Falar demais


cadernoelastico,

Sobre as declarações do primeiro-ministro sobre desemprego, só me ocorre uma coisa: nem tudo o que se pensa, por mais verdadeiro que seja, se pode dizer em voz alta. Porque não somos todos bestinhas insensíveis, embriagados com powerpoints de empreendorismos e afins. Há desemprego, e desemprego. E se estas declarações podem ser verdade para alguns (admitindo que “mudar de vida” para um rapaz ou rapariga de 25/30 anos não é o fim do mundo), são uma ofensa para muitos outros, que aos 55 anos vêem o local de trabalho de uma vida inteira fechar, sendo que as oportunidades a mais de meio da vida tendem a não ser abundantes. Nem tudo o que se pensa pode ser dito, repito. 

22 comentários em “Falar demais”

  1. Tens razão, Ana Margarida, mas o que me choca é que assim se pense, como se fosse fácil recomeçar, como muito bem dizes, aos 45 ou 50 anos. Não estamos a falar de uma qualquer pessoa. É o Primeiro-ministro deste país na situação actual.

    1. Não quero ser desmancha-prazeres, mas parece-me que aquela conversa era para os jovens desempregados que em muitos casos, têm formação superior. E os de 45 ou 50 anos que estão desempregados, só terão a esperança de arranjar um emprego, se os mais novos e bem preparados os criarem.

  2. Pode até ser verdade. Mas um primeiro-ministro, cuja obrigação é governar, não pode dizer ao povo que se dêm por satisfeitos, porque os seus erros até podem ser oportunidades para o povo.
    O que é bom ouvir no divâ, da boca de um psiquiatra, soa a obscenidade na boca de um político.

  3. ALeonor achará decerto estranho, mas discordo totalmente 🙂

    a menos, claro, que concomitantemente se defenda que os politicos devem mentir para ganhar eleições, que os políticos devem dizer uma coisa e fazer outra, que a política é um exercício de engan-tolos.

    Uma personagem colorida (e longe de ser das minhas favoritas, de resto) da política francesa disse um dia, verbatim, “les promesses [électorales] n’engagent que ceux qu’y croient”.

    Eu não concordo, apesar de há muito tempo não acreditar em promessas eleitorais.

    Por outro lado, o seu post está na linha de uma característica portuguesa (e não só, mas por agora é que nos interessa): o não-dito. E o não-dito, não-dizer as coisas, é uma das características que mais odiosas me parecem em Portugal. Ainda bem que temos um PM – por quem eu não teria dado um cêntimo antes de o termos no Governo, mea culpa – que diz as coisas tal como as vê (coincidentemente tal como elas são, na minha opinião, mas isso é irrelevante).

    1. Está a confundir um PM com um comentador de blog. Um comentador pode dizer o que lhe vai na cabeça. Chama-se liberdade de expressão: Que os negros são inferiores, que os portugueses são burros, que os alemães são nazis, etc. Um governante, não. Não pode “dizer as coisas tal como as vê”.

  4. Tens muita razão. Se um dia o PM for despedido e aos 50 anos não tiver colocação vai perceber a injustiça do que afirmou.

    1. Sra Dra, esperava um comentário desses de toda a gente, menos da Senhora. Sabe melhor do que eu que só é possivel criar novos empregos com investimento privado. Seja para criar cinco ou quinhentos empregos, se não houver quem esteja disposto a correr os riscos inerentes a montar um novo negocio, ou aumentar os existentes, não há empregos para ninguem. E se existem em Portugal milhares de jovens bem preparados, em quem as respectivas familias e o país investiram tanto, porque não incentivá-los a investir em novas empresas? Esse enorme exercito de desempregados/licenciados portugueses, é um desperdicio a que Portugal não se pode permitir.
      Cumprimentos
      ACS

      1. Meu caro A. Carvalho julgo que terá reparado que eu falo dos 50 anos que não são propriamente jovens…
        Nos jovens o desemprego atingiu os 35%. E se para estes os riscos fazem parte da sua vida, para os pais que são cinquentenários, os sustentam e os abrigam, os riscos podem pôr em causa uma família inteira.
        Por isso disse “se, um dia, o PM for despedido e aos 50 anos não tiver colocação…”

    2. O problema é que o primeiro ministro nunca vai ser um desempregado porque ele quando deixar de ser primeiro ministro sai logo com a reforma.

  5. Podia o nosso PM, para melhor nos convencer das vantagens que o desemprego poderá trazer aos portugueses, despedir-se. Voltar para Massamá e dedicar-se à caça… dos gambuzinos, que é uma espécie muito valorizada para exportação, e assim…

  6. Por conta da crise o meu marido fechou a empresa
    dele há 18 meses,tem um curso de gestão e 41anos.
    Dizem as empresas a que se candidata para trabalhar que é velho,ou então não tem experiencia.
    Abrir um negócio está fora de questão.
    Eu gostava que o iluminado do nosso 1 ministro me mostra-se a saida.

    1. Cara Isabel T, o seu marido é um jovem, e não percebo porque é que com a idade e a formação que ele tem, abrir um negocio está fora de questão. Os empregos das 9 às 5 são muito bons para quem os tem, mas estão em extinção.

      1. Caro Alexandre,eu explico porque não se pode abrir um negocio,o panorama em Portugal não está para gastar dinheiro á toa,abrir uma empresa implica ter disponibilidade financeira (não há).
        A carga fiscal é gigante.
        Já agora nunca disse que queria um emprego,eu
        escrevi trabalho.Bom Domingo.

  7. Cara Isabel T.,

    Essa é de facto aúnica crítica que me parece válida: o que é preciso fazer para que as palavras de PPC se tornem válidas para todos – e não só para os mais novos, que eram, pelo que percebi, a audiência para a qual falava – está nas suas (dele) mãos. Precisa de liberalizar, de desatar o espartilho no qual Portugal se meteu estes anos todos – estes anos todos sendo muitos, vem do corporativimo do Estado Novo, da Lei das Rendas, dos direitos adquiridos, do “monstro”.

    E isso está ao seu (dele) alcance. Basta querer. Pelo menos já deu o primeiro passo: fez um diagnóstico correcto e apontou um tratamento. Agora cabe-lhe a ele criar as condições para que o tratamento funcione.

    1. Isto dito, perdoe-me o regresso, não acredito que ele o venha a fazer; nem ele nem ninguém. O poder não se cede, conquista-se. Fazer aquilo que seria necessário – liberalizar, liberalizar e voltar a liberalizar – significa tirar poder à classe política; nenhuma, em parte alguma do mundo, o fez ou fará voluntariamente.

      Em Portugal haverá mudanças cosméticas, o mínimo necessário para que tudo possa continuar na mesma.

      Pelo menos Passos Coelho não é um delinquente, o que já é muito.

  8. Engenheira, tenho 37 anos, e há 4, depois de vários anos a trabalhar por conta de outrém, abri a minha empresa de serviços outsoursing de engenharia.
    Até hoje, só descobri uma vantagem: poder organizar o meu tempo em função das filhas.
    Atrás disso, vieram os últimos 17 meses sem ordenado, dívidas de clientes com cerca de 10 e 12 meses, concorrência desleal que esmaga os preços, uma brutalidade de impostos, custos energéticos exorbitantes…e gastar as poupanças da família para sobreviver sem qualquer crédito bancário, sem qualquer subsídio e sem qualquer dívida ao estado, colaboradores ou fornecedores.
    Tudo isto, no meio de uma crise sem fim à vista na minha área, a da construção.
    Pelo meio, estou a a concluir um mestrado, e tento gerir uma casa com um orçamento disponível de cerca de 40% do que tinhamos em 2008.
    Emigrar está fora de questão, pelos estreitos laços familiares , pela ajuda que damos aos sogros, e porque este país precisa de nós.
    O meu marido, licenciado em engenharia, numa profissão altamente especializada, numa micro empresa que exporta práticamente tudo o que faz e está no topo do mundo na tecnologia desenvolvida, nãotrás 1400€/mês, porque a empresa recém saída de um processo de insolvência, não pode pagar mais. E não há outro sítio em Portugal que faça o que eles fazem…
    Quem acha que é fácil criar o próprio negócio, chegue-se à frente, força: eu candidato-me imediatamente a ser a primeira funcionária.

    1. Como eu a entendo,é exactamente o cenário cá de casa.É muito fácil criticar quando se está de fora .
      Desejo-lhe muita força.

      Isabel

  9. “Se um dia o PM for despedido e aos 50 anos não tiver colocação”

    Um ex-PM tem sempre colocação, assim o queira.

  10. Não tardará muito veremos os efeitos da política atual, ou aliás, já vemos. Começa a faltar euros para isto e para aquilo do mais básico que há, ao ponto de irem mirrando os que não podem mais. Agora imagine-se uma pessoa sem emprego o que vai pôr na mesa? O que vai dar aos filhos? Ao cão, ao gato, ao piriquito, etc.
    Enquanto que antes se andou a gastar à brava, agora andamos na senda de uns míseros tostões. Que ao menos tenham estes governantes a coragem de falarem menos e agirem mais. Façam alguma coisa ou deixem Portugal anexar-se a outro país sob pena de tudo o que os conquistadores conquistaram ir por água abaixo… Aliás, já estamos encalhados há muito… ao ponto de faltarem as forças para reagir. Daí que estamos moribundos

  11. Pois. Mas se esquece que quando o primeiro ministro acabar o seu mandato, ele vai ter emprego garantido numa qualquer dessas empresas que ele protege…

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