Um mecanismo para responder ao desemprego


Rui Rocha,

Leio que Passos Coelho, a propósito da divulgação das conclusões de novo exame da Troika à execução do plano de resgate, declarou que se ficou de encontrar um mecanismo que responda ao desemprego. Parece-me bem. E não quero tirar ao primeiro-ministro o entusiasmo, aliás evidente nas suas palavras, de descobrir pelos seus próprios meios a solução para um problema que tem merecido de todo o seu governo, quando menos, várias manifestações públicas de compreensão e de apoio. Em todo o caso, não vá Passos Coelho estar assoberbado com outras solicitações, atrevo-me a deixar aqui uma sugestão. No fundo, trata-se de algo que responde à tensão, pressupõe uma estrutura de suporte, funciona como alavanca, tem em conta a gravidade e pode proporcionar algum impulso aos desempregados. Nada de muito novo, na verdade. Aliás, foram os gregos que, vendo-se em grandes dificuldades,  desenvolveram o primeiro mecanismo do género. Chama-se catapulta. Com alguma perícia e um bocado de sorte, os desempregados são projectados para lá da fronteira e, se tudo correr pelo melhor, nem sequer fazem ricochete. Em homenagem ao ministro Álvaro, proponho desde já que lhe chamemos Coisapulta.

No reino dos eufemismos


Pedro Correia,

 

Acabo de ouvir num canal televisivo que uma determinada empresa construtora “rescindiu com 300 colaboradores”. Está tudo errado nesta frase. No espírito e na letra. O mundo laboral parece ter sido liofilizado no discurso jornalístico corrente. Como se a palavra trabalho queimasse. Como se trabalhar fosse algo indigno. Como se um trabalhador devesse ocultar esta sua condição numa sociedade – e num continente inteiro, como bem revelam as estatísticas europeias – onde um posto de trabalho é um bem cada vez mais escasso.

Trabalho, palavra bíblica. “Bem basta a cada dia o seu trabalho”, diz Jesus no Sermão da Montanha. Reescrita à luz da novilíngua dominante, quem trabalha deixou de ser trabalhador: é “funcionário” ou, de modo ainda mais eufemístico, “colaborador”. Pela mesma lógica, não pode ser despedido mas “dispensado”. Ou, de modo ainda mais eufemístico, alguma Alta Entidade da corporação empresarial “prescinde” dos seus serviços. Ou da sua colaboração.

Sempre me ensinaram que o discurso jornalístico, para ser eficaz e competente, devia descodificar todo o jargão encriptado, que obscurece a mensagem em vez de a tornar transparente. Nos dias que correm, sucede precisamente ao contrário: o jornalismo abdica demasiadas vezes de clarificar a mensagem, obscurecendo-a por cumplicidade activa com as “fontes” ou por mera preguiça intelectual.

No reino dos eufemismos, não se trabalha: “colabora-se”. E ninguém é despedido: há apenas quem “cesse funções” ou veja os seus préstimos “prescindidos” por alguma entidade empregadora em fase de “reestruturação” ou “reavaliação” das potencialidades do mercado. Mas as coisas são o que são, mesmo que as palavras ardilosas procurem camuflar uma realidade nua e crua.

A empresa construtora despediu 300 trabalhadores. Assim mesmo, ponto final. A realidade, só por si, já é suficientemente dura. Não juntemos ao drama do despedimento a injúria de ver esta palavra banida do dicionário jornalístico quando está mais presente que nunca na vida real.

Coiso e tal


Rui Rocha,

O desemprego é o coiso. Os desempregados andam a coisar. É natural que se sintam fodidos. Os desempregados coisam nos Centros de Emprego. Não admira que os Centros de Emprego tenham má fama. Claro que passar o tempo a coisar também cansa . E, por isso, muitos desempregados acabam por deixar de procurar emprego. Já não coisam. São os inactivos. Outros, todavia, insistem. São os desempregados Viagra. O coiso deles é de longa duração. Quando os desempregados arranjam emprego, deixam de coisar. Fala-se nesse caso de coiso interruptus. O coiso interruptus pode ser provocado por políticas activas de emprego. Trata-se de métodos contracoisivos pouco eficazes. As coisas são o que são. E, mais tarde ou mais cedo, os desempregados voltam a coisar. Normalmente, os políticos não têm coisos de grande dimensão. O coiso dos políticos, quando ocorre, é um coisinho. Há logo um conhecimento ou uma influência que se move para os políticos deixarem de coisar. Apesar disso, os políticos gostam de falar do coiso. É o coisilingus. Alguns políticos pensam que podem influenciar a dimensão do coiso. Ou a penetração do coiso em determinados estratos populacionais ou regiões. Entusiasmados, os políticos vão mexendo no coiso. Tiram disso grande satisfação pessoal. Mas não provocam qualquer benefício a terceiros. Chama-se masturbação. Historicamente, as populações com menos instrução coisavam mais. Agora, os mais instruídos também coisam muito. E os jovens cada vez coisam mais. Em rigor, o coiso devia escrever-se com maiúscula para abranger ambos os géneros. Ou então dizer-se que os homens têm coiso e as mulheres têm coisa. O coiso e a coisa são diferentes. Em regra, a coisa é mais prolongada e pode repetir-se em períodos mais curtos de tempo. Periodicamente, são publicados os números do coiso. Sempre que o coiso aumenta (aqui deveria ter, naturalmente, utilizado maiúscula), gera-se grande agitação. Toda a gente quer ver o tamanho do coiso. E comentar o seu crescimento, embora ninguém tenha solução. No fundo, os comentadores nem coisam nem saem de cima. Em determinada altura, a análise sociológica reflectiu sobre o emprego. Marx teorizou sobre a coisificação do trabalho. Só no século XXI foi dado um salto qualitativo. Álvaro Santos Pereira coisificou o desemprego. Passos Coelho desenvolveu a utopia da oportunidade. Tal como o próprio Marx previra, a história repetiu-se. Como farsa.

Perdi neurónios?


fiodeprumo,

 

“O ministro da Solidariedade e Segurança Social diz que o desemprego é o maior problema do país e garante que a resposta está a ser estudada não só pelo seu Ministério como também pelo da Economia e Finanças. Uma das medidas que deverá entrar em vigor será a possibilidade de acumular o subsídio de desemprego com rendimentos do trabalho”.

Alguém me explica a lógica desta decisão depois de todas as medidas restritivas anteriormente tomadas? Se há rendimentos de trabalho é porque há trabalho. Se há subsídio de desemprego é porque não há trabalho. Ou apenas trabalha quem tem emprego?!

Oportunidade.


vidabreve,

A questão não é a de sabermos o que os desempregados podem fazer por si, mas antes o que deve o primeiro-ministro fazer por eles. Para quem ouve Passos Coelho é sempre fácil esquecer que o país lhe confiou um trabalho, não a mesa de um café.

Contextualizar


José Maria Gui Pimentel,

  1. O que o primeiro-ministro disse é um lugar-comum hoje em dia quando se fala de desemprego.
  2. Porém, é um lugar-comum que se ajusta mais a uma pessoa que fica desempregada numa conjuntura económica normal, não num período de recessão em que a procura interna contrai.
  3. Importa, ainda assim, contextualizar a declaração: esta aconteceu aquando da tomada de posse do Conselho para o Empreendedorismo e a Inovação, e pretende instar o país, que os números mostram ser muito pouco empreendedor, a melhorar nesse campo. Tendo em conta que este problema estrutural existe, comprovadamente, julgo ser difícil discordar de que se aconselhe alguns desempregados a arregaçarem as mangas e fazerem algo sozinhos.
  4. A política de comunicação do governo é, de facto, fraquíssima. Já as célebres afirmações da “pieguice” seriam mais compreensíveis se devidamente contextualizadas.

Passos Coelho e o desemprego: sobra ao discurso o que falta em percurso


Rui Rocha,

É lamentável a cultura média de aversão à coerência dos políticos. O facto de alguém se candidatar a Primeiro-Ministro e de ser eleito não devia ser encarado como uma oportunidade para mudar de opinião de acordo com as suas conveniências. E o exercício do poder democrático não deveria ter de ser encarado pela sociedade como uma situação que fica estigmatizada nas pessoas. E mais, quem está na Oposição tem a obrigação de evitar a tentação de distorcer e de aproveitar qualquer coisa para querer fazer uma tensão enorme no país. Até porque o país está um bocadinho cansado de crises artificiais. É por tudo isto que dificilmente se compreende que Passos Coelho, que considerou, em Maio de 2011, uma taxa de desemprego de 12,4% como um valor extremamente elevado que representava um sinal evidente da crise profunda que estávamos a atravessar, transforme agora, menos de um ano depois, a tragédia social a que então se referia numa promissora oportunidade.

Falar demais


cadernoelastico,

Sobre as declarações do primeiro-ministro sobre desemprego, só me ocorre uma coisa: nem tudo o que se pensa, por mais verdadeiro que seja, se pode dizer em voz alta. Porque não somos todos bestinhas insensíveis, embriagados com powerpoints de empreendorismos e afins. Há desemprego, e desemprego. E se estas declarações podem ser verdade para alguns (admitindo que “mudar de vida” para um rapaz ou rapariga de 25/30 anos não é o fim do mundo), são uma ofensa para muitos outros, que aos 55 anos vêem o local de trabalho de uma vida inteira fechar, sendo que as oportunidades a mais de meio da vida tendem a não ser abundantes. Nem tudo o que se pensa pode ser dito, repito. 

“Ó Piegas, o desemprego é uma oportunidade!”


André Couto,

“Estar desempregado não pode ser, para muita gente, como é ainda hoje em Portugal, um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma, tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma livre escolha também, uma mobilidade da própria sociedade”, disse hoje o nosso visionário Primeiro-Ministro.

Os piegas, aqueles que não vivem na bolha dos Gabinetes e das Assessorias, nem viveram sempre para a Jota, ficariam imensamente felizes, não fosse a precariedade que os coloca em situações delicadas quando são despedidos, sem direitos nem protecção. Para além disto são ainda os afogamentos violentos em impostos e as barreiras insuperáveis ao empreendedorismo. Oportunidade? Onde? Como? É uma visão fofinha do desemprego, não fosse ser a do País das Maravilhas, não a do nosso.

Ano novo, jornalismo velho


Rui Rocha,

 

O Público dá hoje um enorme destaque, em primeira página, a um número não menos enorme: 53% de aumento, seja lá do que for, é uma variação que impressiona. Se estivermos a falar de despedimentos colectivos, o impacto da notícia será certamente muito maior. Todavia, se analisarmos o seu conteúdo, verifica-se que, apesar de o número de empresas que desencadeou despedimentos colectivos ter crescido os referidos 53%, o número absoluto de trabalhadores despedidos através deste processo aumentou 6,6%. Isto é, relativamente a 2011, terão sido despedidos em igual período mais 420 trabalhadores. Se tivermos em conta que o desemprego em Portugal atinge actualmente cerca de 700.000 pessoas, com tendência para subir, concluiremos que quer o número absoluto de trabalhadores abrangidos por despedimentos colectivos (6.917), quer o crescimento de 6,6% de 2010 para 2011, não são propriamente as razões fundamentais da preocupação colectiva que o desemprego deve provocar na nossa sociedade. O ano de 2012 trará muitos motivos para alarme. Não faltarão manchetes deprimentes para fazer ao longo dos próximos 364 dias. Por isso, não é aceitável que se embarque no alarmismo sem fundamento, reproduzindo para os leitores ondas de angústia que a situação concreta noticiada não justifica.

Façam como eu: leiam devagar


jmmcc,

O ainda secretário de Estado do Emprego, Valter Lemos, disse hoje que o aumento da taxa de desemprego “estava dentro das expectativas“, ressalvando que “o contributo mais significativo foi de pessoas que não estavam à procura de emprego e que agora estão“.

Querem isto mais bem explicado? Ok, lá vai: a subida do desemprego não tem interesse porque estava prevista; o que interessa é ressalvar que o desemprego só aumentou graças à contribuição esforçada e generosa de quem tinha emprego e agora não tem. Entendido?

Sobre a alteração da indemnização por despedimento


Rui Rocha,

De acordo com as notícias disponíveis, o Governo aprovou hoje em Conselho de Ministros um ‘novo modelo de compensação dos trabalhadores despedidos’. Tanto quanto se percebe, este tem três características essenciais:

– será aplicável apenas aos contratos de trabalho celebrados a partir da entrada em vigor do diploma;

– fixará um tecto máximo para a indemnização e, aparentemente, alterará os próprios critérios de cálculo desta (‘ver como poderemos alterar os critérios’ disse a Ministra do Trabalho)

– as indemnizações serão pagas em parte por um fundo a constituir pelas empresas e, em parte, por fundos disponibilizados directamente pela empresa que despede, no momento da cessação.

Sem prejuízo dos ziguezagues a que ainda assistiremos (estamos a falar do Governo de Sócrates & Companhia) estes dados são suficientes para apontar as seguintes críticas:

a)      É alta a probabilidade de esta alteração estar ferida de inconstitucionalidade. O critério que determina a indemnização é a antiguidade. Não encontro nenhuma justificação para, dentro da mesma empresa, cada ano de antiguidade de A, admitido antes de determinada data, valer mais que um ano de B, admitido depois.

b)      Ao contrário do que se pretende, a medida vai gerar rigidez e não flexibilidade. Um trabalhador integrado no quadro de uma empresa, por exemplo, há 10 anos terá menor incentivo para mudar de emprego. A mudança implicará um potencial indemnizatório inferior na nova empresa.

c)       Não resolve qualquer problema de desfasamento do quadro que possa existir actualmente numa empresa. Esse desfasamento, a existir, diz respeito a trabalhadores que já integram os quadros hoje e aos quais a medida não se aplica. Relativamente a estes, o problema terá que ser resolvido no quadro legal actual.

d)      Introduz mais uma grave ofensa ao princípio da solidariedade inter-geracional. Os novos contratos de trabalho serão, na maior parte dos casos, celebrados por jovens. A estes aplica-se um regime menos favorável. Para todos os outros, por acaso os que contribuem para os actuais níveis de produtividade, mantém-se um regime mais favorável.

e)      O regime contributivo parcial que se pretende estabelecer vai implicar mais um custo imediato para as empresas (sabe Deus como andam as tesourarias) em troca de um benefício (?) futuro e longínquo.

Se o valor das indemnizações for um problema para a competitividade das empresas portuguesas (estou convencido de que está longe de ser o único ou o mais grave) a única medida adequada a resolvê-lo, num quadro legal e de equilíbrio, seria estabelecer um regime aplicável, a partir de agora, a todos os trabalhadores: fixar, p. exº, que a partir da entrada em vigor do diploma, cada ano de antiguidade adicional não valeria X (valor actual) mas X-Y.

Deste modo, é possível dizer desde já que esta medida é completamente inútil e, provavelmente, será nociva quando forem globalmente considerados os seus efeitos.

Isto, num dia em que as empresas (cuja competitividade se quer promover) ficam a saber que podem contar com um aumento da tarifa eléctrica até 10% em 2011. Estamos seguramente a falar de uma agenda de crescimento. Das falências e do desemprego.

Subsídio independência


Teresa Ribeiro,

– Já leste isto? Metade das vagas que são oferecidas nos centros de emprego ficam por preencher.

– Sim, mas diz aqui que são empregos em que se fica a ganhar menos do que se recebe de subsídio de desemprego.

– Estás a ver? É a subsídiodependência no seu melhor.

– Subsídiodependência, nada. As pessoas recusam estes empregos porque com o que ganham ficam abaixo do limiar de pobreza.

– E achas que não conseguem viver com isso?

– Tu, conseguias?

– Eu, não. Mas essas pessoas, se quiserem, conseguem.

Merece um coro de vuvuzelas


Pedro Correia,

Outra conquista de José Sócrates: um novo máximo histórico do desemprego em Portugal. Com os níveis europeus cada vez mais longe.

Recordo: este é o mesmo político que em Fevereiro de 2005, quando o PSD estava no governo e a taxa de desemprego era de 7,1%, se indignava com estas palavras veementes: “Este número é bem a marca de uma governação falhada, de uma economia mal conduzida”.

Agora, com mais 3,8% de desempregados, chegou a altura de parafrasear o líder socialista na campanha para as legislativas de há cinco anos: estamos perante uma governação falhada.

O PSD a votos (6)


Pedro Correia,

Libertar o futuro, como já aqui escrevi, é um slogan redondo e redundante. Qualquer adolescente candidato a uma Assembleia de Estudantes podia ter produzido um slogan destes. No país do desemprego galopante, o PSD precisa de soluções concretas para problemas muito concretos. A primeira dessas soluções é eleger um líder que una e mobilize o partido, pondo fim à permanente guerra civil em que se têm envolvido os sociais-democratas. Paulo Rangel, com a sua retórica insuflada de termos como "ruptura", promete acentuar as fracturas internas. Nessa medida, ele é o candidato que mais interessa ao PS.

 

ADENDA: Atenção ao debate desta noite entre Rangel e Passos Coelho, na SIC N. Análises e comentários surgirão aqui logo a seguir.