Os labirintos da amizade


Ana Vidal,

 

Deixem-me falar-vos desse cimento estranho, salvífico, maravilhoso e indestrutível que se chama Amizade. Desse sangue vivo que corre nas veias de um grupo de gente diversa e muitas vezes improvável, desse denominador comum de uma conta que dá sempre resultado positivo, por muito que se troque as voltas às parcelas. Deixem-me falar-vos dessa teia de incompreensões, cumplicidades, tensões, grandes e pequenos gestos, mentiras, traições, entendimentos mudos, olhares, segredos bem guardados ou nem por isso, gargalhadas e lágrimas em doses nem sempre recomendáveis. De amores resgatados e de outros perdidos para sempre, mas todos eles guardados no precioso património da memória colectiva. Deixem-me falar-vos de um labirinto de momentos redentores, trágicos, cómicos ou ambos em simultâneo, de zangas irreparáveis que acabam em reconciliações de antologia. De medos amparados e de fugas cobertas por solidariedades eternas. E deixem-me falar-vos do luxo de rir ao som dos Creadence Clearwater Revival ou de chorar ao som de Janis Joplin. Do luxo de quase três horas de bom cinema francês, numa história servida por excelentes actores que são, afinal, gente como nós. Um filme que fala de vidas reais que são as nossas, onde nos reconhecemos a cada minuto como num espelho. Não há heróis de aço nem princesas de plástico. Tudo é, reconfortantemente, à nossa dimensão. E tudo nos diz que ainda temos salvação, e que essa salvação está no tesouro mais valioso que existe: a Amizade. Deixem-me dizer-vos que Les petits mouchoirs, de Guillaume Canet, é um filme imperdível. Porque dele se sai de alma lavada.

17 comentários em “Os labirintos da amizade”

  1. A ver, claro. Aliás bastaria ser um filme com a Marion Cotillard para o ver. E os eternos Creedence Clearwater Revival aparecerão muito em breve nas Canções do Século.

    1. A tua Marion é uma grande actriz (não é por acaso que faz parte neste momento de 3 ou 4 filmes em cartaz) e faz um grande papel neste filme. Que tem um grande elenco, aliás. Vais gostar do filme.

    1. Ivone, o filme é uma espécie de “Amigos de Alex” em versão europeia, portanto mais próxima de nós: muitos beijos e abraços, muita emoção latina num bando de amigos muito próximos. E tem uma banda sonora fantástica. Não percas.

  2. Os Amigos de Alex é um dos filmes da minha vida se dizes que este é a versão europeia, ou seja, numa versão revista e melhorada, na óptica de um europeu, não o vou perder.

    1. Acho que vais gostar muito, Teresa. Também tenho como referência “Os amigos de Alex”, mas este tem ainda mais que ver connosco. É o espírito de “tribo”, com todas as suas grandezas e misérias, retratado com mestria e muita sensibilidade.

  3. Viva Ana,

    Tem razão, Ana, ao contrário do The Big Chill (Os amigos de Alex), neste filme não se olha para o passado para perceber o que poderia ter sido diferente, encara-se o presente e tenta-se compreender o que deve ser feito para alterá-lo e melhorá-lo. O ser humano assume plano de destaque com as suas fragilidades, os seus defeitos e as suas (pequenas) mentiras que são expostos sem receios nem preconceitos, cientes de que o que vemos pode ser tão real como a nossa própria vida e/ou daqueles que nos rodeiam.
    Um filme preciso que nos faz… sentir!
    Beijinho

    Não me diga que foi ontem à sessão da noite no Corte Inglês sem a tribo? :)Também estive lá mas com a minha tribo. 😉

    Para relembrar uma das suas famosas séries (não há coincidências), deixo-lhe esta lista preciosa (a si e a todos os delituosos interessados):

    1* Yodelice – Talk to me

    http://www.youtube.com/watch?v=InTE4geiTEI

    2* Isley Brothers – This Old Heart Of Mine

    http://www.youtube.com/watch?v=CsdTjuj6fps&feature=related

    3*Gladys Knight – If I were your woman

    http://www.youtube.com/watch?v=U-Nc4MW4yr0

    4*Cold Water – Damien Rice

    http://www.youtube.com/watch?v=qtgQ2AjBbGI

    5*Ben Harper – Amen Omen

    http://www.youtube.com/watch?v=3NNj-T4Tqkk

    6*Rodriguez – Crucify Your Mind

    http://www.youtube.com/watch?v=hVdWXqtk484

    1. Olá, Ana.
      Para além de todas as outras diferenças, há uma distância de quase 30 anos entre os dois filmes. Isso condiciona tanto o estilo como o facto de um deles ser americano e o outro europeu. Mas é verdade o que diz: este centra-se no presente e no futuro, tentando de algum modo corrigir os erros, enquanto que o outro escalpeliza o passado e constata sobretudo o que é irremediável. Duas perspectivas interessantes, dois grupos de pessoas que o mesmo acontecimento traumático agita e impele à acção. Outra diferença grande é que este grupo é um “bando” de sempre, que não se separou e por isso se conhece por dentro à exaustão. Não há surpresas, há só jogos de convivência e as máscaras que são comuns a todos nós. É um filme profundamente humano.

      Obrigada pelas suas achegas para a minha série. Algumas delas já estavam na minha lista, as outras vão para lá também. Quando acabarem os “encontros felizes” retomo as “coincidências”, já está na forja a segunda série. 🙂

      1. Segunda série?! Boa! 🙂
        Não foi bem achegas que lhe deixei (mas também poderão servir, claro)… são todas as músicas que fazem parte da fantástica banda sonora. Favor registar! 🙂
        Também achei uma coincidência termos ido no mesmo dia, não sei se de noite se de dia. lol

  4. Ah, e fui mesmo ontem à sessão da noite no Corte Inglês (à da meia noite) sem a minha tribo. Se calhar cruzámo-nos. Mas sabe uma coisa engraçada? Encontrei vários amigos, uns a sair da sessão anterior e outros a chegar, como eu. Não foi por acaso que estavam ali: os amigos têm gostos em comum, não é? 🙂

    1. Bom, nem sei que diga. Fui à sessão da meia-noite!!:)
      Como diria o nosso amigo Mario Quintana:
      A amizade é um amor que nunca morre…

  5. Que belo texto, tão bem escrito. Realmente não me admira o “imperdível” porque o cinema francês, com gente como nós, ofereprecisamente ce-nos amiúde grandes obras. Gosto do cinema europeu porque é feito de simples complexidades ou vice-versa… sem artificialidades nem efeitos especiais.
    Ah, o meu modesto blogue é AEfetivamente. Obrigada, caso me visitem 🙂

  6. querida amiga Ginja
    gostei imenso do texto
    realmente amizade é mesmo um cozinhado de vários e ou de todos os sabores
    temperados com dias ou meses de partilha
    gosto de ser tua amiga
    gosto que sejas minha amiga

    e lá continuaremos
    a cozinhar em lume brando
    com
    os ingredientes que dispomos

    e que bom que é
    às vezes
    podermos dar a provar
    esse resultado

    ah ah ah
    bjs
    Ginja

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