“Saltou da cama e entrou no quarto de banho, para se arranjar. O esposo já estava pronto, na cozinha, à espera dela. Tomou um duche rápido, penteou-se, passou um batom vermelho nos lábios. Depois vestiu uma calça justa, sapatos e mala a condizer e desceu finalmente. Usava a pulseira que ele lhe tinha oferecido como prenda de aniversário, linda e nada pirosa. Os meninos vieram despedir-se da mamã e do papá, que saíram então para trabalhar, no automóvel novo que estava estacionado à porta da vivenda. Ainda disseram tchau à moça que vivia em frente.“
Todos os grupos sociais têm os seus códigos de reconhecimento, de demarcação de território, exactamente como o jacto de urina deixado pelo leão nas árvores que circundam aquele que determina como seu. São códigos lineares, por razões de sobrevivência e de identificação de “espécie”, tanto mais rígidos quanto maior é a fragilidade desta e a sua ameaça de extinção.
Em Portugal, a mais velha aristocracia e a alta burguesia (refiro-me à que está enraizada no eixo Lisboa-Cascais, já que em outras regiões os códigos serão diferentes) regem-se por uma linguagem – chamemos-lhe uma cartilha – que define esse grupo específico, geralmente considerado como o dos eleitos entre os eleitos. Não falo daquilo a que as revistas cor-de-rosa chamam o jet set, isso é outra coisa. Aliás, uma “coisa” a que este grupo se orgulha de não pertencer, com quem não se dá e com quem não quer misturas. O dito jet set é, praticamente, a sua antítese. Porque este grupo não se distingue pela conta bancária ou pelos sinais exteriores de riqueza, muito pelo contrário: tanto pode ter (e tem, frequentemente) uma situação financeira precária, como uma fortuna sólida, mas nesse caso sempre discreta e gozada longe dos olhares públicos. E a exibição do estatuto é tão condenatória como o uso de expressões erradas, que determinam a exclusão social dos incautos. É uma ditadura de palavras: as autorizadas e as impronunciáveis, as que podem conferir aos forasteiros um passaporte para “o meio” (ainda que sempre sob reserva) e as que podem levar à liminar expulsão, sem apelo nem agravo. As palavras proibidas são como nódoas de vinho tinto em alva toalha de linho, mesmo que já rasgada nos ajurs. Uma espécie de acordo ortográfico privado – embora se aplique praticamente só à expressão oral – de um Olimpo urbano e sofisticado que sempre reclamou para si um léxico especial. Um léxico sine qua non.
A cartilha ainda vigora (hoje menos do que ontem, amanhã seguramente menos do que hoje) num território restrito, uma coutada onde se move uma espécie rara. Há quem dedique uma vida inteira a aprender a pisar esse campo minado, e chegue até a atravessá-lo com a destreza suficiente para pensar que, escapando às minas, enganou as sentinelas. Pura ilusão. Mesmo que nenhuma palavra traia o aventureiro, há sempre um qualquer pormenor que revela o esforço, a falta de naturalidade, o medo de ser apanhado. Teve-se berço na coutada ou fora dela, é simples. O poder da cartilha é o do irrefutável polegar de um imperador de Roma.
Vivo rodeada destes códigos há demasiado tempo para poder dar-me ao luxo de ignorá-los. Mais: por mimetismo ou bom ouvido vou cumprindo as regras, de forma automática, deixando-me alinhar sem grande resistência nesse exército vigilante e sempre atento ao que dizem os seus soldados. Atento à menor tentativa de deserção de um deles, e, mais ainda, atento às tentativas de infiltração de estranhos. Não combato militantemente os códigos, é certo, mas não deixo de achar ridícula a ditadura que eles impõem. A sua importância diz respeito a uma área geográfica de tal maneira limitada, que chega a ser risível: meia dúzia de quilómetros para além do perímetro, e perdem a validade. Dois passos fora do país e da língua portuguesa, e já não classificam ou desclassificam ninguém. Mas a verdade é que foram demasiados os anos em que estivemos fechados em nós próprios, olhando só o nosso precioso umbigo e desconhecendo a vastidão dos mundos que há para além dele.
Por mim, prefiro outras formas de avaliação menos fúteis e, sobretudo, mais fiáveis. Aquelas que agregam pessoas pela partilha de valores e princípios, de interesses e de gostos, enfim, por qualquer outro critério que não o da armadilha da expressão oral. E vejo, com satisfação, que a miscigenação das classes sociais tem vindo a ganhar terreno de forma saudável e natural. Tudo se vai ajustando. Não são alheias a este facto a diluição de fronteiras e a diversidade de culturas que hoje em dia convivem com a nossa. Os tiques de classe vão, aos poucos, perdendo o seu peso. E ainda bem.
Nota 1: O texto a azul, em cima, foi escrito propositadamente com as tais palavras proibidas. Para quem estiver interessado e ainda ache que vale a pena o esforço, aqui ficam as palavras aprovadas, que devem substituir as que estão a itálico (pela mesma ordem): casa de banho; marido; encarnado; boca/beiços; calças; carteira; presente; anos; possidónia; os miúdos/as crianças; mãe; pai; carro; casa; adeus; rapariga.
Nota 2: Post reeditado, desta vez dedicado a uma certa comentadora do Delito (que assina “Filipa”), com os meus votos de que esta cartilha lhe seja útil nesse mundo a que tanto quer pertencer. Mas talvez o seu mal, afinal, seja só falta de prendas.


Essas cartilhas apenas traduzem a fragilidade intelectual dos seus portadores, que preferem dividir o mundo entre uns supostos “nós” e outros supostos “eles” e proteger-se dos supostos “eles” com cercas que apenas aparentemente são invisíveis. Coitados… que apenas encontram a sua força quando actuam em matilha ou sussurram nos corredores. Coitados mesmo, porque não são eles e elas dos “eles”, nem nunca o serão, os construtores de futuros. Pelo menos dos futuros que vale a pena considerar para os mais novos. Estrelinha que os guie.
Os códigos são uma instituição antiga e eficaz, José António. Têm a sua função e existem em todos os grupos sociais. O mundo animal rege-se por eles, e não é por acaso: são formas de identificação e preservação. O que convém é sabermos separar as águas e usarmos a nossa inteligência de racionais para não deixar que eles nos escravizem. Aí é que está o problema.
Mais uma vez, parabéns por este seu post. Não tenho a certeza quanto às palavras que seleccionou, mas que, entre essa gente, há um código, há, sobretudo de conduta. E fique a saber que o que escreveu, para o eixo Lisboa-Cascais, se aplica, sem tirar nem pôr, à Foz, na cidade do Porto.
Escrevi sobre o que conheço melhor, Tiro ao Alvo. No Porto deve haver diferenças, como em outros pontos do país. Mas tem razão quanto a uma certa unidade nos grupos mais elitistas, e a Foz é um deles.
Quanto a códigos de conduta, isso já são outros quinhentos…
Querida Ana, dois almoços! Belo texto. E obrigada pela ironia, às vezes a ironia faz falta mas são poucos os que a usam tão bem quanto tu:) beijos
Beijos 🙂
(e almoços só de dieta, a partir de 1 de Janeiro!) lol
Ó caraças, Ana, sabes que eu e esse tipo de códigos temos uma relação um bocado… como dizer? distante!?!? Mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que gostei do post e do texto.
Ainda bem que gostaste, Mike. E fazes muito bem em não dar confiança aos códigos… só têm a importância que queremos dar-lhes.
Excelente texto, Ana. Gostei muito. Aplica-se, de facto, a muita gente, e não só nessa redoma geográfica.
Esta frase, então, é lapidar: “tanto mais rígidos quanto maior é a fragilidade desta e a sua ameaça de extinção.”.
Alguns desses códigos tem o seu mérito. Percebe-se a oposição à ostentação de riqueza na substituição de “vivenda” por “casa”. No fundo é como hoje em dia dizer o meu “telemóvel” em vez de o meu “iphone”. Já outros códigos – a maioria – são espúrios, quando não simplesmente mau português.
O mais engraçado é mesmo, já o pensei muitas vezes, é que estes códigos, “dois passos fora do país e da língua portuguesa, e já não classificam ou desclassificam ninguém”.
Isso mesmo, Zé Maria. E estás a comprová-lo todos os dias, nesse exagero de distância geográfica… também não era preciso tanto! 🙂
Magnifique, mademoiselle Anne!
(falar francês também é bem, ou já passou de moda?)
“A pose mais difícil é a naturalidade” ensinaram-me essa frase do Balzac em menina (ups!) criança. Nunca mais a esqueci porque nas mais variadas situações constatei que quem consegue assumir-se com naturalidade distingue-se. Até nesses meios. Mas não é para todos, é difícil como o diabo. Exige muita auto-estima, segurança e classe.
A naturalidade é o grande segredo, Teresa! Mas, como dizes, não é para todos… é preciso ter essas 3 coisas, que não abundam. 🙂
Claro que sim, Ivone! Um galicismozinho a la Eça cai sempre bem e nunca passa de moda, até porque há cada vez menos gente a saber o que significa… 😉
Talvez explicar o porquê de se dizer de uma maneira e não de outra. O que agora se chama um código é apenas falar português sem pretensões e as mais das vezes, correcto. O possidónio é o falar pretensioso que apareceu no séc. XIX dos que achavam que os termos populares eram pouco «finos» e os quiseram substituir por outros: «suar» soava-lhes mal e diziam «transpirar» ou coisa semelhante, o mesmo para vermelho em vez de encarnado. O que acontece é que depois diziam coisas disparatadas: encarnado é uma cor – a cor de carne quando se fica corado e é diferente do vermelho que é outra cor, mais escuro, quase sangue de boi. Prenda, por exemplo, é uma qualidade. Por isso é pouco simpático, no mínimo, dizer que se dá uma qualidade: é presumir que temos uma coisa que a outra pessoa não tem. Dá-se uma coisa, de presente, ou para nos fazer presente e por isso se diz assim. Afinal, é um pouco idiota, falar «técnico» e não usar o português. Para quê dizer automóvel em vez de carro? Guiar o carro é muito mais simples do que “conduzir o automóvel” – ou a “viatura” aahaha.
A regra – que não existe – é falar normalmente e não ser muito explicado e solene, que não é preciso.
Depois, também não se preocupar muito, que em Portugal toda a gente conhece toda a gente ou, pelo menos, um primo.
O que estava o marido a fazer na cozinha?
Tem razão em parte, João, mas nem sempre a razão é o português mais correcto ou mais simples. Dou-lhe três exemplos: “carteira” (de senhora), em português também significa carteira (de dinheiro) e é tão correcto ou tão incorrecto como “mala”, que por sua vez também significa mala de viagem; “sanita” é uma corruptela de Sanitas (uma marca de vasos sanitários que significa “saúde” em latim e acabou por nomear o objecto, tal como gillette em relação à lâmina de barbear), e portanto tão certa ou tão errada como “retrete” (a palavra considerada aceitável), que é um galicismo e por sua vez uma corruptela de “retraite” (reforma em francês). “Pia” sempre está mais correcto, ao menos é a palavra portuguesa para o mesmo objecto; “vermelho” é proibido nesta cartilha porque tem conotação política (com o comunismo, mais exactamente) já que quem a usa é maioritariamente de direita, e não por outra razão.
Concordo que a linguagem tem vindo a ficar desnecessariamente pretensiosa, mas são modas e sempre as houve. Os estrangeirismos, sempre muito usados e bem aceites, nunca desclassificaram ninguém… e não eram, nem são, português correcto.
Carteira, de cartões (de visita), embora as senhoras hoje lá ponham tudo menos cartões. As carteiras de hoje descendem dessas, não das malas de viagem e por isso mala e carteira não são sinónimos… Sanita era uma marca, por isso era possidoninho . Retrete tem a origem que lhe dá, claro. As criadas privativas do paço eram as retretas », aportuguesamento de privadas.
O vermelho deve-se usar para designar as coisas dessa cor, como a sicupira vermelha que com algum pau-santo é uma óptima madeira para copeiros. Não se diga é que são encarnadas as coisas que são vermelhas (aos vermelhos que refere ouvia chamar rojos », à espanhola.
Quanto aos estrangeirismos sempre se usaram e tinham e têm graça misturados com o português sem pretensões.
A maioria das pessoas que conheço não sabe o motivo para dizer de uma maneira ou de outra, mas a verdade é que têm muito bom instinto para evitar o pretensiosismo.
E tudo isso é tão subjectivo, já reparou? 🙂
Já agora: não conhecia a sicupira vermelha (sempre a aprender). A sicupira que conheço – das arcas e paramenteiras – é quase preta e duríssima, menos sedosa do que o pau-santo ou o vinhático (este último, por sinal, tem uma cor avermelhada e linda). Todas estas madeiras exóticas vinham a servir de lastro nos navios das nossas descobertas, quando eles voltavam a Portugal. Graças a essa necessidade temos móveis tão bonitos e de tão boa qualidade.
Quanto às “carteiras”, as que se usam hoje em dia estão mais próximas em tamanho das malas de viagem do que das minúsculas pochettes que serviam para cartões… sendo assim, qual a expressão mais correcta, afinal?
Tem razão, há muitas sacristias com sucupiras. A vermelha
é mais clara do que a preta. Acha mesmo que carteiras e valises são a mesma coisa, ou está apenas imbuída do espírito da quadra?
João, segui a lógica do seu raciocínio: a questão do tamanho e da utilidade. Mas não me parece que seja grave a nomenclatura carteiral, e nem preciso de espírito especial para ver que são o mesmíssimo objecto, que aliás é hoje de uma variedade quase infinita em relação a essa época dos cartões de visita.
Vá lá, deixe-se contaminar pela quadra… 🙂
Mala é uma palavra feia, com um som feio. Quem diz mala parece-me a mim que é capaz de dizer «arranjo floral» ou seja, é capaz de tudo. Não transija com essa gente 🙂
Reparei agora que monopolizei um pouco e peço-lhe que me desculpe.
Bom Ano!
Bom ano novo para si também, João. E se for passar fora o “réveillon”, não se esqueça das carteiras de viagem… 🙂
As carteiras de viagem têm rodinhas e porta-fato? 🙂
Só as Louis Vuitton. 🙂
Ah, de marcas não sei, mas asseguro que o meu trolley com fateiro nunca seria com confundido com uma carteira 🙂
“Naus” era o que eu queria dizer, e não “navios”. Não tem nada que ver com códigos, é uma simples imprecisão histórica em que só agora reparei, ao reler os comentários deste post.
O código que nem é tanto de entrada mas de reconhecimento é um misto de coisas: desde a descontracção e o bom humor geral até à «rigidez» em certos assuntos – estar à mesa, por exemplo.
Por isso, podem até aprender «o que não se diz», que aquele estar à mesa tão parecido com um ataque de reumático não ajuda ninguém a ser considerado boa companhia.
Ora aí está um bom exemplo: não saber “estar à mesa”, segundo o código (e as regras, neste capítulo, são ainda mais complicadas do que as da linguagem), “não ajuda ninguém a ser considerado boa companhia”. E, no entanto, nada de mais injusto: ter os cotovelos na mesa (sem as mãos entrelaçadas, porque assim já não é condenável) ou o braço esquerdo no colo não impede ninguém de ser uma companhia divertida, culta e inteligente. Significa só que teve uma educação diferente. Códigos, mais uma vez.
Mas eu falava só de palavras. Gestos, atitudes e posturas dariam pano para mangas…
Cotovelos não são boa companhia de modo nenhum e nada mais desagradável que jantar com uma maneta.
Era uma folha pousada
no cotovelo do vento;
e pairava, deslumbrada,
entre morte e movimento.
Era uma folha: lembrava,
de tão frágil, o momento
em que a vida ficava
escrava do teu juramento.
Era uma folha: mais nada.
Antes fosse esquecimento!
(O David Mourão-Ferreira não concorda consigo quanto aos cotovelos… 🙂
Quanto a jantar com um maneta, mil vezes essa hipótese do que jantar com um emproado escorreito mas acéfalo…
Que opções tão extremadas e dramáticas! Nem estava a pensar num jantar a dois.
Nem eu. Estava a pensar em quantas vezes já me calhou em sorte uma companhia de mesa irrepreensível nas maneiras mas desértica nas ideias. Por isso prefiro a falta de um braço à falta de massa cinzenta…
boa companhia à mesa.
Ah, finalmente de acordo! Registo, com gosto. 🙂
Curiosamente, reagi instintivamente ao “quarto de banho”, porque era assim que a minha avó dizia. Mas é verdade que também dizia “retrete” e não “pia” (nunca pela cabeça lhe passaria dizer “sanita), o que só prova os limites geográficos e temporais dos ditos códigos. Assim sendo, eu fiquei um pouco entre duas cadeiras (c’est le cas de le dire) em relação ao objecto, porque também me recuso a “aprender” a dizer xícara em vez de chávena como alguns dos meus irmãos mais virados para o futuro.
Duma maneira geral divirto-me com esses códigos (suponho que uso a percentagem correcta suficiente para os meios por onde circulo e não faço questão nem tenho necessidade de me adaptar a outros mais exigentes) e encaro-os como um desses “atalhos” para organizar rapidamente informação em que os seres humanos são peritos. Só ultrapassam a minha tolerância quando passam nitidamente para o outro lado com as “PARteleiras”, o “CÔmigo” e quejandos.
Já agora, e porque às vezes pode ser útil, partilho aqui umas dicas anglófonas que me foram dadas por an old gentleman com quem muito me diverti na internet: não se diz “mirror” mas “looking glass”; não se diz “parfum” mas “scent” e, mais estranho ainda, não se diz “dessert” mas “pudding”.
Isabel, esse é outro tema interessante: para além da geografia, a idade muda tudo. A geração da minha mãe não diz “fotografia” mas “retrato”, que para as gerações mais novas passou a ser do domínio das artes plásticas. E podia dar-lhe outros exemplos, entre os quais essas “xícara” e “chávena”.
Mas vejo que temos exactamente a mesma posição em relação a estes códigos. Usamo-los q.b., por hábito ou simples conveniência, mas não somos escravas deles. Com o mau português também não transijo, isso é que não. “Parteleiras” é caso para despertar em mim instintos assassinos!
E obrigada por essas dicas anglófonas, hei-de lembrar-me delas no próximo jantar em Buckingham! 😉
Ah, os retratos dos PIquenos a que se sucederam as fotografias dos miúdos…
Quanto à explicação do vermelho/encarnado, sei não. Lembro-me duma ‘nina que protestava contra “o sinal vermelho”, que obviamente se devia dizer “o sinal encarnado”, isto numa época em que, garanto, ela nem sequer sonhava que existiam comunistas. Vá-se lá saber a razão. São sinais de reconhecimento, carimbos na testa, c’est tout.
Tal como as maneiras à mesa. Por mais que a minha mãe dissesse, com alguma razão mas só alguma, que se destinam a tornar a sessão agradável a todos os convivas… Basta ver as boas maneiras à mesa dos chineses, com arrotos e ossos espalhados à volta do prato, para perceber que tudo é relativo.
O que não me impede de ficar eriçada com algumas palavras e com alguns modos à mesa. Embora de vez em quando pense que talvez devesse dizer “a sua senhora” a algumas pessoas que se calhar se ofendem quando me refiro à “sua mulher”…
Eheheh. Também penso nisso às vezes, se ofendi alguém por dizer “a sua mulher”. Em todo o caso, esposa é que não! (e chamem-me snob se quiserem)
Retrato>fotografia>foto>pic… todos diferentes, todos iguais. 😉
E o “você”?
O “você”, só por si, daria um capítulo inteiro de um livro de etiqueta… e é das palavras mais traiçoeiras, Luckluky: tanto serve para o tratamento entre irmãos como para maridos, mulheres e filhos (e até para cães, segundo a Lili Caneças…), mas jamais para pais ou pessoas mais velhas. Geografia, mais uma vez, já que no Norte do país é um tratamento muito respeitoso. Até porque não podemos esquecer-nos de que deriva de “vossa mercê”.
Na escola o “você” é que indicava na maioria dos casos quem vinha da Linha. O resto tratava-se por tu.
Os Colegas de escola tratam-se por tu, sempre. Tratar por Vc um colega de escola é uma possidonice cretina. Mas se andar na escola com um irmao seu, pode continuar a tratá-lo por vc e os outros por tu.
Os vc é entre iguais, e mais novos. Mas uma coisa é tratar por vc outra é dizer mesmo vc, impensável para dizer aos pais, tios, avós.
J. e João são o mesmo comentador, certo?
Informadíssimo quanto aos códigos, não há que enganar.
somos sim 🙂
Penso que não podemos confundir o tratamento de uma pessoa na terceira pessoa, com a vulgarização do uso da palavra “você””. Até porque na maioria das vezes é má utilizada, à brasileira e como muleta. Exemplo:
“Você veio de almoçar fora?” Quando bastaria dizer ” Veio de almoçar fora?
A língua portuguesa privilegia muito o uso na terceira pessoa, mas o uso da palavra você é recente.
Sim, tem razão. O “você” do Brasil, aprendido nas novelas e com os brasileiros que vieram para cá, tem pouco mais de 30 anos na gíria nacional. Já o uso da palavra, no norte do país sobretudo, é antigo e respeitoso.
Ana, do melhor, lembraste-me o MEC, que escreveu uma vez uma crónica sobre estes códigos, mas não exactamente no mesmo tom. E como fizeste com os teus filhos? Deste-lhes uma sapatada quando foram à vivenda do amigo, cuja mamã tinha uma colecção de malas interminável? 🙂 Eis a chave do teste…
Ah, e esqueceste-te do código cumprimental (1 ou 2 ?)!
PS- gosto tanto, taaaaanto de dizer vermêlho e Pedro Passos Coêlho, de passar na rua do Quêlhas e de ir a Sortêlha apesar de me doer o joêlho. Faço muita questão da minha pronúncia coimbrã… Será porque está em vias de extinção (?)… 🙂
Os meus filhos têm a sorte de ter nascido numa época bem mais descontraída, Laura. Ainda bem. Conhecem os códigos (ou já só parte deles) mas não avaliam ninguém por esses parâmetros.
Uiii, os beijinhos… a eterna atrapalhação. Olha, eu danço conforme a música. E sigo esta cartilha: dois são poucos para dar às pessoas de quem gosto, e mesmo um já é de mais para as outras.
Ah, mas fazes muito bem em manter o teu sotaque! Isso chama-se classe e auto-confiança, como diz a Teresa… 😉
Sim, Ana, os códigos fazem parte da natureza humana e até por isso apreciei tanto o texto. Porém, frequentemente são superficiais e irrelevantes \’in the grander scheme of things\". E, frequentemente também, apenas resultam de preconceitos.
Claro que lhe dou razão, José António. E esses preconceitos podem impedir-nos de conhecer realmente as pessoas, o que é uma pena.
Não comento para entrar em polémicas. Comento só para te dizer que te esqueceste do “falecer”. E provavelmente de outros de que também não me lembro agora. :))))
Esqueci-me de muitos, claro, era só uma demonstração prática para uma candidata à coutada…
O diabo é que há excelentes piadas snobs. Olha, lembraste-me esta: “Os possidónios é que têm sorte. Falece-lhes alguém de vez em quando, mas nunca lhes morre ninguém!” 🙂
Ai, Aninha, o pior é que eu sei o nome do autor desse comentário! :)))
E já estou a rir.
Não sei quem é o autor (se já soube, não me lembro) mas olha que é bem antiga. 🙂
Só posso dar-te as iniciais, acho que serão suficientes: JS. ;)))
Brilhante, mas tão cagão!
Ah, o JS! Mas olha que não me parece que seja dele a piada original. Em todo o caso, ele, mais do que ninguém, devia ser comedido nestes assuntos… 🙂
Teresa, não te lembras porque provavelmente te esqueceste de tomar os medicamentos, eu também me esqueço sempre dos meus remédios 😉
E o talher, meu Deus, o talher? Quando acabamos de comer pousamo-los às 3 ou às 6h?! Ó angústia… Bem, em todo o caso ao meio-dia é que nunca :))
Se acabou mesmo, às 6, que dá mais jeito para o/a empregado tirar o prato.
Se vai repetir e está alguém a servir, 4 e 20. 🙂
Humm, não acho. Às 6 impede o empregado de travar os talheres com o polegar, não vão eles saltar e espetar-se no decote da madame! lol
Mas 4 e 20 é perfeito, sem dúvida.
Mas se às 6 é para isso mesmo, para segurarem melhor os talheres e ver-se também menos mão.
Às 4 e 20 já há quem deixe a final, mas às 8 e 20 é para continuar, o que cada vez mais sabem menos.
Oh, merci de vos enseignements, maître.🙂 Vê? Eis um código sibilino, esse. Vivo frequentemente entre os dois, 3.15 e 6.30 (o das 4.20 é consensual).
Eu vou pelas 6,30, permite retirar o prato mais discretamente, vê-se menos mão. Também é possível que exija mais treino do pessoal.
Para repetir são as 8h e 20, ou 20 para as 4.
As 4, 20 são um bom compromisso entre as 3 e as 6 e usaria, se fosse a jantares finos.
Vou deixar de usar relógio, é o mais seguro…
🙂
O que a Ana escreve é sempre bom. O que me admira é não saber quem é a Filipa… Essa mesmo, pois claro, a Filipa…
Obrigada, João. Não faço ideia de quem é a Filipa, mas sei que é completamente pateta e isso basta-me para não querer saber mais nada… 🙂
\"Meninos\" e perfeitamente aceitável.
Tenho pena que a Ana Vidal se sinta excluída mas a vida não e fácil.
lol
Desculpe a gargalhada instintiva, Jacinto Bettencourt. Saiu-me. E já agora podia ter assinado com o seu nome completo.
Excelente post, caríssima Ana! Este tema dá pano para mangas. No fundo, independentemente da legitimidade da existência desses códigos sociais, que, como a Ana refere, têm a sua função, o que é verdadeiramente desprezível é a presunção de estatuto artificial de muita gente desse eixo. Reportando-me à minha faixa etária, são a mais das vezes cheios de si por viverem na Av. Roma, na Lapa ou em Cascais e por terem frequentado os melhores colégios e a Católica ou outras universidades com ambiente social semelhante (FDL, Nova de Economia), mas apesar de toda essa alegada superioridade, muitos são verdadeiramente acéfalos, escravos desses artificialismos e tratam a língua portuguesa escrita a pontapé, o que me incomoda seriamente. Mais, algo que alguns poderiam julgar ser uma relíquia histórica, a importância do nome, é basilar para a pobre existência destes indivíduos. Ainda há pouco tempo, em conversa com um amigo, mostrava-lhe eu a fotografia de uma amiga com quem ia sair quando ele me responde: “É muito gira, mas o nome…”. E também aqui há uns anos, numa conversa em que se falava de nomes, dizia outro amigo que se tivesse que dar um nome que permitisse ao filho dar-se bem na vida o faria, nem que fosse buscar um apelido oitocentista de algum antepassado. Eu retorqui alto e bom som para todos os que estavam à mesa: “Têm a noção que essa ideia é verdadeiramente abjecta?” A reacção foi o silêncio. Há uns dias falava com um amigo sobre estes assuntos e colocávamos a hipótese de estes modos afectados serem essencialmente derivados da influência francesa que se fez sentir a partir do séc. XIX. Aliás, Somerset Maugham em Servidão Humana insurge-se constantemente contra os modos afectados que também contagiaram a Inglaterra. E como também há uns dias me dizia uma personalidade conhecida da nossa praça, pior que isso só aqueles que, como a Ana aflora no post, pretendem entrar nessa coutada e que julgam que o dinheiro lhes granjeia estatuto, como os Dias Loureiro, Armandos Vara, e Duartes Lima do regime, que arranjam logo casa onde parece bem assim que podem. Embora não deixe de ser engraçado assistir a uma certa deferência no trato dos que pertencem originalmente a essa coutada em relação aos recém-chegados. Enfim, no meio disto, parece-me salutar uma passagem de Havel que o João Gonçalves relembrou por estes dias: «The only thing I can recommend at this stage is a sense of …humor, an ability to see things in their ridiculous and absurd dimensions, to laugh at others and at ourselves, a sense of irony regarding everything that calls out for parody in this world. In other words, I can only recommend perspective and distance. Awareness of all the most dangerous kinds of vanity, both in others and in ourselves. A good mind. A modest certainty about the meaning of things. Gratitude for the gift of life and the courage to take responsability for it. Vigilance of spirit.»
Olá, Samuel! Long time no read… 🙂
Na verdade não tenho nada contra os códigos de identificação, em princípio (são naturais e fazem parte da natureza humana), e desengane-se quem acha que eles existem só neste grupo social. Há muitos outros: os da suposta elite intelectual, por exemplo, são tão violentos e exclusivos quanto este que citei. O que digo é que uns e outros não devem servir para criar guetos intransponíveis – e aí é que está todo o problema – ou como critério de avaliação de pessoas, o que é ainda mais perigoso e falível.
Enfim, quanto aos seus exemplos, eu diria que um nome de família só tem verdadeira importância se a razão do orgulho for honrá-lo, e não usá-lo como preguiçosa senha de entrada automática seja onde for. E que a velha Lapa (um bairro bem pequeno, por sinal) ocupa, hoje em dia, uma parte significativa de Lisboa… a trapaça começa logo nos vendedores imobiliários, que aproveitam as fraquezas dos candidatos para lhes impingirem a ideia de que a Lapa vai até à casa que lhes querem vender por preços astronómicos. Tudo isto é ridículo, pelo que o conselho de Havel é utilíssimo: o sentido de humor e o sentido das proporções são a melhor bagagem de uma mente aberta. E muita vigilância, para evitar as escorregadelas para que todos temos tendência.
Um beijo!
Subscrevo 🙂 Aliás, arrisco-me até a dizer que os códigos da elite intelectual são muitas vezes mais violentos e exclusivos que os que citou. Enfim, como diria Oscar Wilde num dos seus célebres paradoxos, só uma pessoa muito fútil é que não avalia aparências, embora estas não devam ser exclusivas na avaliação de pessoas.
Quanto aos nomes, infelizmente os exemplos mais próximos que tenho são precisamente os daqueles que pretendem utilizá-los como senha de entrada automática em diversos meios – até no laboral. Parece-me haver uma relação qualquer entre as próprias virtudes e capacidades de cada pessoa e a tendência para se fazer valer desses artificialismos quando sabe que a pouco mais se pode agarrar para se afirmar.
Um beijinho
P.S. – Apesar de já não ter tanta paciência como outrora para ler blogs, o Delito é uma das minhas poucas paragens obrigatórias, pela Ana e não só 😉
O velho Oscar, sempre imbatível. 🙂
Obrigada por visitar-nos, Samuel. Eu também já quase não leio a blogosfera, e às vezes tenho pena porque há óptimos textos por aí.
Olá Ana,
Precisava da sua ajuda e de umas dicas.
Sou publicitária (headliner) e estou a trabalhar numa campanha com uma personagem conservadora… de família, de Cascais.
Não de usa em hipótese alguma menino/menina? Como se referem ás outras crianças? Aquele…rapaz?
Morrer em vez de falecer… já percebi. E o que dizemos à família … sentimentos?Palavras e expressões proibidas?
Já agora se me quiser sugerir um nome para a personagem agradecia.
Um, apenas um Beijinho e muito obrigada.
(Se a campanha avançar logo lhe digo)
Olá Sara. Desculpe a demora na resposta mas este post é antigo e eu não tenho vindo aqui muito, só dei pelo seu comentário agora.
Vamos lá: em vez de menino/menina use rapaz/rapariga, se não for uma criança muito pequena. Se for, use miúdo/miúda ou simplesmente “criança”. Num enterro ou velório o melhor é dar-se um beijo ou um abraço silencioso, mais gestos do que palavras. Mas a personagem pode dizer “os meus sentimentos”, não vem mal ao mundo por causa disso. Quanto a nomes, se quer marcar bem a classe social use Afonso, Salvador, Martim, Bernardo… mas pode ser qualquer um desde que seja português, de preferência antigo.
Espero ter ajudado, mas é difícil sem saber o texto exacto. Mande-mo por mail (portadovento@sapo.pt) se quiser, e eu ajudo-a mais especificamente.
Beijinhos vários, que isso é coisa em que não se deve ser forreta. 🙂
Olá Ana,
Deixo-lhe aqui o tal apontamento:
https://geneall.net/pt/forum/14161/lei-d
Bfs