A FÉ E AS MONTANHAS
No princípio a Fé removia montanhas só quando era absolutamente necessário, e por isso a paisagem permaneceu igual a si mesma durante milênios.
Porém, quando a Fé começou a propagar-se e as pessoas começaram a achar divertida a idéia de mover montanhas, estas não faziam outra coisa senão mudar de lugar, e cada vez era mais difícil encontrá-las no lugar em que a gente as tinha deixado na noite passada: coisa que se percebe, criava mais dificuldades do que as que resolvia.
A boa gente preferiu então abandonar a Fé, e agora as montanhas geralmente permanecem em seu lugar.
Quando numa estrada acontece um desmoronamento debaixo do qual morrem vários viajantes é porque alguém, muito longe ou por ali mesmo, teve uma ligeiríssima recaída de Fé.
(Augusto Monterroso, in “A ovelha negra e outras fábulas” – Tradução de Millôr Fernandes)

Ana, adorei o tom deliberadamente ingénuo do texto citado. Belíssimo.
Uma delícia, não é? E não podia ter encontrado melhor tradutor.
Excelente. Sempre demolidor, o grande Millôr.
Neste caso o Millôr só traduziu o texto, mas podia perfeitamente ter sido escrito por ele.
Claro. Demolidor q.b. bem ao seu jeito.
Já vão longe os tempos em que assim era, hoje, a fé foi… requalificada, renomeada… chamam-lhe “caixa de robalos”.
Mudam-se os nomes… movem-se as montanhas!
Uma versão moderna do milagre dos peixes, talvez.
O Millôr devia ser nomeado património imaterial da lusofonia.
Também acho, Pedro.