Balanço de Natal


Ana Vidal,

De todos os Natais

aquele distante

com cheiros de musgo e doçuras fritas

de subir ao céu da boca

e espelhos no presépio que eram lagos

e um trio de reis que avançava

todos os dias mais um passo

até chegar ao rei-menino

E eu sofrendo com eles a viagem

e eu oferecendo também

o meu ouro mouro

a minha mirrada mirra

o meu incerto incenso

à espera do retorno

 

De todos os Natais

aquele outro

um brilho nos olhos como nunca antes

como nunca mais

e os mais belos cânticos a nascer todos de mim

e o poder do mundo na minha mão

porque um outro menino

só meu ainda

se agitava na sua concha

o meu íntimo mar

 

De todos os Natais

o que virá um dia

quem sabe um dia

Aquele que me falta

para dizer Natal

sem dizer Eu

25 comentários em “Balanço de Natal”

  1. ” Tomado ” a David Mourão Ferreira e dedicado ao meu Pai,que já deixou vago o tal lugar e fazia anos … no dia de Natal…

    “…Ladaínha dos Póstumos Natais

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que se veja à mesa o meu lugar vazio

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que só uma voz me evoque a sós consigo

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que não viva já ninguém meu conhecido

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que nem vivo esteja um verso deste livro

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que terei de novo o Nada a sós comigo

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que nem o Natal terá qualquer sentido

    Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que o Nada retome a cor do Infinito …”

  2. Muito, muito bonito, Ana.
    Muito difícil não dizer “eu”, é verdade.
    À medida que vamos “crescendo”, cada vez mais aprecio “os outros”, penso menos “eu”, sou mais memórias e alimento o prazer e o carinho dos que me são queridos.

  3. O botão “gosto” é um absurdo, faz-me comichão. Contudo agora fez-me falta porque nada consigo comentar embora tenha gostado muito.

  4. Absolutamente maravilhoso, este poema de Natal. O meu querido amigo Mourão-Ferreira não teria feito melhor. Parabéns.

    1. Muito obrigada, Leitor. O seu amigo é autor da melhor colecção de poemas de Natal que eu conheço, por isso é ainda mais gratificante ler essas palavras.

        1. Tem graça que digas isso. Nos últimos anos tenho pensado fazer isso mesmo (uma vez, pelo menos), mas ainda não ganhei balanço. Talvez no próximo ano… combinamos?

          1. Na maior. Há muito tempo que ando a pensar nisso. Quando ‘os meus’ deixarem (já faltou mais). Encontramo-nos na esquina de…. ?
            🙂

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