José Sócrates e a sua gente


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Foram anos a feder: sabia-se de como aquele governo se intrometia na comunicação social, sempre um péssimo sintoma; sabia-se das investidas na banca; desconfiava-se, muito para além do normal, das manigâncias económicas (estas que agora causam isto), ainda que não tanto, caramba; sabia-se da trapalhada da licenciatura (“ele goza com isso no conselho de ministros“, dizia-me quem lá se sentava); sabia-se do imundo nepotismo, esse que é marca d’água do partido.

E sabia-se também de todos os “socialistas” e “companheiros de estrada” proto-pós-BE, a defendê-lo e ao “estado da arte” até à última: o eixo lisboeta de verniz “intelectual” e moderno (os do blog Jugular são uma boa caricatura desse lixo cívico), os académicos (tudo trocando pelo “grande ministro Mariano Gago”), os “quadros da função pública”. Defenderam-no(s) sempre, a todo o custo. Durante o seu poder, e também nos anos seguintes. Incensaram-no quando regressou, já feito Autor, de Paris, ressuscitaram-lhe o PEC 4, saudaram o Mestre Eduardo Lourenço feito seu prefaciador, louvaram-no especialista de Rimbaud, quiseram-no em Belém. Os que com ele estiveram no poder saíram em grande: para tutelar bancos rebentados, para embaixadores, para louváveis administrações não executivas, etc. Que as sinecuras foram várias. E tantos estão outra vez no poder – o execrável Capoulas, Augusto Santos Silva, Leitão Marques, Costa, claro, e tantos outros menos conhecidos.

E nisso tudo uma imensa arrogância, contra os “ressentidos”, os “ressabiados”, os “invejosos”, os da “direita”, como chamam, que se debatiam com aquele estado miserando das coisas.

Agora os Galambas e os Carlos Césares vêm dizer que têm “vergonha” destes corruptos. É um “in extremis”, a mostrar que já não há esperanças em safá-lo. E José Sócrates anuncia, como se ofendido, que abandona o partido socialista.

Eu nem me rio. Tamanho o desprezo. Pelos Pinhos & Sócrates. Mas também, e se calhar até mais, pelos Galambas. E por todos os que os apoiaram até ao fim, até mesmo hoje. Nos últimos tempos, já em desespero de causa, alguns já em silêncio, resguardando-se, outros apenas agarrados ao “segredo de justiça” e, em última esperança, a quererem mudar a PGR, ainda “a ver se pega”. E nem têm vergonha de serem o pouco que são. É vê-los aí, ufanos. Perdão, ufan@s, como tantos pavoneiam.

Na morte do embondeiro Dhlakama


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 (Embondeiro junto ao lago Niassa, distrito Cobué, 2010)

 

Principalmente para os que trabalharam com as populações que cruzaram a guerra civil moçambicana – sim, eu não digo “conflito armado”, a terminologia ainda habitual entre os cultores do idioma frelimista, que assim quer expressar a redução do partido Renamo a uma invenção estrangeira, rodesiana e sul-africana, algo que efectivamente foi mas do qual foi evoluindo -, delas ouvindo as suas horríveis memórias da guerra de Terror, praticada durante os 16 anos de ofensiva contra o Estado, pode custar a compreender o quão Afonso Dhlakama foi um dos líderes do seu povo. Não só entre o eixo shona (ndau e sena, para facilitar) que povoa o centro, aquelas Manica e Sofala a sul do Zambeze, zona de onde ele foi originário, pois, ao longo das últimas três décadas e  meia, progressivamente absorvendo o estatuto de porta-voz das aspirações da população entre o (rio) Rovuma e o (rio) Maputo. 

 

Talvez porque, obnubilados pela nossa própria história, e pela sua moralização em que nos obrigam a crer, nestes tempos de correctismo, sejamos incapazes de compreender a violência, mesmo a mais radical, como constitutiva da sociedade. Não, não falo da violência da “selva” africana, aquilo da simplificação do “Horror” conradiano (ou coppoliano, no franchising “Apocalypse Now”), mas da violência do verdadeiro “Horror” de Conrad, a universal. Será isso que nos pode impedir de compreender como a monumental “des-graça” da guerra entre 1976 e 1992, daquelas milhões de desgraças humanas, dos inúmeros episódios que a “população” nos conta, aquelas coisas que assim nos ficam para assolar, avassalar os sonhos e as vigílias – Dhlakama morreu hoje e só me lembro da primeira rapariga raptada pela tropa Renamo que tive o desplante de entrevistar, em 1994, lá no Cabo Delgado, ela completamente tolhida de tudo -, se pode transmutar numa forma de construção da democracia, da liberdade. Essas que prezamos. Mas que custam, de forma não instrumental, diga-se, pois não absolutamente necessária, mas que ainda assim custam, tudo isso.

 

Outros, historiadores ou grandes repórteres, poderão fazer o rescaldo do percurso do guerreiro-político Dhlakama, dirigente máximo da Renamo desde 1979, após a morte de André Matsangaíssa (em combate individual com Sebastião Mabote, foi a primeira versão popular que ouvi, magistral explicitação da dimensão de heroicidade, assim semi-divindade, que o povo atribui a estas grandes personagens da história moderna moçambicana). Mas quero frisar o quanto foi ele fundamental para o caminho em busca de uma democracia. Disso de haver vários locutores que reclamam o direito às várias opiniões sobre os caminhos a seguir, os vários modos de redistribuir os (parcos) recursos existentes. E a de, nisso, apelarem ao apoio dos conterrâneos, sem se submeterem a “verdades”, comprovadas por “inteligentes”, “sábios” (orgânicos ou expatriados) ou por uma qualquer “justiça”, histórica ou moral.

 

Nesse caminho ganhou umas eleições presidenciais, em 1999. Sim estou disso convicto – e não me venham chamar renamista, que já botei as vezes suficientes que, em Moçambique, sou um “chissanista”. E apesar do então acontecido não seguiu a via do regresso à guerra. Talvez por inexistência de contexto, interno e externo, para isso. Mas com toda a certeza que também por decisão própria.

 

E foi um homem (relativamente) despojado. Em particular nesta sua opção de regressar nestes seus últimos anos, como instrumento político mas não só, à sua zona natal, tão menos luxuosa, burguesa, sumptuária do que os refúgios, activos ou não, de tantos dos líderes políticos por esse mundo fora. A lembrar-me agora, na sua morte, Savimbi. Sendo personagens muito diferentes, em processos nacionais muitos distintos, e com lados escuros próximos (a guerra de terror nisso a muito contar). Aquele acossado até pelos velhos aliados, abatido em combate, e Dhlakama morto, ao que consta, por doença (diabetes, controlável se no remanso urbano). Mas ambos com esse ponto final, significativo, morrendo no mato, despojados do que tantos querem do poder. E do que tantos mais só querem do poder.

 

Foi um embondeiro moçambicano, como se costuma dizer na retórica das eulogias no país. E será bom para o apaziguamento do país que essa consideração não seja campo para as recriminações mútuas. Que o país o possa celebrar, na sua complexidade. Moldando-se assim, continuadamente, paz.

Algumas das canções da minha vida


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O Pedro Correia elencou algumas canções da sua vida, na sequência da bela série que vem colocando aqui no DO. E desafia-nos a colocar (algumas d)as nossas. No seu sumário ele meteu 12. Eu, acorrendo a responder, selecciono de rajada as que me são mais óbvias. Obrigo-me a ficar por estas 18. Não é a lista das “melhores canções”, é um rol de canções que me fizeram. E à minha vida. E espero que a minha filha Carolina se saiba reconhecer aqui. Tal como à sua mãe. E que algumas outras pessoas, se por cá passarem, também possam reconhecer-nos.

 

 

Sobre o olhar destinado a Moçambique


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Há alguns dias deixei aqui um postal aludindo à incoerência, sinal de incompetência e submissão ao casuístico, do parlamento português, o qual votou, de modo unânime, um pesar pelo assassinato de uma vereadora do Rio de Janeiro e que havia, recentemente, ignorado o asssassinato do presidente de Nampula. Aquele que me pareceu ser um texto liso (“flat”) foi comentado de forma que me surpreendeu (concedo que cada vez mais tenho dificuldades em dialogar em comentários nos blogs, pois o tom parece-me bem menos profundo, num apenas provocatório, do que o que acontece no FB, mesmo que ali sendo abrasivos, o que se prende, decerto, com o efectivo anonimato de grande parte dos comentários bloguísticos). Assim ser contraposto naquele meu texto por considerações que julgam normal (“natural”) que o parlamento siga a agenda mediática é difícil de contra-argumentar. Pior ainda deparar-me com comentários reduzindo, de forma altaneira, o que havia escrito a um “disparate” ou a “misoginia”. Não é um lamento o que agora escrevo, é mesmo um cansaço. Explico-o, agora, através de dois pontos:

 

1. Não reclamei o interesse para um qualquer contexto longínquo. A Assembleia da República não é o governo. Como tal é normal, até desejável, que funcione um pouco segundo as comoções e pressões do eleitorado, da opinião pública. E que os interesses e focos de atenção das forças sociais que apoiam os partidos sejam mais ecoados através dos deputados. Assim sendo, é normal que o que tem mais peso mediático (o Rio é mais sonante do que Nampula, claro) induza mais reacções. Não é um defeito, é uma característica do parlamento. Ou seja, se a AR está vinculada à “razão de estado” vive esse vínculo de forma menos radical, em termos de imagem e discursos públicos, do que o governo, particularmente em questões de política externa. Sendo mais sensível a ecoar as correntes de pensamento internas, muitas vezes potenciadas pelas emoções colectivas e pela agenda mediática, esta salutar em democracia. 

Dizer isso não implica que a AR não tenha também uma dimensão “estadista”. Nela está gente que se dedica à política externa e, mais em particular, à ajuda pública ao desenvolvimento, vulgo “cooperação” (terá comissões, grupos de trabalho; terá profissionais disso eleitos; terá políticos que já ocuparam postos na área; representa interesses económicos envolvidos; tem deputados da emigração; etc.). Assim, em questões estrangeiras não está, nem pode estar, limitada às solidariedades dos partidos representados, às comunhões ideológicas. Nem às parangonas das televisões e jornais. Poder-se-á discutir a pertinência formal de um parlamento votar um pesar sobre o assassinato de um vereador municipal (talvez que a reacção das instâncias políticas nacionais devesse incorrer sob o âmbito da Assembleia dos Municípios Portugueses, e das assembleias municipais – em particular a das grandes cidades portuguesas geminadas com o Rio; isso daria uma homologia). Mas pode-se ter querido incrementar o peso simbólico da reacção (duvido que tenha havido sequer essa consideração, mas enfim … dou de barato). Mas isso implica uma questão – deve a AR debruçar-se sobre qualquer assassinato de agentes políticos estrangeiros? Deverá ter uma atenção abrangente? E se sim sobre que universo se dedicará, e segundo que critérios? Só os do Rio? Só os Brasil? Só os da CPLP? Também os da UE? Ou por aí adiante até englobar os da ONU? Ou vota-se apenas segundo as proximidades ideológicas com alguns partidos da nossa AR, mais diligentes nas propostas?

Talvez que a AR não deva apenas depender da mera agenda  mediática e das solidariedades internacionais dos seus partidos.  Moçambique é o 2º país mais populoso da CPLP. Esta é um vector fundamental da política externa portuguesa (pelo menos ao nível discursivo). Portugal tem interesses no país (variados, desde os “morais” aos “económicos”, etc.). Tem tido papel na mediação de conflitos (inclusivamente nas negociações do recente conflito militar entre o Estado e o partido Renamo). Nampula é a segunda cidade do país. É a capital administrativa e económica da zona linguística macua – e há mais falantes de macua como primeira língua do que portugueses em Portugal, o que também dará para reflectir quando o discurso estatal e social aqui se centra na noção da “lusofonia” (ainda recentemente recuperada pelo nosso ministro da cultura, com reacção inexistente e debate nulo por parte das outras forças políticas nacionais). O presidente da câmara de Nampula (não um mero vereador) pertencia ao terceiro partido moçambicano, instaurado como o mais importante partido autárquico do país. E estava, dizia-se, de saída para fundar um quarto partido. Era um católico num contexto regional de esmagadora maioria muçulmana. Moçambique tem vivido conflitos militares nos últimos anos (houve uma pacificação nos últimos meses), e tem havido assassinatos de membros importantes do partido Renamo.

Nada disto explica o seu assassinato, sobre o qual não há informações. Mas tudo isto dá um contexto, óbvio, em que seria normal que a AR portuguesa, se entende expressar “pesar” pelo assassinato de autarcas estrangeiros, entendesse ter uma opinião política, de valor simbólico. Mas não teve, esqueceu-se: muito provavelmente apenas porque não há no seu seio um partido que se considere “companheiro de estrada” do falecido presidente. Ou, se calhar, porque nem sequer se lembraram do assunto. A mim parece-me simples, é um reflexo sobre as (in)competências da nossa AR em termos de reflexão sobre a política externa. Não é reclamar atenção para Nampula ou menosprezar a indignidade do lamentável assassinato da autarca carioca.  Mas é dizer que a AR não é apenas o fruto das primeiras páginas dos jornais (ainda que neles deva atentar) nem o rescaldo dos guias turísticos – que obviamente valorizam a “cidade maravilhosa” em detrimento da “cidade da chuva”.

Mas se aludir a tudo isto é sinal de misoginia e a continuidade de um costumeiro disparatar então não haja dúvida: sou eu, apesar de mim-mesmo, um disparatado misógino;

 

2. Ericino de Salema, jurista e jornalista moçambicano, comentador político na televisão, foi anteontem raptado e violentamente agredido, tendo, felizmente, o seu sequestro sido interrompido pela chegada de um grupo de crianças ao local para onde tinha sido levado e onde o espancavam com barras de ferro tentando partir-lhe os membros. Na sequência do acontecido o jornal Verdade elenca os 12 crimes políticos dos últimos 3 anos, incluindo vários assassinatos, desde o do constitucionalista Gilles Cistac, bem como o sequestro de Jaime Macuane, também comentador televisivo, levado de casa e baleado com cinco tiros nas pernas, ambos apartidários e meus colegas na Universidade Eduardo Mondlane. Este é um traço do processo político no, como acima refiro, 2º país mais populoso da CPLP, essa que é uma dimensão importante da política externa portuguesa, num país que a retórica estatal (e parlamentar) nacional afirma como bastante próximo – recordo, como símbolo, que Rebelo de Sousa convidou apenas três países para a sua tomada de posse: Espanha, Brasil, …. Moçambique. Referir que será expectável uma particular atenção, e concomitantes actos simbólicos, sobre este processo e seus epifenómenos, por parte do parlamento (e de outras instâncias políticas) será, no entender daqueles que entendem a política como um feixe de solidariedades sobre as causas identitárias (o género, a raça, a etnia, a … religião) que dominam o pós-marxismo actual, uma misoginia, falocrata, e um disparate, reaccionário.

Eu penso que não. E continuarei a pensar. Apesar dos comentários.

Sopesar os pesares


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Um voto de pesar da Assembleia da República convoca-me a pesquisar se um análogo terá sido feito há alguns meses. No “dia da Paz” em Moçambique, data da assinatura do tratado de Roma em 1992, que estipulou o final da guerra civil, foi no ano transacto assassinado o presidente do conselho municipal (o equivalente à câmara municipal) de Nampula. Eu cheguei à cidade uns dias depois, percebendo o trauma generalizado que vigorava. Para mais, foi-me descrito o assassinato por um amigo meu que o acompanhava naquele preciso momento. Nestes últimos dias aconteceram as eleições autárquicas, com vista a substitui-lo.  

Procuro agora no Google se a Assembleia da República se pronunciou sobre aquele atentado. Nada encontro, após várias buscas. Presumo pois que o facto tenha passado ao lado das preocupações e das agendas parlamentares portuguesas. Dos pesares dos senhores deputados e respectivas direcções partidárias. Se assim é (se o Google não estiver a esconder alguma referência ao assunto …) isto demonstra bem a mundividência de centenas de parlamentares e de alguns milhares de influentes luso-opinantes.

Ou sej, uma vereadora do município do Rio de Janeiro, segunda cidade do Brasil, país da CPLP, é assassinada (“brutalmente assassinada” é uma redundância, e isso poderia ser ensinado aos deputados), e a AR vota o seu pesar. O presidente do município de Nampula, segunda cidade de Moçambique, país da CPLP, foi assassinado e a AR ignora o facto, não expressa o “pesar”. Se não o votou porque será? Porque é em África, lá onde os gajos se matam uns aos outros, a necessitarem de umas “campanhas de pacificação”? Ou porque não pertencia ao partido feminista? Ou porque era homem? Ou porque, raisparta, o homem era negro, não uma mestiça (mulata/parda), bom material para os estes racistas subscritores do ideário “one-drop” a afirmarem “negra” (“preta”, no português brasileiro)?

O recente assassinato é lamentável e indicia um ambiente político tétrico no Brasil. Mas a minha questão, antipática, é a dualidade de critérios analíticos da totalidade da elite política portuguesa, expressa na reacção a estes dois casos. No afã demagógico de seguir o agit-prop de agora, a abjecta filiação ao “correctismo”, mostra-se bem a hierarquia de significados, importâncias e solidariedades. E transpira, de facto, bem lá no âmago, o fedorento racismo colonialista. Por mais tralhas intelectuais, a coberto da patetice dita “lusofonia”, que regurgitem.

Agora vão lá agitar as caudas no Can-Can gauchiste.

O secretário-geral do PSD


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A casa nem é pequena, e sobram-me as divisões pois eu aqui sozinho num a caminho de solitário. Ainda assim rearrumo-a, reordenando-a em modo (até desesperado) de me reordenar. Implica isso deixar sair mobílias dos meus predecessores, progenitores, meus e deles, assim qual ecdise, e tantas loiças, estas em notório e definitivo desuso, por ausência de quem delas se saiba servir. E todo este bric-a-brac, para além da imensa tralha que as décadas fizeram acumular, tanta dela morta por desaparecidos os detentores dos segredos que lhe dava um qualquer sentido, mínimo que fosse. E, mais do que tudo, metros e metros cúbicos de papel. Há décadas Eco gozou com a ilusão, doentia, de acumular fotocópias como se isso equivalesse a adquirir o conhecimento que continham. E sofri eu dessa miragem, mania mesmo. Partidos já foram caixotes de lixo delas carregados, e de dezenas de malvados dossiers, de armações enferrujadas e capas amarrotadas. Nisso nada tendo perdido pois, ainda que descreia que voltarei a leccionar, desadequado que fiquei, tudo o que larguei fi-lo após o ter gravado na internet, naquilo do “download pdf”, um talvez patético, ou nem mesmo talvez, “nunca se sabe…”. E há os livros. Aos meus, do Abeles ao Zumthor, neste 18 ainda os pouparei, ainda que tantos deles também ali à merce do “clic” “download”. Mas hesito nas estantes de literatura pois, ainda que Borges tenha avisado que após os 50 um tipo só deve reler, há por aqui tanta coisa que larguei sem mesmo terminar, tanto livro “imprescindível”, tanta “revelação”, afinal só meus erros de “casting”, aliás erros de “bookcasing”, que talvez esteja no momento de os fazer partir. E há os livros velhos, os dos antepassados, tantos deles apartados dos meus interesses e desta época, que fazer das estantes dos ensaios, mais ou menos apocalípticos ou regeneradores, da editorial Estampa e similares, pré e pós-25 de Abril, tiragens vultuosas a cujos remanescentes a minha geração não sabe o que fazer? Ou às divulgações científicas de quando se encetava a “cibernética”? E os mais antigos, que destino dar aos missais de XIX, às esfareladas edições também oitocentistas das obras (completas?) de Camilo, Garrett, Herculano, Dinis, e outros tão mais obscuros,  já para não falar das estantes preenchidas “preciosidades”, disseram-nas em tempos idos, como as obras completas do cardeal Saraiva ou o Portugal Antigo e Moderno de Pinho Leal, e tanta outras coisas da “construção da nação” daquele então, nada disto encadernado, com letras doiradas de preferência, pois livros que foram de uso, lidos e consultados, assim nada interessantes para aqueles, já poucos, que ainda julgam produzir estatuto na posse de livros velhos adornados de antigos? Mais fácil, porventura preconceito meu, é o enfrentar as estantes e gavetas de revistas, colecções desirmanadas. Pois preservarei até à morte a minha completa do “Tintin” e o legado recebido das (incompletíssimas) “Papagaio” e “Mosquito”. Mas as restantes, literárias com vultos que não vieram a ser, económicas cheias de ciclos concluídos, de relações internacionais desacontecidas, de artes obscuras ou viagens afinal nada aventureiras, a tudo isso digo adeus. Com pena, mágoa até, não pelo papel que assim parte mas pela ausência de quem as comprou. Leu e guardou. Por isso, só por isso, antes de as empilhar folheio-as. Por vezes procurando adivinhar o que terá realmente interessado. Outras atentando nos sublinhados e, até, nas de tempos mais-recentes, nos post-it afixados. 

Hoje deparo-me com alguns exemplares desta Mealibra, a qual desconhecia, revista do centro cultural do Alto Minho, publicada quando vivia eu em Moçambique. Num dos números, de 2008, um painel vasto e apetitoso de colaboradores, logo à partida Llansol (trechos inéditos) e João Barrento, e por aí adiante. Lá mais para a frente apanho uma crónica de Onésimo (Teotónio Almeida) e vou logo ler, que dele abundam pérolas, e procuro nada perder. Começa logo assim “Não “armar” deve ser a regra número um de qualquer texto na primeira pessoa. A segunda deve ser algo como “se armares, que seja em bombo da festa.”“. Rio-me, do certeiro que o “ó Nézimo” sempre vem, naquela sua ironia bem-disposta. Iluminadora, para não dizer iluminista. E, sabe-se lá porquê, lembro-me do novo secretário-geral do PSD (ainda o é?).

Depois arrumo as revistas. Não é desta que as deitarei fora. Pois, afinal, ainda tão actuais. 

Ainda a propósito dos Oscars


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O velho Plummer (que ficou na história como o anti-nazi Von Trapp, imagine-se) aprestou-se a refazer o papel do Spacey, apagado do filme “Todo o Dinheiro do Mundo” pois este queimado na praça pública por, de facto, não se ter assumido no momento considerado devido como membro do movimento político “gay”. E, toma lá, logo, assim como quem não quer a coisa, levou com a nomeação para o Oscar. E ninguém diz nada a esta sequela do blockbuster “The world according to Stalin”.

A McDormand, excelente nos “3 Cartazes”, como sempre o é, recebe o Oscar e manda a raparigada toda levantar-se, que este ano a causa é a feminina (feminista, se se quiser). Tal como antes foi a “afro-americana” (muito fiéis são aqueles tipos à lei da “one-drop”, já agora). A raparigada lá se levantou, aplaudiu, até ululou (as que o sabem fazer). E o mundo vê e acha óptimo, tão “liberals” (não é neoliberal, atenção) são os de Hollywood. E copiam-nos.

Que nojo. Os que copiam. Que os outros são o que são.

Passos Coelho na Universidade


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Vejo no facebook uma mole de protestos face ao anúncio de que Passos Coelho passará a ser professor no ISCSP e, posteriormente, em outras duas universidades. Todos têm implícito que o problema é ser este indivíduo (PPC) o convidado, e muitos o explicitam. É relevante notar que se a adequação do perfil político-partidário ao exercício da docência universitária foi estruturante no Estado Novo, os “democratas” d’agora convocam-na agora como critério. 

E todos esses protestos contestam a transição profissional dada a inexistência de currículo académico de PPC. Face a esse argumento consulto o Decreto-Lei 448/79, o “Estatuto da Carreira Docente Universitária” (actualizado em 2009, aparentemente sem alterações à parcela de texto que aqui convoco). Diz no preâmbulo, no seu ponto 9:

“Com o objectivo e a preocupação de abrir as portas da Universidade a todas as competências (…) concede-se ainda a possibilidade de serem especialmente contratadas individualidades que, pela sua competência científica, pedagógica ou profissional, possam dar à Universidade o seu saber e a sua experiência. E esta possibilidade tanto existe para aqueles que queiram prestar serviço em regime de tempo integral como para quantos continuem a exercer uma actividade de investigação ou profissional fora da própria escola. ( …)
O carácter de excepcionalidade do regime das equiparações por convite e o próprio conceito que ele encerra pressupõem, no entanto, que só possam ser contratados como professores convidados individualidades que, embora não tenham enveredado pela carreira docente normal, ou não possuindo os graus académicos exigidos para as categorias que as integram, tenham um currículo científico, ou científico e profissional, susceptível de permitir concluir que a sua colaboração pode ser efectivamente útil à Universidade“.

Pode ser que o governo anterior tenha sido mau. Pode ser que PPC venha a ser um mau docente. Pode ser até que encare a actividade apenas como uma pausa na sua biografia. Mas será pertinente negar, a priori, que um tipo que foi PM durante uma legislatura, governando em coligação ainda por cima, e que cruzou uma enorme crise mundial que gerou articulações com ditames económico-financeiros e administrativos externos, vá leccionar Administração Pública ou Economia?

De facto, este coro de protestos só mostra o fascistazito (muitos em versão “(neo-)comunistóide”) que há dentro de tantos destes auto-proclamados “democratas”. E mostra também a profunda ignorância, atrevida e arrogante ainda para mais, sobre o que é a universidade. E que esta fúria seja partilhada por vários académicos deixa entender não só o como estão infectados da cultura ditatorial, como também o corporativismo (salazarento, já agora) que os conduz. E, ainda mais, o desconhecimento da própria profissão. Tétricos duendes.

 

Assim se vê a força do PC


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Um abaixo-assinado tornado petição fez o malfadado Acordo  Ortográfico de 1990 regressar à Assembleia da República. Só o PCP a ele se opôs. Os outros partidos? Renovando, cada um com o seu trinado, o apoio a esta “coisa”.

Após a democracia a mentalidade colonial (uma visão do mundo, e uma concepção de Portugal nesse mundo) continuou resistente no país. Muito vigorosa, particularmente na direita profunda e no republicanismo do PS, que a este foi âmago – tudo muito consistente com a história colonialista da I República e do advento do Estado Novo. Foi esta via, trôpega, inculta (ainda que adornada de títulos), aliada à velha guarda da oposição democrática brasileira, esta até ridícula nas suas retóricas de então, que deu azo ao A090, um patético acto de colonialismo fossilizado.

Pelos vistos, 44 anos depois do “Democratizar, Descolonizar, Desenvolver” o único partido que se conseguiu elevar a uma descolonização foi o PCP. Ficam os outros patetas agarrados ao sonho homográfico como alimento da “comunhão de interesses e sentimentos”, a abjecta e inútil retórica desta gente. E ficam os respectivos “intelectuais orgânicos” (vá, venham-me lá tecer loas aos “de Argel” e aos ex-adeptos das FP-25) a focinhar no disparate.

Nem que seja por um dia …Avante Camaradas.

 

As cinzas da Beira Alta, exposição de Miguel Valle de Figueiredo


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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

 

Passam hoje exactamente quatro meses sobre os tétricos incêndios no distrito de Viseu, entre o concelho de Tondela e seus limítrofes, devastando a “Beira Alta”, na segunda apocalíptica volta dos incêndios florestais de 2017, dessa vez causando mais de 40 mortos. Desde então o meu amigo Miguel Valle de Figueiredo (o mvf, que durante anos co-blogou comigo) percorreu aquela região, que bem conhece, calcorreou mato, lugares, aldeias, vilas, encarou a gente que ali teima, desta ouvindo do horror de então e da violência posterior, advinda da arrogância burocrática de quem vem podendo. Nisso fotografou as “Cinzas” promovidas pela fúria dos elementos, o desnorte nacional e a incúria estatal, até abjecta. Enquanto uns, urbanos, se menearam vaidosos insanos, lamentando-se “de não ter tirado férias” ou, pelo contrário, “iam de férias” e pediam para “não os fazerem rir” a propósito destes e doutros assassinos fogos, e se gabavam de se preparar para as “cheias de inverno”, inaugurando casas refeitas com dinheiro alheio, apregoando ter revolucionado as florestas como nunca desde a Idade Média, e se faziam entrevistar em quartel de bombeiros, o Miguel foi para aquele lá, verdadeiros “salvados” de um país que insiste em desistir de o querer ser por via do apreço que vota aos tocos que julga gente, e até elegível.

 

Dessas suas andanças, vindas do seu fervor de fotógrafo e do seu dever de cidadão, produziu, a expensas próprias, pois não é ele daqueles capturáveis por Estado, municípios e respectivos tentáculos, tão pródigos se mostram esses para os fotógrafos “camaradas, companheiros e amigos”, um manancial iconográfico, uma verdadeiro arquivo para alimentar uma memória social do acontecido, deste sofrido que a história recente do país se mancomunou para gerar. 

 

Desse acervo será agora apresentada uma exposição. Paisagens, pois o pudor impeliu-o a evitar mostrar os retratos feitos dos violentados. 42 fotografias integrarão essa “Cinzas”, a inaugurar em Tondela, concelho tão devastado (só nele arderam mais de 400 casas, 219 das quais primeiras habitações), no próximo dia 24 de Fevereiro. Estando previsto que a exposição faça uma itinerância pelo distrito e, porventura, alhures. As fotografias estarão à venda, sendo os resultados monetários disso destinados para o apoio às vítimas. Verdadeiramente. Sem requebros burocráticos.

 

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Aqui uma entrevista do mvf a este propósito (a partir da página 34). Abaixo junto algumas das fotografias que serão expostas.  

 

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 (Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

 

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 (Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

 

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 (Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

 

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 (Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

 

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 (Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

 

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 (Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

 

 

A inveja nas redes sociais?


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 (Martin Luther afixando um postal no “site” da capela de Wittenberg, 31.10.1517, sem indicação de hora)

 

Olho o pensamento da semana no DO, colocado pelo João André. Não podia discordar mais. Este meu postal não é ad hominem  pois o que me conduz é que esta ideia, este fastio pelas “redes sociais”, pelas poses atitudinais que elas potenciarão, é recorrente. Essa sensação de que são elas (nas quais se devem integrar os já vetustos blogs) um rizomático “Grande Irmão” alienante. E sobrealimentado pela perfídia invejosa, essa grande e tortuosa arma do controlo social, do aquiescência do destino, próprio e colectivo.

Intelectualmente este fastio parece-me muito discutível. Nestes tempos de pós-marxismo isto é o avatar possível da velha grande teoria revolucionária. Deslustrada que está a ideia de que “a luta de classes é o motor da história” ficamos com esta simples, e simplista, sequela de que, afinal, “a inveja é o motor da história”, pois é ela que nos conduz representações  e práticas. Mas este mal-estar, na sua bruma desconfiada, é eclético, no pior sentido deste termo, o de infértil. Pois advém também da degenerescência da concepção liberal, travestindo a procura do interesse individual  (como “motor da história”, se me permito a usurpação) em mera inveja actuante. Esta infértil amálgama não passa assim de uma confusa noção, radicalmente conflitual, da vida social, derivada de um mero psicologismo (o primado da tal malfadada “inveja”), quantas vezes carnavalizado de um “culturalismo”, este já de si tão pobre, como no tão habitual “os portugueses são …”.

O certo é que nem sequer representa o real. Na pequena parcela desse real a que tenho acesso os factos são outros. As páginas necrológicas passaram para as redes sociais (“morreu o meu marido”, “morreu a minha mãe”, “o funeral do nosso pai será amanhã”), tal como as notícias das doenças (“a minha irmã está hospitalizada e a recuperar”, “obrigado ao estimável pessoal médico do hospital …”, “tenho que deixar de beber álcool”) ou as efemérides dolorosas (“faz cinco anos que morreu o meu amor”, “meu pai faria hoje 9… anos”), as rupturas de relações amorosas, etc. (os exemplos são todos de postais de facebook que vi nos últimos dias). Partilham-se pensamentos alheios e próprios. Imagens, orações, música, eventos da  vida colectiva, vicinal ou nacional, e individual, poemas, citações, notícias, memórias. Posições políticas, protestos desabridos, proto-ensaios, piadas, brejeiras umas outras nem tanto. Interessantes ou não, consoante o receptor. Ou seja, utilizam-se estes meios tecnológicos actuais para comunicar, para difundir “o que nos vai na alma”. Tal como Luther o fez em Wittenberg. De facto, nem todos somos Luther mas todos temos uma “alma” na qual se passa algo. E muitos querem-no mostrar – indivíduos que todos são (somos) diante desse “Deus” que são os outros, com Ele (eles) contactar, “comungar” directamente, sem mediação, e nisso muito de Luther ressurge. Sendo certo que as pessoas, as tais “almas”, assim estrategizam, sobre a imagem própria, quanto aos objectivos dos relacionamentos. Mas, e é isso que tanto me afasta destas visões conspiratórias adversas às “redes sociais”, e tão cegas quanto ao que conduz a acção social, essas estratégias não são um defeito (uma imoralidade, uma malandrice). São uma característica, o que não macula, por si só, os actos.  

Há nisto uma encenação? Sim, na medida em que nos representamos. Acabo de reler, 30 anos depois, “Cântico Final” de Vergílio Ferreira, um livro de que nada gostara. Ao contrário de agora (apesar daquilo do excedente idealizador da amada, mas enfim, será feitio meu ..). Coloco-o, como faço às minhas leituras não profissionais, na minha conta da goodreads, um belo clube de livro, “rede social” onde se trocam indicações de leitura e opiniões sobre o lido. Andamos ali a armar-nos em grandes leitores, a invejar as bibliotecas alheias? Ou a “conversar” sobre livros, aprendendo? Como ando com pouco tempo não meti a capa nem a foto do escritor na minha conta da pinterest, uma “rede social” óptima para coleccionadores de cromos, como eu o fui. Andamos ali a invejar-nos, a encenar-nos cultos e sensíveis? Ou a fruir imagens que nos agradam? Já agora, e porque tenho estado muito fechado em casa, raras são as vezes que vou ao cinema mas vou vendo filmes na tv, nas noites de insónia. Coloco-os na “rede social” IMDb, que disponibiliza informação vasta sobre os filmes, vistos ou desejados, e nos deixa opinar (“votar”, criticar). É encenação, eu qual cinéfilo? Promovo inveja?

Não se trata apenas de mim, não me tomo pelo todo, são milhões de pessoas a fazer estas “maluquices”. Inúteis, porventura? Se assim é, ainda bem, apartando-nos do “utilitarismo” básico, de pacotilha, que brota de tantos locutores silvestres. Estaremos a propagandear, melífluos, o nosso “sucesso” de consumidores, invejável aos outros? Afirmando um “capital cultural” mais relevante, procurando a “distinção”, o estatuto social? Será isso mesmo?  Não haverá mesmo nada de prosaico na vida social? Não haverá espaço para “conversar” com outros sobre o que se vê e o que se pode ver? Neste rossio actual, neste átrio de igreja d’hoje, que as disponibilidades actuais tão mais alargam? E sem estarmos obrigados a ouvir apenas a prédica do cura local ou a dos “mestres do pensamento”, “os senhores doutores” da aldeola, e nós de chapéu na mão ou de cálice na taberna, escutando-os? É assim tamanho o pecado de apenas … irmos andando como se que por nós próprios?

Há alguns anos criei uma conta na “rede social” academia.edu, onde meto os textos mais “académicos” (alguns não o são, mas isso é outra conversa). Esta rede é um filão, pois congrega imensa gente, imensos textos. Dando acesso ao que não tínhamos nem conhecíamos. Divulgam-se textos próprios (provocando a tal “inveja”? procurando o tal “sucesso”?) e alheios (convocando, estrategicamente, a reciprocidade?). Certo, há quem critique este “acesso aberto”, quem denuncie o “grande capital” a pilhar o trabalho intelectual. Mas isso é outra temática. O que interessa neste âmbito é perceber se o que move os milhões de participantes nesta rede de cariz profissional é a procura do “sucesso” por esta via? Se são movidos pela “inveja”? Somos assim tão  básicos? Ou se, pelo menos também, ali interagem, interagimos, comungando saberes, articulando fontes. Estrategicamente, claro. 

Há uma encenação nisto tudo? Em parte trata-se da forma como as pessoas recebem o que vem de outrem. Lembro sempre este ápice: durante anos bloguei em Moçambique, quando os blogs eram  mesmo uma “rede social” – a “blogosfera” dizia-se, com seminários, encontros organizados, jantares. E, mais do que tudo, “links” entre blogs e entre textos, críticas e debates, uma verdeira “esfera”, cheia de amores e desamores, clubes e partidos. Enfim, “amizades”, como na “rede” paradigmática de agora. Nesse meu blog meti crónicas de viagens feitas naquele país. Achava-lhes piada, até as imaginei em livro mas acabei por as juntar numa “rede social” (este “Ao Balcão da Cantina“). Mas antes disso, blogara eu uma dessas andanças e nessa noite recebi um simpaticíssimo comentário de uma leitora: “você deve ter uma vida extraordinária“. Não pude deixar de me rir. Não é que me queixe da vida – “filha“, dizia eu há uns anos à minha, após a morte de um querido amigo, “se me der o badagaio“, “ó pai, não digas isso, cala-te“, “nada, ouve, se me der o badagaio, lembra-te que a morte aos 50 já não é precoce. E que tenho levado uma bela vida, já fiz muito mais do que imaginara” (“o que não quer dizer que não queira cá ficar mais uns tempos“) – mas aquele comentário apanhou-me a preparar aulas noite fora, a reler pdfs de fotocópias de Bachofen e McLennan, uns evolucionistas oitocentistas, leituras muito interessantes para quem estuda história da antropologia. Mas não exactamente “uma vida extraordinária”. Ou seja, muito depende das formas como aquilo que nós, “redistas sociais”, colocamos é apreendido e assim reconstruído. E não tanto a nossa volúpia egocentrada e vaidosona.

Diz Vergílio Ferreira, e por isto é que fui buscar o “Cântico Final”, falando do tempo que nos passa ao longo da biografia: “viver era agora quase só durar“. E a verdadeira encenação é negar esta clarividente verdade. Nós duramos, porque temos e/ou queremos. Para durarmos não precisaremos de fugir totalmente ao real nem de uma completa amnésia. Mas não o conseguiremos se ficarmos monopolizados pelas dores e insucessos, próprios e alheios. E nem só desses podemos recolher ensinamentos para o viver, para este durar. Temos que gostar de algo, manifestá-lo ou, pelo menos, aparentá-lo, um algo muleta da travessia. Dele falar a nós próprios. Demonstrá-lo quando em conversa com outrem. Por isso mostro os meus cães e gatos (que não tenho), a minha querida filha (raríssimas vezes), festas familiares (não sendo eu grande filho nem magnífico parente), uma ou outra comezaina se mais pitoresca (e sou frugal à mesa, menos atento à faca e garfo do que ao copo, é certo), a minha ida a Alvalade (e nem sequer tenho SportTV), etc. Duro. Resisto.

Exemplifico melhor neste assim. Estou em Bruxelas, vim ver a minha filha. Fomos ver a exposição “Magritte, Broodthaers & Contemporary Art“. Pensei em fazer um postal sobre isso. E também sobre o Anima, o festival de cinema de animação de Bruxelas, no qual descubro ser o realizador José Miguel Ribeiro um dos jurados. Pensei também meter um postal no És a Nossa Fé, sobre o Sá Pinto que treina com sucesso o Standard de Liége. Talvez umas fotos, de prédios ou detalhes no meu mural de facebook, tudo isso a ecoar, como sempre, na minha conta do twitter. Enceno-me cosmopolita (ainda que, enfim, hoje em dia vir a Bruxelas não seja exactamente um “must”)? Publicito um qualquer especial “capital cultural”, com estes devaneios de consumo artístico? Anuncio um qualquer sucesso, existencial, familiar, económico? Tudo de molde a incentivar a inveja alheia, o mero “respeito” que seja? Entretanto, há quinze dias o colectivo DO juntou-se em jantar. Eu estava tão “tchonado” (o calão moçambicano para “teso”) que me foi necessário conter-me e faltar. Mas não me passa, nem passou, pela cabeça fazer um postal sobre isso. Sendo certo que esse episódio é muito mais relevante sobre mim do que o Sá Pinto em Liége ou um detalhe do Horta bruxelense. Mas estamos, estou, cá para durar. E a comunicação, as partilhas, são sobre como duramos. Não exige a vasculha do íntimo, o intimismo auto-punitivo. Pois aprendemos, tomamos consciência, com as dores e maleitas, próprias e alheias, mas enfrentadas com filtros. Caso contrário afogar-nos-emos no caldeirão dessas dores

E o mais importante é que não são as dores e as maleitas que nos congregam ou alimentam. Numa rede social, real, dita (excepto pelos tolos hiper-liberais) sociedade. A qual não vive só do conflito, invejoso ainda para mais, como alguns quiseram crer, como estes “neo-commies” querem ressuscitar. Mas muito disto de nos apreciarmos. Com as nossas coisas. Apesar das nossas “coisas”. Deixemo-nos pois de “coisas”. E ombreemos. Estrategicamente, é certo. E com aquilo, também, da inveja. Que faz parte. E, tantas vezes, tão útil e produtiva é. Para fazer a “rede”.

O Prémio Camões


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O Prémio Camões é um prémio político. É-o porque é estatal (e por natureza tudo o que o Estado produz é um acto político). Mostra-o o “costume”, que é orientação explícita, da alternância anual luso-brasileira da premiação (e não me venham com coisas, que conheço um punhado de ex-jurados, e isto é uma verdade factual). Um critério nacional, administrativo, assim um critério político, extravasando completamente a questão literária. Isso não o indignifica. O que o pode indignificar é o que os Estados podem fazer dele. Morreu, “de morte matada”, nessa sua condição política, no ano passado com o silêncio português (é um prémio luso-brasileiro) aquando do inaceitável discurso do ministro da cultura brasileiro quando o gigante Nassar o recebeu. Estou a falar de política e de representação do Estado: o ministro brasileiro, um fascistóide agredindo de modo inaceitável o premiado, também reclamou (como se en passant) para o seu Estado o monopólio da premiação. A apatetada representação portuguesa calou-se. E o “campo literário” português nem tugiu nem mugiu. Não veio mal ao mundo. Mas mostrou a tralha em questão, a do prémio e a das gentes do tal “campo”. Adiante.

 

O Camões vale assim o que vale. Sendo, como é, e repito-me, um prémio político, consta no seu pacote, e nisso extravasando critérios literários, de quando em vez ser atribuído a um escritor “africano”, vulgo “lusófono”. Nesse estreito âmbito o facto de um monstro como o polissémico, múltiplo, ambivalente, grandioso, único, verdadeiramente único, sublinho, uma lente solitária na literatura em português, Ruy Duarte de Carvalho nunca ter sido premiado mostra totalmente a irrelevância dos “cordatos” critérios que premeiam. E não me venham dizer que eu não sou especialista: sou leitor. Ou seja, o mais especialista que a literatura pede, e assumo o populismo do dito. E só me posso rir com um prémio dado aos angolanos Vieira e Pepetela e que não lhe foi atribuído – sublinhando que para a “África lusófona” se premeia fundamentalmente segundo critérios da história política da literatura. E nem história social é, porque então outras coisas haveria para dizer sobre Xitu ou sobre as magníficas páginas da desequilibrada obra do Khosa (e que mais pedir a um demiurgo do que ser desequilibrado?). Mas isto já me faz entrar em Moçambique, num corpo literário que me convoca o riso, entristecido, diante do Camões atribuído neste XXI antes de o ser a Borges Coelho, mas enfim, são os critérios da “africana” lusófona …. Inenarrável. E letal para qualquer vontade prestigiadora do prémio CPLP da literatura, vulgo “Camões”, nome do desgraçado poeta, que morreu miserável e 430 anos depois ainda é assim aviltado.

 

Dito tudo isto, que desagradará alguns amigos queridos, ex-jurados, escritores e, mais do que tudo, leitores militantes (os “grandes leitores” como se disse em milénios passados), o Camões só me serve para me convocar às livrarias (“ihh, o Trevisan!!!”, exclamei há anos, envergonhando-me do esquecido que andava, embrenhado noutros assuntos). Por isso nem me choca que agora tenha sido dado a Alegre. Um prémio político para um político que é poeta menor e ficcionista irrelevante, o corolário da cultura do funcionalismo público português (e, muito provavelmente, do silêncio dos académicos brasileiros agora jurados, envergonhados com a horrorosa cena do ano passado). Um prémio político para um político, qual a surpresa?

 

Agora o que me choca é estas patetas declarações (o “discurso”) do premiado aquando da recepção da honraria, que decerto serão indiscutidas pelo tal “campo” da literatura, desistido e cúmplice, na ânsia das prebendas, pois o prémio e o passado político convocam à sacralização das suas doutas (não “santas” que o homem é socialista, republicano e laico) palavras. Diz Alegre, sobre o estrado da premiação (e da inconcebível proposta para o Nobel), que a poesia é o território da “resistência”, assim não só postulando a sua mundividência mas também legitimando-se como laureável.

 

Francamente …!, estamos em 2018.E ainda temos que ouvir isto e até anuir ao dislate. A poesia é o lugar da desistência, da rendição, do desabar, da desgraça, do triunfo, do júbilo, da ejaculação, da resistência (sim, também), do tudo e do nada. E vem-me este homem tonitruar o vazio. Demagógico? Apenas pobre. De facto aquilo que alhures se diz (desvaloriza) como poesia de combate.

 

E mais, pior ainda, fazendo jus ao epíteto de “Pateta Alegre” (que saudades do meu pai António) na converseta “lusófona”, que nem ideologia (aquilo da “falsa consciência” a la Marx) é. Nisso das ruas africanas, americanas, asiáticas (os PALOPs) que “falam Camões”. Não ó Alegre, não falam. Fala-se, não só mas também, português. Não “Camões”. Que é aquele, como me diziam agora mesmo na Ilha, com candura, o “monstro que está a pedir dinheiro”, aquela estátua do Camões na Ilha, incompreendida no hiato que existe. Essa estátua, essa Ilha, esse mundo, e o próprio Camões que nele andou, que Jorge de Sena (um verdadeiro “Prémio Camões” avant la lettre) soube interpretar e que estes laureados e seus sequazes incompreendem. Tal como incompreendem o mundo. Para eles de “Camões”. Lusófono. Enfim, o “destes” prémios.

Guerrilha islâmica em Moçambique


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Guerrilheiros islâmicos em Moçambique. Partilhar isto – ainda para mais não conhecendo a origem das imagens, o que deixa em aberto a hipótese da sua encenação – é também um acto de divulgação e, como tal, um acto algo irresponsável. Assumo-o. Tirando esses meus pruridos: isto é o mais plausível. E o há muito temido, pois qualquer pessoa que conheça o país espera, e há já muito, a emergência de algo assim.

Em relação às grelhas analíticas dois princípios a afirmar já: 1) tenho visto os habituais negacionistas, a afirmar que isto nada tem a ver com o Islão. Mentem, por ingenuidade ou estratégia. Pois a história das religiões proselitistas (como o cristianismo e o islamismo) sempre se fez com a Palavra e a Arma (assim, com maiúsculas, para enfatizar a santidade da coisa). E a história do islamismo, logo após Maomé, sempre se fez com guerra (na nossa cristã história safou-nos Poitiers) – por mais que os sábios demagogos do nosso pérfido “ocidente” queiram resumir tudo à maldade das “Cruzadas” as “Crescentadas” foram uma constante. E a história das guerras entre facções intra-religiosas também (como as nossas guerras religiosas europeias tanto o demonstraram). Ou seja, “isto” também é o Islão.

2) Agitam-se os do “sociologês”: atribuindo a responsabilidade (de facto, dizem-na “culpa”) disto às malevolências do Estado (“a corrupção da Frelimo”, agitam-se os do antigamente), à exclusão social, às assimetrias regionais, ao falhanço do modelo de desenvolvimento, etc. É o mesmo tipo de discurso que aponta a culpa dos estados europeus no terrorismo interno. De facto, esse sociologês vale nada: são “explicações” que tudo explicam (todos os fenómenos podem ser atribuídos a essas causas) e, como tal, em nada contribuem para a compreensão. E, em última análise, retiram a intencionalidade (o livre-arbítrio, os objectivos próprios, a racionalidade estratégica e utilitária) aos participantes. Pois, no afã de inculpar a perfídia ocidental (branca), o seu poder capitalista, e as suas sequelas pós-coloniais (em tempos ditas “burguesias compradoras”), são incapazes de verdadeiramente se libertarem do “eurocentrismo” que aparentam abominar mas que é o único eixo de pensamento que perseguem. Por isso menorizam as práticas e seus agentes. Infatilizam-nos. Barbarizam-nos. Dizendo que estes são o que são, perseguem o que perseguem, apenas porque desprovidos dos recursos económicos que desejam – “análises” que são apenas fruto um materialismo rasteiro, básico. Desvalorizador. E cego.

Em suma. Moçambique enfrenta guerrilheiros. Islâmicos, convictos, estrategas. Causados e com causas. A ver iremos no que isto dará. Lamentavelmente.

 

Após o caso Nassar


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Distraído, se calhar, só hoje (no FB) tomei conhecimento deste caso Nassar, o médico da selecção de ginástica americana, acusado de violentar 158 jovens mulheres durante cerca de 20 anos. Um caso horrível. Com duas lições aqui para o recanto português:

1. nos excertos do julgamento colocados na imprensa ouvem-se as declarações da juíza. Antes de condenar o homem a 175 anos de prisão, e num discurso tão veemente que corre mundo, a juíza pergunta-lhe “Are you guilty, sir?” e noutro momento (que não reencontro) diz-lhe “Sir, não é digno de voltar a sair da prisão”. O “Observador”, que muitos louvam, traduz “sir” por “você”, o que mostra bem o grau de morcanzice a que chegou o jornalismo português, mesmo o “fino”. Esta é uma monumental lição para a cáfila de juízes portugueses, cuja arrogância de funcionários públicos os leva a destratar os réus – mesmo um tipo destes, num julgamento hiper-mediático, recebe o “senhor” a que um servidor público está obrigado. Os juízes portugueses não perceberão isto, porque, iletrados como o Observador, traduzem “sir” por “você”, e cagões como funcionários públicos remetem-no para o “vossemecê” altaneiro e reduzem-no ao nome próprio desvalorizador.

2. conheci isto via partilhas no FB. Gente com júbilo comemorando uma pena de prisão perpétua e saudando uma juíza que diz “estou a dar-lhe uma pena de morte” (uma perpétua inultrapassável). As pessoas são abjectas. Este abjecto Nassar apenas põe em prática o que esses facebuqueiros são.

Os duendes alheios


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Aquando do horroroso ataque à Charlie Hebdo o então vice-primeiro-ministro britânico Nick Clegg teve estas declarações. O que então disse devia ser um lugar comum, pois é a base da nossa sociedade democrática. Mas não é tão lugar comum. Seja a propósito de situações liminares, como as de então. Seja a propósito de questões (infelizmente) do quotidiano. Isto de agora, do “importunar”, que se quer criminalizar e que se criminaliza. Misturando-o com o assédio, com o exercício de poderes sob formas ilegítimas. Há atitudes que são, mais ou menos generalizadamente, consideradas imorais. Devem ser criticadas, são passíveis de sanções morais, sociais. E devem ser alvo de pedagogia e crítica pública – difundir, o que será difícil em tempos de mediática hipérbole “javardista”, que o “fazia-te isto e aquilo”, “quem me dera aqueloutro” é não só abjecto como é também sinal de enorme fragilidade e de incumprimento. Face às mulheres e também face aos outros homens. Mas não são crimes.  E isto tem tanto a ver com os célebres como com os tipos que andam por aí a importunar as nossas queridas (“óh pai, o que tenho que ouvir às vezes”, dizia-me, enjoadíssima, a minha adolescente filha quando o outro dia cá em casa se discutia este assunto das “actualidades”). 

É esta a questão fundamental. E quem não a percebe vai por aí adiante, pensando-se moralista (e justiceiro), na ânsia da proibição. Do “rogaçar” de lábios, do ligeiro encosto. Do vernáculo. Da relação “incestuosa” [há gente que se considera no direito de escrever em público e que considera suspeito (bestial, de facto) o amor entre padrasto e enteada. Mas que acha normal o amor entre dois homens ou duas mulheres. Recuem lá 30 ou 40 anos e vejam lá como estas representações, que surgem tão pomposas e veementes, se inverteram]. Da promiscuidade (os nossos intelectuais da direita já estão a saudar o regresso da ética à sexualidade, como se tivesse estado ausente). E por aí adiante. Numa concepção de regulação da vida social que se alastra às mais díspares dimensões, como a de nos dizerem que temos que guiar a 30 km à hora porque é mais seguro. E de nos proibirem de comprar rissóis porque não são saudáveis. 

Lutar contra o assédio sexual, contra a violência masculina machista é fundamental. Mas não implica refutar a democracia. E é por isso que este assunto é tão querido aos anti-democratas. O estranho é que tantos democratas o não percebam, se esqueçam das fronteiras que têm que defender. Umas por cansaço, enjoo e até revanchismo contra os morcões. Outros e outras porque lá dentro, lá bem dentro, apesar deles-mesmo, alimentam o seu querido duende ditador. E nós não temos que sofrer o assédio desses malvados duendes. Tratem lá deles. Ou seja, inibam-nos. 

Assédio? (2)


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O Pedro Correia escreveu aqui: “O mais chocante é verificar que a presunção da inocência que reivindicamos para as restantes actividade ilícitas das sociedades contemporâneas estar ausente de todas as imputações de assédio sexual. Como bem alertou a insuspeita Margaret Atwood, o que lhe valeu um indignado coro de críticas. Os novos empestados ardem na fogueira sem lhes ser reconhecido o exercício do contraditório. Ou, se o fazem, ninguém os escuta. Porque estão condenados à partida. E não há recurso da sentença. Já vimos este filme. Noutras épocas e sob outras alegações. Acaba sempre mal, como sabemos.” O João André riposta “A verdade é que me estou nas tintas …”. Como somos co-bloguistas e o DO é um sítio plácido apago o postal abrasivo que me apeteceu escrever. Mas como não me estou nas tintas – de facto isto é uma questão civilizacional – proponho a leitura deste texto de Alexandra Lucas Coelho. 

A guerra no norte de Moçambique


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Cada vez mais habituais as notícias de ataques e assassinatos no extremo litoral norte de Moçambique. Por vias mais pessoais chegam-me notícias de ataques, imagens privadas (ontem mesmo filmagens em telemóvel de população na estrada falando sobre a situação e os ataques). E muitas especulações: a imorredoira cartilha marxista-leninista atribui aos “interesses americanos” a responsabilidade pelos acontecimentos, os radicais críticos do Frelimo aludem à responsabilidade estatal, como se esta criando uma “cortina de fumo” distraindo de outras questões, alguns mais estupefactos aventam “será a Renamo?”, outros querem reduzir a uma bandidagem, mas a esta não dando o tom elevado de “social banditry”. E há quem creia no anunciado movimento (oficial ou oficioso) “Al-shabaab”. Não sei do que se trata, não encontro iluminação no que tenho lido, tenho a minha mera crença – que nunca será a do “mínimo denominador comum” entre as várias versões. E que se alimenta de anos na perspectiva de que isto emergisse, vendo no norte e em Maputo as nuvens que o presumiam. Quem me dera poder ir comprová-la no terreno, inquirindo. Esperançado em provar-me errado. Porque há uma coisa, terrível, e inovadora no país, nesse presumível inimigo: não negoceia. Pois quer tudo – que é uma forma do “nada”, do vazio político. E se for esse ele não está encerrado no norte extremo, mas pujante e afirmando-se pelo país, como é visível a qualquer olhar interessado. A sociedade moçambicana, a modorra dos seus poderes, chocou a mamba? Parece-me que sim. Só espero estar errado …