
Chamava-se Troy Davis e morreu ontem numa prisão da Georgia, após mais de vinte anos de sucessivos recursos, apelos e petições. Morreu jurando a sua inocência na acusação de que era alvo: a morte de um polícia à paisana, num parque de estacionamento, em 1989. Nos longos anos que passou no corredor da morte, afirmou sempre que nem sequer tinha uma arma, e a verdade é que a arma do crime nunca apareceu. Nem esta, nem outras provas que seriam irrefutáveis – adn, impressões digitais – alguma vez o ligaram directamente ao acto. A acusação apoiou-se na palavra de nove testemunhas, sete das quais se retractaram e desdisseram os seus depoimentos iniciais. Várias personalidades públicas, como o ex-presidente Jimmy Carter, o papa Bento XVI e a actriz Susan Sarandon (Dead man walking, lembram-se?) pediram insistentemente um indulto. O próprio presidente Obama foi chamado a intervir, in extremis, mas lavou as mãos, dizendo que o caso cabia ao Estado da Georgia e não ao poder federal. Shame on you, Mr. Obama, que decepção. Men playing gods, e logo quem se considera o paradigma da civilização e do progresso no mundo.
Troy Davis está morto. Era inocente, como afirmou sempre, ou era culpado? Talvez nunca venha a saber-se. Ou talvez um dia surjam novas provas. Seja como for, uma injecção letal tornou irreversível a aterradora hipótese de vir um dia a provar-se que foi vítima de um engano ou de uma cilada. Evito olhar para a fotografia deste homem, cujo olhar me parece franco e leal. As aparências enganam, eu sei. Por isso mesmo – mas, sobretudo, porque nenhum homem tem o direito de tirar a vida a outro – a pena de morte é inadmissível. Qualquer que seja a gravidade do crime, e mesmo em face de provas concretas. O que nem sequer foi o caso.
Sorry, dear Ray, mas hoje Georgia is on my mind pelos piores motivos.

Como é que gente que se diz cristã, pode apoiar a pena de morte? Como é que muita desta gente, que defende ferozmente a “vida”, quando se discute a IVG, assobia para o lado nestes casos?
Não entendo, Teresa. E entendo ainda menos esta justiça medieval de “olho por olho, dente por dente” em pleno século XXI, sobretudo na sweet land of freedom que gosta tanto de ser um exemplo mundial. A América no seu pior. Um país notável a muitos níveis, mas também um poço de contradições.
“mas também um poço de contradições.”
Não somos todos, cada um com as suas?
Somos, Hugo, é verdade. Mas a gravidade das consequências dessas contradições é muito variável, e directamente proporcional ao grau de poder que temos sobre a vida dos outros.
Falando por mim, não tem nada que ver uma coisa com outra. A criança não tem culpa de coisa alguma. Logo a justificação para o aborto – sou favorável ao caso de risco de vida para a mãe e violação – só porque não é conveniente não dá legitimidade suficiente para matar.
O risco de vida para a mãe é simplesmente a lei do mais forte e do responsável que deve ser seguida. A violação é algo que existe contra a vontade da mãe logo esta deve ser soberana.
Porque é que o aborto por conveniência é tolerado por aqueles não toleram a pena de morte?
No meio de um mar de dúvidas, executa-se o preto e os pecados estão expiados e os mortos vingados.
Que selvajaria!!
Foi de propósito que evitei o argumento do racismo, Pedro. Porque me parece que seria redutor neste caso, o assunto é muito mais abrangente. A selvajaria é a mesma, qualquer que seja a cor da pele de quem se mata.
Pronto, volto a falar contigo.
Ah, que alívio. 🙂
Aninha, este teu post lembrou-me uma peça impressionante (apesar de com muitas falhas) que vi em Nova Iorque há anos. A ver se escrevo sobre ela ainda hoje.
Entretanto, podes saber mais aqui: 85-Real-Exonerees-Perform-in-Off-Broadwa ys-The-Exonerated-Nov-18-23
http://www.playbill.com/news/article/827
Ainda não te li, mas já fui espreitar a peça e deve ser mesmo impressionante.
Curioso…
Houve outra execução mais ou menos ao mesmo tempo. Foi pouco falada.
Porque será que os media esquerdistas tugas pouco ou nada referiram?
A explicação segue-se:
Chamava-se Lawrence Russell Brewer
Era membro de um grupo racista branco.
E foi condenado à morte no Texas por ter atado um preto à carrinha com mais dois e assim ter provocado a sua morte.
http://hosted.ap.org/dynamic/stories/U/U S_TEXAS_EXECUTION_DRAGGING_DEATH?SITE=72 19&SECTION=HOME&TEMPLATE=DEFAULT&CTIME=2011-09-21-21-37-11
A pena de morte é perfeitamente admissível e moral quando há provas sem falhas, por isso tendo a só concordar com ela para casos sem dúvidas: Hitlers, Estalines, Maos, Saddams…
O assassino em massa Norueguês é um caso que me coloca dúvidas.
Não sabia desse caso, mas condeno-o de igual forma. Ao contrário de si, não admito excepções. Condeno toda e qualquer sentença de pena de morte, como disse, porque essa decisão é indigna de seres humanos e está fora do seu alcance. Não é uma questão de mais ou menos provas, nem de maior ou menor monstruosidade do crime. Decidir, a frio e racionalmente, a morte de um assassino, é ter a pretensão de ser dono da sua vida e assim ficar muito próximo do que ele fez. Podem mudar os métodos e as razões, mas o acto é o mesmo.
O acto é o mesmo e depois?
Um acto justifica-se ou não pela legitimidade de o realizar não por ser o mesmo.
Um pai pode proibir um filho mas um filho não pode proibir um pai. O acto é o mesmo.
Num combate de rua um polícia pode matar um criminoso. Um criminoso não pode matar um polícia.
Uma pessoa pode-se defender e matar em legítima defesa e quem ataca primeiro sem justificação não pode.
Em qualquer casos excepto o primeiro o resultado é o mesmo: há um morto.
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E não acaba aqui, nem acaba na errada, vaidosa tentativa de equivalência do acto:
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Uma mulher pode legitimamente matar um marido se é um saco de pancada deste mesmo que não esteja em perigo de morte.
Um escravo para fugir ao esclavagista pode matar este mesmo que não esteja em perigo de morte.
Um refém pode matar os seus captores para fugir.
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Você não apresentou justificação alguma para mostrar que está próximo do que o assassino fez excepto horror estético. Para si a dimensão ética da culpa parece não existir ou é muito dimínuida. O acto é quase tudo para si.
E você está a misturar tudo, não sei se propositadamente ou por confusão. Os exemplos que dá são de actos espontâneos, emocionais, que quase sempre acontecem em condições extremas. São justificáveis por isso mesmo, pelas circunstâncias e não pelo acto em si. Muito diferente é uma sentença ditada por um tribunal, que não envolve emoções nem urgência, é totalmente racional.
E não percebo porque chama “vaidosa” à minha posição sobre este assunto, mas enfim, duvido de que você tenha uma explicação válida para esse comentário.
Cara Ana, escrevo-lhe para subscrever na integralidade, letra por letra, o que aqui diz. De facto, nesta questão, não há adjectivos, “poréns” nem “mas”.
Não há mesmo. As coisas realmente importantes são quase sempre muito simples.
Sou completamente contra a pena de morte. Seja por “permitir” assassinatos de inocentes (será este mais um caso?), seja por ser absolutamente contrária à dignidade de qualquer pessoa.
Como ainda hoje dizia Bento XVI na Alemanha, a vida humana é inviolável desde o início até ao fim. Pôr isto em causa significa destruir a essência do ser humano.
É exactamente o que penso, Gonio.
Penso exactamente da mesma maneira, Ana!
Estamos juntos, Ana.
Ana e Sérgio, estamos de acordo. Como eu gostaria de ver muito mais gente a pensar assim!
Tens toda a razão naquilo que escreves, Ana. Revejo-me em cada linha do teu texto. E nunca me cansarei de juntar a minha voz à de todos quantos se opõem à pena capital, que é uma barbaridade (e também, numa segunda frente de combate, contra a prisão perpétua, outra medida igualmente indigna de um mundo civilizado).
Tens razão, claro. Apesar de tudo, a prisão perpétua ainda admite recuo em face de novas provas. A pena de morte é irreparável.