Espírito natalício (2)


Ana Vidal,

Aproveito esta confissão do Jaa, mortinho por andar aos tiros aos dedos dos Pais-Natais, para fazer a minha própria catarse natalícia. É que também eu tenho um pecado a confessar: neste Natal transformei-me numa sádica torturadora de Meninos-Jesus. Pois é, leram bem. Tenho atenuantes, uma razão quase piedosa e tal, mas a tendência para o crimezinho jinglebélico é inegável, finalmente revelada por… um dedo acusador.

 

Desde que me conheço (muito antes da revelação desta perturbadora faceta de inquisidor espanhol) que em minha casa não há Natal sem um Menino Jesus de marfim que herdei, muito antigo e carregado de memórias de várias gerações. É uma figurinha delicada e sorridente, deitada sobre uma almofada bordada, igualmente de marfim. Um trabalho notável de um artesão inspirado. Desde que os meus filhos cresceram, dispenso o resto do presépio. Passo bem sem o pinheiro enfeitado, o Pai Natal, o trenó e as renas. Fujo a sete pés de laçarotes, bolas e luzinhas a piscar. Mas… Natal sem o meu Menino Jesus de marfim, não é Natal. Este ano, como sempre, lá fui buscar a caixa onde o guardo, envolto em algodão em rama para preservar o que ainda sobra das frágeis mãozinhas abertas e levantadas (mãe, porque é que todos os Meninos Jesus estão nesta posição? não se cansam? perguntou-me um dia o meu filho de seis anos, intrigado com o mistério) cujos dedos miniaturais, finos como agulhas, têm vindo a desaparecer ao longo dos anos. Levantei a tampa com a solenidade que o momento sempre exige, mas logo o ritual deu lugar a uma gargalhada: do fundo da sua nuvem de algodão, como a acusar-me da claustrofobia a que a condeno todo o ano, a sagrada criaturinha apontava-me o último dedo que lhe restava, por coincidência o dedo médio da mão direita, num óbvio gesto obsceno. Juraria que o sorriso angelical tinha qualquer coisa de trocista, mas é possível que a minha mente não ande muito católica por estes dias. Estaquei, hesitante, perante o dilema de exibir aquele despudor involuntário ou acabar de vez com o sofrimento e devolver-lhe a pureza infantil. Conheço a família que tenho, sei que o pobre Menino Jesus seria a chacota deste Natal. O que se seguiu teve mais de caridade cristã ou de sadismo? Nunca o saberei. Assobiando ligeiramente, como quem não quer a coisa, encostei o solitário dedinho malcriado ao tampo da mesa, e… ploc, o estalido ditou o fim da tortura. Depositei o Menino, definitivamente deficiente mas de novo inocente, na sua imaculada cama de palhinhas. E pronto: ficou garantida a dignidade deste Natal, embora tenha sonegado a todos um bom motivo de risota.

33 comentários em “Espírito natalício (2)”

  1. Ana Ana, talvez tenha sido um pouco drástica.

    O dedinho em riste era o ultimo reduto de utilidade naquela mãozita que ficou agora desprovida de qualquer recurso de mobilidade.

    Aquela cena da mutilação no tampo da mesa é, arrepiante e dolorosa até de pensar, poderia ter sido retirada de um filme do Scarface (em português Afonso Capone).

    O que o pobre miúdo não deve ter sofrido.

    Para não chocar ou fazer rir os puritanos não hesitou em desprover a criatura de algo que lhe poderia ser de extrema funcionalidade e armou-se em Peter Pan, foi o que foi…

    Como vai ser depois do Natal, encerrado de novo naquela caixinha de algodão em rama ?
    Ao menos arranje-lhe um gancho, porque assim pode ser confundido com o capitão gancho e andar todo o 2012 entretido atrás da sininho para se vingar do PP.
    Oh Ana Ana, não lhe ficou nada bem esse gesto.

    Bem, Bom Natal para si e para o miúdo maneta.

    PS. Este Natal vou começar a ler o Gente do Sul, espero que não existam por lá mais crianças mutiladas por si…;)

    1. Mas que bela ideia, cr! Vou arranjar-lhe um ganchinho de prata, é o mínimo.
      Mas ainda lhe restam os polegares, para armar em imperador romano…
      Bom Natal para si também.

      (no livro não há mutilações, pode ler tranquila 😉

      1. Oh, deuses imortais! Nada maquiavélico, apenas uma questão de reciclagem: um pedacinho de marfim aqui, um pedacinho de prata ali, um niquinho de ouro ali e temos material para uma jóia.
        Deitar marfim fora, Ana Vidal? Isso até é pecado.

  2. Esta é a história mais fantástica e hilariante que li este ano! dava um sketch fantástico dos gato fedorento ou dos saudosos monthy pytnho (obviamente, a coisa nunca passaria cá). Ana Vidal, made my day 🙂

  3. Imaginem que eu era fundamentalista católico e achava esse decepar de dedo, uma afronta? Este blogue deixava de ser um delito de opinião mas um flagrante delit(r)o. Todavia e não obstante a minha opção católica gostei da narrativa que teve imensa piada. Curiosamente a minha mulher também partiu um Menino Jesus. Será que este ano é o ano internacional para a quebra de MJ? Ou será de crise?
    Já agora um Santo e Feliz Natal.
    PS – já procurei o “Gente do Sul” na FNAC do Chiado e como diz um amigo meu: néribi!
    Onde é que ele está à venda?

    1. A Fnac tem feito uma péssima distribuição do livro, José da Xã. Já várias pessoas me disseram que tiveram de encomendá-lo ou comprá-lo online no site da Fnac.
      Experimente na Bertrand, na Barata ou na Bucchholz, numa dessas encontrará com certeza.

      Quanto à sua mulher, diga-lhe que estou solidária com ela… e Bom Natal!

  4. Mas que episódio tão dialético: há males feitos por bem e vice versa. Mas é preciso sangue frio para decepar uns dedinhos de menino (e logo o filho dEle) para que não passe vergonhas. E se calhar até continuou com as vergonhas à mostra sem que ninguém faça chacota com isso… Um Bom Natal Ana!

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