Ainda Amina Filali


Ana Vidal,

Ainda sobre o revoltante caso de Amina Filali, que é o mesmo que dizer, sobre o revoltante caso das mulheres árabes: uma lei que “castiga” um violador obrigando-o a casar com a sua vítima, não o castiga: premeia-o. Castigada é a vítima, uma vez mais. Muitas vezes mais, melhor dizendo, já que passa a ser legitimada e “abençoada” a agressão. Perpetuar esta monstruosidade é a suprema humilhação. É o mesmo que dizer a uma mulher que nunca mais serviria para ninguém a não ser para o seu carrasco, e só porque ele é obrigado a isso. É o mesmo que dizer-lhe que é uma sorte que ele se disponha a oficializar a violência. Se qualquer mulher muçulmana já pouco vale, uma vítima de violação vale zero no “mercado” dos casamentos. Que alternativa restava àquela rapariga depois da vergonha pública, não só para ela como para toda a sua família? O ostracismo de qualquer outro homem, a total impossibilidade de refazer a vida com um mínimo de dignidade e de normalidade, valha o conceito o que valer. O peso da culpa de estar a mais, de ser uma chaga aberta na reinante hipocrisia das relações entre sexos. Ou a capitulação, deixando-se diluir no estranho submundo feminino que habita o fundo das casas árabes, que suspira por detrás dos altos muros brancos e se desgasta em lutas de poder tão indignas como estéreis. Aos desasseis anos, Amina Filali apenas escolheu o mal menor. A única libertação possível. Enquanto não mudar esta lógica da inquestionável superioridade dos homens perante o baixo valor das mulheres, a tão festejada “primavera árabe” não passará de um triste simulacro de mudança.

17 comentários em “Ainda Amina Filali”

      1. É de todas nós e é muito dolorosa. Por isso devemos levantar a voz e protestar. Ainda bem que a tua voz se levanta em sítio com tanto destaque.

  1. Dois posts sobre o caso e nenhum com a palavra Islão. Significativo.

    Por todo o Magreb, Líbia até ao Egipto, o véu -e é só uma parte- está a cair na cara de cada mulher devido a uma religião totalitária. Os ventos dominantes sopram nesse sentido.

  2. O Corão é um hino à misoginia. Toda esta gente se gente legitimada para tratar as mulheres assim. A evolução far-se-á à custa de milhões de Aminas. Será um longo e doloroso processo mas que a globalização pode acelerar. Foi essa a “divindade” que permitiu que a Primavera árabe acontecesse. Já não é possível esconder ao mundo estas atrocidades e a indignação global fará o seu caminho.

    1. Não me parece. Os caminho tem sido de mais integrismo. Mesmo nos locais onde havia um verdadeiro islamismo moderado na Asia como na Malasia, Borneo.

      Uma eventual Democracia só vai reforçar o integrismo porque dará uma legitimidade para as políticas que se vão seguir.
      Legitimidade errada porque o Importante numa sociedade – e nisto falha a nossa cultura política também – não é a Democracia mas os Limites ao Poder sobre o Outro.
      A Democracia só foi no contexto da luta contra a Nobreza e o Ancien Régime uma maneira de Limitar o Poder. Agora já não é.

      1. Luck, o caminho até pode estar a ser de maior integrismo, mas o que é inegável é que a visibilidade destes casos aberrantes também está a aumentar. E a rebelião interna contra estas injustiças, mesmo a passo lento e muito sofrido. Com a globalização da informação, é inevitável que o mundo saiba disto.

        1. É verdade que a visibilidade é maior. Mas o Mundo preocupa-se?

          Não me parece. Veja por exemplo a reacção de um país como o Brasil que supostamente deveria estar nos antípodas disto.
          Não existe a reacção que houve contra o apartheid e isto é um apartheid contra um sexo.

          1. Não estou a falar deste caso em particular mas da mulher nos países islâmicos e do comportamento do Brasil sem problemas em se tornar amigo do Irão por exemplo.

            Entretanto recentemente no Índico:

            By Amal Jayasinghe (AFP) – Feb 11, 2012

            MALE — At the Maldives’ National Museum, smashed Buddhist statues are testament to the rise of Islamic extremism and Taliban-style intolerance in a country famous as a laid-back holiday destination.

            On Tuesday, as protesters backed by mutinous police toppled president Mohamed Nasheed, a handful of men stormed the Chinese-built museum and destroyed its display of priceless artefacts from the nation’s pre-Islamic era.

            “They have effectively erased all evidence of our Buddhist past,” a senior museum official told AFP at the now shuttered building in the capital Male, asking not to be named out of fear for his own safety.(…)

            http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5gpQRnwpootZot3dABRpS168QzLbg?docId=CNG.b7b84d73ae0e2b3179e9deb594bd393e.481

  3. Comecemos pelo menos importante:
    Creio que a jovem se chamava Filali e não Falil.
    Passemos ao mais importante:
    1. Que no nosso mundo isto se possa passar é realmente escandaloso.
    2. Os comentários ao artigo resvalaram rapidamente para a Islamofobia.
    3. O problema (politico) é que estas sociedades não tiveram, nem foram afectadas por uma Revolução Francesa e não existe uma separação entre Igreja e Estado.
    4. No mundo Ocidental isso existe (apesar da Igreja) e foi conseguido com o sangue de milhões.
    5. Achar que o Corão é um hino à misoginia e esquecer-se convenientemente da Bíblia……..
    6. A cultura subjacente à atenuação da violação e do remediamento dos seus efeitos através da aceitação das suas consequências está bem presente entre nós (lembram-se daquele Juiz que defendia o macho Português?)

    1. Gonçalo, não se trata de islamofobia mas da simples constatação de uma lei aberrante, fortemente influenciada – lamento, mas é assim – pela religião islâmica. Claro que as razões são as que refere, e é isso mesmo que tem de mudar.
      Apesar de haver ainda um longo caminho no ocidente para corrigir uma cultura ancestralmente patriarcal que tem determinado a submissão feminina (o que inclui a prática do cristianismo e de outras religiões ocidentais) não há comparação possível, neste capítulo, entre o Corão e a Bíblia.

      Obrigada pela correcção do nome.

      1. “If a man happens to meet a virgin who is not pledged to be married and rapes her and they are discovered, he shall pay her father fifty shekels of silver. He must marry the young woman, for he has violated her. He can never divorce her as long as he lives.”
        (Deuteronomy 22:28-29 NIV Bible)

        Sobre não haver comparação possível entre a Bíblia e o Corão em relação a este tema (capitulo), creio que essa é uma afirmação muito temerária.

        Quando falei de islamofobia, referia-me mais aos comentários subsequentes ao artigo inicial do que a este último.

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