Amina Filali morreu. Dizem que se matou. Não é verdade. Mataram-na. Matou-a, primeiro, o animal que a violou pela primeira vez. E que a voltou a violar e a maltratar depois de casarem. E matou-a o artigo do Código Penal marroquino que permite que os autores de violação possam escapar a uma pena de até 20 anos de prisão se casarem com as vítimas. E mataram-na o pai e a mãe, incapazes de se interporem entre a sua filha e a bestialidade de um homem, da lei, dos usos e das tradições. O acto final a que chamam suicídio tem, neste caso, apenas o valor de uma autópsia que Amina fez a si própria. Porque o seu corpo e a sua alma, agora que tinha dezasseis anos, estavam já mortos desde o dia em que, quando tinha quinze anos, o animal a violou pela primeira vez. Não há nada de novo nesta morte. Igual à de tantas mulheres que foram e vão morrendo em vida. Mas, há algo de muito novo na vida que ficou e que prossegue. A indignação já não é um sentimento que se manifesta apenas a norte do Mediterrâneo. Em Marrocos, ali onde um homem e as leis que mataram Amina cavalgam na contramão da história e do sentimento da mais elementar humanidade, há vozes que se levantam pela primeira vez. São vozes que se manifestam, são gargantas que se revoltam num grito novo por aqueles lugares. Amina Filali não somos todos, porque muitos ainda são lá dentro iguais ao homem que a matou. Mas, a cada rajada de vento de liberdade que sopra do deserto esses recuam um milímetro, calam e engolem em seco. Amina Filali não somos todos, mas somos tantos. E sabemos agora que muitos estão lá, onde sopra o vento do deserto. A sul do Mediterrâneo.


Ia escrever sobre isto quando te li. Concordo absolutamente, claro.
E eu com tudo o que escreveste, Ana.
A expressão “suicídio” carrega tanto eufemismo quanto a “ira” que sinto ao tomar conhecimento.
Obrigado pelo post.
Um homicídio, Outside. Premeditado.
Obrigada por este texto.
Eu e que agradeço a leitura, Teresa.
(a escrever sem acentos).
Gosto mais quando textos destes são assinados por homens. Obrigada, Rui, por estares sempre tão atento e solidário.
Nada a agradecer, Teresa. Questão de elementar justiça.