A discussão sobre as escravaturas


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Portugal “É também o local onde nasceu a escravatura e por isso há tantas influências musicais de Angola e Cabo Verde e também de Espanha.” – são as declarações de Madonna transcritas pelo Jornal de Notícias (ou será uma construção do jornalista João Manuel Farinha, mas quero duvidar, seria demasiado atrevimento). Só por si a afirmação seria risível. Mas serve que nem uma luva para a campanha obscurantista em curso, adequa-se.

Nos últimos dias dois nomes conhecidos do agit-prop falsificaram a obra de um historiador, especialista no tema do escravismo (as pessoas interessadas na História, que tanto resmungaram com a nomeação de Santana Lopes para a vetusta Academia de História, num estatuto peculiar, a este tipo de coisas dizem … nada, que para isso não lhes sobra a atenção). Li ontem um artigo da BBC, enviado por um queridíssimo colega moçambicano, e crente neste tipo de tralha, sobre o “tabu do racismo que se vive em Portugal“, assente na temática do escravismo e adornado por declarações ridículas do líder do Movimento Internacional Lusófono contrapostas a elaborações historicistas desaustinadas de alguns académicos, em prol do “afrodescendentismo”.

Continuamos a ter uma disparatada ideia dos portugueses como “bons colonos”? Sim? A extrema importância do escravismo na expansão portuguesa é ensinada nas escolas? Não. Isto ajuda à reprodução dessa apatetada visão da história portuguesa e de um “carácter nacional” de “brandos costumes”, “lusotropicalista”? Sim. Essa melodia é um poluente diesel da actual tralha da “lusofonia”? Sim. A longa tradição escravista alimentou as práticas de “trabalho forçado” (eu gosto de lhe chamar corveia, não sei se estou certo) nas colónias africanas, o qual Portugal praticou durante mais 15 anos do que a iluminista França e 35 do que a abolicionista Grã-Bretanha, por exemplo? Sim. Esse “trabalho forçado” foi fundamental e omnipresente nas colónias africanas portuguesas? Sim.

Portugal inventou a escravatura? Não. Introduziu o seu comércio em África? Não. Foi o país que mais comercializou e utilizou escravaturas? Não. Nunca se estudou a escravatura em Portugal, nas navegações e nas colónias portuguesas? Não. São precisas estas patranhas para divulgar uma visão menos dulcificada da história nacional? Não. É Portugal o país menos racista do mundo? Não. É Portugal o país mais racista do mundo ou da Europa, prisioneiro de um “racismo de Estado”? Não.

É preciso um monumento/memorial às escravaturas? Não. Os monumentos não são precisos. Pode ser feito e ser útil? Sim, se for desmistificador, se não for aprisionado por este obscurantismo de moda – algo qual D. Sebastião de Cutileiro seria um “must”.

Há uma genealogia linear, directa, entre o comércio escravista pós XV e os actuais obstáculos de imigrantes ou cidadãos negros em Portugal? Sim, se explicarmos da mesma forma esses obstáculos racialistas ou racistas em países europeus que não praticaram o comércio escravista e a economia escravista com africanos (Ucrânia, Sérvia, por meros exemplos). Sim, se acreditarmos na metafísica dos “inconscientes colectivos”. Não, se se olhar para as flutuações sociológicas e as cesuras históricas (e, muito em particular, as respeitantes aos africanos em Portugal). E se entendidas as representações sociais (“os negros”, “os imigrantes”) como alimentadas pelas heranças históricas mas muito mais como reconstruções contemporâneas, ainda para mais tão lestas na nossa era. Ou seja, se se pensar.

Em suma, há muito para divulgar, muito para criticar na bela imagem da “gesta nacional”? Sim. É isso equivalente a racializar a sociedade (e os seus censos) – porque é disso que se trata com todo este alarido -, transformar as raças-em-si numas raças-para-si para que sejam activadas como clientelas de projectos totalitários dos neo-comunistas, muito em especial através da redistribuição de recursos estatais através de “subsídios” geridos por apparatchiki? Vão perguntar aos trânsfugas do velho marxismo, órfãos da “classe” . (Nos intervalos dos seus negócios imobiliários).

O “nosso menino”


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Vai para aí uma grande confusão devido ao “menino deles”, o “nosso menino” Robles (como diz o Fernando Rosas), sobre o que é ser “de esquerda” (e apoiada por alguns textos dos antes ditos “jornais de referência” – e destaco, nesse confusionismo, este texto de Ferreira Fernandes). O que implicará isto: Robles é agora queimado na hasta pública, os que não gostam(os) do BE dançam(os), os do BE atirarão as suas cinzas janela fora e sentir-se-ão expurgados do demo que lhes entrou porta dentro, Robles venderá o prédio por menos um milhãozito, empocha uma boa maquia. E segue a marinha … tudo igual como dantes.

Há vários níveis da questão, e não vou fazer um ensaio (dominical) sobre o assunto, apenas deixo apontamentos de memórias. O mais importante é mesmo o da sociologia do poder: a participação dos políticos profissionais neste “boom” de negócios imobiliários inibe uma política estatal (entenda-se, societal) de algum ordenamento, sociologicamente iluminado, das transformações urbanas. O casal Costa está a fazer pequenos lucros em meia dúzia de negócios de modestos apartamentos? É isso imoral? Não me parece. É uma questão da “mulher de César”? Não, porque as mulheres dos Césares são normalmente umas ordinárias, tirânicas e ninfomaníacas. Mas mostra como um nicho de gente oriundo da pequena-burguesia e que vive da política está permeável a este inesperado mecanismo lucrativo, o que constrange, com toda a certeza, a forma (cultural, intelectual) como encaram politicamente a situação que as cidades do país estão a cruzar. Ou seja, esta participação tem efeitos, políticos e sociais. Negativos, até naturalizando estes processos, no culto idólatra do fétiche do mercado.

Há um outro nível, que é o da apropriação dos mecanismos de representação política para enriquecimento próprio (uma verdadeira “acumulação primitiva de capital”, como se disse em linguagem de esquerda), e é esse o ponto crucial no curto prazo da questão, e que os textos dos colunistas conhecidos (como este que ligo, de Ferreira Fernandes, e o de outros textos de publicistas do governo geringoncico) elidem. Processos que estão explícitos no texto de FB deste proprietário vizinho de Robles e que são também referidos por João Miguel Tavares: o facilitismo, tanto em acesso a informação lucrativa como à conivência dos tortuosos serviços municipais, que os políticos têm nestes processos. Isto, num país em que um afamado Mesquita Machado é condenado apenas em 2018 – depois de décadas de fama e proveito de presidência de Braga – é letal para o sistema democrático. E é isso que os teclistas de “esquerda”, bernsteiniana ou estalinista-maoísta-enverhoxista, elidem nos seus textos. Por mera conivência.

E há um nível moral. Para exemplificar aludo à minha biografia: em inícios de XXI era possível adquirir em Moçambique casas do património estatal, nacionalizadas após a independência. O Estado não podia vender a estrangeiros, mas os privados podiam-no fazer. Ao mesmo tempo era possível pedir empréstimos em Portugal a baixo juro e investir em Moçambique (algo que depois mudou, ao que me disseram). A situação, com alguma ginástica, era extremamente favorável ao lucro fácil ou à aquisição do belo conforto. Alguns amigos moçambicanos propuseram-me fazer isso, ao preço de um modesto apartamento em Lisboa poderia comprar uma boa casa no Restelo maputense, ou até mais. Casas que depois se vieram a valorizar de uma forma extraordinária. Diziam-no sempre “tu já és de cá, deixa-te de coisas“. Eu trabalhara na embaixada portuguesa. A minha mulher também, e depois passou para um organismo internacional – entenda-se, vivia ela com um cartão de identidade diplomático. Um estatuto peculiar. Diante disso, e face a essa situação especial, “não ficava bem” participar nesse movimento imobiliário, de cariz algo especulativo. Nunca o fizemos. Lá fizemos o nosso aforro, e uma década depois lá comprámos o burguesote apartamento na “terra” (Lisboa). E dormimos bem. Agora se me perguntarem se, por vezes, em momentos de maior aperto, não resmungo “quem me dera ter uma boa renda vinda lá de Maputo?”, “Ah!, porque não comprei 3 ou 4 casas, entre o Sommershield e o Bairro do Triunfo?“, ai com toda a certeza que sim. E há dias em que até me assomam as lágrimas aos olhos (em particular quando compro o uísque “Queen Margot” no Lidl, meros 6,9 euros). Mas há coisas que não se fazem, devido ao estatuto (profissional, cívico). E isto tanto dá para a “esquerda” como para a “direita”. 

Em última análise leio uma série de patacoadas sobre o “ser de esquerda”, e a inadmissibilidade de “ter”, casas, bens, etc., sendo de esquerda. Eu sei algo sobre o “ser de esquerda”, filho que sou de um convicto militante cunhalista. O meu pai, engenheiro de profissão, relativamente bem pago (e com uma bela e invejável reforma), era um homem frugal. Gostava do seu conforto, entendido como ele o entendia, sem este culto do “ter” (que leva um pretenso socialista a vestir nas melhores lojas mundiais, para gaúdio dos jugulares feministas e bloquistas, por exemplo). Mas para ele “ser de esquerda” não tinha qualquer conotação, era até avesso, que as abominava, à “solidariedade” pós-hippie (ele não foi do tempo do new age), à filantropia fabiana ou à caridade cristã. “Ser de esquerda” era pugnar, no dia-a-dia, no trabalho e na sociedade, por um ordenamento político, social e institucional que levasse à igualdade entre os cidadãos. E nisso era implacável contra os “desvios de direita”, a apropriação dos bens (materiais e imateriais, neste último caso sendo as “oportunidades”, por acesso às instituições) por via da política. E essa implacabilidade não era uma posição moralista (contra o lucro, contra o luxo, o bem-viver) – ainda que por vezes o mau-humor o fizesse deslizar para isso (“pai, pareces um franciscano“, atirava-lhe eu, e ele resmungava e recuava). Essa implacabilidade era política.

Ele estava enganado. Nunca se desgrudou do apreço pela “igualdade” ascendendo à bela mescla “equidade”, homem da sua geração que foi. Mas era, na sua contextual forma, um homem de esquerda. Avesso à reprodução das iníquas diferenciações. No meio do seu conforto, dos seus livros, dos seus discos, do seu belo rum, do seu uísque e da sua genebra, que bebia frugalmente. Mas não encerrado nele. E é isso o sermos de “esquerda”, o querermos uma merda melhor do que esta. E sendo implacáveis com estes deslumbrados, com as “boas causas” (fracturantes) e com os “belos bens” (“cool”). Com estes “aventureiros”. E adversários dos adeptos dos sociocídios e etnocídios, os genocídios que fizeram a tal “esquerda” de XX e de que estes “radicais pequeno-burgueses de fachada socialista” nunca se expurgaram. Porque, de facto, os desejam.

Bom domingo, vou ali ao Lidl. Repor o stock de “Queen Margot”.

 

 

A torre dos anúncios


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Já é noite e saio do centro comercial, aqui dito xópingue, sotaque do dialecto local, e rumo a casa, mesmo defronte. Quando me chego ao atravessar da rua noto que debaixo da torre de anúncios, falha de iluminação e com cromos em falta, espaços vazios que anunciam a pobreza que circunda, desavergonhada, encostado ao canteiro que lhe é base está um tipo deitado, protegido por um velho guarda-sol de praia, branco na noite. Vou até ele a perguntar-lhe “vai dormir aqui?” e ele que sim, “que é o meu lugar”, conclusão que será só dele, que nunca vi vagabundos por aqui aboletados. Está mal preparado, deitado num pequeno cartão, só um saco de plástico com um qualquer não sei o quê. Pergunto-lhe se já comeu, ele agita-se, sobreergue-se no cotovelo, e que sim e abana na mão esquerda um nota de dez euros, dobrada em quatro, como se ma quisesse dar, “não quero o teu dinheiro”, digo-lhe, abismado, “é o meu lugar este”, reafirma-me, até frenético, tartamudeia e nem o percebo, aterrado vendo-o vendo-me dele concorrente, eu ali, hirsuto todo já branco, uma t-shirt desbotada se calhar já não de hoje, calças de ganga sujas que federão a tabaco, que quando a adolescente nem está até esqueço de tudo isso e do resto, pois para quê?,

 

fujo dele, reentro no tal xópingue, estou teso demais para comprar uísque mas andarei um pouco, e ao meu encontro vem a minha amiga, afinal ainda ali, jantámos mesmo agora numa espelunca vizinha, eu nem comia há quatro dias, dieta dos achaques, pagou-me ela um qualquer sucedâneo de polvo, intragável e morno, que me soube às mil maravilhas, e toca música no centro, pretenders talvez, nem atento, e diz-me ela, risonha, ainda miúda, sempre bonita, nestes nossos 50s, “zézé, apetece-me dançar contigo” e logo a rodopio mesmo ali, pois claro, enlaçados, e os poucos clientes daquilo do pingo doce olham-nos estranhos, e quem são eles?, apenas clientes, nem sabem que onde são as caixas eram já as hortas dos Olivais bem antes destas construções, ali nos escaparates fui o King of the Pirates do Defoe, o Capitão Morgan e o Corsário Negro e, mais do que tudo,  naqueles carreiros de esconder tesouros, onde estão talho padaria e peixaria, fui Jim Hawkins, sou aqui dono da terra, vão-se foder clientes de xópingue, posso bem dançar com as beldades locais, manas que sejam, e por esta o ser, enquanto nos meneamos conto-lhe a história vagabunda e ela ri-se, muito, e nisso perdemos o ritmo, que entre nós os dois também nunca foi muito do aconchegar mas muito mais do ombrear,

 

e segue ela à sua vida, ainda a rir-se, naquilo do “só a ti, zézé”, e eu, assim, no carinho dela, amornado, regresso a casa. Subo-me à gruta, ao meu quarto andar, a resmungar com o vagabundo e não descanso enquanto não o esqueço. Meia hora depois, filhodamãe do tipo, vou lá abaixo, levo-lhe uns cobertores, almofada e farnel. O gajo desconfia-me, estou irritado e digo-lhe, como se veterano, “estás mal preparado, não podes dormir na pedra”, que o homem está deitado na calçada portuguesa, ele agradece agora, “obrigado pai”, “pai é o caralho” respondo-lhe, que o gajo tem a minha idade, ou até mais, e insisto para que use os cobertores, e “já comeste? Trouxe comida”, mas isso agradece e recusa, diz que comeu e que tem mais, no tal saco de plástico, “trouxe cervejas”, desafio e ele nada, prefere vinho e tem-no. Mas está grato, pergunta-me agora se pode dormir ali e “sei lá eu, que não sou polícia” e nem lhe digo que ali tão exposto está mesmo à mão que o venham expulsar,

 

e começa ele na arenga dele, que vem de não sei de onde, de um abrigo onde lhe arranjaram uma complicação qualquer, querem-no matar, e bate no braço esquerdo para o realçar, com tal afinco que até o julgo prótese, que homem de braço de prata é muito provável que tenha sido, e queixa-se, que o expulsaram sem razão, e eu que não quero saber a história dele, e ele insiste que o querem matar, que isto é a “quinta guerra mundial”, já vai desabrido, e eu digo-lhe que não, que é mesmo a primeira, só que ainda não acabou.

 

Depois pergunta-me se pode confiar em mim, e eu que experimente ele, e não é que experimenta?, puxa outra vez da nota de dez euros, e pede-me que lhe vá comprar um maço de tabaco, e “porque não vais tu?”, que não pode, senão roubam-lhe os haveres, o tal guarda-sol, o saco de plástico e o cartão, porra, e afinal era isso que ele queria ao princípio, uma pobre alma que lhe fosse comprar cigarros. E eu lá vou, mas é para trazer um “camel dos verdadeiros, dos amarelos”, sim, dos genuínos, que não me engane eu. Sigo à tabacaria, ainda aberta, ao Camel original, 4, 70 euros. Volto e dou-lho, e ao troco, a nota dos 5 euros e as moedas dos trinta cêntimos. Despeço-me, regresso a casa com o farnel recusado mas o tipo insiste em dar-me os 30 cêntimos, e eu que “não quero o teu dinheiro” e ele empurra-o, quase já em pé, que lho aceite que é “para lhe dar sorte à casa”, àquele recanto de canteiro.

 

Vou para casa, envergonhado, cabrão de burguês, um poucochinho preocupado, é o que se arranja, uma caridadezinha, mas incapaz de dar tecto ao homem, uma noite que seja, e sei bem que se o levar para casa as mulheres que me visitam me matarão o juízo, e até eu, se num dia menos deprimido, não me perdoarei. A meio da noite estou mesmo lixado com o gajo, que não me deixa dormir, vou à janela, que o tipo está mesmo à frente do meu prédio, e lá está ele, o cabrão, se calhar a dormir, e nem sei onde estão os meus binóculos, aqueles para o Kruger, nem a colecção das velharias, dos avós, militares, mais o de ópera de uma qualquer avoenga, porcelana e isso, onde estarão os binóculos, agora que eu preciso deles?, para o espreitar, que se lixe, vou mas é lá abaixo, desço e “ouve lá” e ele acorda, estremunhado, “quero as minhas coisas, dá-mas de volta”, estou lixado com o gajo, não aceitou o meu farnel, não bebeu as minhas cervejas, “mas porquê?, deste-mas …”,  resmunga, até assustado, “não quero o teu dinheiro”, resmungo, e quero devolver-lhe as duas moedas, e ele “é para dar sorte”, e eu, ateu, “não te dá sorte nenhuma” mas já desisti, não quero as coisas de volta, os cobertores e a puta da almofada, mas “quero um Camel dos teus”, e isso já está bem, puxa ele do maço e dá-me um cigarro, e outro para ele, eu sento-me na laje do canteiro e ele alumia-nos com fósforos.  Fumo ávido, se calhar como quem já não fuma, e ele “estás doente?” e eu que sim, que “querem-me matar” mas não bato no braço. “Ya!”, e solavanca, “é uma guerra mundial”. “A quinta!, caralho, é a quinta guerra mundial”, respondo-lhe, veemente, irritado, como se ele não perceba tudo isto, vagabundo distraído. “É isso mesmo, é o que eu digo”, defende-se.

 

Os cigarros acabam e o sacana diz-me que “agora vou dormir”, despacha-me, assim sem mais, e eu fico ali, sem-jeito, ainda a insistir no “toma lá o teu dinheiro”. E ele que nada, que lhe dê eu sorte. Uma nesga que seja, penso, e desisto, todo eu ainda mais. E subo. Para a insónia.

Uma campanha?


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O Estado promove campanhas, de diverso teor, algumas mais polémicas outras nem tanto. Algumas brilhantes, outras nem tanto – mas nem todos são O’Neill. Vem isto a propósito de uma dúvida que me vem ocorrendo, aqui acampado algo longe do El Corte Inglés. Há quanto tempo não é feita uma campanha avessa ao escarro, a sonora e rejubilante convocatória do muco mais profundo, a sua convicta expulsão – tipo “é um direito adquirido”, “a terra a quem a escarra”. Três anos de Lisboa Oriental mostram-me isto: cada vez há mais gente a escarrar. É … viscoso.

Diário de Notícias


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Por mais cúmplice que o DN tenha sido nestes seus últimos anos com o nepotismo do Partido Socialista, a morte do velho jornal, o matutino dos meus avós, é lamentável. Sinal dos tempos, mas custa um pouco. E custa um pouco este estertor, esta coisa tipo semanário a querer protelar o cadáver. O primeiro número desta (terminal) série dedicado ao bacalhau da Noruega (francamente, é para enganar quem?, um óbvio serviço comercial encapotado). E o segundo com este assunto de campo. Lá no café que frequento onde o DN ia saindo na segunda-feira o montito ainda estava assim. Ninguém pega. Tivessem tido a coragem de enfrentar a corrupção e o nepotismo e talvez (talvez) tivessem resistido. Sendo servis ficou isto. Um bocado da história deitada fora. 

Outra vez os Xutos


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Há dias aqui botei o meu desprezo pelo avatar sobrevivente dos Xutos e Pontapés, dada a patética associação com os políticos que por aí pululam. Houve quem comentasse que exagerei. Talvez, o nojo que tenho por esta gente “socialista” é grande, avassalador (venho do facebook, não encontrei nenhum intelectual com ADSE, historiador, dos estudos culturais, antropólogo, sociólogo, das literaturas, etc., que referisse os três anos de prisão a que Mesquita Machado acabou de ser condenado, eles que tão lestos são a denunciar uma qualquer ofensa num algures correcto. Mero exemplo, do dia, da abjecção destes “colaboracionistas” – termo que o Pedro Correia não gosta – com o poder socratico-costista, a descendência da administração socialista de Macau, o  imundo resto do império). E não tenho pinga de respeito pelo tudólogo comentador televisivo íntimo de Ricardo Salgado que anda por aí a beijocar os morcões como se nada disto fosse com ele. Enfim, “siga a marinha”, no tal postal houve algum debate, meti um comentário e o Pedro Correia disse-me que o devia içar a postal. Então iço-o mas contextualizo, para que se perceba melhor o porquê deste meu esgar pelos Xutos e Pontapés. Faço algo que não devia fazer. Estou a escrever (qual Penélope) um texto académico, uma inutilidade evidente, um devaneio senil. Como manda o cânone boto uma  parte sobre “método” (como trabalho, como construo o conhecimento). O texto deveria ficar guardado até à sua conclusão mas, que se lixe, também não me vai servir para nada, e como tal coloco aqui um pequeno excerto – depois tem uma parte em que ultrapasso o tom pessoal e arraso o aparente “exótico”, mas isso já são coisas para outros contextos, não vos maço com tais meneios. Fica então isto, o pequeno trecho, talvez explicite o que para mim foram os Xutos (fraca banda, fracos músicos, uma quase desmúsica, cândidas letras, uma pitada de rock, uma poção mágica …). E depois meto o meu comentário anterior: o que eram os Xutos, o que foram os Xutos, até contrariando um comentador que os disse pouco “anti-sistema”, coisa que nunca me interessou. E porque tanto os desprezo depois deste fellatio ao poder … e ainda por cima, a que poder. Pois não precisavam de gargarejar (sim, estou a ser ordinário, não estou na Gulbenkian, isto é rock. E n’rool).

 

I

 

No decorrer de uma investigação junto ao Zambeze foi-me necessário percorrer um conjunto de ilhas fluviais. Para o efeito foi-me emprestado o pequeno barco de motor de fora de borda pertencente à administração distrital, então muito raramente utilizado devido à escassez de fundos disponíveis para o combustível. Ao longo daqueles dias fui conhecendo o seu piloto, um habitante local já de alguma idade, homem pequeno e de boa disposição, machambeiro de actividade profissional e sempre chamado para as esporádicas sortidas do barco. Muito relevante é que ele tinha sido administrador do distrito nos primeiros anos após a independência, cargo verdadeiramente importante a nível local. “Então e depois ..?”, perguntei-lhe, surpreendido por sabê-lo naquele agora apenas muito pequeno agricultor, regressado a mera “população”. Disse-me que desistira, que não gostava “daquilo de mandar”. Sorri e nada mais perguntei, não quis vasculhar-lhe o passado, talvez obrigando-o a aludir às complexas intra-relações nas administrações estatais, mais esconsas ainda naqueles tempos de regime autoritário monopartidário, e com toda a certeza às dificuldades passadas durante a guerra civil, que tanto imperara naquela área. Mais tarde, já em terra e a sós com o meu intérprete, o enfermeiro local, este comentou-me, sem qualquer desprimor, que o problema do nosso piloto havia sido o de que “não tinha ambição”.

Os dias foram correndo. Numa tarde regressávamos à sede, percorríamos uma vez mais as vielas fluviais, quase submersos no frondoso canavial das ilhotas, atalhando caminhos entre margens, e eu impressionado com a pujança e magnitude do Zambeze (o sempre “mighty Zambezi” das velhas crónicas britânicas), com o seu esplendor, a flora ainda liberta de machambas, a pujante “fauna bravia” à vista desarmada, tudo tanto que incendeia imaginações. Nunca se me trata de exotizações, de elaborar pastorais, até porque naquele caso sabendo o quanto aquele Zambeze é também produto da existência de Cahora-Bassa. Mas, apenas e tanto, ecoo aquela imersão fisicamente exausta naquilo que sinto belo por ali estar feliz e por tão diferente do urbano atalhado que me é vida quotidiana, na aparência de liberdade, sabendo-a só isso e nada imputável aos que me circundam, pois embrenhados naquele que é o seu quotidiano, e sabendo também ser essa fugidia felicidade livre às vezes iluminadora e outras obscurantista.

Navegávamos então, percorrendo devagar aquela água dos hipopótamos e crocodilos, aqueles submersos apenas assomando, alguns destes espojados ao sol nos espraiados tão nossos próximos. De súbito, num braço de rio entre o canavial, atascámos num baixio. O piloto foi lesto a entrar na água para empurrar o barco, seguido pelo intérprete. Hesitei, para logo entender que o meu peso muito influía. Saltei também, num ápice pensando no enorme réptil que cruzáramos há tão pouco, e enquanto empurrava perguntei, até incrédulo com tudo aquilo, “E o crocodilo? …” para o piloto responder, com sorriso rápido, até doce, num cume esperançoso, “Não há-de vir!…”.

Logo partimos e pouco depois saímos do entre-ilhotas e reentrámos na vastidão do rio na via para a margem distante. Então, já naquele horizonte tão mais amplo, lembrei-me de uns versos, aqueles “E mais que uma onda, mais que uma maré / tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé / Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade / Vai quem já nada teme, vai o homem do leme (…) / A vida é sempre a perder”. E senti o quanto esse “homem do leme” era o ali homem do leme, no seu percurso relapso à ascensão nas “estruturas”, no partido-estado, à hipotética acumulação, ao prestígio, preferindo o envelhecer naquela disponibilidade, radical, para o que há-de vir, naquele “não há-de …”, que se “a vida é sempre a perder” não “há-de” ser hoje. Cantado assim, há décadas, lá no meu país da minha juventude, assim a mostrar a tamanha semelhança da amplitude de anseios e valores, práticas e caminhos, bem para além dos diferentes sítios onde decorre o devir, bem para além das coisas e ditos a que àqueles damos corpo.

E trauteei, lá durante o rio. Com ele ombreando.

 

II

 

Os Xutos nunca foram contra o “sistema”. E ainda bem. O que neles teve piada e em nacos da nossa geração, é que cruzámos um longo período (longa se torna a espera) algo descomprometidos. É uma cena algo individual(ista), um que se foda! … E que passa por fazer campanhas contra a puta da droga, como eles vieram a fazer, a qual é uma merda horrível – xutar heroína no palco, como a geração anterior, não era uma patetice, era horroroso, uma miséria. O “sistema” não é isso, não é clamar um “hé! pá, aguentem-se, não vale a pena …”, ombrear e avisar. Principalmente por quem passou por isso, ou, vá lá, por quem andou com quem tenha andado por isso. O “sistema” não é dizer “não” às seringas ou às chinesas, o speed(cristal) ou da vida, como também não o é abrandar nos “Whisky puro (Vodka-Vodka) / Sangria / Vinho maduro (Vodka-Vodka) / Bagaceira (Vodka-Vodka) / Gin Vómito / Seco Madeira (Vodka-Vodka)“, isso é aguentar, minorar a dor, apesar de em putos parecer que é ao contrário, sobreviver … O encanto dos Xutos não é a música, que honestamente não tem muito que se lhe diga, nem a poesia nem o virtuosismo (o Cabeleira é um bom guitarrista de rock, o resto é menos que sofrível). O encanto dos Xutos são algumas canções, algumas linhas (de letras, não de químicos) como esta até cândida ” É amanhã dia um de Agosto / E tudo em mim, é um fogo posto / Sacola às costas, cantante na mão / Enterro os pés no calor do chão / E há tanto sol pelo caminho /Que sendo um, não me sinto sozinho …”

A repulsa não é terem deixado de ser “anti-sistema” que nunca o foram. Para isso havia o Zeca Afonso (…) e outros assim. Que alguém que foi na vida anti-sistema se integre? é normal (“quem não é socialista aos 20 anos não tem coração, quem o é aos 40 anos não tem cabeça“, qualquer coisa assim dizem que disse Clemenceau). O eixo é o mesmo, apenas posições simétricas. Agora quem vem descomprometido? Quem veio descomprometido? E, de repente, salta para o caldeirão? Não, é muito pouco! E, no caso dos Xutos, passou a ser nada.

 

Abaixo de tudo


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Uma fotografia destas dá pano para mangas? um texto a la semiologia, sobre a reapropriação simbólica? uma invectiva comparativa (Paulo Portas de punho erguido a debitar o FMI do Zé Mário Branco)? uma crónica de café sobre o como os portugueses “inscrevem”, qual José Gil? Um peludo e carnal palavrão, como se em blog individual? Ou um postal de facebook, como o bloguista jpt: 

“Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? (…) Não sentimos o cheiro da putrefacção divina? (…) Com que água nos poderíamos lavar?” (…) Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar?“, retirei de um livro de auto-ajuda, julgo que de Pedro Chagas Freitas (tenho a minha nota de leitura referência incompleta, não posso agora afiançar). Sim, sei que milhares pulam ali. E trauteiam. Ainda assim? Não, é mesmo por isso mesmo. Esta merda (sim, os Xutos. E o resto …) está mesmo morta. Está é mesmo mal enterrada.

Mas não, uma foto destas não é pano para mangas. É um rolo de papel higiénico. Imundo, usado.

Adenda: os meus CDs dos Xutos acabam de ir pela conduta do lixo abaixo. Aqui no Delito de Opinião deixei um textito em homenagem ao Zé Pedro, no 1 de Dezembro de 2017, aquando da sua morte. Apaguei-o agora.

Cristiano Ronaldo


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[Cristiano Ronaldo agradecendo os aplausos dos adeptos da Juventus após o (2º) golo marcado em Turim]

 

(Após a nervoseira deste Portugal-Espanha lembrei-me deste postal que meti em Abril no És a Nossa Fé)

 

À saída de Nelspruit não paro nos semáforos desligados, que quando assim funcionam como sinal de “stop”, pois nenhum carro se avistava no cruzamento. E logo dois policias saltam à estrada, mandando-me parar. “Estou tramado!”, resmungo, antevendo os rands da multa e o atraso na viagem. Desculpo-me, explico-me, eles impávidos. Claro que viram a matrícula moçambicana, e tão habituados estão ao tráfego inter-fronteira, mas perguntam-me para onde vamos (“Maputo“, respondo), de onde somos (“portugueses“, digo-lhes), se viemos às compras. Que não, esmiúço, em busca de hipotética solidariedade, que ali vim para trazer a miúda ao (orto)dentista, a Carolina a comprová-lo no banco traseiro, com o aparelho dentário tão brilhante, acabado de calibrar na visita mensal. Um deles (suazi? tsonga? sotho?, não lhes consigo destrinçar a origem), inclina-se sobre a minha janela, quase enfiando a cabeça no carro e pergunta “how are you, sissi (maninha)?” e assim percebo que não pagarei multa. Depois diz-me “se você é português vou-lhe fazer uma pergunta” e eu logo que sim, dando-lhe um sorriso prestável, antevendo uma qualquer dúvida sobre ares ou gentes de Moçambique. Mas afinal “Qual é o melhor, Ronaldo ou Messi?“. Eu rio-me, num “Ah, meu amigo, são ambos excepcionais, diferentes mas excepcionais“, enfatizo, mas ele insiste, “mas qual é o melhor?“. “Ok“, e enceno-me, olhando à volta, “só vocês é que me ouvem, assim posso falar, sou português mas o maior é Messi“, e estou a idolatrar o jongleur, o driblador dono da bola, alegria do povo, nós-todos miúdos de rua. “Não, você está errado” riposta ele (ndebele? zulu? khosa?, não lhe consigo destrinçar a origem), “Ronaldo é o melhor. Messi nasceu assim, Ronaldo é trabalho, muito trabalho!“. Ri-se, riem-se, rimo-nos, e conclui num “podem ir“. Avanço pela N4 e sorrio a este afinal meu espelho, apatetado europeu (armado em) intelectual com prosápias desenvolvimentistas, a levar uma lição de ética de trabalho de uma pequena autoridade (formal) africana.

 

 

(Fica a historieta para os patrícios – os ditos “hatters” – que, continuadamente, apoucam o labor do maior atleta em actividade. Talvez nisso ombreando com Federer, mas muito mais célebre).

Muito para além do Sporting


jpt,

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(Texto que coloquei há dias, em versão algo diferente, no És a Nossa Fé. Deixo-o aqui por desafio de uma leitora/comentadora de ambos os blogs).

 

Por antipático que isto pareça aos sportinguistas, em especial neste período de exaltação clubística, não “é ao Sporting que devo lealdade e fidelidade”, como tantos reclamarão, em registo algo “futebolês”, como factor de legitimidade opinativa e, acima de tudo como invectiva aos trabalhadores jogadores de futebol que estão a rescindir os seus contratos laborais. Devo “lealdade …” indiscutível à Pátria (ao país, como prefiro dizer), à minha família, ao meu parentesco espiritual (os meus amigos). E devo lealdade a quem me rodeia, como ser humano, e de forma mais explícita no âmbito das relações laborais. [E junto, tipo nota de rodapé, que abomino o conceito de fidelidade, que entre pessoas é o refúgio dos medíocres – deixemos agora de fora a vida conjugal, que cada um a viva como quer].

 

O Sporting Clube de Portugal é um clube, uma associação desportiva, e estas grandes proclamações muito absolutas e grandiloquentes casam bem com a tal exaltação, nos eventos desportivos e nestes difíceis momentos. Mas não, nada mesmo, na normalidade do dia-a-dia. Pois, de facto, confundem valores, mostram até algum vazio de valores. Alguns contestarão isto, reclamarão a sua paixão imorredoira pelo clube. Mas se lhes aparecer um vizinho a dizer, com grande ênfase, jorrando perdigotos, como se falasse de um qualquer Padroado, “eu devo lealdade e fidelidade ao Olivais e Moscavide” ou a um outro qualquer “Santa Marta de Penaguião Futebol Clube” decerto que sorrirão, tal o descabido, até ridículo, da afirmação. Mas é exactamente a mesma coisa com qualquer associação desportiva. Que cada um exerça a paixão clubística à sua maneira, mas que se lhe exija um tino de cidadania, uma perspicácia sobre a relevância relativa daquilo que nos rodeia.

 

O que se passa no Sporting ultrapassa em muito a questão clubística – ainda que esta seja tão sonante e premente que nos monopolize a atenção. No clube, grande instituição nacional, de enorme influência formativa entre os seus adeptos e em toda a sociedade, predomina uma soez cultura anti-democrática.  Bruno de Carvalho despreza a liberdade e pluralidade de opiniões internas (veja-se o enviesado trabalho do sector informativo interno), a diversidade da sociedade (“bardamerda para os que não são do Sporting“, clamou aquando reeleito), e o primado da lei (a rábula das assembleias e dos órgãos dirigentes que quer instaurar).

 

Mais repugnante do que isso, mas inserível no mesmo modo de “ver o mundo”, é como olha as relações laborais. BdC entende-se patrão, numa concepção que atribui ao patronato o direito ao assédio (“assédio” não é apenas “assédio sexual”, essa questão actual) aos trabalhadores, a sobre-pressão, a invectiva, entendendo-a como “motivadora”, o desrespeito, moral e profissional. Mostram-no, de forma radical, o conteúdo das mensagens que envia aos atletas do clube. E sublinha-o, agora, a divulgação de mensagens privadas que com eles troca, um desrespeito total (e ilegal, ao que me dizem, mas isso é matéria de outro âmbito).

 

O assédio laboral é um crime, ilegal e imoral. Indesculpável, em público e pior até se em privado. Quem o pratica é indigno, não merece respeito. Sabemos (“ouvimos dizer”) que é recorrente, sob plurais formas. E ainda que haja procedimentos legais, enquadramentos sindicais, judiciais e associativos, que protegem os trabalhadores, muitos têm constrangimentos que os levam a aceitar inaceitáveis comportamentos de patronato ou de hierarquias laborais. 

 

Alguns dirão que jogadores de futebol muito bem pagos não são credores da nossa simpatia e solidariedade num caso destes. Não é essa a questão. O que se passa é que BdC tem uma visão da realidade, do mundo laboral, do seu papel de administrador (que entende como de patrão “à antiga”), que é inadmissível. E, repito, ilegal e imoral. Retrógrada, contrária ao desenvolvimento do país nas últimas décadas, à sua democratização – com todos os defeitos e insucessos que se lhe queiram assacar. Adversa aos valores sociais, jurídicos, religiosos, políticos, dominantes. E, como tal, inadmissíveis na figura de um presidente de uma instituição com o peso do Sporting, com a sua dimensão formativa. Independentemente dos triunfos nas modalidades desportivas, futebol incluído. Independentemente dos hipotéticos sucessos económico-financeiros. Pois Bruno de Carvalho, com a visão de sociedade que tem, é uma persona non grata num país democrático e civilizado. 

 

Entre os comentadores deste nosso És a Nossa Fé vejo um pequeno excerto dos que têm apreço por aquele entendimento, alguns com grande iliteracia (talvez fingida no aspecto gramatical, mas óbvia na dimensão intelectual). Tal como noutros blogs e na imprensa se encontram os seus ecos. Muitos dos adeptos desta maneira de ver o mundo, do destratamento nas relações laborais, será gente que está fora das relações laborais institucionalizadas, geridas sob direitos e deveres regulamentados, com instâncias de recurso. Alguns deles, os tais “jovens” de que se falou aquando das prisões entre-claques, integrarão nichos de economia paralela, marginal até, subterrânea. Reforçada no desemprego que grassou no país. Que funciona(rá) com relações laborais, vínculos operacionais, estabelecidos sobre relações pessoalizadas, discricionárias, essas sim apelando à tal “fidelidade”. E assim desconhecedores das culturas laborais institucionalizadas. Muito menos violentas, e saudavelmente protectoras dos trabalhadores. Também para obstar a esta pobre visão da sociedade, para compreensão dos direitos dos indivíduos, é importante que grandes clubes não reproduzam os pérfidos valores sociais que gente como Bruno de Carvalho assume.

 

Por tudo isto, por apreço ao país, ao seu desenvolvimento, a todos nós, às nossas liberdades individuais, tem que haver limites. Que são éticos. Questão que se me levanta diante da notícia das rescisões dos jogadores de futebol, trabalhadores do Sporting, na sequência do inadmissível, anti-democrático, repugnante e continuado assédio (bullying) praticado pelo presidente. Quando numa situação destas vejo chamar, com tudo de pejorativo que isso explicita, “refractários” a esse jogadores, isso cruza a linha do admissível. Mostra uma vil concepção de sociedade, de trabalho, de responsabilidade individual. Mostra o quão anti-democráticos são os locutores. O (Um) clube não une quem tem tão diferentes valores, tão diferentes ideias de sociedade, de “lealdade”. E, estou certo, não é no meu lado que habita a abjecção moral. Mas no de quem, seja lá qual for o clube com que simpatiza, concorda com esse tipo de invectivas.

 

Não discuto se os jogadores têm “direito” jurídico para rescindirem contratos, isso é matéria para os tribunais. Mas o que discuto é se têm “direito” para o fazer. Muitos contestam esse “direito”, difuso, invectivando-os, clamando que eles traem o “amor à camisola”, aos “vínculos espirituais”. Leio-o e ouço-o entre gente com formação escolar e biográfica mais do que suficiente para uma outra densidade de reflexão. Demonstram, tantas vezes apesar deles próprios, duas dimensões: cegueira sobre a actualidade; adesão ao fascismo.

 

O “amor à camisola”, o “vínculo espiritual”, é essencial no fenómeno clubismo e parte crucial em vários desportos. Mas a sua realidade tem-se transformado, de múltiplas formas. Abordo apenas uma, relativa a esta situação: muitos sportinguistas afirmam que os jogadores da “formação” (as escolas do clube) são “devedores” morais do clube. Entenda-se, os jogadores jovens, das escolas, têm contratos laborais (diz-me um familiar de um jovem jogador do Benfica que aos 14 anos podem assinar contratos até 1500 euros por mês!!). Os clubes investem na formação no intuito de obterem resultados económicos – seja através do exercício quando seniores, seja na venda das licenças desportivas. A própria formação do clube (do Sporting e não só) é entendida como uma actividade produtiva, económica. Como o mostra o “franchising”, o estabelecimento de “academias” pelo mundo (na China, na África do Sul, etc.), que tanto apreço colhe entre os adeptos. É um “business” global, de obtenção de lucros com a “marca” do clube. Esperamos que os putos “sejam” do Sporting, que lhes germine o tal “vínculo espiritual”? Sim. Mas de facto tudo é uma actividade económica, desde a mais tenra idade dos jogadores (o que até levantará questões muito mais abrangentes, que não coloco aqui). E está no cerne da actividade do(s) clube(s). Os jogadores são formados nos clubes, ganham competências para uma profissão? Sim. Mas, repito, fazem-no no seio de uma actividade económica. Assim pensada pela instituição formadora. Assim entendida pelos formandos (e suas famílias). É uma candura, até desonesta, não compreender isso. E exigir uma assimetria no relacionamento. E vir insultar quem, inserido nesta realidade, actua estrategicamente em defesa dos seus interesses.

 

A outra dimensão, a implícita adesão fascista que este discurso mostra, é muito simples e nem me alongarei. O apreço pelo tempo do “amor à camisola”, em que os jogadores estavam longos anos no mesmo clube, dele se tornavam símbolos, a invocação desses “bons velhos tempos” é transversal aos adeptos do futebol, desde o mais empedernido salazarista ao mais pós-moderno pós-maoísta BE. Ou seja, todos eles têm uma nostalgia pelos tempos em que os jogadores de futebol estavam submetidos à “lei do passe” (desportivo): terminado o contrato não eram livres de escolher o seu próximo empregador, pois os clubes tinham a prerrogativa de os manter nos seus quadros. Um regulamento “servil”, “feudal” se se quiser. E por esse intermédio os jogadores ficavam anos a fio, mesmo que tivessem outros objectivos, no mesmo clube. Após o 25 de Abril isso terminou. Passados largos anos, Valentim Loureiro tentou, como presidente da Liga de Futebol, reinstaurar mecanismos legais relativamente similares (sim, um homem de um partido chamado social-democrata; sim, um homem que visitava Guterres em São Bento levando as criancinhas de Gondomar). Muitos, hoje, em nome do seu clubismo, continuam a trautear esse pérfido “ó tempo volta para trás”. Quando os jogadores de futebol não tinham liberdade de escolher o seu empregador. E chamam “amor” a esse seu desejo fascista. É nitidamente uma concepção sado-maso da vida afectiva e sexual. Ou então é pura patetice.

 

Enfim, que os jogadores do Sporting, que tantas alegrias e expectativas me deram (podiam ter sido mais …, raiparta) sigam as suas carreiras com sucesso e saúde. Exercendo o seu livre-arbítrio. E que, se ainda for possível, regressem em muito breve ao Sporting. Se salvaguardadas as condições para o seu exercício profissional, respeitados, enquadrados pelo espírito da lei laboral e do bom viver democrático.

 

E que os meus caros co-adeptos (aqueles que sabem da dignidade humana, não os energúmenos fanatizados, que põem o clube acima da Pátria, da sociedade, do país)  não repitam a espantosa patetice de tantos benfiquistas, há alguns anos autênticas baratas-tontas porque um trabalhador legitimamente saído do seu clube decidiu, pelo “sagrado” (se há coisa que é sacralizável é isso mesmo) livre-arbítrio vir trabalhar para o rival. Tino, é o que nos tem faltado. A mim, e a pelo menos 86% dos votantes na maior eleição de sempre no Sporting. Recuperemos o tino. E apartemo-nos dos refractários à decência civilizada. No clube. E no país.

Apocalipse Já


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(Texto escrito para o És a Nossa Fé. É longo, que me desculpem, mas é catarse da tristeza. E forma de suspender o blogar. Pelo menos por uns tempos. Não quero escrever em público neste meu “estado de alma” abalado, sempre propenso a exageros intimistas).

 

Eu era adolescente mas ainda me lembro, de modo algo vago. Há quase 40 anos surgiu uma das melhores campanhas políticas, o dístico “Eu não tenho culpa, não votei AD”. Pois, de repente, no meio daquela crise, ninguém assumia ter apoiado o governo maioritário. Certo, houve uma réplica, o “Eu sou AD, eu trabalho”, outro dístico – antes das redes sociais as pessoas afixavam nas roupas, usando-as como “murais” -, pujante mas com menos sucesso.

 

O que se passa no Sporting Clube de Portugal é um pouco o mesmo. A “crise” não o é mas sim um descalabro. Um Apocalipse, Já. E todos nós vamos organizando a nossa amnésia, numa espécie de “Je ne suis pas Bruno”. Mas a realidade é que Bruno de Carvalho foi reeleito o ano passado, nas eleições mais concorridas do centenário clube, com a maior percentagem de votos de sempre, se em eleições com listas concorrenciais. Foi sufragado pelos sócios, aclamado pelos adeptos. Alguns desgostosos com o seu estilo. Mas poucos, muito poucos, opondo-se ao conteúdo. Crentes, lúcidos, que “a forma é conteúdo” – e refiro o meu querido amigo Miguel Valle de Figueiredo, sportinguista profundo, meu co-bloguista, que desde o surgimento de BdC me causticou pelo meu estuporado apoio à personagem.

 

Explicações para a ascensão do “brunismo” serão várias. As internas ao agora dito “Universo Sporting” são óbvias: o apoucamento do clube nas últimas décadas, a míngua de títulos no desporto-rei, a redução das suas modalidades, e também o desbaratar do património fundiário e a profunda crise económica. E um dado sociológico: num clube popular (e pouco importa se o mais popular, como inventou Sousa Cintra, se o segundo ou o terceiro do país), o “único clube “de Portugal”” como tanto fazemos questão de dizer, notou-se que esta decadência fosse gerida (gerada?) por uma auto-reclamada elite social, os agora ditos “croquettes” (de preferência com os dois “tt”s), a panóplia de “notáveis”, uma espécie de plutocracia, transumante entre o clube e o eixo construção civil-banca. E os efeitos da crise económica, o estrondo na banca nacional e a aflição na construção, apontaram (e devidamente, na minha opinião) o quanto de espantalho tem essa aparente elite, a sua “solidez”, “competência” e “seriedade”. No país, e muito em particular no clube. Daí a ascensão de Godinho Lopes (que, de facto, não pertence a esse meio social). E logo de seguida, ruptura ainda mais radical, o “Bruno”, homem das massas. Ou seja, homem das claques, para falar em termos clubísticos.

 

Tudo isto catapultado pela vontade, até insana, de ganhar títulos. Os quais, o que tanto piora a coisa, tão habituais são nos “outros”, os vizinhos, benfiquistas e portistas, esses sempre “ferindo-nos” com a sua festa cíclica, a sua alegria esfuziante. Invejamo-los, o que nos apouca, amesquinha. Mesmo que não o confessemos.

 

Títulos que são o corpo do ideal de “sucesso”, tão difundido nos finais de XX. E que é desesperante, pois a esmagadora maioria de nós não consegue ter “sucesso”, palpável, festejável, “trofeuizável”, que seja reconhecível, saudado, até invejado pelos outros. Aguentamos a merda do dia-a-dia, uma ou outra alegria, uma festarola, uma pequena promoção, um bónus no salário, uma bela refeição, a praia na Tailândia ou um escaldão na Manta Rota. E, quanto muito, uns laivos de felicidade, um filho que cresce, um neto que encanta, uma mulher que sorri, no acto ou mais ao longe, um qualquer feito, naqueles que gostam do que trabalham ou vão com hóbi. Ou alguma placidez, talvez. Por isso este anseio de títulos da “bola”. Não para esconder algo. Mas para celebrarmos este algo, e que parece pouco, que nos coube.

 

E mais o são num país que se futebolizou, desde os “a geração de oiro” do prof. Queiroz, do Euro-04, tudo catapultado no frenesim da imprensa multiplicada (rádios privadas nos 80s, jornais desportivos diários, televisões privadas nos 90s) e agora histriónica pois moribunda. E a explosão da internet, e das redes sociais (como este blog). Quem vive ou viveu no estrangeiro perceberá bem melhor que tudo isto, todo este futebolismo, não é a regra nem o hábito generalizado.

 

Enfim, tudo isto e muito mais nos trouxe ao “Bruno”. Ao nosso apoio, ao meu apoio, de anos, até há alguns poucos meses. Cri que no clubismo (que não na política) este afrontar, em modo populista, da plutocracia seria positivo. E serviria até como exemplo, aviso, para essa tal política. Para um bem geral, do clube, e português. Engano total. Erro crasso, de avaliação, de reflexão. De cumplicidade, estratégica que tenha sido, com o mal. Pois Bruno de Carvalho é tudo aquilo que anunciava ser, personagem típica que é. Ainda mais ilógico do que será de esperar deste tipo de líderes, populistas abrasivos. Pois em formato incompetente, agora feito cinzas pelas chamas que ateou.

 

O resultado económico e desportivo deste desgraçado período será abissal. As perdas são (e serão) brutais, em cima das enormes dificuldades que o clube vivia. Pior ainda nesta nova era de futebol-negócio. Acabadas de mudar as regras de redistribuição de rendimentos na Liga dos Campeões, algo inserido nesta lenta marcha para uma Liga Europeia de clubes. O fosso entre participantes e não-participantes, entre elite e “pequenos”, cada vez será maior. Ao colapsar agora, ao perder terreno (e tanto) neste preciso momento, o clube compromete, talvez definitivamente, para sossego dos rivais, a entrada nesse universo clubístico. É a estocada final na decadência.

 

Mas ainda maiores serão as perdas morais. Os clubes, mais do que todos os outros grupos, são “comunidades imaginadas”*. Porque a nossa adesão, a dos simples milhões de adeptos, é desinteresseira, deles nada queremos para nós próprios, nem remissão de pecados, nem orientações para a vida, nem entreajudas, e muito menos benesses, remunerações. Queremos comungar, participar, “torcer” por um bem que imaginamos comum, “nosso”. E que é “etéreo”, nada palpável – para além de umas taças e umas medalhas, acumuláveis como mero arquivo -, feito de símbolos, heróis quase divinos (Peyroteo, Agostinho, Lopes, Chana, Theriaga) de que ouvimos os mais-velhos falar ou recordamos de um desvanecido passado.

 

E é essa comunhão imaginada que arde agora. Não só por causa de Bruno e seus sequazes. Mas ao ler os seus inúmeros apoiantes, no seu mural de FB (muito censurado) e em tantos outros locais. Imensa gente, com um português escrito muito básico (o que não é maldade mas é característica), vociferando, repetindo até à náusea teorias da conspiração, teses de campanhas urdidas por um feixe ilimitado de agentes maléficos contra o Sporting, e seu presidente (agora suspenso).

 

Vinte anos de África, e a minha profissão, fizeram-me conviver com ideias muito parecidas: o mal, a falha, a perda, se (a)parece imponderável, inescrutável, inopinado, é dito efeito de feitiço alheio, acção maldosa de algum “vizinho”. Entre nós, séculos e séculos de cristianismo queimaram (literalmente) as crenças no feitiço. Elas subsistem, mas não dominam o quotidiano. Mas esse modo de explicar o indesejável inesperado tem este formato, a crença não num vizinho feiticeiro mas numa panóplia, difusa, esconsa, de agentes coligados para fazerem(-nos) o mal. Não “Foi Deus”, muito menos “o Demo”, nem o “feiticeiro” ou “os espíritos antepassados”. Foram “Eles”, homens vivos, agindo na sombra.

 

E penso, que “comunhão imaginada” posso ter com esta gente? Que assim pensa? Como partilhar símbolos, valores, emoções, se os entendemos tão diferentemente? A estes e, decerto, que a tudo o mais que seja significante. Como manter a ficção, a imaginação? E como manter, ainda mais difícil o é, qualquer comunhão com os nazis, os claqueiros, os boçais holigões, que ululam “Sporting” durante as suas verdadeiras missas de adoração ao Demónio, fazendo do estádio o seu perverso templo. Para nosso gáudio, animados com a encenação e o apoio “à equipa”. Que comunhão ter? Como continuar a imaginá-la? Como crer, aceitar, naqueles que me dizem neste momento de crise, “somos todos sportinguistas”, “há que manter a união”. Em nome de quê?

 

Nestes dias tenho-me lembrado de um homem que conheci vagamente, amigo de amigos. Moçambicano luso-descendente, pertencente àquele núcleo de jovens portugueses que optaram por ficar no país após a independência, tantos deles cheios de esperanças voluntariosas, as próprias da juventude, dos homens e dos países. Há alguns anos, ele já sexagenário, doente e com alguns problemas económicos, segundo me disseram, há muito distante da família, recolheu-se em casa. Estendeu a bandeira na cama, não a moçambicana, não a portuguesa, nem a de algum partido político ou igreja, ou  algum estandarte militar, estes tão típicos daquela geração. Estendeu na sua cama a bandeira do Sporting, sobre ela se deitou, e fez-se adormecer para sempre.

 

É por isto, por este quase indizível, que há clubes, as tais comunidades imaginadas. Porque são imagináveis. E são-no porque existem, porque são reais. E por serem reais nelas nem todos cabem.

 

E é esta consciência que o “Bruno”, Bruno de Carvalho, me trouxe. E o não ter  percebido tão antes é-me um verdadeiro Apocalipse. Já!

 

O da minha razão, capacidade afinal tão incapaz, coisa para outros pouco importante. E o do clube. No molde que o conheci. O que imenso me entristece.

 

* “Comunidades Imaginadas” é o título de um livro de Benedict Anderson, sobre o nacionalismo. O livro é muito bom e a expressão generalizou-se.

A informação da RTP


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 (Rohm)

 

Em Portugal há um pequeno movimento fascista. Não exactamente um partido, mais uma turba holiganesca, “cabeças rapadas”. Convirá lembrar que até Hitler mandou exterminar os seus SA, dos quais estes são epígonos, por desnecessidade do seu radicalismo desordeiro, da sua bestialidade (e, é certo, das ambições do seu chefe, Rohm, que aqui vos deixo em imagem). 

O seu chefe foi condenado a 10 anos de prisão e cumpriu 6, penas muito pesadas em Portugal, mostrando a radical marginalidade deste universo – um dos crimes pelos quais foi condenado refere-se a um assassinato por motivos racistas (pelo qual foi condenado 13 anos depois do acontecido, o que mostra a inércia judicial portuguesa). Saído da prisão prepara um “novo” partido. E para captar visibilidade para a sua agenda anuncia a sua candidatura a chefe de uma claque do Sporting – à qual nem sequer pertence -, estrategicamente aproveitando o burburinho que a crise no clube tem provocado.

A RTP, serviço público de televisão e de informação, apresta-se a ir ouvi-lo “sobre o Sporting”, dá-lhe tempo de antena, visibilidade. Se eu apupar esta abjecção da informação da RTP dirão que apelo à censura. Se eu ripostar aludindo à sageza sobre “critérios informativos” (alguma vez alguém se dedicou a reportar eleições em claques?) responderão, altaneiros, que isso é com eles, oficiais do ofício. Se eu aludir a que eles, RTP, vivem de um esbanjo monumental dos impostos portugueses dirão que sou um “neoliberal” (“lusotropicalista”?). Se eu lhes disser que são uns colaboracionistas são capazes de se ofender (e merecem todas as ofensas, toda a “violência verbal”). 

E se eu lhes disser a verdade – que estão apenas preocupados com as audiências, e por isso fazem tudo – negarão. Mentindo, sem qualquer vergonha. E sem qualquer deontologia, essa que lhes veta, como jornalistas, a prática da “inverdade”, como agora se diz.*

 

* Sendo o Delito de Opinião um blog colectivo, assim uma articulação de sensibilidades locutoras, este postal está amputado do insulto (merecido) que consta do postal original, destinado a todos os funcionários da RTP, todos eles coniventes com esta desgraceira.

Ferro Rodrigues no pós-Alcochete


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Há dois meses bloguei este “O governo está a dormir“. A ideia era simples e nada original: a) ambiente em torno do futebol está um caldeirão fervente, acicatado pelos estratégias presidenciais nos grandes clubes nacionais e suas derivas confrontacionais na imprensa, em particular nos inúmeros programas televisivos de comentário futebolístico, já excêntricos ao registo de comunicação social pois mergulhados no mais barrasco da estética “reality show” – recordo que na véspera do assalto à academia do Sporting um comentador televisivo se levantou e ameaçou fisicamente um outro, afecto a outro clube, ante a relativa placidez do moderador e do total silêncio da direcção daquela estação. Sobre este ambiente escreveu ontem, “tão mais melhor”, Ferreira Fernandes este belo artigo, “Alcochete“;

b) num contexto destes era previsível que mais tarde ou mais cedo ocorreria um incidente grave nos campos de futebol ou nas suas cercanias, previsivelmente entre claques, esses tugúrios de auto-marginalizados. E, em fins de Março, perdi a paciência com o presidente do meu clube, que insultou o do Braga nos dias antecedentes ao Braga-Sporting, isto pouco tempo depois dos violentos incidentes aquando da visita do Benfica àquela cidade, assim estuporadamente incendiando (ainda mais) o ambiente e fazendo perigar o bem-estar dos espectadores, em particular dos visitantes, pois em clubística minoria. Mostrando-se totalmente irresponsável.

Diante de tudo isso era (e é) notória a inactividade governamental, o qual tem relativa tutela sobre os clubes e sobre os órgãos de comunicação social. Nem acções efectivas nem por indução, um total “deixa-andar” a denotar as pinças com que o poder trata o mundo do futebol, temendo perdas de popularidade.

Surge o ataque a Alcochete, afinal uma confrontação autofágica. Só agora, e decerto que pelo impacto mediático, o poder abana e intenta reagir. Anuncia-se uma “alta autoridade” ou similar. E o presidente da Assembleia da República vem fazer uma inusitada declaração política no próprio parlamento, sublinhando a sua condição de sportinguista. Vitupera o incentivo ao ódio, o populismo, o autoritarismo no mundo associativo, e em particular Bruno de Carvalho. Esteve bem. E aborda as acusações de corrupção que impedem agora sobre o Sporting (um clube em evidente descalabro) mas também sobre outros clubes, com particular relevo as sobre o Benfica.

Mas atente-se como ele o faz. Convoca as autoridades judiciais a investigar os clubes, pois, e di-lo com evidente acinte, dado que “sempre prontas para investigar, (e bem), os políticos” (e note-se as entoações, supra-explícitas). Deixemo-nos de rodeios, isto é um remoque do Presidente da Assembleia da República às investigações que recaem sobre o poder político, em particular sobre os anos de governação de Sócrates (aquela cujo legado ele reclamou no seu primeiro discurso parlamentar após ter sido eleito presidente do grupo parlamentar do PS quando Costa chegou a secretário-geral). Denota uma reacção crispada, um viés corporativo, um desagrado com o funcionamento das instituições. Em suma, aversão à democracia. É pelo menos pouco curial no presidente do parlamento. De facto, é muito mais do que isso, roça o inadmissível. E é totalmente demagógico que o faça a reboque de uma comoção generalizada, como a provocada pelo vil ataque de Alcochete.

O poder político acordou para a questão do ambiente do futebol. Mas, mostra-o o presidente da AR, levantou-se com os meneios de sempre. Impúdicos.

 

Alcochete e o jornalismo actual


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Várias equipas de jornalistas estão em Alcochete, ao portão da “academia” do Sporting. Chegam dezenas de encapuzados, não há imagens. “Disseram-nos para baixarmos as cameras e não filmarmos. O que logo fizemos“, dizia, até assertivo o jovem da RTP. “Depois entraram e caminharam cerca de 100 a 150 metros até à ala do futebol profissional“, e as equipas de reportagem ficaram, cameras baixas, microfones mudos, ali ao portão. “O grupo esteve cerca de 15 minutos nas instalações“. E depois há poucas imagens de um grupo já longínquo retirando-se. De tudo o resto, agressões, distúrbios, vandalização das instalações? Nada. Veremos, depois, 17 segundos de uma filmagem com telemóvel, decerto que feita por um profissional do clube no balneário. Apenas isso.

É fácil falar de fora (e alguns dirão que nunca arrisquei algo, o que não comentarei). Mas um tipo habitua-se a ver, até de espontâneos, imagens de incêndios, atentados, guerras, catástrofes. E também “directos” inopinados, até de coisas patetas (o treinador em férias a chegar ao aeroporto, ficou célebre). Não faltou ali qualquer coisa àquela rapaziada toda? E não falo de difíceis condições de trabalho, estágios, recibos verdes, parcas remunerações …

A praga do turismo


jpt,

Nestes últimos dias reflectindo sobre a incompetência dos nossos governos, inertes permitindo estas vagas de turistas populares, chegados aos magotes em voos “low cost”, descaracterizando as nossas cidades, em particular a capital Lisboa, e seus centros históricos, tudo vasculhando em frenesim de olhares desatentos e de energúmenas selfies.

 

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(otherie, por cpt)

 

* Sei que mostrar a cara é uma estética-FB, alheia ao discreto charme blogal. Mas não há outra forma de colocar este postal.

 

 

 

 

A “narrativa” dos 4 Cs


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(Os Cabritos Comem Estão Amarrados)

 

A “narrativa” (termo que Sócrates impulsionou) é simples: o ex-PM aldrabou tudo e todos, e ninguém sabia de nada. E ninguém o poderia ter percebido, tamanha a sua manha. É isso que quer dizer o (inenarrável) recente texto de Fernanda Câncio. Como corolário, quem dele desconfiou e/ou denunciou, e barafustou com tamanho silêncio por parte dos apoiantes do “manhoso”, dizendo tudo isso denotar uma dimensão sistémica, em termos em regime político e no conteúdo do partido socialista, é entendido como defeituoso ou doente. Como “renegado” – como no execrável texto de Alfredo Barroso (que esquece, já agora, que os antigos secretários-gerais do PS, Sampaio e Ferro Rodrigues também saíram da “extrema-esquerda”, após um simpático jantar de burguesotes lisboetas, e transitaram para a calmaria da social-democracia do “arco do poder” – exactamente, sociologica e ideologicamente, como aqueles que quer “denunciar”). Ou como “corrupto intelectual” e “invejoso”/ressabiado, como Porfírio Silva, ao que julgo assessor de Costa, intitula António Barreto neste tétrico texto. Em suma, só por malevolência moral ou defeito psicológico é que alguém poderia desconfiar do manhoso. E daqueles que o rodearam e apoiaram.

E também só esses defeitos mentais ou doenças éticas nos poderão levar a interrogar se todos os que estiveram com Sócrates, no governo e nas estruturas do poder, foram cúmplices da ladroagem e de todas as práticas políticas inerentes à necessidade de se manter e reproduzir no poder para poder continuar a … “ladroar”. A “comer”. Ou se foram apenas coniventes, num “encolher de ombros” auto-justificativo, subordinado ao exercício do poder com outros objectivos do que o tal “ladroar”. Ou se foram apenas cândidos. Só mesmo a tal deficiência moral ou instabilidade psicológica nos poderá fazer afirmar que nenhum desses 4 Cs (Cabritos, Cândidos, Coniventes, Cúmplices) tem perfil para estar num cargo público. Muito menos no governo.

À narrativa de que era impossível perceber Sócrates, tamanha a sua manha, e que por isso tantos passaram década e meia a defendê-lo, publica e privadamente, com todo o denodo, deixo um exemplo pessoal. O meu amigo Miguel Valle de Figueiredo (mvf), fotógrafo profissional, tinha um blog, o “Restaurador Olex” (depois blogámos juntos num outro blog, o “ma-schamba”). Em Janeiro de 2006, há 12 anos e 4 meses (!!!) – andava eu embrenhado em Moçambique -, o mvf escrevia este “Muleta Negra“. Está lá quase tudo do que se sabe hoje: as aldrabices académicas, a arrogância, os gastos excessivos, a óbvia inadequação ao posto. Repito, há 12 anos e 4 meses! O mvf, que não tinha acesso a qualquer “mentidero” ou a “gargantas fundas”, escrevia o que tantos botavam, tanto que até em Moçambique isso se percebia. Isso de que Sócrates era … Sócrates.

Agora 12 anos depois querem-nos fazer crer que o defeito está em nós, “renegados”, “invejosos”. “Fascistas”, até. Quanto a eles, os 4 Cs, são desinteressados participantes no progresso do país, ao contrário de todos os outros, perversos militantes da desgraça futura. Foram eles apenas, e lamentavelmente, enganados por um manhoso, actuando em conúbio com o tal amigo Silva e um prestável motorista. Mas só por esses.

Querem, é óbvio, mais 12 anos de “cabritagem”. Depois, claro, dir-se-ão C..ândidos.

Blogue da semana


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Para blog da semana escolho o Diário de Um Sociólogo. O seu autor, Carlos Serra, é um dos mais relevantes intelectuais moçambicanos, sociólogo (como é explícito) autor de vasta obra sobre o país. Abriu este blog há 12 anos, em plena febre bloguística global, e tornou-o o sítio incontornável para informações sobre o país. Lembro que durante os tumultos em Maputo de 2008 e 2010 era lá que Serra, qual verdadeira estação de rádio, ia noticiando os frenéticos acontecimentos, e era a ele que recorríamos para saber do que se passava nas imediatas vizinhanças.

E assim continua, num registo depurado – Serra foi jornalista na juventude, e isso terá ajudado para que tivesse encontrado o registo certo para o blog, textos curtos e incisivos, mas nada do vácuo risonho/tonitruante a la FB -, a cobrir inúmeros aspectos do país, as questões económicas, as derivas políticas, a análise dos órgãos de comunicação social, as suas brevíssimas crónicas em jornal (que até me fazem lembrar as do Listopad, no registo “nano-crónicas”). Para saber sobre Moçambique? O poiso certo é o Diário de Um Sociólogo.

Mabata Bata, de Sol de Carvalho


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Hoje, às 21.45 (raiospartam o horário, em dia de decisivo Sporting-Benfica, enfim, “é a vida …” como dizia o secretário-geral da ONU), é a apresentação do novo filme do realizador moçambicano Sol de Carvalho. No cinema São Jorge (av. da Liberdade), durante o INDIE LISBOA.

Eu já vi um bom naco, mais do que recomendo. Aqueles que estiverem em Lisboa e se quiserem eximir ao império do futebol terão ali uma bela opção.

E, já agora, para os cultores do escritor, é de referir que se trata da adaptação de um conto de Mia Couto.

 

MABATA BATA – TRAILER from bandoaparte on Vimeo.

Rouba, mas faz


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O Presidente do Partido Socialista, o peculiar Carlos César, enquanto anuncia algum incómodo e até pudicícia do seu partido face a José Sócrates, louva o seu exercício governamental. O constitucionalista Vital Moreira, cabeça de lista às eleições europeias do PS e cônjuge de membro dos governos socratistas-costistas, escreve (em Maio de 2018, frise-se, pois não terá tido anterior disponibilidade de agenda para tal) sobre o incómodo político causado por José Sócrates, enquanto louva o seu ímpar espírito reformista.

Não há dúvida: estão a cantar-nos, em versão “oficial”, o estribilho “Rouba, mas faz”.