De todos os Natais
aquele distante
com cheiros de musgo e doçuras fritas
de subir ao céu da boca
e espelhos no presépio que eram lagos
e um trio de reis que avançava
todos os dias mais um passo
até chegar ao rei-menino
E eu sofrendo com eles a viagem
e eu oferecendo também
o meu ouro mouro
a minha mirrada mirra
o meu incerto incenso
à espera do retorno
De todos os Natais
aquele outro
um brilho nos olhos como nunca antes
como nunca mais
e os mais belos cânticos a nascer todos de mim
e o poder do mundo na minha mão
porque um outro menino
só meu ainda
se agitava na sua concha
o meu íntimo mar
De todos os Natais
o que virá um dia
quem sabe um dia
Aquele que me falta
para dizer Natal
sem dizer Eu

Querida Ana. Se estivesses aqui dava-te colo, assim mando-te um beijo virtual:)
Deste-me colo, pronto. Beijo!
Muito bem, Ana.
É-nos sempre tão difícil não dizer ‘eu’.
É mesmo, Leonor. Não vivemos sem as nossas memórias, mas o Natal devia ir muito para além delas.
Não sei. Todos nós somos memórias e memória. Já leste De Profundis – Valsa Lenta do José Cardoso Pires? Sem memória não há afectos.
Já li, sim, e gostei muito. Claro que a memória é fundamental, só digo que o Natal não devia centrar-se em nós.
” Tomado ” a David Mourão Ferreira e dedicado ao meu Pai,que já deixou vago o tal lugar e fazia anos … no dia de Natal…
“…Ladaínha dos Póstumos Natais
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito …”
Fernando,
também gosto muito, muito, desse poema do David.
bonito Ana
bonito
Obrigada, Ritinha.
Bem, Ana … muito bom. Muito bom.
Ivone, gosto que gostes. 🙂
Muito, muito bonito, Ana.
Muito difícil não dizer “eu”, é verdade.
À medida que vamos “crescendo”, cada vez mais aprecio “os outros”, penso menos “eu”, sou mais memórias e alimento o prazer e o carinho dos que me são queridos.
Isso é muito sábio e muito bonito, Alexandra. Eu estou a anos-luz desse ponto, mas espero lá chegar um dia. 🙂
O botão “gosto” é um absurdo, faz-me comichão. Contudo agora fez-me falta porque nada consigo comentar embora tenha gostado muito.
João, sempre querido. Gosto muito de saber que me lês, e que gostas do que lês. Obrigada.
Absolutamente maravilhoso, este poema de Natal. O meu querido amigo Mourão-Ferreira não teria feito melhor. Parabéns.
Muito obrigada, Leitor. O seu amigo é autor da melhor colecção de poemas de Natal que eu conheço, por isso é ainda mais gratificante ler essas palavras.
Continua, continua, que boa síntese: a pele de muitos Natais. E outros por vir.
Podia estar aqui a pele de muitos outros, dos meus. Mas eu quero um que não seja “dos meus”…
Justamente… outros por vir… Eu hei-de passar um na rua.
Tem graça que digas isso. Nos últimos anos tenho pensado fazer isso mesmo (uma vez, pelo menos), mas ainda não ganhei balanço. Talvez no próximo ano… combinamos?
Na maior. Há muito tempo que ando a pensar nisso. Quando ‘os meus’ deixarem (já faltou mais). Encontramo-nos na esquina de…. ?
🙂
Hoje passei por aqui, por acaso e vi-te! Tinha saudades da tua poesia. Cada vez melhor.
Olá, S., welcome back.
É raro eu pôr poesia minha aqui, abri uma excepção para o Natal.