Pátria


Ana Vidal,

Por um país de pedra e vento duro

Por um país de luz perfeita e clara

Pelo negro da terra e pelo branco do muro

 

Pelos rostos de silêncio e de paciência

Que a miséria longamente desenhou

Rente aos ossos com toda a exactidão

Dum longo relatório irrecusável

 

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

 

E pela limpidez das tão amadas

Palavras sempre ditas com paixão

Pela cor e pelo peso das palavras

Pelo concreto silêncio limpo das palavras

Donde se erguem as coisas nomeadas

Pela nudez das palavras deslumbradas

 

– Pedra rio vento casa

Pranto dia canto alento

Espaço raiz e água

ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar

E o exílio se inscreve em pleno tempo.

 

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

13 comentários em “Pátria”

    1. Pátria

      Soube a definição na minha infãncia.
      Mas o tempo apagou
      As linhas que no mapa da memória
      A mestra palmatória
      Desenhou.

      Hoje sei apenas gostar
      Duma nesga de terra
      Debruada de mar.

      Também gosto desta, de Torga. Coisas…

  1. Fundo do mar

    No fundo do mar há brancos pavores,
    Onde as plantas são animais
    E os animais são flores.

    Mundo silencioso que não atinge
    A agitação das ondas.
    Abrem-se rindo conchas redondas,
    Baloiça o cavalo-marinho.
    Um polvo avança
    No desalinho
    Dos seus mil braços,
    Uma flor dança,
    Sem ruído vibram os espaços.

    Sobre a areia o tempo poisa
    Leve como um lenço.

    Mas por mais bela que seja cada coisa
    Tem um monstro em si suspenso.

    (Sophia de Mello Breyner Andresen)

    … por mais bela que seja…

    1. A mestria poética que é precisa para acrescentar essa conclusão esmagadora a um poeminha quase infantil! Os brancos pavores ficam claramente explicados, assim como o transformismo de flores e animais. Sophia é genial.

  2. Um poema muito bonito, neste dia que já muitos ignoram o que celebramos.
    O último comemorado em dia próprio…

  3. Na foto a Nau dos Corvos, rochedo adjacente ao Cabo Carvoeiro (Peniche). No horizonte a ilha da Berlenga, quase imperceptível devido à neblina.

    (perdoe-me a intromissão mas é a minha terra…)

    1. Justíssima referência, JP. O Baleal, mesmo ao lado, foi também a “minha terra” de adopção no Verão durante muitos anos. E toda essa zona se transformou numa paixão eterna para mim.
      Não foi por acaso que escolhi esta imagem: na Nau dos Corvos, é Portugal inteiro que se faz ao mar.
      Obrigada pela achega.

  4. Sophia é assim mesmo, perspicaz e patriota.

    Pedra rio vento casa
    Pranto dia canto alento
    Espaço raiz e água

    Com onze palavras Sophia definiu um povo com oitocentos anos de história.

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