapazes, ávidos, grosseiros e mesquinhos. E então a minha solidão não me assusta, é quase olímpica. Mas naquele momento, como noutros semelhantes, encontrava-me só como consequência dos meus piores atributos, das minhas baixas acções. Em tais casos sinto que o mundo é desprezível, mas também que faço parte dele, e sou invadido por uma fúria de aniquilação.” É este homem que, mesmo nos momentos de felicidade com a mulher que considera a sua alma gémea e a única pessoa no mundo capaz de compreendê-lo, é incapaz de aceitar essa felicidade e semeia nela uma dúvida envenenada até deitar tudo a perder. Um espírito destrutivo que tão bem cabe naquela frase de Schopenhauer: “Quando não tenho nenhuma angústia, é isso mesmo que me angustia”.

 

A narrativa, primorosamente escrita e rica de inquietantes metáforas (não falta até uma referência a Kafka e às suas metamorfoses, com a descrição de uma transformação do narrador em pássaro, num sonho), vai num crescendo de angústia e loucura que só pode levar a um final trágico. Já o sabíamos desde a primeira página, mas chegamos lá sem fôlego e ainda expectantes de alguma coisa que possa ter-nos escapado.

 

Ernesto Sabato é um desses escritores mágicos em que a América Latina tem sido pródiga. Tem uma escrita vibrante e lúcida, que prende irremediavelmente o leitor desde as primeiras linhas. Morreu neste ano que agora acabou, a dois meses de completar cem anos. Vale a pena lê-lo.

 

Título: “O Túnel”

Autor: Ernesto Sabato

Editora portuguesa: Relógio d’Água

135 páginas (de puro prazer)

 

E tu, António, o que andas a ler por estes dias?

Códigos


Ana Vidal,

“Saltou da cama e entrou no quarto de banho, para se arranjar. O esposo já estava pronto, na cozinha, à espera dela. Tomou um duche rápido, penteou-se, passou um batom vermelho nos lábios. Depois vestiu uma calça justa, sapatos e mala a condizer e desceu finalmente. Usava a pulseira que ele lhe tinha oferecido como prenda de aniversário, linda e nada pirosa. Os meninos vieram despedir-se da mamã e do papá, que saíram então para trabalhar, no automóvel novo que estava estacionado à porta da vivenda. Ainda disseram tchau à moça que vivia em frente.“

 

 

Todos os grupos sociais têm os seus códigos de reconhecimento, de demarcação de território, exactamente como o jacto de urina deixado pelo leão nas árvores que circundam aquele que determina como seu. São códigos lineares, por razões de sobrevivência e de identificação de “espécie”, tanto mais rígidos quanto maior é a fragilidade desta e a sua ameaça de extinção.  

 

Em Portugal, a mais velha aristocracia e a alta burguesia (refiro-me à que está enraizada no eixo Lisboa-Cascais, já que em outras regiões os códigos serão diferentes) regem-se por uma linguagem – chamemos-lhe uma cartilha – que define esse grupo específico, geralmente considerado como o dos eleitos entre os eleitos. Não falo daquilo a que as revistas cor-de-rosa chamam o jet set, isso é outra coisa. Aliás, uma “coisa” a que este grupo se orgulha de não pertencer, com quem não se dá e com quem não quer misturas. O dito jet set é, praticamente, a sua antítese. Porque este grupo não se distingue pela conta bancária ou pelos sinais exteriores de riqueza, muito pelo contrário: tanto pode ter (e tem, frequentemente) uma situação financeira precária, como uma fortuna sólida, mas nesse caso sempre discreta e gozada longe dos olhares públicos. E a exibição do estatuto é tão condenatória como o uso de expressões erradas, que determinam a exclusão social dos incautos. É uma ditadura de palavras: as autorizadas e as impronunciáveis, as que podem conferir aos forasteiros um passaporte para “o meio” (ainda que sempre sob reserva) e as que podem levar à liminar expulsão, sem apelo nem agravo. As palavras proibidas são como nódoas de vinho tinto em alva toalha de linho, mesmo que já rasgada nos ajurs. Uma espécie de acordo ortográfico privado – embora se aplique praticamente só à expressão oral – de um Olimpo urbano e sofisticado que sempre reclamou para si um léxico especial. Um léxico sine qua non.

 

A cartilha ainda vigora (hoje menos do que ontem, amanhã seguramente menos do que hoje) num território restrito, uma coutada onde se move uma espécie rara. Há quem dedique uma vida inteira a aprender a pisar esse campo minado, e chegue até a atravessá-lo com a destreza suficiente para pensar que, escapando às minas, enganou as sentinelas. Pura ilusão. Mesmo que nenhuma palavra traia o aventureiro, há sempre um qualquer pormenor que revela o esforço, a falta de naturalidade, o medo de ser apanhado. Teve-se berço na coutada ou fora dela, é simples. O poder da cartilha é o do irrefutável polegar de um imperador de Roma. 

 

Vivo rodeada destes códigos há demasiado tempo para poder dar-me ao luxo de ignorá-los. Mais: por mimetismo ou bom ouvido vou cumprindo as regras, de forma automática, deixando-me alinhar sem grande resistência nesse exército vigilante e sempre atento ao que dizem os seus soldados. Atento à menor tentativa de deserção de um deles, e, mais ainda, atento às tentativas de infiltração de estranhos. Não combato militantemente os códigos, é certo, mas não deixo de achar ridícula a ditadura que eles impõem. A sua importância diz respeito a uma área geográfica de tal maneira limitada, que chega a ser risível: meia dúzia de quilómetros para além do perímetro, e perdem a validade. Dois passos fora do país e da língua portuguesa, e já não classificam ou desclassificam ninguém. Mas a verdade é que foram demasiados os anos em que estivemos fechados em nós próprios, olhando só o nosso precioso umbigo e desconhecendo a vastidão dos mundos que há para além dele. 

 

Por mim, prefiro outras formas de avaliação menos fúteis e, sobretudo, mais fiáveis. Aquelas que agregam pessoas pela partilha de valores e princípios, de interesses e de gostos, enfim, por qualquer outro critério que não o da armadilha da expressão oral. E vejo, com satisfação, que a miscigenação das classes sociais tem vindo a ganhar terreno de forma saudável e natural. Tudo se vai ajustando. Não são alheias a este facto a diluição de fronteiras e a diversidade de culturas que hoje em dia convivem com a nossa. Os tiques de classe vão, aos poucos, perdendo o seu peso. E ainda bem.

 

Nota 1: O texto a azul, em cima, foi escrito propositadamente com as tais palavras proibidas. Para quem estiver interessado e ainda ache que vale a pena o esforço, aqui ficam as palavras aprovadas, que devem substituir as que estão a itálico (pela mesma ordem): casa de banho; marido; encarnado; boca/beiços; calças; carteira; presente; anos; possidónia; os miúdos/as crianças; mãe; pai; carro; casa; adeus; rapariga.

 

Nota 2: Post reeditado, desta vez dedicado a uma certa comentadora do Delito (que assina “Filipa”), com os meus votos de que esta cartilha lhe seja útil nesse mundo a que tanto quer pertencer. Mas talvez o seu mal, afinal, seja só falta de prendas.

Espírito natalício (2)


Ana Vidal,

Aproveito esta confissão do Jaa, mortinho por andar aos tiros aos dedos dos Pais-Natais, para fazer a minha própria catarse natalícia. É que também eu tenho um pecado a confessar: neste Natal transformei-me numa sádica torturadora de Meninos-Jesus. Pois é, leram bem. Tenho atenuantes, uma razão quase piedosa e tal, mas a tendência para o crimezinho jinglebélico é inegável, finalmente revelada por… um dedo acusador.

 

Desde que me conheço (muito antes da revelação desta perturbadora faceta de inquisidor espanhol) que em minha casa não há Natal sem um Menino Jesus de marfim que herdei, muito antigo e carregado de memórias de várias gerações. É uma figurinha delicada e sorridente, deitada sobre uma almofada bordada, igualmente de marfim. Um trabalho notável de um artesão inspirado. Desde que os meus filhos cresceram, dispenso o resto do presépio. Passo bem sem o pinheiro enfeitado, o Pai Natal, o trenó e as renas. Fujo a sete pés de laçarotes, bolas e luzinhas a piscar. Mas… Natal sem o meu Menino Jesus de marfim, não é Natal. Este ano, como sempre, lá fui buscar a caixa onde o guardo, envolto em algodão em rama para preservar o que ainda sobra das frágeis mãozinhas abertas e levantadas (mãe, porque é que todos os Meninos Jesus estão nesta posição? não se cansam? perguntou-me um dia o meu filho de seis anos, intrigado com o mistério) cujos dedos miniaturais, finos como agulhas, têm vindo a desaparecer ao longo dos anos. Levantei a tampa com a solenidade que o momento sempre exige, mas logo o ritual deu lugar a uma gargalhada: do fundo da sua nuvem de algodão, como a acusar-me da claustrofobia a que a condeno todo o ano, a sagrada criaturinha apontava-me o último dedo que lhe restava, por coincidência o dedo médio da mão direita, num óbvio gesto obsceno. Juraria que o sorriso angelical tinha qualquer coisa de trocista, mas é possível que a minha mente não ande muito católica por estes dias. Estaquei, hesitante, perante o dilema de exibir aquele despudor involuntário ou acabar de vez com o sofrimento e devolver-lhe a pureza infantil. Conheço a família que tenho, sei que o pobre Menino Jesus seria a chacota deste Natal. O que se seguiu teve mais de caridade cristã ou de sadismo? Nunca o saberei. Assobiando ligeiramente, como quem não quer a coisa, encostei o solitário dedinho malcriado ao tampo da mesa, e… ploc, o estalido ditou o fim da tortura. Depositei o Menino, definitivamente deficiente mas de novo inocente, na sua imaculada cama de palhinhas. E pronto: ficou garantida a dignidade deste Natal, embora tenha sonegado a todos um bom motivo de risota.

Milagre!!


Ana Vidal,

Aleluia, aleluia, os mortos ressuscitaram! Pelo menos, os daquele cemitério luxuoso que dava pelo nome de É tudo gente morta. A mim dá-me imenso jeito, porque eram amigos que eu visitava com gosto mas, convenhamos, não é muito confortável fazer sala entre jazigos e campas. Mas eles agora estão bem vivos, felizmente, embora ainda ligeiramente combalidos do atribulado regresso do reino dos mortos. A partir de quarta-feira, mais recompostos e já sem respiração assistida, voltam a receber em novos salões e prometem novidades. Escrever é triste, dizem eles. Então espero que nunca se alegrem, porque é sempre um gosto lê-los.

 

Para os mais impacientes, a casa ainda está em obras mas já dá para espreitar. Eu não resisti e fui lá meter o nariz. E gostei.

Uma questão de pele


Ana Vidal,

Algo está mal no reino da Dinamarca. Ou no de Espanha. Ou, talvez, apenas no meu reino interior. De outro modo, como explicar que um filme de Lars Von Trier me arrebate de tal maneira que o instalo de imediato no meu quadro de honra cinéfilo, e um filme de Pedro Almodóvar me deixe praticamente indiferente?

 

A minha história com Almodóvar é uma paixão antiga e sempre correspondida. Uma questão de pele. Nunca me decepcionou, nem na época dos delírios hiperbólicos (de que o expoente máximo é, para mim, “Tudo sobre a minha mãe”) nem depois, quando o estilo começou a ficar mais depurado e ele me ofereceu, generoso, “Habla con ella”, um dos filmes da minha vida. Depois desse, será muito difícil fazer melhor. Cada artista tem, com sorte, um momento sublime em que se transcende, e o deste espanhol iluminado aconteceu ao conseguir o milagre de transformar um crime repugnante num verdadeiro poema de amor e pureza, e assim, duma penada, redimir toda a humanidade.

 

Está muito longe dessa transcendência “A pele que habito” (uso a tradução literal do título porque a acho mais bonita) apesar da força contida das personagens, do bom gosto dos cenários e do guarda roupa, da beleza da música (Iglesias, who else?) e da extraordinária qualidade da fotografia. O filme é uma espécie de manta de retalhos – coerente com o tema, apesar de tudo – que me lembrou outras histórias: o eterno Frankenstein, o drama verídico da alemã Natascha Kampusch e o ambiente asséptico de Dead ringers (Cronemberg, lembram-se? Embora António Banderas esteja a anos-luz do maravilhoso Jeremy Irons, vai muito bem no seu papel), sem ter a originalidade ou a densidade dramática de nenhum deles. “A pele que habito” é uma história de vingança, de vingança requintada e servida comme il faut: fria. Tão fria, no caso, que tem de ser crioconservada em nitrogénio. Mas é também um feitiço que se vira contra o feiticeiro, revisitando outro clássico: Pigmalião.

 

Os velhos mitos e obsessões de estimação de Pedro Almodóvar marcam território uma vez mais: a transsexualidade, a violação, a morte e renascimento, o abandono, as máscaras. Acima de tudo, a tragédia inescapável do desconforto na própria pele. E tudo vem embrulhado num elegante papel brilhante. Mas… não consegui ver no filme mais do que um sofisticado exercício de estilo. Não, nada disto chega para prender à cadeira uma incondicional de Almodóvar como eu. Falta emoção. Falta humor. Falta Almodóvar.

 

Mitos urbanos


Ana Vidal,

       

 

É engraçado como nascem (ou se constroem?) os fenómenos mediáticos, que em pouco tempo se tornam virais. Pelo que tenho visto nos programas “No reservations”, só posso classificar Anthony Bourdain – em termos gastronómicos, pelo menos – como um perfeito alarve. Onde está a sensibilidade, o requinte ou a expertise que fazem um bom gourmet, em alguém que literalmente se entope de gorduras e cervejas até ao limite, como se isso fosse saber apreciar comida? E no entanto o homem virou inexplicavelmente um guru, uma figura que todos querem conhecer por onde passa. Poucos são os que se atrevem a contradizê-lo, o mundo presta-lhe vassalagem. Bem sei, há os livros, que têm piada. Mas isso não é o mesmo que saber comer, nem chega para fazer do autor uma autoridade em gastronomia. Mais: é um insulto aos que o são, de pleno direito.


Com a delicadeza do costume, posou para a Playboy e disse isto na entrevista: “Learn how to cook a fucking omelet. I mean, what nicer thing can you do for somebody than make them breakfast? You look good doing it, and it’s a nice thing to do for somebody you just had sex with.”

 

Nota: Sobre o objectivo do programa que veio gravar a Portugal, esclareceu: “O que me interessa é saber onde é que vocês vão às duas da manhã quando estão bêbados.” Não vale a pena embandeirarmos em arco com a sorte de termos despertado a atenção de Bourdain: temo o pior quanto à imagem que vai passar ao mundo sobre nós e a nossa gastronomia…