Desde As Horas que um filme não me perturbava tão profundamente como Melancholia, que a Cláudia já citou aqui. Mas não foi só a perfeição, técnica e estética (que raramente me chegam para gostar de um filme), o que mais me impressionou no último filme de Lars von Trier. Nem sequer a história propriamente dita, por muito desafiante que seja o mote: a iminência do fim do mundo pelo choque de um planeta com a Terra. No entanto, o que primeiro nos arrebata e nos agarra logo, sem remédio, é um pouco de tudo isto: dez longos minutos de uma beleza arrasadora numa sequência de quadros em câmara lenta, ainda incompreensíveis mas já muito inquietantes, que nos são oferecidos ao som do prelúdio de Tristão e Isolda, de Wagner. A densidade dramática da música, tão bela quanto terrível, é magistralmente aproveitada pelas imagens, num crescendo de tensão e angústia que prenunciam uma hora e meia de inescapável prisão. O cenário está à altura: um imponente castelo de pedra, pesado, gótico, igualmente asfixiante, que se prolonga em relva até um horizonte aquático envolto em bruma. A partir daí ficamos à espera do pior, e nem a divertida cena inicial, aparentemente leve, nos sossega. Nunca mais teremos sossego, aliás.
Não vou contar-vos aqui o filme, porque acho que ele merece ser visto em estado de expectativa. Mas dir-vos-ei que depressa esquecemos a beleza, embora ela esteja sempre presente, para mergulharmos num mundo obsidiante em que o luxo mede forças com o desespero e com a infelicidade extrema.
Comecei por comparar Melancholia com As Horas, e não foi por acaso: As Horas oferece-nos uma análise da infelicidade extrema dos inadaptados sociais, tendo como novidade o prisma de uma outra infelicidade: a das pessoas ditas “normais” que os amam e deles cuidam, sofrendo tanto ou mais do que eles e não tendo, sequer, o bálsamo da loucura ou da genialidade. Melancholia acrescenta a esta tese uma lição extra, que desconcerta pela surpresa: as tais pessoas ditas “normais”, controladas e muitas vezes controladoras, são afinal as menos preparadas para aceitar circunstâncias que fogem ao seu domínio. Em situações extremas em que falham os seus rituais de apoio, desmoronam e revelam toda a sua fragilidade, tanto mais insuportável quanto mais as obriga a uma exposição inesperada. A perda do controle da normalidade pode ser ainda mais dolorosa do que a própria loucura dos desajustados, que vê num fim trágico e inevitável a única libertação.
Resta-me falar da representação insuperável de Kirsten Dunst (no papel de Justine, uma mulher em profundo desvio que tenta desesperadamente, numa luta inglória, inserir-se na normalidade) e de Charlotte Gainsbourg (no papel de Claire, a irmã politicamente correcta que esconde as suas fragilidades numa vida aparentemente perfeita). Ambas ganharam, merecidamente, o prémio de “melhor actriz” em Cannes, nos dois últimos filmes de Lars von Trier. As personagens secundárias estão também muito bem entregues a Kiefer Sutherland (o milionário e astrónomo amador, marido de Claire), John Hurt (o inconsequente pai de Justine e Claire) e Charlotte Rampling (a gelada e azeda mãe). Todos são, afinal, profundamente infelizes. Mas há uma subtileza: os homens são implacavelmente rotulados de cobardes, incapazes de estar à altura do seu papel quando tudo corre mal. São as mulheres, cada uma à sua maneira, quem dá o peito às balas quando o drama se impõe. Talvez isto diga muito, afinal, sobre Lars von Trier, ele próprio um fóbico depressivo que soube tardiamente que o seu pai biológico não era aquele que conhecia como tal.
Melancholia é um filme que nos desvenda abismos interiores, fantasmas viscerais que dormem no fundo de nós e só esperam um pretexto para serem acordados. Se esse pretexto é um planeta em rota de colisão com a Terra ou outra coisa qualquer, pouco importa. O que está em causa é a nossa aparente e sempre tão ilusória segurança. Em causa estamos nós próprios, cada um de nós e a nossa mais funda circunstância.











