Algo está mal no reino da Dinamarca. Ou no de Espanha. Ou, talvez, apenas no meu reino interior. De outro modo, como explicar que um filme de Lars Von Trier me arrebate de tal maneira que o instalo de imediato no meu quadro de honra cinéfilo, e um filme de Pedro Almodóvar me deixe praticamente indiferente?
A minha história com Almodóvar é uma paixão antiga e sempre correspondida. Uma questão de pele. Nunca me decepcionou, nem na época dos delírios hiperbólicos (de que o expoente máximo é, para mim, “Tudo sobre a minha mãe”) nem depois, quando o estilo começou a ficar mais depurado e ele me ofereceu, generoso, “Habla con ella”, um dos filmes da minha vida. Depois desse, será muito difícil fazer melhor. Cada artista tem, com sorte, um momento sublime em que se transcende, e o deste espanhol iluminado aconteceu ao conseguir o milagre de transformar um crime repugnante num verdadeiro poema de amor e pureza, e assim, duma penada, redimir toda a humanidade.
Está muito longe dessa transcendência “A pele que habito” (uso a tradução literal do título porque a acho mais bonita) apesar da força contida das personagens, do bom gosto dos cenários e do guarda roupa, da beleza da música (Iglesias, who else?) e da extraordinária qualidade da fotografia. O filme é uma espécie de manta de retalhos – coerente com o tema, apesar de tudo – que me lembrou outras histórias: o eterno Frankenstein, o drama verídico da alemã Natascha Kampusch e o ambiente asséptico de Dead ringers (Cronemberg, lembram-se? Embora António Banderas esteja a anos-luz do maravilhoso Jeremy Irons, vai muito bem no seu papel), sem ter a originalidade ou a densidade dramática de nenhum deles. “A pele que habito” é uma história de vingança, de vingança requintada e servida comme il faut: fria. Tão fria, no caso, que tem de ser crioconservada em nitrogénio. Mas é também um feitiço que se vira contra o feiticeiro, revisitando outro clássico: Pigmalião.
Os velhos mitos e obsessões de estimação de Pedro Almodóvar marcam território uma vez mais: a transsexualidade, a violação, a morte e renascimento, o abandono, as máscaras. Acima de tudo, a tragédia inescapável do desconforto na própria pele. E tudo vem embrulhado num elegante papel brilhante. Mas… não consegui ver no filme mais do que um sofisticado exercício de estilo. Não, nada disto chega para prender à cadeira uma incondicional de Almodóvar como eu. Falta emoção. Falta humor. Falta Almodóvar.

Ou Almodóvar é um produto para tempos em que se está no cimo da onda…ou bolha?
Ou então deixou de conseguir inovar nas variações sobre o mesmo tema.
Explique lá isso melhor, Lucklucky, que não percebi.
🙂 Julgo que se refere ao primeiro parágrafo que ficou um quanto críptico.
Quis dizer que uma das hipóteses pode ser que as preocupações de hoje não se consigam rever nos filmes de Almodóvar. Assim como o Bloco de Esquerda e as causas fracturantes devaneios de tempos “ricos”.
Não consigo nem quero fazer esses paralelismos entre bom cinema e a pobreza da política nacional, Lucklucky. Lamento. É de arte que falo, de um simbolismo que vai muito além do nosso infeliz presente, que o antecede e que durará, tenho a certeza, muito para além dele.
O Almodôvar devia inspirar-se no ciclo da pele das cobras…
Ele gosta de forçar a natureza, João… 🙂
Concordo, Ana. Mas a natureza prega muitas partidas…
Concordo totalmente consigo: Nothing compares to Melancholia.
Bom fds:)
Nestes dois casos, Ana, gostei muito mais de Melancholia. Mas se me derem a escolher entre a obra de Almodóvar e a de Lars Von Trier, escolho a primeira sem hesitar. 🙂
So do I! 🙂
Assisti maravilhada a todo o filme e no fim pensei que bonito nome escolhido para um planeta -Melancholia. Teria a ver com a melancolia que todos nós temos, com as nossas dúvidas e questões relacionadas com a existência da fé e o significado da vida? E o início do filme filmado em câmara lenta que nos dá tempo para reflectir e meditar sobre a nossa vida, o nosso modo de viver, a liberdade de ser e o mistério do nosso presente incerto… Lembrou-me de certa forma o filme “A Árvore da Vida” de Terrence Malick, não só pela temática como pelas imagens surpreendentes do cosmos e do universo. Viu, Ana?
Bj
http://www.youtube.com/watch?v=PlxZOOEHK 4o&feature=player_embedded
Ainda não vi nem um nem outro, mas algo me diz que vou concordar contigo. Pelo que li e ouvi este não será um dos filmes memoráveis de Almodovar. Também gosto muito desses dois filmes que citaste e do Volver, que embora não esteja ao mesmo nível, me tocou por várias razões de uma forma muito especial.
Também gostei do Volver. E fico com muita curiosidade de saber a tua opinião sobre os dois filmes, Teresa.
Ainda não vi o filme porque a minha filha viu e não gostou. Ora eu estou como a Ana: sou uma indefectível de Almodóvar e, muito particularmente, dos 2 filmes que refere. Desconfio que já não vou ver, para não ter uma decepção, como me aconteceu com o “Vicky Cristina Barcelona” e ainda (embora menos) com o «Midnight in Paris», ambos de Woody Allen…
Aproveito para desejar muito sucesso para o seu «Gente do Sul», que já vi que é um livro de contos (e eu gosto muito de contos) e, ainda por cima, tem uma capa belíssima. Parabéns! 🙂
Também achei o Vicky Cristina Barcelona uma verdadeira chachada, Nicolina. Do último Woody Allen gostei, embora ele tenha filmes muitíssimo melhores. mas é um filme ternurento e bonito, sobretudo.
Obrigada pelos parabéns, espero vê-la por lá. 😉