Para além da perturbação estética causada pelas palavras mutiladas, que partilho com Gonçalo M. Tavares, há um erro grosseiro de avaliação por detrás do Acordo Ortográfico: ao contrário do que supõem os iluminados da “normalização” – o próprio conceito já assusta, se nos referimos à língua – as novas regras não eliminam, e ainda bem, as variantes semânticas que existem no uso das mesmas palavras, quer sejam escritas de forma idêntica ou não. As expressões idiomáticas locais traduzem e sublinham as diferenças entre países que partilham a mesma matriz linguística, e de uma língua falada em cinco continentes só pode esperar-se que seja, desejável e saudavelmente, diversa.
Dou um exemplo simples: estive recentemente no Brasil e passei duas semanas a tentar evitar usar a palavra “sítio” – recorrente no meu léxico habitual – porque causava a maior estranheza a quem me ouvia. Graças ao “Sítio do picapau amarelo”, acabei por lembrar-me de que a palavra significa, para os brasileiros, “quinta” ou “chácara”. E eu estive sempre em ambientes urbanos.

E suponho, Ana, que também não se terá por lá cruzado com muitas “raparigas”, pois não? É que parece que isso não é lá muito conveniente… ;-))
Hoje em dia já não é tão grave, Luís, mas continua a não ser muito simpático chamar “rapariga” a uma “menina”… 🙂
Chácara é um termo delicioso, muito usado no linguajar macaense antigo.
Também acho delicioso, mas não sabia desse uso macaense.
palavras mutiladas?
coisas de escritores, que se queixam tal qual qualquer pessoa se queixa quando “mexem” na sua rotina.
as palavras “nasceram” com a fala ou com a escrita?
o que surgiu primeiro?
“cidadão, tem a palavra…” e o cidadão fala ou escreve?
“palavras, leva-as o vento”…fazendo voar as folhas dos jornais?
escrever e ler serão, afinal, puros deleites visuais?
(curiosidade: ainda não ouvi opinião de invisuais sobre o acordo ortográfico).
é um texto mais belo se lido do que ouvido (porque quando lido são vistas ou tacteadas as palavras, uma a uma)?
palavras, uma a uma, sem ligação, nada são, senão isso: palavras para decoração.
Engana-se, Carlos, as palavras escritas não são só a rotina de escritores, são a rotina de todos os que não são analfabetos. As alterações afectam-nos a todos.
Curiosa, essa questão dos invisuais. Nunca tinha pensado nisso.
Cara Ana Vidal,
Há dias lastimava-se uma filóloga espanhola de que seria impossível uma reforma ortográfica, porque as pessoas, evidentemente, não permitiriam ( o acordo ortográfico que a Espanha celebrou com os demais países do castelhano altera 8 ou 9 palavras [sic] e é facultativo, claro está, por uma questão de respeito pelos utentes da língua – todo uma prática e vocabulário estranhos para nós!).
Não se lembrou ela do pobre Portugal: aqui tudo se aguenta. Mesmo depois do Malaca confessar abertamente “É que isto [o acordo] não é uma questão linguística, é uma questão política” [sic] – Expresso 29/Fev/2008 (e de política brasileira, acrescente-se), tudo continua de cócoras, enquanto a língua é vandalizada! Claro que há uma diferença entre Portugal e Espanha, uma diferença que se pode medir pelos 21 países (vinte e um países) [sic] que nos separam do país vizinho nos índices de literacia [pois é!], mas mesmo assim, analfabetozinhos, era preciso sermos tão abjectamente inermes, exercermos tão compenetradamente esta passividade de escravo, a que acrescentamos o fingir que não percebemos que o que essa gente quer cometer (a mudança da ortografia de dezenas de milhares de palavras e criação de outros tantos vocábulos) é algo de inédito que releva do monstruoso, apenas semelhante a actos considerados crimosos, como a russificação da Polónia pela Rússia czarista?
Em França, por uma tentativa de muito menos elevaram-se os protestos das faculdades, das editoras, os prémios Nobel franceses uniram-se num comunicado de rejeição. E aqui o que há são estas declarações cuidadosas e dúbias? Isto tem mesmo de ser tão mau? Perdemos de vez o sentido da decência?
A que declarações “cuidadosas e dúbias” se refere, VSC? Tenho ouvido e lido declarações bem vigorosas de quem está contra o AO, e a petição (ou petições, porque há mais do que uma em circulação) têm registado milhares de assinaturas. E aos escritores resta sempre a resistência passiva como protesto, uma arma muito eficaz: não escrever segundo a nova grafia, acrescentando aos seus livros uma declaração de intenções que os responsabilize pela transgressão de uma lei com que não concordam.
Referia-me, neste caso, às de Gonçalo M. Tavares.
Também assinei as petições e todos os dias protesto… E assinarei e ajudarei em tudo o que for feito para parar este crime contra o património cultural de Portugal.
Quanto às petições, assinadas pelo escol da intelectualidade portuguesa, confrontamo-nos com problemas de outra ordem, entre os quais avulta a total impunidade com que agem os políticos do país e a despudorada falta de respeito pelos eleitores (que advirá do facto de os deputados serem meros lacaios dos chefes dos partidos, em nada dependendo do voto). Já reparou que, havendo centenas de milhares de assinaturas de protesto contra este vandalismo, o «acordo» foi aprovado por quase unanimidade na «Assembleia da Repúbica»? Como podem as votações da Assembleia da República não reflectir minimamente todos esses movimentos?
É claro que a decisão é política, e é isso o que mais revolta. Há falta de respeito pelos eleitores, como diz, mas, ainda pior, uma total falta de respeito pela língua. O que se propõe não tem nada que ver com a evolução lógica e natural (essa é própria de uma língua que está viva), é a imposição de uma série de regras ilógicas e sem qualquer critério defensável. Enfim, há que denunciar isto o mais possível. É o que podemos fazer.
Uma Senadora brasileira Ana Amélia (PP-RS) quer audiência pública sobre o tema [acordo]. ducacao
http://www.redebrasilatual.com.br/temas/e
É bom ver a democracia, mesmo ao longe.
Já quanto aos “nossos” deputados, tenho uma única dúvida: como será que aguentam 4 anos de cócoras? É uma posição tão incómoda!
Parece-me que tocou em alguns pontos importantes, VSC, mas um deles tem especial destaque: o da confissão aberta do Malaca Casteleiro de que “isto [o acordo] não é uma questão linguística, é uma questão política”. Com efeito, julgo ser a primeira vez na história em que um acordo ortográfico é feito por políticos e não por linguistas. Fica assim, também, explicada a razão pela qual o acordo é aquilo que é e tem a “qualidade” que se lhe conhece. Se muitos e outros bons motivos não houvesse para nos opormos frontalmente a este autêntico disparate que é este acordo, só esta confissão patética e verdadeiramente vergonhosa, seria mais que suficiente para o efeito.
Numa curta pesquisa que fiz apurei que, actualmente, existirão em todo o mundo aproximadamente 55 países cuja língua oficial é o inglês. Decorrente desse facto, como todos sabemos, há múltiplas formas de falar e escrever o inglês. Passa pela cabeça de alguém minimamente sensato que a Velha Albion alguma vez tenha feito acordos ortográficos com tal miríade de países no sentido de harmonizar essa multiplicidade de expressões do inglês?
Não é que eu parta do princípio que uma língua, seja ela qual for, deva ser algo de imutável, deva, por assim dizer, ser “mumificada”. Não, de modo algum. As línguas, como estruturas de comunicação privilegiadas que são, estão, como tudo o mais, sujeitas às naturais evoluções dos tempos e das sociedades. O português que hoje falamos e escrevemos é já muito diferente do que se falava e escrevia no Sec. XIX ou mesmo até meados do Sec. XX. Agora, o que penso firmemente, é que nenhum acordo ortográfico pode nem deve ir a reboque de «questões políticas» e, muito menos, permitir que a língua original seja selvaticamente desfigurada por usos pouco rigorosos e permissivos dela feita em países terceiros que a querem ter como sua língua oficial.
Em minha opinião, não existe drama absolutamente nenhum em haver o português de Portugal e o português do Brasil. Eles devem, aliás, co-existir. Parece-me que esse ‘drama’, na verdade, só existe na cabeça desses políticos que, pelos vistos, agora também tratam de questões linguísticas.
Invisuais, Carlos? Cegos, não é? Pois. Os cegos não são os que menos vêem. Já agora: “palavras mutiladas” é uma expressão muitíssimo feliz para classificar a coisa.
Também embirro com a palavra “invisual”, por acaso. Não vejo em que é que “cego” possa ser depreciativo.
Só banalidades.
Os apologistas do «acordo» usam deste paternalismo. É um método retórico conhecido. “Qual quê? Milhares de palavras modificadas? Isso são pieguices de escritores, coisas lá deles (a pressupor que não o serão de gente de “trabalho séria e honesta”). O artifício poderá ter tido o seu impacto em sociedades rurais, como a de Portugal de 1911, onde a percentagem de analfabetos se aproximava dos 75% que hoje, entre clássicos e funcionais tem o Brasil).
E tão velho e ultrapassado quanto a concepção de que a oralidade “precede” a escrita… São ideias de há duzentos anos, como tudo o que na generalidade preside a este «acordo», mas que não somos obrigados a suportar. Todos já travámos conhecimento com palavras novas através da escrita e outras há que podemos nunca ter pronunciado mas apenas lido… Aliás, como ensina o Prof. António Emiliano, «é a aprendizagem da escrita que faz emergir a consciência fonológia e não o contrário» – “O fim da ortografia”, Guimarães Editores.
Do mesmo modo, seria interessante ler Ortografia, fonética e grafia de Vitor Guerreiro http://criticanarede.com/ed1.html de que colo aqui algumas coisas saborosas: «Parece que o próprio objectivo de aproximar a ortografia da fonética é uma ideia com credenciais lógicas duvidosas. A simplificação da escrita é tanto uma aproximação à fonética como a simplificação da notação musical é uma “aproximação” aos fenómenos acústicos — duas notações diferentes exprimem os mesmos fenómenos acústicos, a simplicidade da notação nada tem a ver com a relação entre notas e sons. Nem sequer podemos afirmar, portanto, que com os reformadores passámos à “ditadura da fonética”: a fonética de “filosofia” é compatível com uma ou outra grafia, a menos que no tempo de Eça de Queiroz os utentes do português pronunciassem “philosophia” como se estivessem a ler grego antigo. Tão-pouco os utentes do inglês pronunciam “philosophy” com a fonética grega antiga. Não lembra ao diabo que em inglês haja ou tenha havido uma cisão entre a fonética e a ortografia, porque simplesmente não há leis “fonográficas” estritas. É tão disparatado afirmar que escrever uma palavra com menos letras aproxima a grafia da fonética como afirmar que imaginar um cisne com menos penas torna a nossa imagem mental do cisne mais “próxima” do cisne real.»
Causava a maior estranheza pela falta de educação dos seus interlocutores – este brasileiro e outros com algum esmero em sua educação saberiam exatamente o significado pretendido. Isso nada tem a ver com os benefícios do acordo, que, de todo modo, é regra, lei e cumprir-se-á nos países em que esteja em vigor nos prazos determinados em cada país. É lindo ver o inconformismo em guerras perdidas, tem a sua graça e a sua luz.
Já cá andava a fazer-nos falta a iluminação da sua candeia…
As guerras são tanto mais perdidas quanto maior for o conformismo das pessoas perante imposições que não fazem sentido. Com o meu não contam, não dou vitórias de bandeja. Mas explique-me lá então quais são, para si, os benefícios do acordo?
Devo acrescentar que não costumo ter interlocutores mal educados nem os encontrei no Brasil. É absolutamente natural que uma palavra usada com outro sentido cause estranheza.
Dizer ao outro que combate uma causa perdida é um artifício retórico conhecido
É interessante reler e rever todos apetrechos retóricos, que na Europa são pouco usados com estas formas.
É uma técnica antiga, sim, a pressão psicológica sobre um pretenso vencido para fazê-lo desistir. Mas bateu à porta errada, eu não me deixo impressionar por maiorias.
Não são maiorias; e sim, acredito que não se deixe impressionar! 🙂
Como dizia Borges, um cavalheiro só se pode dedicar a causas perdidas.
Pois é, Javali. As causas perdidas são terrivelmente românticas… Mas espero que não seja o caso desta (perdida, porque romântica é)