
O editorial de Eduardo Dâmaso na revista Sábado

O editorial de Eduardo Dâmaso na revista Sábado

Julgo que este administrador integrou um governo ao qual Sócrates pertenceu. Socialista, passou a década seguinte botando na imprensa e no bloguismo, e cruzando altos postos. Nunca aflorou, escavando-a, a temática socratiana. Não lhe terá ocorrido. Um tipo tira a conclusão óbvia: foi conivente (cúmplice não o posso afirmar, sem provas seria difamação dizê-lo) com aquela ladroagem, com todo o nepotismo e patrimonalismo (ou então é um estúpido, pois não percebeu nada apesar de tantos indícios e de frequentar – e de que maneira – o poder político). A única coisa que lhe interessa retirar do momento actual, em registo de miserando “achismo”, e assim de total inépcia intelectual, é que a “direita” (à direita de quê, do seixascostismo?) tem uma “candidata” contra os pintos monteiros do PS.
Há algumas semanas Santos Silva, outro que tal, entrevistou-se no Expresso e disse sobre o passado recente do PS e seus governos (dos quais julgo ser ele totalista desde Guterres) que não faz “julgamentos éticos” do passado. Um aldrabão militante, pois o que se exige, e sabe-o bem, são julgamentos (no sentido de avaliações críticas) políticos, sobre o funcionamento das instituições estatais e da sociedade civil (em particular os partidos) face a estas necroses patrimonialistas. Esta gente continua no seu incessante esforço de obscurecer – pelo adormecimento da opinião pública e através da obstrução ao funcionamento da justiça – as práticas criminosas do partido a que se associaram. São cúmplices (agora sim) desse obscurecimento do real, são coniventes com a criminalização do Estado português.
Há algum tempo sobre esta loquaz pluma conivente aqui utilizei o termo “colaboracionista”. Com este estado de coisas. O bom do Pedro Correia, sempre exemplo de elegância, chamou-me a atenção, pois o termo está de tal forma semanticamente conotado (com a associação ao nazismo) que lhe pareceu exagerada e descabida (e talvez improdutiva) a sua utilização para com o antigo embaixador e secretário de estado. Tive que concordar com o nosso coordenador, sempre exemplar. Mas discordo agora, e radicalmente: esta investida do administrador socialista, cavalo no jogo de xadrez para o amansar da procuradoria-geral da república, é um vil acto de colaboracionismo. Com a ladroagem estabelecida.
E depois dizem que são de “esquerda”. Esquerda o quê? …

É assim no aeroporto da Portela, uma execrável sala de fumadores, com uma extracção de fumo praticamente inexistente, e sem higiene. A empresa à qual o Estado concessionou o negócio aeroportuário deixa esta imagem do país – e para os que confundam a prevenção do tabagismo com o mero javardismo vou antecipando, enquanto murmuro desde já os impropérios merecidos, que vão lá ver o acesso à internet do aeroporto da Portela (agora nomeado segundo o candidato luso a generalíssimo), escrito num imundo portunhol – isto num país onde os maçónicos produzem textos sobre “o potencial económico da língua portuguesa” e os altos quadros ADSE se ofendem com a tradução simultânea dos representantes da Guiné Equatorial … Ainda bem que (me) prometi não escrever “palavrões”. Nem um mero “merda”.

A minha filha e a minha irmã têm-me repetidamente exigido que não escreva “palavrões” no blog/FB. Aceito agora. O governo anuncia redução fiscal aos emigrantes que retornem: já leio inúmeros a botarem contra nós, que nos baldámos do país, quais veros traidores; e leio vários opinadores, até autores, sempre prontos (e bem) à verrina contra a corveia que os encargos fiscais por cá são, destinada a alimentar a mesquitamachadose, mas agora a invectivarem esta redução fiscal; e num pais que nunca teve uma poltica demográfica mas teve, e muito, uma apropriação geracional da riqueza, com o escandaloso esbulho que o pós-25 de Abril fez ao futuro, é vê-los a criticar parcas medidas para captar mão-de-obra que pague impostos (e não os imigrados vítimas do “dumping” social que os defensores dos “refugiados” tanto julgam adorar). Saiba essa gente, que me reduz a nacionalidade por ser emigrante, e que se está nas tintas para as curvas do país em nome das suas doutas preferências do dia, que não direi palavrões. Deixo-lhes mesmo, aos agora tão incomodados com as reduções fiscais anunciadas para os miseráveis retornados que andaram lá fora a explorar pretos (afrodescendentes), (pérfidos) brancos e gentes de várias outras etnias, um poema do tão português (e vindo de Durban julgo que nunca mais cruzou a fronteira daquele enclave onde lhe botaram a pitoresca estátua) Pessoa:
Alma de Côrno
Alma de côrno – isto é, dura como isso;
Cara que nem servia para rabo;
Idéas e intenções taes que o diabo
As recusou a ter a seu serviço –
Ó lama feita vida! ó trama em viço!
Se é p’ra ti todo o insulto cheira a gabo
– Ó do Hindustão da sordidez nababo!
Universal e essencial enguiço!
De ti se suja a imaginação
Ao querer descrever-se em verso. Tu
Fazes dôr de barriga à inspiração.
Quer faças bem ou mal, hyper-sabujo,
Tu fazes sempre mal. És como um cú,
Que ainda que esteja limpo é sempre sujo!

(Jardim da Memória, memorial dos escravos na Ilha de Moçambique – power point alusivo de Ana Fantasia e Pedro Pereira Leite. )
Tanto a proposta de um novo museu municipal sobre a expansão portuguesa como o debate sobre um monumento/memorial dedicado ao comércio escravista continuam, em particular sediados no “Público”, nisso mostrando o quanto isto se encontra no âmago da intelectualidade bloquista, residente na redacção daquele periódico. Hoje sai mais um artigo, Quem tem um direito a erguer uma estátua?, de João Figueiredo, texto defendendo a construção de um memorial aos escravos (“pessoas escravizadas”, como se intitulam no artigo, é, pura e simplesmente, um ademane apatetado, típico da novilíngua blocal).
Levanta questões interessantes: também já o havia pensado, num país cheio de monumentos às ceifeiras, pescadores, etc – e agora até ao surfista, ainda que este num registo diferente -, figuras típicas e identitárias, assim celebradas na sua condição de historicamente (sobre)exploradas, verdadeiro “sal da terra”, nada opõe a que se “recorde” e “vivencie” o tétrico historial da escravidão. E, acima de tudo, que se contribua para integrar essa história na identidade portuguesa, de forma socialmente significativa. Importa-me mais como se monumentalizará isso, num país onde há “intelectuais” (ou pretensos letrados) que ainda se iram com uma “Casa do Motor” de Cabrita Reis (“não é arte” dizem, doutos), mas nem tugem nem mugem com a estátuazita pirosa e anacrónica de António Vieira (e foi tudo discutir a propósito do paupérrimo texto invectivador de Alexandra Lucas Coelho – uma linha de irreflexão que Figueiredo aqui ressuscita – mas ninguém resmungou com aquela tralha plantada no meio de Lisboa em 2017) e até gozam com o busto de Ronaldo ao Funchal, “porque não é parecido” e “é feio”, como se o gozo não fosse devido à patética ideia de meter um busto num equipamento público como um aeroporto. O formato do monumento aos escravos não é importante? Vai ser. Porque forma é conteúdo. E também o será na medida em que daqui a algum tempo estes racialistas, de facto racistas, virão dizer, com toda a certeza, que a conceptualização do memorial deverá ser feita por um “afrodescendente”, pois só um deles poderá “sentir” e ser capaz de “representar”. Esperem-pouco.
Depois há o resto. Estamos a enfrentar gente que tem concepções políticas diferentes, é uma luta ideológica. Que será prolongada e persistente. Para esta corrente política há a “comunidade branca” e as “comunidades racializadas”, como dicotomiza o autor deste texto. São dois modelos de reflexão sobre a sociedade, são dois modelos de intervenção política, são dois modelos de concepção de indivíduo. Este ideal de “comunidade”, de sociedade feita de comunidades prioritárias, logica e socialmente, não é obrigatoriamente anti-democrático, ou seja, os seus utilizadores não são obrigatoriamente anti-democráticos. Adequa-se, hoje, muito às sequelas do estalinismo-maoismo mas a elas não se reduzem. Mas convirá perceber, no meio desta boa causa do “coitadinhos dos tetranetos dos traficantes de escravos”, perdão, “dos tetranetos dos escravos”, se queremos dividir a sociedade em “comunidades” ou se queremos incrementar o universalismo. Se temos que pensar e actuar como os americanos (os que teciam loas à “rainha africana” Obama) ou como os brasileiros, que àqueles copiaram, ou se temos e podemos continuar na senda de outros princípios analíticos e programáticos, que têm mancamente vigorado, e que na política assumimos desde que deixámos o corporativismo (do qual este comunitarismo de época é mero aggiornamento).
Finalmente sobre este texto. Para além de clamar isto da “comunidade branca” (vs “comunidades racializadas”) convirá lembrar uma coisa, face ao que o autor quer deixar implícito (não o explicita para depois poder negar que o disse, estratégia retórica nítida): não há apartheid em Portugal. E quando surfamos este tipo de implícitos estamos no grau zero. Na mera demagogia. Um dia, mais tarde, haverá, decerto, um monumento ao Demagogo. Aliás, temos as cidades cheias de toponímia dedicada a demagogos. Está na altura do monumento geral. Ou, utopia, esperemos por um memorial. Para as gerações futuras, quando a demagogia for uma mera memória histórica. Falta muito, pelos vistos.

Esta semana no dia feriado, um almoço opíparo, convidado para uma celebração de vida de antigos combatentes: uma extrema cachupa, culminada com um cognac de belíssimo coturno, “para uso exclusivo das forças armadas” (como está carimbado no rótulo, na vertical à direita, comprove-se na fotografia), saído há exactamente 50 anos de uma messe de oficiais, desde então aguardando o hoje.

Este homem esteve em Lisboa em 2017. Agora, por incritérios irracionais, vai uma barulheira por causa de um convite parecido. Puro machismo: se um “facho” homem vem tudo está bem, se uma “facho” mulher vem tudo está mal.
Entretanto, se alguém me conseguir explicar, à luz de uma visão democrática, a pertinência do Estado financiar uma actividade privada e decidir sobre quem nela pode participar eu juro que tentarei perceber, no meio deste veraneio.
Dirão que é “política”. Não, não é. De facto é mais profundo do que isso, é mesmo “sociedade”. É a prevalência do estatismo. E os “democratas”, os “antifascistas” pois “antilepenistas”, concordam, praticam, convocam, este feixe de práticas: o “Estado”, seus funcionários ou avençados, financia e assim decide não só o “quê” mas também o “quem”. A Le Pen fede? Fede. Mas isto, esta maneira de ver a vida, ainda fede mais. E não é lá em Paris de França, é “mesmo aqui ao lado”.
Thabo Mbeki, vice-presidente da presidência da Mandela e depois presidente da república da África do Sul, aqui numa curta entrevista ao El Pais, sobre a dimensão sistémica da corrupção no poder do seu país e o quanto isso se torna obstáculo ao desenvolvimento. Impiedoso, no seu estilo suave, com o anterior presidente Zuma mas também exigindo uma diferente análise e uma diversa prática no tempo presente. Cá no país, onde ninguém do poder faz uma análise similar do acontecido sob Sócrates e dos ímpios caminhos da clique cavaquista, nem dá para imaginar um político de topo fazer isto. Sampaio, ex-presidente PS, falar de Sócrates? Resta Sousa Santos a dizer que não faz “julgamentos éticos” (é a política, estúpido, são julgamentos – avaliações – políticos que se pedem). Resta Cavaco a segurar Dias Loureiro até para lá de Bagdad. Resta-nos este avatar do socratismo, tal como na África do Sul Zuma é agora Ramaphosa, talvez que em versão mais elegante. Resta pouco.

Kofi Annan acaba de morrer. Este seu curto discurso de 2006 é uma bela peça, até um verdadeiro legado, diplomática que seja, melhor do que os obituários. E crucial hoje, na era trumpiana.
Na mesa ao lado uma família: o pai acaba os 40s, óculos escuros na noite, agarrado à tabuleta, a filha começou os 20s a engordar, uma breve tatuagem acima do pulso esquerdo, mergulha os óculos entristecidos no telemóvel, a mãe, falsa loira ainda bonita no seu suave prognatismo, matizado pelo nariz arrebitado, quase perdida nos seus braços cruzados. Um único toque humano mas que vem suficiente, entre si pai e mãe encostam uma perna.

Em Junho de 2017 houve o incêndio de Pedrógão Grande, mais de 60 mortos. Todos se lembrarão dos dias imediatos: Costa ripostou “não me faça rir” ao jornalista que lhe perguntou se haveria responsabilidade governamental no drama. E foi de férias. Pouco tempo depois a ministra da tutela queixava-se que não tinha ido de férias. A ideia geral nos apoiantes do governo era a de que este não tinha qualquer responsabilidade no acontecido: no próprio dia inicial do incêndio os serviços estatais identificaram a causa, uma coisa chamada “downburst”. Nesse mesmo dia, regressando de férias, a jornalista Fernanda Câncio resumia o acontecido a efeitos climatéricos. Dois dias depois, e completamente ao invés do que acabara de dizer sobre um terrível incêndio londrino, a historiadora Pimentel também reduzia o acontecido a efeitos do clima. As hostes apoiantes afadigavam-se a criticar a demagogia da jornalista Judite de Sousa. E depois cerraram fileiras contra um jornalista português que escrevia sob pseudónimo na imprensa espanhola.
Para eles a situação era simples: o governo não tinha responsabilidades sobre o desastre acontecido na mata portuguesa. A “direita” e a “extrema direita”, “demagógicas”, utilizavam a desgraça para atacar o poder. Dizer que “o PM tem que ser escrutinado, não culpado” (até porque fora importante ministro da tutela, reestruturara o sector, levara a sua equipa de então, uma década depois, para o novo governo, anunciara grandes medidas de combate ao fogo, e mudara as cadeias de comando), era um exemplo de demagogia, de discurso de “direita”. Pois, repito, a responsabilidade do acontecido havia sido, num primeiro nível, climatérica (como Câncio, Pimentel e tantos outros afirmaram) e, vá lá, “estrutural”, efeitos de uma longa política da qual este pessoal político actual não é responsável.
Meses depois outro terrível incêndio matou quarenta portugueses. Mais uma vez o coro de críticas e de lamentos foi invectivado como demagógico e obra da “(extrema) direita”. E uma vaga de resposta surgiu, a culpa verdadeira era não só dos eucaliptos como da lei eucalipteira feita em 2011 por Cristas.
Entenda-se bem, nesta linha discursiva as políticas governamentais não implicavam responsabilidade sobre a existência de desastres florestais. O facto de um ano decorrido o relatório do acontecido não esmaece está crença. Julgo até que a consolida.
Em 2018 arde Monchique (como já ardera este século, note-se). Aos críticos do acontecido aponta-se-lhe de novo o serem de “(extrema) direita” e a “(extrema) demagogia”. Conversando simpaticamente na tv com Nobre Guedes, como se num clube britânico de uma novela vitoriana, Eduardo Marçal Grilo resume a posição dos apoiantes governamentais: o governo tem estado muito bem, “teve azar” (Costa foi a Monchique anunciar a política de prevenção do fogo florestal um mês antes da razia) “mas é a vida” (sim, “é a vida”, foi a expressão de Grilo).
E por todo o lado se lê e ouve o sumário dos fiéis do governo: as medidas do governo são boas “malgré tout”, apesar de Monchique, há que o defender. Apenas noto uma incongruência: se o drama do ano passado era inimputável ao governo, pois excêntrico às suas medidas estruturais e conjunturais, como se pode agora imputar-lhe o (putativo) sucesso? Não há aqui uma incongruência?
Ou melhor dizendo, é um caso típico, esta mentalidade dos adeptos do governo, agitados pelos teclados prostitutos do Expresso e do DN, de “solto por ter cão, solto por não ter”.
Porque, de facto, é a única coisa que interessa a esta gente. Seguirem soltos.

O “estado da arte” actual … Dois “artistas portugueses” à serra de Monchique.
“Porreiro, pá”, foi o que nos restou …

“1º de Fevereiro de 1928
Esta terra levou uma sova de exotismo. Se dentro de cem anos não conseguirmos entrar em contacto com outro planeta (mas lá chegaremos), a Humanidade está perdida. (Talvez nos reste o interior da terra …). Já não há maneira de viver, rebentamos pelas costuras, fazemos a guerra, fazemos tudo mal, não podemos mais continuar sobre esta crosta. Sofremos mortalmente; de dimensão, do futuro da dimensão de que estamos privados, agora que nos cansámos de dar a volta à terra.
(Bem sei que reflexões destas chegam para que me desprezem como um espírito de quarta ordem)”.
Henri Michaux (Equador, Fenda, 1999 [1929]: 35)

Cabrita sem gravata, simbolizando o seu “arregaçar das mangas”, a falar do quão bem tem governado.

Chego a casa e tenho o mural de FB cheio de fotos de Costa a falar ao telefone. O tipo é enérgico, decidido, competente. Gosto muito.

Após três anos e tal de Portugal vou emigrar de novo, ainda este mês. Já estive 18 anos fora, como tal não faço tocar a cançoneta da emigração com que o zarolho Abrunhosa se associou à demagógica campanha socratista contra o anterior governo. Em tempos de skype, facebook, whatsapp, twitter, voos baratos, auto-estradas (já só não há CTT), partir para tão longe como Nampula é de Maputo (e lá os voos são caros) não dá para as velhinhas vestidas de negro chorarem “o meu menino é d’oiro“.
Avante. Já estou a fazer as malas. Ou seja, a juntar os pdfs que levo no “flash drive”. Entretanto partilho aqui o meu rescaldo deste meu período na pátria amada. Pessoalmente foi muito bom – não óptimo porque vivi longe da minha filha, o que será agora remediado. Mergulhei entre um punhado (dois punhados, melhor dizendo) de excepcionais amigos, uma parentela espiritual que até imereço. Não adianto mais, porque o meu registo blogal não é intimista, mas fica a nota (não é vénia, pois a esmagadora maioria não tem paciência para me ler, mas vamos falando, e muito). Profissionalmente foi … paradoxal. Mas propus-me fazer um trabalho, serôdio e anacrónico. Demorou demasiado tempo mas está (quase, quase) feito. Outros o avaliarão, já independe de mim. Como tal, e porque o propósito está (quase, quase) completo foi … bom.
Nestes anos portugueses dois momentos me marcaram, a vida e a visão que tenho do país: quando fui preso, julgado e condenado (relatei aqui). Uma indignidade total, polícias mentirosos, juizes desrespeitadores. Nunca ultrapassei o caso, nem hoje, passados anos. E sei que deveria ter partido de imediato. Deixei-me ir ficando, numa demora demasiado dolorosa. Pois coisas dessas poderão acontecer-me em qualquer outro sítio do mundo. Mas não no “meu” país. Ou, como então percebi, isto pode ser a minha “pátria amada”. Mas não é, mesmo, o “meu” país.
E um último momento, em si próprio dramático, que me des-iludiu: sobre o país, e sobre o meu meio sociocultural e profissional. O ano passado um horroroso incêndio florestal causou mais de 60 mortos. (Passados meses morreriam mais 40 portugueses noutro incêndio similar). Todos lembram o acontecido: a um PM que havia sido ministro daquela tutela, que então tomara decisões reestrurantes na matéria, que levara a sua equipa anterior para o actual governo, que mudara a estrutura de comando das instituições de combate ao fogo, foi-lhe perguntado se haveria alguma responsabilidade governamental no acontecido. Respondeu, impante, após a morte queimada dessas dezenas de compatriotas, “não me faça rir“. Repito, “não me faça rir“. Um ano depois o relatório do acontecido ainda não é totalmente público …
E diante disto, desta ignomínia, há tantas pessoas, compatriotas, que dizem nada. A mim, quando telefonam “Zé Flávio, anda jantar“, “é o aniversário de“, “vamos ao restaurante moçambicano?“, “há um concerto“, penso sempre não só em quem desafia/convida mas também em quem serão os convivas. Gente, minha ex-amiga (já não tenho qualquer amizade disponível para socialistas), minha conhecida, que apoia isto, esta imundície moral. É esta escumalha, alguma dela minha conhecida, que é o “meu” país: e eu não consigo dizer “não me faça rir”.
Isto não é mesmo o “meu” país. É o país deles. É o país de Ferreira Fernandes, como exemplifica este vergonhoso texto, a mostrar que o que interessa é salvaguardar o partido. É o país onde vale tudo para apoiar os nossos. Apesar de seguros pelas reformas, pelo SNS, pelas escolas públicas, pelo amparo societal, pela inexistência de verdadeiros riscos existenciais. Só querem mesmo o aconchego identitário, o “estamos” no poder.
Mais valem mesmo umas míseras “frites” e umas intragáveis “moules“, sozinho na esplanada, do que a proximidade destes Ferreira Fernandes. Em particular os tantos ferreirafernandes conhecidos.
Fiquem então bem por cá. E “não o façam rir”.

De quando em vez vejo esta magnífica ilustração. Se há coisa em que sou progressista (crente no Iluminismo) é no assunto das tatuagens: tenho compreensão sociológica para com as velhas inscrições nos braços masculinos (“Amor de mãe, Guiné 1970-1973” ou similar) e pelos quadrados de pequenos cinco pontos nas costas da mão. Por toda a restante ralé tatuada tenho um profundo nojo – já demencial após 3 anos e tal de Lisboa oriental, na qual abundam trogloditas deste tipo. Em dias aprazíveis sonho com o seu extermínio. Nos mais aziagos planeio-o.
Mas esta ilustração, magnífica, repito-o, ainda me arranca um sorriso. Antevejo 2036, a ralé rugosa, cheia de papadas e pregas, os “desenhos” “identitários” descaídos, ainda mais imunda do que agora. Nós, “peles-lisas”, evitando-os. Com asco.

(imagem colhida aqui)
Em finais de 2017 após 3 anos de ausência fui a Moçambique. Vi, nessa altura, um mapa da involução florestal moçambicana. E vejo agora este partilhado por várias pessoas no Facebook. Durante essa minha viagem todos por lá me perguntavam o que achava que tinha mudado nessa minha ausência. Para quê responder, diante daquela desgraça e da radical inconsciência dos cidadãos e residentes? Quando voltei a Portugal botei um postal sobre as mudanças – para quê falar?, elidi tudo, completamente desiludido. Ainda por cima porque quando um português fala do assunto logo vem a conversa de que somos colonos. Brancos. Que queremos imiscuir-nos, que temos inveja dos chineses, que esse sim fazem, dão, cooperam. A permissividade à rapina externa é gigantesca. E ao boçalismo interno também. Sem rebuço (sem burka, como adoram os multiculturalistas), a capacidade crítica no país é pequeníssima. A devastação ecológica é dramática. A hipoteca do futuro é abissal.
Olhe-se para a desgraça que acontece. A ecológica. E o que significa para o futuro do país. É uma dor de alma. Sim, a minha cor de pele é branca, sou cidadão português. Não sou “dono da terra”. Mas, raisparta, que “donos da terra”, coitada da terra. Da fauna, da flora. E do futuro de tudo aquilo.
Estou num quiosque, chegam 3 jovens turistas, louros, europeus. Ao balcão um está a escovar os dentes. Onde nós comemos. Peço o livro de reclamações. O empregado suspira.