Até breve!


Ana Vidal,

De partida para o Brasil, onde vou para lançar este livro:

 

 

É este o programa das festas:

 

26 Outubro – Lançamento no Rio de Janeiro (cocktail no Jardim Botânico)

27 Outubro – Lançamento em S. Paulo (Câmara de Comércio, jantar de homenagem ao presidente português)

29 Outubro – Lançamento em S. Paulo (Casa Guilherme de Almeida, tertúlia literária)

 

Volto no princípio de Novembro. Até lá, sempre que puder prometo ir mandando notícias.

Deixo-vos alguns excertos do meu texto de introdução, que explicam sumariamente o livro.

 


Há muito tempo que versos e petiscos se cozinhavam na minha mente, em lume brando, como convém a uma receita que se quer apurada, insinuando no meu espírito aromas irresistíveis de cozinha de infância. Nasci numa família em que a gastronomia foi sempre – ao longo de gerações – um culto e um prazer, com honras de biblioteca e pesando, até, na escolha de itinerários de viagem. E o que pode haver de mais poético do que as memórias de um tempo em que tudo era assim, brando e promissor, sem pressas nem atropelos, apesar da sede imensa de uma vida inteira pela frente, por beber ainda?

 

Enquanto tudo se espera, tudo pode acontecer…

 

A ideia de reunir num mesmo livro duas das minhas paixões – a poesia e a gastronomia (na sua vertente culinária) – foi tomando forma naturalmente, deixando-me água na boca e na imaginação. Impunha-se encontrar uma fórmula original, que glorificasse igualmente as duas artes e as casasse harmoniosamente, prevenindo o risco de divórcio. Ambas são de personalidade forte e muita sensibilidade: nubentes difíceis, portanto. Mas possíveis, porque iluminadas pela mesma chama. Agostinho da Silva afirma-o, como ninguém, num dos seus pequenos e magníficos poemas:

 

A quem faz pão ou poema

só se muda o jeito à mão

e não o tema.

 

(…)  Inspirei-me ainda na ancestralidade desse misterioso, complexo e tantas vezes incompreendido universo feminino, a que naturalmente pertenço, expresso com golpe de asa e mestria neste verso de Ana Luísa Amaral:

 

E descascar ervilhas ao ritmo de um verso:

A prosódia da mão, a ervilha dançando

em redondilha.

 

Enfim, descoberta a fórmula – uma antologia de poesia lusófona, em que cada texto contivesse pelo menos uma referência culinária e esta pudesse dar origem a uma receita, lancei-me à saborosa tarefa da pesquisa de poemas. Encontrei, naturalmente, muitos mais do que os que constam neste livro, mas seria impossível apresentar aqui essa recolha exaustiva. A escolha dos poetas presentes nesta antologia não cedeu a quaisquer critérios ideológicos (políticos, religiosos ou outros). O único denominador comum que aqui se poderá deparar, além do tema, é a PALAVRA – e, por maioria de razão, a palavra poética – livre por natureza. Privilegiou-se, isso sim, uma representação tão abrangente quanto possível, no tempo, no espaço geográfico e no estilo. Por isso se encontrarão clássicos e desconhecidos, dispostos nestas páginas de forma propositadamente aleatória.

 

A qualidade dos poetas e dos poemas exigia igual rigor na escolha das receitas culinárias, razão pela qual elas foram entregues a alguns dos maiores magos da actual cozinha lusófona. Com as asas próprias dos artistas – e eles são-no, de pleno direito – inspiraram-se nos poemas que receberam como desafio, deixando-se contagiar pelo espírito e ambiente das palavras, e, acrescentando-lhes rasgo e técnica, enriqueceram este livro com as suas extraordinárias criações.

 

Finalmente, os artistas plásticos que, com as suas obras de arte, adicionaram forma e cor a esta aventura sensorial e assim a engrandeceram excepcionalmente. O universo de selecção foi o mesmo que para poetas e cozinheiros: os países de língua portuguesa como nacionalidade dos artistas. Dos clássicos e tradicionais bodégons à expressão livre do abstraccionismo contemporâneo, da pintura à escultura, passando pela cerâmica, estas obras são o perfeito contraponto para poemas e receitas.

 

(…) Quanto ao título, surgiu-me com a maior das naturalidades: a proclamação apaixonada de Natália Correia, na sua “Defesa do Poeta”, não poderia ser mais apropriada e consentânea com o espírito deste livro. Faço minhas as suas palavras: a poesia é para comer, sim. É alimento vital, calórico e energético, que nos deixa lambuzados os dedos da alma, e a chorar por mais. É um alimento tão precioso e essencial como o que damos ao corpo. E, tal como esse, igualmente perigoso: se mal usado, pode matar-nos de fartura enquanto nos promete a vida eterna.                         

Perguntar não ofende (1)


Ana Vidal,

 

«Não me importa uma porra que as mulheres tenham os seios como magnólias ou como figos secos; uma pele de pêssego ou de lixa. Também é indiferente se amanhecem com um hálito afrodisíaco ou um hálito insecticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que arrecadaria o primeiro prémio numa exposição de cenouras; mas, isso sim – e nisso sou irredutível –, não lhes perdoo, sob nenhum pretexto, que não saibam voar. Se não sabem voar perdem tempo as que pretendam seduzir-me.
Foi esta – e não outra – a razão por que me apaixonei tão loucamente por Maria Luísa.
Que me importavam os seus lábios às prestações e os seus ciúmes sulfurosos? Que me importavam as extremidades de palmípede e os olhares de prognóstico reservado?
Maria Luísa era uma autêntica pluma!
(…)
Depois de conhecer uma mulher etérea, pode achar-se algum atractivo numa mulher terrestre? Existirá alguma diferença entre viver com uma vaca ou com uma mulher que tenha as nádegas a setenta e oito centímetros do chão?
Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender o interesse de uma mulher pedestre, e por mais que tente, não consigo sequer imaginar que se possa fazer amor senão a voar.»

(Oliverio Girondo, “Espantalhos” – Edição Língua Morta)

 

Pergunto: quantos dos cavalheiros que me lêm – ou lêm este texto de Oliverio Girondo, melhor dizendo – são capazes de tão excepcional “visão distanciada” da anatomia de uma mulher, para apreciar-lhe somente a essência e dela se encantarem? É que as mulheres – todas nós o sabemos – amam independentemente da forma física. São capazes de passar alegremente e com olímpica indiferença por cima de barrigas proeminentes, calvícies, mãos maltratadas e outros atributos desclassificativos, para se dedicarem, com todo o carinho e entusiasmo, ao que está por debaixo da pele dos seus homens. E, quantas vezes, ao que nem sequer lá está. E o inverso, será verdadeiro? Quem se atreve a responder-me?

 

(Imagem: Marc Chagall)

i…mperdoável


Ana Vidal,

 

Não sei o que se passa com o jornal i. Folheei-o ontem e fiquei abismada com o mar de erros ortográficos e de sintaxe, gralhas, pontuação miserável e frases sem nexo. E tudo isto num só artigo de duas páginas, que mostra bem não ter sequer passado pelos olhos de um revisor. Dizem-me que o jornal vai acabar em breve. Não me lembro de que fosse tão mau da última vez que o li em papel, de onde deduzo que já está mesmo na recta final e ninguém se importa com a fama que deixa para trás. É pena. Foi uma agradável lufada de ar fresco no grafismo convencional dos chamados (e já tão poucos) jornais de referência nacionais. Mas o layout não é tudo. Quando não se cuida devidamente do “layin”, não há pirotecnia de efeitos visuais que disfarce a falta de brio jornalístico.

Os labirintos da amizade


Ana Vidal,

 

Deixem-me falar-vos desse cimento estranho, salvífico, maravilhoso e indestrutível que se chama Amizade. Desse sangue vivo que corre nas veias de um grupo de gente diversa e muitas vezes improvável, desse denominador comum de uma conta que dá sempre resultado positivo, por muito que se troque as voltas às parcelas. Deixem-me falar-vos dessa teia de incompreensões, cumplicidades, tensões, grandes e pequenos gestos, mentiras, traições, entendimentos mudos, olhares, segredos bem guardados ou nem por isso, gargalhadas e lágrimas em doses nem sempre recomendáveis. De amores resgatados e de outros perdidos para sempre, mas todos eles guardados no precioso património da memória colectiva. Deixem-me falar-vos de um labirinto de momentos redentores, trágicos, cómicos ou ambos em simultâneo, de zangas irreparáveis que acabam em reconciliações de antologia. De medos amparados e de fugas cobertas por solidariedades eternas. E deixem-me falar-vos do luxo de rir ao som dos Creadence Clearwater Revival ou de chorar ao som de Janis Joplin. Do luxo de quase três horas de bom cinema francês, numa história servida por excelentes actores que são, afinal, gente como nós. Um filme que fala de vidas reais que são as nossas, onde nos reconhecemos a cada minuto como num espelho. Não há heróis de aço nem princesas de plástico. Tudo é, reconfortantemente, à nossa dimensão. E tudo nos diz que ainda temos salvação, e que essa salvação está no tesouro mais valioso que existe: a Amizade. Deixem-me dizer-vos que Les petits mouchoirs, de Guillaume Canet, é um filme imperdível. Porque dele se sai de alma lavada.

Leituras


Ana Vidal,

Não há motivo para te importunar a meio da noite

 

Não há motivo para te importunar a meio da noite,
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.

Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens
direito a um subsídio de paz.

Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.

Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o
o direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.

E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?

Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.

José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis

 

(Imagem: Rodrigo Miragaia – poisson d’avril)

De ler e chorar por mais


Ana Vidal,

 

O blogue da nossa leitora e amiga Cristina Nobre Soares, que desenvolve na perfeição o provocador mote de Álvaro de Campos: “Come chocolates, pequena; come chocolates! Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria”. Irrepreensivel na apresentação, com imagens sugestivas propõe-se alimentar corpo e espírito em simultâneo, um conceito que me é muito querido. Não deixem de passar por lá, e… aproveitem bem cada migalha.

 

(Imagem: Sandy Skoglund, The Wedding)

Leituras


Ana Vidal,

O MACACO QUE QUIS SER ESCRITOR SATÍRICO

 

Na Selva vivia uma vez um Macaco que quis ser escritor satírico.
Estudou muito, mas logo se deu conta de que para ser escritor satírico lhe faltava conhecer as pessoas e se aplicou em visitar todo mundo e ir a todos os coquetéis e observá-las com o rabo do olho enquanto estavam distraídas com o copo na mão.
Como era verdadeiramente muito gracioso e as suas piruetas ágeis divertiam os outros animais, era bem recebido em toda parte e aperfeiçoou a arte de ser ainda mais bem recebido.
Não havia quem não se encantasse com sua conversa, e quando chegava era recebido com alegria tanto pelas Macacas como pelos esposos das Macacas e pelos outros habitantes da Selva, diante dos quais, por mais contrários que fossem a ele em política internacional, nacional ou municipal, se mostrava invariavelmente compreensivo; sempre, claro, com o intuito de investigar a fundo a natureza humana e poder retratá-la em suas sátiras.
E assim chegou o momento em que entre os animais ele era o mais profundo conhecedor da natureza humana, da qual não lhe escapava nada.
Então, um dia disse vou escrever contra os ladrões, e se fixou na Gralha, e começou a escrever com entusiasmo e gozava e ria e se encarapitava de prazer nas árvores pelas coisas que lhe ocorriam a respeito da Gralha; porém de repente refletiu que entre os animais de sociedade que o recebiam havia muitas Gralhas e especialmente uma, e que iam se ver retratadas na sua sátira, por mais delicada que a escrevesse, e desistiu de fazê-lo.
Depois quis escrever sobre os oportunistas, e pôs o olho na Serpente, a qual por diferentes meios — auxiliares na verdade de sua arte adulatória — conseguia sempre conservar, ou substituir, por melhores, os cargos que ocupava; mas várias Serpentes amigas suas, e especialmente uma, se sentiriam aludidas, e desistiu de fazê-lo.
Depois resolveu satirizar os trabalhadores compulsivos e se deteve na Abelha, que trabalhava estupidamente sem saber para que nem para quem; porém com medo de que suas amigas dessa espécie, e especialmente uma, se ofendessem, terminou comparando-a favoravelmente com a Cigarra, que egoísta não fazia mais do que cantar bancando a poeta, e desistiu de fazê-lo.
Finalmente elaborou uma lista completa das debilidades e defeitos humanos e não encontrou contra quem dirigir suas baterias, pois tudo estava nos amigos que sentavam à sua mesa e nele próprio.
Nesse momento renunciou a ser escritor satírico e começou a se inclinar pela Mística e pelo Amor e coisas assim; porém a partir daí, e já se sabe como são as pessoas, todos disseram que ele tinha ficado maluco e já não o recebiam tão bem nem com tanto prazer.

 

Augusto Monterroso, in “A ovelha negra e outras fábulas” – Tradução de Millôr Fernandes

 

(Roubado à minha amiga Meg)

Monotonia? Qual monotonia?


Ana Vidal,

 

Quem disse que Portugal é um país onde nada acontece? Na mesma semana, fico a saber estas duas notícias emocionantes:

 

1. Que tem sido praticamente meu vizinho, há anos, um perigoso assassino evadido de uma cadeia americana, que matou um homem e até desviou um avião. Um rapazinho pacato, como se vê, que por cá casou e teve filhos, sendo considerado por todos os vizinhos como “uma boa pessoa”.

 

2. Que uma das minhas personagens preferidas da deliciosa série Alô, Alô – o polícia inglês – foi inspirada no jardineiro algarvio de David Croft, o argumentista e produtor inglês que morreu ontem em Tavira e que por cá viveu durante muitos e felizes anos.

 

A monotonia é uma cena que não nos assiste, como diria o mais recente herói das estradas portuguesas.

Blogue da semana


Ana Vidal,

 

Quase a chegar às livrarias o meu livro “A poesia é para comer” (hei-de falar dele aqui um dia destes, com mais calma), ando especialmente sensível a um tema que desde sempre me apaixonou: a gastronomia. Por isso escolhi para destaque da semana o novo blogue da jornalista Alexandra Prado Coelho, para vosso – e meu – deleite. Há de tudo um pouco, desde dicas preciosas sobre eventos culinários a bons artigos, algumas (poucas) receitas e muitas notícias interessantes para quem se interessa pela boa mesa. Está bem feito e bem escrito, merece uma visita demorada. Mais olhos que barriga é o nosso blogue da semana.

YESSS!!! My Woody is back.


Ana Vidal,

Não posso demorar-me, desculpem, vim aqui só dar-vos a boa notícia. Tenho uma festa daqui a pouco em casa dos queridos Ira e George, e ainda tenho de passar pela Coco que ficou de escolher-me um vestido. Zelda, Scotty, please wait for me! Salvador, cariño, no seas tan dramatico… Yes, Cole, I’ll take sweet Alanis with me, it’s a promise. Assim que ela acabar de cantar aqui, pode ser? A bientôt, mes amis. Paris m’attend!

 

Georgia on my mind


Ana Vidal,

 

Chamava-se Troy Davis e morreu ontem numa prisão da Georgia, após mais de vinte anos de sucessivos recursos, apelos e petições. Morreu jurando a sua inocência na acusação de que era alvo: a morte de um polícia à paisana, num parque de estacionamento, em 1989. Nos longos anos que passou no corredor da morte, afirmou sempre que nem sequer tinha uma arma, e a verdade é que a arma do crime nunca apareceu. Nem esta, nem outras provas que seriam irrefutáveis – adn, impressões digitais – alguma vez o ligaram directamente ao acto. A acusação apoiou-se na palavra de nove testemunhas, sete das quais se retractaram e desdisseram os seus depoimentos iniciais. Várias personalidades públicas, como o ex-presidente Jimmy Carter, o papa Bento XVI e a actriz Susan Sarandon (Dead man walking, lembram-se?) pediram insistentemente um indulto. O próprio presidente Obama foi chamado a intervir, in extremis, mas lavou as mãos, dizendo que o caso cabia ao Estado da Georgia e não ao poder federal. Shame on you, Mr. Obama, que decepção. Men playing gods, e logo quem se considera o paradigma da civilização e do progresso no mundo.

 

Troy Davis está morto. Era inocente, como afirmou sempre, ou era culpado? Talvez nunca venha a saber-se. Ou talvez um dia surjam novas provas. Seja como for, uma injecção letal tornou irreversível a aterradora hipótese de vir um dia a provar-se que foi vítima de um engano ou de uma cilada.  Evito olhar para a fotografia deste homem, cujo olhar me parece franco e leal. As aparências enganam, eu sei. Por isso mesmo – mas, sobretudo, porque nenhum homem tem o direito de tirar a vida a outro – a pena de morte é inadmissível. Qualquer que seja a gravidade do crime, e mesmo em face de provas concretas. O que nem sequer foi o caso.

 

Sorry, dear Ray, mas hoje Georgia is on my mind pelos piores motivos.