Rousseau, do saint-just, do Vítor Hugo, e
o corpo não se mexia. Gritavam-lhe a liberdade,
a igualdade, a fraternidade, e a pobre morta
cheirava a cemitério, como se esperasse
autópsias que não vinham, relatórios, adêenes
que lhe dessem família e descendência. Esperei
que todos saíssem de ao pé dela, espreitei-lhe
o fundo de um olho, e vi que mexia. Peguei-lhe
na mão, pedi-lhe que acordasse, e vi-a tremer
os lábios, dizendo qualquer coisa. Um testamento?
a última verdade do mundo? «Que queres?»,
perguntei-lhe. E ela, quase viva: «Um cigarro!»
(Nuno Júdice, Democracia, in A Matéria do Poema, Dom Quixote)
Tão bom, não é? Vou roubar Ana. Beijos
Também o roubei, já não sei se a ti se à Cecília Andrade… 🙂
O poema do Nuno diz aquilo que todos sentimos neste momento, acho. Não pode ser mais actual. E a capa do livro é uma beleza. A Dom Quixote no seu melhor.
Mas no sítio em que a moribunda democracia se encontrava certamente que não era possível fumar…
Talvez fosse por isso que lhe apetecia tanto um cigarro, Carlos. Além do vício, também a nostalgia de alguma irreverência… 🙂
A poesia ainda é o que nos vai valendo…
Obrigada, Ana. Vou surripiar.
É mesmo, Nicolina. E vai dizendo muitas verdades também, não é?
Se isso é poesia, vou ali e já volto.
Vá, vá. E espero que esse “ali” seja uma livraria ou uma biblioteca. Não volte sem passar por uma delas, combinado?
Pois, pois.
Bom momento, Ana! Bom mesmo.