“Nunca vi um pessimista criar um único posto de trabalho”
jorgeassuncao,
Cresce dramaticamente o número de desempregados. Inclusive o número oficial, que ninguém tem dúvidas de que é esmagado à custa dos mais diversos "truques". Toda a gente sabe que o Verão costuma atenuar estes dados, à custa do trabalho sazonal em torno do turismo, mas o mês de Julho alterou a tradição e registou um desemprego assustador.
Porém, o presidente do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) encarrega-se de traduzir à sua maneira a situação. Francisco Madelino acha que é mais importante sublinhar que há um abrandamento e até uma "estabilização do crescimento do desemprego". Por outras palavras: crescer, cresce, mas parece que agora está a crescer de modo mais regular! Junte-se a isto que o IEFP teria colocado este ano no mercado de trabalho 35 mil desempregados, além dos 307 mil desempregados que fez desaparecer dos seus centros de emprego.
Madelino também explica estas sucessivas limpezas das listas do IEFP: o desempregado encontra sozinho emprego, falta à convocatória dos centros de emprego, está em formação profissional, é alvo de medidas de emprego ou reforma-se. Todos nós podemos encontrar mais motivos: o desempregado emigra, morre, desiste, não recebe a convocatória do centro de emprego ou recebe e está doente sem poder deslocar-se, entre outros.
Motivos possíveis é o que não falta. O que falta são os motivos reais, que os parceiros sociais com assento no conselho de administração do IEFP exigem, mas que o conselho directivo do IEFP se recusa a divulgar, por achar suficiente o que já divulga.
Como é isto de termos um instituto com conselho directivo e conselho de administração? Contornos empresariais num instituto em que, afinal, o patrão é que manda sozinho? Será que o INE está a precisar de um tradutor de números? Eram dois ganhos: o INE ficava com a imaginação musculada de Madelino e nós livrávamo-nos da ginástica mental do presidente do IEFP.
Obs. — Há duas expressões nesta história que se enquadram no novo e infeliz linguajar dos nossos políticos e para-políticos: a estabilização do crescimento do desemprego e o empregado foi alvo de medidas de emprego. Até à geração anterior, toda a gente sabia dizer coisas destas com menos palavras, de modo escorreito e sem margem para dúvidas. É como ‘estamos a vivenciar um período de crescimento negativo das exportações‘, ‘estamos a proceder a averiguações para eventual abertura de um inquérito‘ e outras que tais.
A razão da mudança a que temos assistido é simples, neste como em todos os casos: eles não fazem e não querem dizer que não fazem, pelo que lhes resta dizer que fazem, mas sem que se perceba se fazem ou não fazem aquilo que deviam fazer e não fazem.
Concordam? Ou estarei a dizer alguma não-verdade?
José Sócrates, na campanha eleitoral de 2005, prometeu pôr a economia portuguesa a crescer a um ritmo anual de 3%. Como bem sabemos, esta promessa ficou pelo caminho – tal como todas as outras promessas quantificadas que lhe serviram de emblema nas últimas legislativas, dos impostos que não aumentavam e afinal aumentaram aos 150 mil postos de trabalho que iria criar mas não criou. Ontem, alguns dos seus maiores propagandistas embandeiraram em arco: a economia portuguesa registou um ‘progresso’ de 0,3% no segundo trimestre deste ano. Foi quanto bastou para o próprio Sócrates recuperar as habituais sessões de propaganda nos telediários, garantindo que a economia portuguesa está no rumo certo e blablablablá. Gostava de saber se o primeiro-ministro voltará hoje a aparecer nos noticiários televisivos a justificar as mais recentes cifras sobre o desemprego que contrariam as previsões do Executivo: a taxa de desemprego subiu para 9,1%, existem agora – oficialmente – mais de 500 mil portugueses sem trabalho. A população desempregada aumentou 23,9 por cento face ao segundo trimestre do ano passado (98 mil pessoas) e 2,4 por cento em relação do primeiro trimestre deste ano (mais 11,9 mil desempregados), revela o INE. Aguardo ansiosamente pela próxima aparição televisiva de Sócrates, um dos principais candidatos ao desemprego político de 2009.
Numa espécie de reedição pouco imaginativa do que fez antes, Sócrates prometeu resolver na próxima legislatura a situação dos 25 mil jovens desempregados que não têm direito ao subsídio. Ora, se as promessas de Sócrates são o que se sabe, as promessas de emprego, essas, já começam a parecer uma fixação.
Quem está pouco contente com as ofertas de emprego de José Sócrates é Francisco Louçã, que o acusou de tráfico de influências por ter oferecido a Joana Amaral Dias um elevado cargo institucional se esta apoiasse as listas socialistas. Só que esta oferta de emprego especial tem mais que se lhe diga: a própria convidada já teve anteriores dificuldades para resistir às tentações recebidas de fora e nunca se sabe se não estaria disposta a reeditar o seu afastamento do BE. Talvez Louçã estivesse mais a avisá-la do que a falar para Sócrates.
A OCDE publicou este mês o relatório Society at a Glance 2009 onde, entre outras coisas, é possível ter acesso aos gráficos que acompanham este post referentes aos dados sobre a satisfação média que as pessoas desses países aparentam ter para com a vida que levam. O que há a destacar no primeiro gráfico? Entre os 30 países em causa, Portugal está na quinta posição a contar do fim no que toca à felicidade (isto até permite algum spin, afinal de contas, há outros em situação pior que a nossa). Mas antes de ir à situação portuguesa, ainda sobre a interpretação destes gráficos, Thomas Kostigen aproveita para tentar estabelecer uma relação entre impostos e felicidade, isto porque os países mais felizes, são países com elevadas taxas de tributação. Matthew Yglesias afirma, como é óbvio, que não pode ser o acto de pagar impostos a deixar as pessoas mais felizes. Por isso, segundo este, é mais plausível atribuir estas diferenças às desigualdade de rendimento, no sentido em que países que apresentem maior igualdade, tendem a ser mais felizes. Will Wilkinson contesta, isto porque, entre outras considerações, os Estados Unidos, com o seu nível de tributação baixo e desigualdade grande, aparecem relativamente bem colocados no ranking. Wilkinson questiona mesmo porque as desigualdades de rendimento dentro de um país afectariam a felicidade individual? Diz este, provocando, que "as pessoas não experienciam coeficientes de Gini. Preocupam-se é com o carro dos vizinho".
Mas o que me chamou a atenção nos dados foi este gráfico:
E o quê que este gráfico nos diz? Que entre todos os países em análise, Portugal destaca-se por ser aquele onde a felicidade entre 2000 e 2006 mais diminuiu. Não é só o facto de estarmos cada vez menos felizes, contrariamente à tendência, mas pior que isso, somos o que tem a variação mais negativa no período em questão (aqui não há nenhum spin que valha). A questão é: porquê? A Kostigen não posso recorrer, afinal de contas, se algo aconteceu em Portugal neste período no que toca a impostos, foi a subida destes (e o futuro promete mais subidas). A Yglesias talvez faça algum sentido recorrer, segundo consta a desigualdade aumentou na sociedade portuguesa no período em questão. Mas, para mim, a desigualdade só por si não explica a situação, acredito mesmo que num país onde aumente a desigualdade, mas todos os estratos sociais vejam a sua situação melhorar, a felicidade tenderá a aumentar. O problema português é que a nossa riqueza estancou, deixamos de criar riqueza como até então. E com isto largos sectores da sociedade não só viram estancar o seu nível de vida como, pior que isso, encontraram-se de um momento para outro, contrariamente às expectativas geradas, a empobrecer. E se os dados ficam por 2006, não me admiro que de lá para cá a situação tenha piorado. Digo mais, perante aquilo que o futuro nos reserva, temo pelo que será deste país.
Voltando ao carro do vizinho a que Wilkinson faz referência, mas tomando-o noutro sentido, estou verdadeiramente preocupado porque são cada vez mais os carros dos vizinhos parados na minha rua nos dias da semana. E isso transmite uma realidade espelhada nos números do desemprego que vão sendo divulgados a cada mês que passa. E mais preocupado estou porque algumas destas pessoas não aparentam qualquer expectativa de encontrarem novo emprego tão cedo. O que os preocupa não é quando voltarão a ter emprego, mas muito mais se o governo prolonga ou não o subsídio a que actualmente têm direito. E esta é uma questão que devia ser central num ano em que se disputam três eleições: desde quanto nós, portugueses, aceitamos de bom tom continuar a empobrecer de ano para ano. Desde quando a apatia triunfou sobre a esperança. E se é viável uma sociedade onde tantos dependem do dinheiro público para sobreviver. Foi Alexis de Tocqueville quem afirmou que "a República Americana vai durar até o dia que o Congresso descubra que pode subornar o público com o dinheiro público", uma frase que pode e deve ser repensada para esta República Portuguesa, versão século XXI.
Não viro a cara a uma boa polémica. A discussão, em especial a política, é um bom condimento, entre outros, a ter na vida. Com este princípio respondi-lhe, Luís Naves.
Se enumerei apenas um dos seus textos foi porque esse tinha o link para o primeiro a que se refere e que li. Sabe bem disso porque lhe respondi também a esse.
Ademais diz, e com razão, que não me acusou de demagogia. É verdade, acusou de leviandade. Respondi-lhe ao texto com nova sugestão de demagogia e justifiquei. Dou-lhe vários argumentos e se fizer as contas enumerei bem mais argumentos ditos factuais que o Luís. Se questões de fé aqui existirem, não serão certamente (apenas) minhas.
Já critiquei neste blog como noutros a atitude de muita gente ligada ao PS. Nesse campo nada tenha a provar.
Não preciso de visitar um centro de emprego porque sei o que lá se passa. Se há coisa de que me orgulho nas disputas políticas é a de ter uma espinha dorsal ideológica ligada às preocupações sociais. Relembro que toda esta polémica, que o Luís apanhou a meio, nasceu porque houve uma comparação entre 2005 e 2009 e apenas aí trouxe a demagogia. Jamais me mostrei agradado ou elogiei a situação actual.
Tenho pena que não me responda mas isso é naturalmente uma opção sua. Eu compreendo.
A propósito deste post do André Abrantes Amaral, com o qual concordo, convém olhar para os dados do quadro acima que deixam tudo mais claro. Muitas vezes no debate sobre o desemprego há quem não perceba que iguais taxas de desemprego podem esconder realidades sobre o mesmo bastante distintas. Em Portugal, dada a legislação laboral pouco flexível, o desemprego é um problema muito maior do que noutros países. A empresa, sabendo da dificuldade que a legislação coloca ao despedimento, pensa duas vezes antes de contratar alguém. Da mesma forma o trabalhador, conhecendo a dificuldade em encontrar novo trabalho, raramente arrisca abandonar uma empresa mesmo quando não se sente satisfeito com o trabalho que lá desenvolve [a propósito, refira-se este gráfico]. Quando tanto se fala no combate ao desemprego, talvez fosse boa ideia começar a ponderar seriamente combater de forma eficaz este problema social gravíssimo que é o desemprego de longa duração.
O Luís Naves do Corta-Fitas respondeu ontem a dois textos meus intitulados "Aos demagogos do desemprego (1) e (2)".
Utilizou vários argumentos para me devolver a acusação de demagogia e todos devolverei acompanhados da respectiva fundamentação.
Comecemos pela análise do exemplo Irlandês. Se em 2009 o rendimento per capita da Irlanda é duas vezes superior ao português, em 2005 já o era. Se a rede social irlandesa é melhor que a nossa, o que não dou por adquirido, em 2005 já o seria. Se hoje pagamos os mesmos impostos, em 2005 pagávamos mais. O exemplo Irlanda de pouco vale. Em tempos de prosperidade eles vivem melhor, em tempos de crise viverão menos mal. Se reparar só me referi à Irlanda por ser o case study, qual cobertor do Charlie Brown de Paulo Portas, em tudo o que são sessões parlamentares de ataque ao Governo.
Louvo a acção do Governo por desenvolver medidas excepcionais, no sentido de amenizar as consequências da crise nos mais desfavorecidos e/ou desempregados. Dou-lhe como breves exemplos:
1. Aumento ímpar do salário mínimo, o tal que "roça a irresponsabilidade", nas palavras da Dra. Manuela Ferreira Leite;
2. Extensão do subsídio social de desemprego de 12 para 18 meses;
3. Genéricos gratuitos para mais de um milhão de pensionistas;
4. Demonstração de vontade de que os gestores de empresas falidas tenham acesso ao subsídio de desemprego, o que tem esbarrado nos Sindicatos;
5. Linha de apoio para o crédito à habitação de trabalhadores entretanto desempregados;
E como sabe podia trazer-lhe bastantes mais.
Servem os pontos 1., 2., 4., e 5., para lhe justificar porque é que não é o mesmo ficar sem emprego em Portugal e na Irlanda.
Os meus posts nascem com a comparação que foi feita com o ano de 2005. Quanto a isto, permita-lhe que lhe diga, a melhor pergunta e contra-argumentação que recebi foi a do Jorge Assunção, na caixa de comentários dos posts que aqui coloquei. Pode ir lá. Digo-lhe desde já que discordo dele, como poderá ler.
Se me refiro a "demagogos do desemprego" é por às vezes não compreender as reacções. O desemprego cresce menos em Portugal que no resto da Europa, o Luis vê nisto um indicador puramente negativo e eu é que sou o demagogo?
Demagogia é:
1. Colocar dois posts relativos ao desemprego e nunca referir a expressão "conjuntura internacional", ou afim;
2. Nesses mesmos dois posts não referir quaisquer medidas de apoio aos mais desfavorecidos e/ou desempregados do actual Governo, que foram únicas nos últimos anos;
SEGUNDAS-FEIRAS AO SOL
Esta campanha para as eleições europeias está contaminada pela crise económica. E, dentro da crise, o debate centra-se na grande questão política do momento que atravessa todo o continente: o dramático aumento do desemprego. Em nenhum país estas cifras são mais dramáticas do que em Espanha, o principal parceiro económico de Portugal. Nesta matéria, a sensação dominante é que o Executivo de José Luis Rodríguez Zapatero, ainda há um ano apontado como um exemplar governante de centro-esquerda e um expoente do “verdadeiro” socialismo, se encontra à beira do colapso. E a afundar o país com ele. O número de desempregados em Espanha ultrapassa, pela primeira vez, os quatro milhões de pessoas – cifra nunca antes atingida desde que estas estatísticas começaram a ser divulgadas com regularidade no país vizinho, em 1976. A taxa de desemprego espanhola atinge os 17,36% da população activa – de longe a maior da Europa na actualidade. E, soube-se hoje, a Comissão Europeia já prevê que esta percentagem suba para 20,5% no próximo ano.
Como sublinha o El Mundo, com Zapatero assiste-se à retirada diária de 8920 trabalhadores do mercado laboral – ao ritmo de seis novos desempregados por minuto e 400 por hora. Catalunha, País Valenciano e Múrcia duplicaram o número de desempregados num ano. Na Andaluzia, a taxa de desemprego disparou já para os 24%. “Entre Janeiro e Março de 2009 destruiram-se 766 mil postos de trabalho, a pior cifra da História”, salienta o El Mundo. Pior do que na Alemanha de 1974, gravemente afectada pelo choque petrolífero que então provocou 945 mil novos desempregados – em Espanha, no ano passado, houve 999.416. Pior ainda do que a catastrófica República de Weimar, que antecedeu a chegada de Hitler ao poder em Berlim. Entre o início de 1932 e o início de 1933, a Alemanha pré-nazi registou 1.300.000 desempregados – número claramente inferior aos 1.836.500 desempregados da Espanha “socialista” de 2008.
Depois de eu ter dito isto, diz-nos o último Semanário Económico que "Portugal é o País da União Europeia onde o desemprego menos subiu", segundo dados do Eurostat.
Gostava de saber onde se escondem por esta altura os paladinos do desemprego que todas as semanas enchiam os jornais, televisões e afins. Calculo igualmente que, se uma análise fizessem, este facto já não fosse da responsabilidade do Primeiro-Ministro…
(Imagem rapinada ao Câmara Corporativa)
Acho uma certa piada aos demagogos do desemprego, aqueles que acham que Portugal é imune à conjuntura económica que o rodeia e, plenos política barata, disparatam constantemente sobre o tema.
Compreendo que a história por vezes é cruel e muito difícil de digerir, afinal, em 2005, quando o desemprego descia em todo o lado, aumentava em Portugal. Não era?
Mas porque já estamos em 2009 e 2005 é um pesadelo passado, tomei a liberdade de "roubar" ao Jorge Assunção esta tabela, para partilhar a convosco minha reflexão.
Analisando a evolução 2007-2010 das taxas de desemprego, vemos que a Irlanda, exemplo de comparação tão querido do CDS/PP, vê a sua galopar 8,5%. Espanha, nossa vizinha embora isso nada releve para alguns, vê a sua disparar 11%, sendo que em 2007 era apenas três décimas superior à de Portugal.
Cá no Burgo, e segundo previsão do insuspeito Fundo Monetário Internacional, a taxa de desemprego cresce "apenas" 3%…
Se é o cenário desejável? Não, não é. Mas se em 2005, quando tudo estava internacionalmente saudável, o desemprego crescia em Portugal, imagino velocidade de crescimento superior à da luz hoje em dia, caso o PSD fosse governo.
Têm menos de 30 anos. Mas estão condenados a prosseguir a formação, a viver com os pais mais tempo ainda e a esperar. Porque terminam os estudos em plena crise. E sem oportunidades. Uma excelente reportagem do El País, que recomendo. Fala da Espanha de Zapatero. Mas tudo isto se passa também no Portugal de José Sócrates, onde a geração mais bem preparada de sempre, em termos académicos, para enfrentar os desafios profissionais parece afinal condenada ao desemprego. Nunca se estudou tanto como agora. E nunca a falta de perspectivas foi tão notória. Felizmente, existe Angola. Para as estatísticas serem menos chocantes deste lado da península.
Há um mês, sabe-se lá porquê, os números do desemprego eram animadores. Agora são aterradores: "Traduzem um aumento do desemprego em Portugal, como em todos os países da Europa. Estamos a viver uma crise mundial sem precedentes." O autor de ambas as afirmações, separadas por escassas semanas de intervalo, é o mesmo : José Sócrates. Que assim confirma estar numa fase de pura navegação à vista, sem saber como contornar esta evidência, agora confirmada pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional: o desemprego entre nós subiu 17,7% entre Fevereiro de 2008 e Fevereiro de 2009, atingindo hoje oficialmente 469.299 pessoas. É o maior acréscimo num período homólogo desde 2003: só num ano registaram-se mais 70.720 desempregados. E 21.333 no último mês.
Más notícias para aqueles que, na linha de Sócrates, vogavam ainda há pouco em onda de optimismo. Gente como Paulo Pedroso, que proclamava com uma fé inquebrantável: "Apesar de tudo, Portugal continua a resistir." Ou como Miguel Cabrita, sempre em sintonia com o Governo, que utilizava o drama humano do desemprego em exercícios de ironia. Ou o inevitável Vital Moreira, que se entusiasmava perante números "muito menos maus do que as previsões".
Procurei nos últimos dias, por estes mesmos blogues, a ver o que tão distintos autores diziam sobre a mesmíssima matéria, devidamente revista e actualizada: nada. Obviamente. Por vezes nada há de tão eloquente como o silêncio.
Ao cuidado do Vital Moreira e do Hugo Mendes: o relatório do desemprego do eurostat de Março de 2005 (para comparar com o de Janeiro de 2009 a que fazem referência). Com isto talvez possam verificar que desde o momento em que o querido líder passou a ocupar a cadeira do poder, a posição de Portugal em matéria de desemprego no contexto europeu piorou. De resto, no que parece ser a opinião de ambos, folgo em saber que a culpa da taxa de desemprego não é do governo. É coisa com a qual, dentro de certas condições, estou disposto a concordar (embora algo me diga que os dois teriam leitura diferente caso a situação fosse a inversa). Entretanto, ando a rever textos de ficção datados de Janeiro de 2005: Sócrates promete um país com mais empregos e menos pobres e Sócrates promete crescimento de 3 % e quer recuperar 150 mil empregos.
Em 2005, Espanha registava a mais baixa taxa de desempleo em 26 anos, no Reino Unido o unemployment descia a olhos vistos, o chômage francês recuava pelo sétimo mês consecutivo atingindo o valor mais baixo dos últimos três anos e nos Estados Unidos o unemployment baixava duas décimas em Março.
Nós por cá, como bem constatou o Pedro Correia, batíamos records de taxa de desemprego trimestre após trimestre e o "bandido" do líder da oposição (José Sócrates) ficava indignado com isso e manifestava-se, imaginem! Era suposto ficar calado quando o mundo avançava e o País recuava de forma economicamente inexplicável?
Desemprego, desempleo, unemployment e chômage são palavras que representam o mesmo triste facto. Esse facto tem uma personalidade fraca e anda sempre atrás dessa tal de conjuntura económica mundial que por vezes não tem comportamentos muito sérios.
Por mais que se esperneie, o País já sabe que o nosso desemprego actual decorre da crise mundial.
Já em 2005 não era bem assim…