“Melancholia” ou os abismos interiores


Ana Vidal,

 

Desde As Horas que um filme não me perturbava tão profundamente como Melancholia, que a Cláudia já citou aqui. Mas não foi só a perfeição, técnica e estética (que raramente me chegam para gostar de um filme), o que mais me impressionou no último filme de Lars von Trier. Nem sequer a história propriamente dita, por muito desafiante que seja o mote: a iminência do fim do mundo pelo choque de um planeta com a Terra. No entanto, o que primeiro nos arrebata e nos agarra logo, sem remédio, é um pouco de tudo isto: dez longos minutos de uma beleza arrasadora numa sequência de quadros em câmara lenta, ainda incompreensíveis mas já muito inquietantes, que nos são oferecidos ao som do prelúdio de Tristão e Isolda, de Wagner. A densidade dramática da música, tão bela quanto terrível, é magistralmente aproveitada pelas imagens, num crescendo de tensão e angústia que prenunciam uma hora e meia de inescapável prisão. O cenário está à altura: um imponente castelo de pedra, pesado, gótico, igualmente asfixiante, que se prolonga em relva até um horizonte aquático envolto em bruma. A partir daí ficamos à espera do pior, e nem a divertida cena inicial, aparentemente leve, nos sossega. Nunca mais teremos sossego, aliás.

 

Não vou contar-vos aqui o filme, porque acho que ele merece ser visto em estado de expectativa. Mas dir-vos-ei que depressa esquecemos a beleza, embora ela esteja sempre presente, para mergulharmos num mundo obsidiante em que o luxo mede forças com o desespero e com a infelicidade extrema.

 

Comecei por comparar Melancholia com As Horas, e não foi por acaso: As Horas oferece-nos uma análise da infelicidade extrema dos inadaptados sociais, tendo como novidade o prisma de uma outra infelicidade: a das pessoas ditas “normais” que os amam e deles cuidam, sofrendo tanto ou mais do que eles e não tendo, sequer, o bálsamo da loucura ou da genialidade. Melancholia acrescenta a esta tese uma lição extra, que desconcerta pela surpresa: as tais pessoas ditas “normais”, controladas e muitas vezes controladoras, são afinal as menos preparadas para aceitar circunstâncias que fogem ao seu domínio. Em situações extremas em que falham os seus rituais de apoio, desmoronam e revelam toda a sua fragilidade, tanto mais insuportável quanto mais as obriga a uma exposição inesperada. A perda do controle da normalidade pode ser ainda mais dolorosa do que a própria loucura dos desajustados, que vê num fim trágico e inevitável a única libertação.

 

Resta-me falar da representação insuperável de Kirsten Dunst (no papel de Justine, uma mulher em profundo desvio que tenta desesperadamente, numa luta inglória, inserir-se na normalidade) e de Charlotte Gainsbourg (no papel de Claire, a irmã politicamente correcta que esconde as suas fragilidades numa vida aparentemente perfeita). Ambas ganharam, merecidamente, o prémio de “melhor actriz” em Cannes, nos dois últimos filmes de Lars von Trier. As personagens secundárias estão também muito bem entregues a Kiefer Sutherland (o milionário e astrónomo amador, marido de Claire), John Hurt (o inconsequente pai de Justine e Claire) e Charlotte Rampling (a gelada e azeda mãe). Todos são, afinal, profundamente infelizes. Mas há uma subtileza: os homens são implacavelmente rotulados de cobardes, incapazes de estar à altura do seu papel quando tudo corre mal. São as mulheres, cada uma à sua maneira, quem dá o peito às balas quando o drama se impõe. Talvez isto diga muito, afinal, sobre Lars von Trier, ele próprio um fóbico depressivo que soube tardiamente que o seu pai biológico não era aquele que conhecia como tal.

 

Melancholia é um filme que nos desvenda abismos interiores, fantasmas viscerais que dormem no fundo de nós e só esperam um pretexto para serem acordados. Se esse pretexto é um planeta em rota de colisão com a Terra ou outra coisa qualquer, pouco importa. O que está em causa é a nossa aparente e sempre tão ilusória segurança. Em causa estamos nós próprios, cada um de nós e a nossa mais funda circunstância.

21 comentários em ““Melancholia” ou os abismos interiores”

  1. “Mas há uma subtileza: os homens são implacavelmente rotulados de cobardes, incapazes de estar à altura das circunstâncias quando tudo corre mal.”

    Isso não é subtileza. Acontece em boa parte dos anuncios e séries.

  2. Curiosamente vi este filme sexta feira passada. E creia-me Ana, jamais vi um filme que me marcasse tanto. A fotografia, a música, aquela câmara a tremer… parece que estamos ali a viver “in loco” todos os acontecimentos.
    Como este filme só “A Balada de Narayama ” curiosamente vencedor de Cannes em 1984.

    1. Não vi esse, José. De quem é? Melancholia lembrou-me um outro filme, também dinamarquês, que nunca mais esqueci: A Festa, de Vinterberg. Tem o mesmo ambiente familiar opressivo, que nos incomoda e prende simultaneamente. Um grande filme também.

      1. Ana,

        O filme “A Balada de Narayama ” foi realizado por um japonês (já falecido) de nome Shoei Imamura.
        Nada tem a ver com este, mas é muito, muito bom!
        Quanto ao Melancholia vai, no meu blogue, passar para a secção de “Os filmes da minha vida”…

  3. Muito bem, Ana. As Horas é um dos meus filmes preferidos. A adaptação da obra ao cinema é excelente. Fiquei um bocado atravessada com as declarações do Lars von Trier, mas agora fiquei curiosa com o filme.

  4. Não vi ainda o filme, mas o teu post é uma beleza. Deviam traduzi-lo para dinamarquês e mandá-lo num mail ao Lars.
    Tenho de me apressar a ver o filme, essa ideia dos fantasmas que dormem à espera de pretexto para acordarem é-me muito cara.

  5. Foi precisamente o post de há dias da Cláudia Kover que me despertou a curiosidade de ir ver «Melancholia». Para mim, que não vi «As Horas», torna-se impossível estabelecer qualquer tipo de comparação entre ambos, pelo que abordarei apenas a impressão daquele que vi. O tema, que poderia bem ser o mote de um filme de ficção (a colisão de um planeta com a Terra), encontra-se em minha opinião, deficientemente enquadrado sob o ponto de vista científico, dado que deixa no ar a possibilidade de esse cataclismo não ser do conhecimento geral. Ora, como todos sabemos, no estado actual do conhecimento, uma eventualidade dessas seria conhecida com anos (senão décadas) de antecedência. Portanto, num mundo sob tal ameaça, seria impensável todo aquele desconhecimento público, toda aquela aparente calma perante uma tal tragédia a poucos dias ou horas dela ocorrer. Toda aquela “nave de loucos” que se concentra naquele evento, não poderia ali estar, alheada, como se o mundo não fosse acabar nas horas seguintes. Isso seria absoluta e humanamente impossível. Aparentemente, apenas três pessoas têm conhecimento e são perturbadas pelo cataclismo anunciado: Justine, que por ser louca, não lhe dá qualquer importância, (vendo até nele uma libertação), Claire, que sendo ‘normal’, se deixa tomar pelo inevitável pânico e John, que sabendo de tudo desde a primeira hora, tenta desesperadamente convencer a sua angustiada mulher (e talvez também a si próprio) que o inevitável poderá não ocorrer.
    Mas este “erro de cálculo” acerca da serenidade humana sob tais condições de Lars von Trier, em nada belisca a beleza e a perfeição técnica do filme que, sob diversos aspectos é exemplar. A faixa sonora é lindíssima, a fotografia excelente, o cenário (que só consigo encaixar numa Inglaterra rural abastada) é arrebatador. Mas tal como V. já disse, Ana, também eu não vou aqui contar o filme, pois não quero estragar as expectativas de quem está a pensar ir vê-lo. Os actores principais são quase todos muito bons, nada havendo a acrescentar àquilo que já referiu. Esqueceu-se apenas, quanto a mim, de referir nos papéis secundários o noivo (cujo nome não recordo), que tem também um desempenho interessante.
    Vão ver o filme, que decerto hão-de gostar.

    1. O castelo é na Suécia, Luís. Uma das fobias do Lars é o avião, o que o limita imenso em termos de escolha de cenários. Mas é curioso isso que diz sobre o desconhecimento das pessoas sobre o drama que se aproxima. Tem razão quanto às pessoas da festa, que se divertem como se nada se passasse, mas há uma alusão subtil ao conhecimento geral do caso nas consultas angustiadas ao computador de Claire e do filho. Habituados como estamos às cenas de pânico colectivo nos filmes americanos de catástrofes, estranhamos tanta contenção, é verdade. Mas não se esqueça de que os cientistas previam outro cenário, e mais não digo para não estragar a surpresa…

  6. Para o Lars Von Trier nem sempre tenho paciência. Já vi filmes dele que detestei (Dogville) e que me incomodaram mais do que me apetece ser incomodada por um filme (Ondas de Paixão). Estava apostada em não ver Melancholia até ler este teu post. Belo teaser! Agora tenho que ver 🙂

    1. E vão três. Os únicos filmes que tinha visto do Von Trier foram Dogville e aquele da Bjork, e não gostei de nenhum deles. Ainda estive tentada a ir ver o Anticristo, mas não tive coragem porque detesto violência explícita e filmes de terror.
      Este é diferente. Não só é um filme belíssimo, como está primorosamente representado e dá-nos lições preciosas sobre… nós próprios.

  7. Estás mais recomposta? 🙂 As Horas… arrepiante mas não conseguimos largar. Pronto… agora não há remédio, lá vou eu ver o filme e ter uns ataques de taquicardia, extra-sísitoles, espero não entrar em fibrilhação ventricular… se me der um treco a culpa é tua 😉

  8. Bom, eu vi ondas de paixão e deve ter sido dos filmes que mais me perturbou (a palavra certa é chocou) pela tensão com que fiquei durante o filme e depois.
    Ainda hoje me arrepia.
    Sem xanax, sinto-me tentada a ir ver este, depois do que li (sim, sim, se calhar gosto de sofrer…) 🙂

    1. Na minha opinião, vale a pena o esforço. Não é tão explicitamente violento como “Ondas de paixão”, neste a tensão é enorme mas é puramente psicológica.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *