Assédio?


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Fui professor durante quinze anos em Moçambique. Onde o problema do assédio sexual dos professores homens às suas alunas teve dimensões demográficas: num país que triplicou a população nos últimos quarenta anos, que herdou uma paupérrima rede escolar, e que teve as escolas e os professores dizimados, pois alvos preferenciais da guerra civil (1976-1992), a paz veio exigir um desenvolvimento apressado dessa rede escolar e, como tal, da formação de docentes. A qual se deparou, nos anos 90s e na década subsequente, com um problema tétrico: os professores eram uma das profissões mais devastadas pelo Sida – o qual, grosso modo, afectou 20% da população nacional. Foi uma hecatombe. Duas razões para isso: os professores primários e secundários, ao longo do país, e por mais mal remunerados que fossem (e são), eram dos raros assalariados, com acesso à moeda, e usavam-na para alcançar relações sexuais; os professores tinham múltiplas parceiras sexuais entre as suas alunas, dado que o exigiam em troca do tal dinheiro, da sua posição social reforçada, e para darem as suas avaliações positivas. Sobre esta temática não me vou por com exemplos, que conheço imensos, tão dramática, sociológica e … demográfica é. Incontornável. Também na universidade, onde fui professor, isso acontecia, ainda que em menor grau. Pois, de alguma forma, no país ainda pertence a alguma elite (num sentido muito amplo) quem chega à universidade, não estando assim tão desapoiado. Mas é uma realidade, e soube de vários casos, murmurados ou anunciados – o professor que não “lança” a nota, que “chumba” a aluna, pais de alunas que se vão queixar, etc. Assisti e saudei a criação do gabinete universitário de luta contra o assédio, interno à universidade, instaurado face à consciência do alastrar desse problema. O qual, evidentemente, emanava não só das concepções geralmente aceites sobre o “poder dos homens” mas também da continuidade das concepções (e práticas) existentes no ensino dos níveis anteriores. 

Ponho este arrazoado por causa do que vem sendo para aqui (e não só) dito sobre o “assédio sexual”. E sobre o “fundamentalismo”. Abaixo leio que os homens têm que assediar as mulheres para que haja reprodução. É uma patetice iletrada. Não há nada de animal nisto: as gatas têm cio e “assediam” os gatos. Dizer isso é apenas ignorância, remeter a questão para a léria de que os homens precisam das parceiras para se reproduzir. O corolário dessa ignorância é a naturalização da poliginia e a imoralização da poliandria. O que nós estamos treinados (cada vez menos, diga-se) é que sejam os homens a cortejar as mulheres e não o oposto, a nós homens o explícito, a elas mulheres o implícito. São códigos, muito do seu tempo, e em desaparecimento. O assédio não é explicitação do desejo, nem corte amorosa. É poder exercido: físico, económico, patronal, cultural, psicológico. Quem não percebe isso não estudou português, não aprendeu bem a língua,  não tem dicionários em casa, e não tem nos seus favoritos um qualquer dicionário informatizado. E perora. E qualquer tipo que tenha aprendido que não se vai para a cama com uma mulher (algo) inconsciente – aquela miserável cena do “só mais um copo” à rapariga -, com o livre-arbítrio reduzido, só pode desprezar quem assim pensa.

Debater isto não implica qualquer fundamentalismo, não há “fundamentalismos inevitáveis”, como Teresa Ribeiro defende. Há tempos escrevi aqui sobre o Spacey, que é inserível neste eixo. E este moralismo – de facto, a “contra-reforma” da revolução sexual de há décadas – instala-se a torto e a direito. Sob um ideal de justiça popular, que transformou este movimento num verdadeiro #you too. Isto não é um “fundamentalismo inevitável”, é uma justiça  popular perfidamente moralista.  A leitura do documento das “100 europeias”, por tantas energúmenas torpemente reduzido a um lamento da “velha” e “reaccionária” Deneuve – a “estrela” que deu a cara ao manifesto pelo direito à interrupção voluntária da gravidez, encabeçado por Beauvoir, e agora tratada como uma machista misógina caduca – é exemplo disso. É o corolário do mero radicalismo, confusionista. Porque, no seu moralismo pacóvio, censor, retira a questão do poder do centro da questão. Não há nada inevitável (a não a ser a morte … e os impostos). Muito menos o fundamentalismo. Recusar e combater o assédio sexual é uma obrigação. Mas o assédio não é “roubar um beijo” (como até a esta velha carcaça bloguista ainda por vezes fazem), “encostar suavemente a mama ao antebraço alheio” (idem) – isso é explicitação da disponibilidade. Gestos que nós, homens, estamos treinados a saudar positivamente, mesmo que desinteressados (“he pá, ainda mexo”, comenta para si-mesma a tal carcaça bloguista cinquentona). Um âmbito de gestos que, porventura, muitas mulheres entendem como prenúncio de outra agressividade, treinadas (socializadas) que foram de outra forma, e assim tornando-os incómodos. 

E o que muita gente diz, e o tal “manifesto das 100” explicita, é que o assédio não é isso, não é a mais ou menos desbragada corte, o “incómodo” acusável pela “justiça popular”. E as fundamentalistas (e os fundamentalistas também) que tudo confundem, para se fazerem soar, não merecendo levar com “panos encharcados” merecem, com toda a certeza, oposição. 

A “carta racial”


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Diz-se que a beleza está nos olhos de quem vê, cada cabeça sua sentença, etc. Mas é óbvio que nem seria preciso ir buscar um ícone como Richard Gere para assegurar a unanimidade desta afirmação: este sexagenário é muito mais agradável à vista do que a carantonha do perfil deste bloguista ou do que a do presidente da Assembleia da República portuguesa. Ou seja, em termos estéticos pode haver proclamações universais. Ou, pelo menos, avaliações mais ou menos abrangentes, pouco refutáveis.

Dito isto, leio que Rita Ferro Rodrigues, conhecida apresentadora de tv, protesta com o facto das 4 apresentadoras escolhidas para o festival da eurovisão serem brancas, por ser isso uma falta de representatividade. Mais uma vez vai a jogo a “carta racial”, nisto de se exigir que se repartam os trabalhos “representativos” por aqueles que têm diferentes legados genéticos. Algo que o eixo PS-BE entende agora muito importante. O que é relevante é o que isto esconde, nas suas vestes de aparência analítica. Pois vejo a foto das 4 seleccionadas. Só conheço uma, com a qual confesso continuo a abanar à sua visão, Catarina Furtado. As outras 3 desconheço, nem serão beldades olímpicas mas têm um (relativo) palmo de cara, apreensível por esta minha vista desarmada. O que Rita Ferro Rodrigues não pergunta (não consegue?, não quer?) é quais são os critérios de “representatividade” que existem quando as caras da TV são tendencialmente bonitas? Que lugares há para as mulheres com as quais me cruzo no quotidiano, agradáveis ou desagradáveis à vista? Nas caixas, nos guichets, nos restaurantes, nas lojas, em empregos mais ou menos destinados a mulheres relativamente novas e com poucos (ou pouco especializados) estudos? Esse legado genético (e as possibilidades económicas destinadas às plásticas ou rearranjos externos) pouco lhe(s) importa(m). A única coisa que é relevante, porque está na moda, na crista da onda do surf, é a “carta racial”. Meta-se uma mulata, uma macaísta, que tudo vai bem. Desde que “as nossas meninas” (como dizia o insuspeito Rosas) sejam bonitas. Porque isso é “natural” …

E depois os reaccionários, os racistas, os lusotropicalistas são os outros. Brancos, claro.

 

Moçambique 2017: o que mudou nestes três últimos anos?


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Vivi 18 anos em Moçambique, que assim me ficou avunculátria. Há meses regressei ao país após 3 anos de ausência, uma estada de cinco deliciosas semanas. O rescaldo desta, pessoal e profissional, é matéria a partilhar com os meus próximos mas ficou-me algo mais público, o esgarçar da  minha mania blogal. Pois os tantos sinais que antes me fariam um feixe de postais foram ficando para trás, submersos por outro(s) compromisso(s). Mas pensei num postal mais abrangente, respondendo ao que nessas semanas tantos (talvez mesmo todos) por lá me perguntavam: “então?, o que achas que mudou no país durante estes três anos?“. É uma pergunta normal, sem malevolências epistemológicas, mas a transpirar a crença nas virtudes da empiria, aquilo de que a experiência veterana nos dá laivos de omnisciência. E também de alguma metafísica, nisso de esperar que o recuo, o assumir de um diferente ponto de tomada de vista, nos permite uma agudeza mental, mais elevada e iluminada (se telúrica demoníaca se celeste angélica, venha o diabo e escolha). 

 

Morreu 17 e já veio 18. E fiquei-me no silêncio. Credor de mim mesmo, da exprimir essa opinião, como se diagnóstico. E não só, pois ciente que se por cá, na minha pátria, a minha opinião sobre o “estado da arte” é irrelevante, que ninguém ma requere por mais que eu a esbraceje, por lá (a tal avunculátria) ainda há quem se dê ao trabalho de me questionar. O que também me desperta conclusões pessoais, a tais íntimas exo-blogais. Por isso aqui deixo o meu testemunho sobre o Moçambique que encontrei após os tais três (vácuos) anos de ausência, esperando que isso seja produtivo para quem se interessa pelo país, quem o procura interpretar. 

 

Fui à Ilha de Moçambique, para aí pela 25ª ou 30ª vez nestes últimos 20 anos. Antes como turista, funcionário diplomático, consultor, investigador, amigo. Agora fui para proferir uma conferência a convite da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas local, esse grande feito que a Universidade do Lúrio cometeu em 17. Fiquei uns dias, durante os quais revi os queridos amigos por lá. Um deles contou-me este episódio, sabendo de antemão que eu o apreciaria. Marcara ele um encontro com um conterrâneo, se nahara (local) ou macua (“viente”, como lá se diz) não explicitou, nem é relevante. Combinou-o para a pequena praça onde está a estátua (pavorosa, já agora) de Luís de Camões, monumento tardo-colonial. O interlocutor não o percebeu, àquilo da “estátua do Camões”. Ele explicou de novo. Sem se fazer entender. Insistiu, finalmente conseguindo o entendimento: “Ah!, a estátua do monstro que está a pedir dinheiro?!“. 

 

Sei que isto pouca inteligibilidade dará aos meus patrícios veiculadores das virtudes lusófonas (grosso modo o rebanho de clientes financiados pelo Estado-PS) e aos moçambicanos letrados avessos àquilo dos “camponeses”, todos crentes (e menosprezadores) de um certo “atraso” africano. Ou “das nossas limitações”, como se diz em Maputo, a “Nação”. Mas talvez aos outros, às pessoas livres, este corolário, vindo deste velho já meio rebentado, possa servir para entender alguma coisa. Espero bem que sim, até porque mais não tenho para dizer. Nem o sei dizer de outro modo.

A Casa Torta


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Não há razões para desesperos, pelo menos nesta matéria. Depois da minha irritação com a recente, e vil, “adaptação” do “Crime no Expresso Oriente”, insisti e fomos ver “A Casa Torta” (adaptação do livro em tempos publicado em Portugal sob o menos atractivo título “A Última Razão do Crime”). Não é preciso um grande ensaio interpretativo para esta coisa: quem vai ver um filme sobre um romance policial de Agatha Christie, ainda para mais tendo-o lido (e ela é uma das autoras mais lidas em todo o  mundo, mesmo que possa não o ser tanto como foi no XX), não vai na senda da grande literatura nem está na demanda do cinema na sua expressão artística mais elevada, em projectos de ruptura e/ou auto-referência. Vai-se lá à procura de reviver um ambiente, típico, que é assim datado, nos seus pormenores, na sua elegância de época, nos seus conceitos e preconceitos, nos limites das suas tramas, que patenteia o como é (era) e explicita o que não é, o que é excluído. É uma “elegância”, a ser lida por fruição, e (ou, se apetecer) a ser interpretada como uma belíssima (mesmo que se calhar kitsch) mostra de uma mundividência. Tudo a ser percorrido com um suave “frisson”, o do enigma sobre aquele, de facto irrelevante, assassinato em causa. 

O “Casa Torta”, realizado por Gilles Paquet-Brenner, com um plantel de bons actores encabeçado pela grande Gleen Close e abrilhantado por Terence Stamp, cumpre com toda a qualidade requerida essa recriação. O ambiente, sombrio, o mistério, mantido até ao fim (ainda que dissecável pelos “habitués” de Agatha Christie que porventura não tenham lido o livro), a elegância do contexto, a psicologia das personagens – que na obra desta escritora têm sempre um traço grosso, até algo caricatural, mas “é assim:”.

Saímos mais do que satisfeitos. E eu reconfortado. Mesmo aliviado. Recomendo. 

 

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Rescaldo de 2017


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Princípio da última tarde do último dia do ano, avanço, distraído, até ao talho da “grande superfície” (antes dita supermercado) defronte à minha casa. Encontro a óbvia azáfama, que deveria ter antevisto, baldo-me à fila e refugio-me junto aos expositores, tentando uma nesga que me deixe surripiar algo. Um talhante está a abastecê-los, rodeado de clientes que o interrogam sobre as disponibilidades do momento enquanto se servem directamente da pilha de caixas carregadas das embalagens que ele está a colocar. Ele está simpático, sorridente, falador, e assim percebo-o brasileiro. Aproveito e pergunto-lhe se não tem uns itens de frango ou peru que procuro, para os trabalhar com o sempre precioso apoio do youtube. Solidário, abre o sorriso, e diz-me que não, que “hoje já não há mais“. E explica, quase que em desculpa: “Este ano está assim, estou em Portugal há 18 anos, há 17 na companhia, e nunca vi as pessoas assim, nunca vi vender tanto no fim de ano“. Eu sorrio e respondo-lhe, “é isso, isto está melhor“. Sorri ainda mais, “é isso, a crise acabou“.

“Bom 18“, digo-lhe, já com uns nacos de frango e de peru na mão. “Bom ano“, devolve. A ver vamos.

O assassinato do crime do expresso do oriente


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Há alguns anos fui chamado a Lisboa devido à saúde do meu pai. Parti de urgência, deixando a família (a nuclear, claro) para trás. Dias depois ele morreu. Nessa noite, pois sozinho em casa e para evitar solidões reflexivas e convívios arrastados, meti-me no cinema “Londres” – que também já foi – a ver um filme de “Sherlock Holmes“, personagem também do agrado do meu pai, e cujos casos eu lera na totalidade. O dia não seria o melhor para aguçar a fruição cinéfila mas o que é certo é que saí do cinema indignado. E horrorizado. O filme era péssimo. E era também um atentado à obra, transformando o arquétipo do método científico numa espécie de herói da Marvel actualizado para o lumpen-milenar. 

Ontem à tarde fui ver, com a minha filha, o “Crime do Expresso do Oriente”, que um tal de Branagh – nome que me lembro ter sido há décadas anunciado como futura enorme figura do cinema e teatro britânico – decidiu fazer. Claro que ao livro o li há quarenta anos. E que por essa década vi (e revi) o esplêndido filme de Sidney Lumet, exímio a reconstruir o ambiente de “género” de Agatha Christie, a elegância, a típica abordagem psicológica daquele mesmo ambiente, e o “suspense” com verdadeiro “frisson”. Agora? Uma incapacidade de manter o suspense, de mostrar (criar) personagens, e uma  torpe apropriação da mítica personagem, tornado dono de um pateta bigode envolto em cenas de pancada e tiros. Enfim, a mesma abjecta ideia de que “actualizar” é abandalhar. 

Regressámos a casa. A filha desiludida. O pai indignado. Googlo o filme, para comprovar que o “Morte no Nilo” está em preparação, como a soez ameaça do final do filme deixa adivinhar. Pois este está a ser um enorme sucesso comercial. Praguejo com a perspectiva. E depois apanho uma crítica ao filme, feita por Eurico de Barros [aqui]. Até me comovo, parece que me leu os pensamentos. Nem vale a pena dizer mais nada. Até porque de nada servirá apelar ao boicote das futuras branaguices. O homem já assassinou “o crime no expresso do oriente”, continuará a matar outros. E o “espírito do tempo” alimenta-o.

Ou será que?, se nos juntássemos todos, e o “terminássemos” colectivamente numa qualquer carruagem? Poirot, estou certo, perdoar-nos-ia … E Dame Agatha Christie também empunharia o punhal.

 

Zena Bacar morreu


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Morreu a voz canónica do norte de Moçambique, a diva da Ilha (de Moçambique) se se quiser, ainda que nunca assim dita, pois muito mais a diva vinda da Ilha, a sempre voz dos Eyuphuro, o maior dos agrupamentos musicais macua. È assim um muito, enorme, do norte de Moçambique que enrouquece. Últimos tempos de vida difíceis, paupérrima, lia-se na imprensa. Escassez de registos musicais, o que ainda mais se nota nos raros filmes disponíveis na internet. Quase nenhuns textos dedicados. Fica a voz e o estar. Que foram enormes. Vindos daqueles “anos de chumbo”. Que continuam a ser, os nossos.

As Personalidades Relevantes de 2017


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A minha escolha das personalidades de 2017. Ainda segue a tradicional, conservadora e até reaccionária distinção de género (“mulher do ano”, “homem do ano”). Presumo que em 18 (ou, vá lá, 19) isso já não seja socialmente aceite e, como tal, aproveito para me ir despedindo deste “uso e costume” indígena:

 

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Mulher do Ano (Nacional): Sónia Fertuzinhos, ainda deputada vimaranense. Esta trapalhada do Montepio e da Santa Casa  (de que se virá a falar bastante daqui a uns anos, para total pasmo – “nunca me apercebi de nada” – dos inclusos na actual mole geringoncica) tinha que ter uma cabeça como moeda de troca. Ficará por esta cabecita, mera moeda preta …

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Homem do Ano (Nacional): Capoulas Santos, grande revolucionário florestal e ainda ministro da Agricultura: “O Governo fez a maior revolução que a floresta conheceu desde os tempos de D. Dinis”, proclamou em meados de Agosto. Conferiu-se.

 

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Muher do Ano (Internacional): Isabel dos Santos. Injustiçadíssima no processo de transição política no seu país. Nem um discurso solidário dos seus sempre solidários em Portugal.

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Homem do Ano (Internacional): Robert Mugabe. O Tio Bob foi condenado a ir para casa (para o palácio, entenda-se …) ouvir o audiolivro The Autumn of the Patriarch. Adormecerá nesses entretantos, claro. Nem um sinal solidário daqueles que tão ufanos ficaram quando o trouxeram a Lisboa, na cimeira UE-Africa, então areando-lhe a legitimidade

A Catalunha (e o Delito de Opinião)


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O Pedro Correia reconvidou-me para blogar no Delito … Avisei os amigos. Que me deixasse de bloguices, “acaba mas é o que estás a fazer”, uma empreitada infindável, que me faz Penélope todas as noites. E dias. Não perceberão a coisa. Um tipo participa num sítio assim: está aqui, nesta imagem. Ao quase lado catalunham. E aqui diz-se isto desse catalonismo. E também isto, o seu invés. Digam que é auto-elogio (colectivo), que é mesmo. Pois como se pode resistir ao apelo de uma casa assim?

Moçambique, de José Cabral


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Hoje é a apresentação de “Moçambique”, o livro do fotógrafo moçambicano José Cabral, uma edição conjunta XYZ Books (Lisboa) / Associação Kulungwana (Maputo). Cerca de 150 fotografias, a maioria, como é costume no Cabral, no preto-e-branco mas também com uma incursão nas coloridas. O livro tem dois textos, enquadrando a “coisa”, um de Alexandre Pomar, que organizou a publicação, e outro de Drew Thompson, americano especialista na história da fotografia moçambicana. Hoje, dia da festa por causa do livro, o preço será de 20 euros, uma verdadeira pechincha para uma peça destas. A tal festa acontecerá no “Irreal”, Rua do Poço dos Negros, 59, em Lisboa, naquela hora das 19.

O Zé Cabral é um entroncamento na fotografia de Moçambique. Quem desta conhece algo sempre refere os mais-velhos, icónicos, pelas fotos e por eles próprios, tipos sui generis (passe a aparente contradição), ambos “maiores do que a vida”, Ricardo Rangel e Kok Nam, grandes fotorepórteres, que narraram e construíram a história do país, e que marcaram as gerações seguintes dos fotógrafos por lá. O Cabral vem a seguir, porque é mais novo, entenda-se, sui generis também, pois “mais complexo do que a vida”, e escapou-se à reportagem, pouco ou nada atreito à disciplina da imagem correcta para ilustrar o discurso correcto, requerido por quem a podia requerer. E assim se pôs a construir o seu mundo, num carinho sulfuroso. Foram estes seus passos que mostraram no país outra forma de falar com a câmara, essa que veio a impregnar os fotógrafos mais novos, que se têm agora tornado conhecidos: Felix Mula, Mauro Pinto, Mário Macilau, Filipe Branquinho.

Há alguns anos Alexandre Pomar escreveu o texto para o catálogo da exposição “Anjos Urbanos” e apanhou bem o Cabral. 

Até logo?

Sobre a “querida juíza”


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Nada sei sobre o caso de desavença que Patrícia Reis aborda neste postal, o “Minha querida juíza“. Da senhora envolvida lembro que sempre me emocionou, por óbvio sex-appeal. Do cavalheiro lembro que li alguns livros dele, com muita aprendizagem minha. Não leio sobre o assunto, faço por não ouvir quando vem à baila. Mas o postal de Patrícia Reis trouxe-me algo à memória, sobre juízes portugueses. Há três anos, pouco depois de voltar a Portugal, passei por uma experiência tétrica. Dois polícias abordaram o condutor do carro em que eu seguia, por estar ele a re-estacionar sem cinto de segurança. Éramos quatro pacatos cidadãos, dois cinquentões, dois sexagenários. Eram 15 horas, numa muito calma zona da cidade. Fomos tratados como se estivessemos numa cena do Hurt Locker e nós os potenciais talibans ameaçadores dos marines ou similares. No final da actuação militarizada perguntei a que esquadra pertenciam porque iria apresentar queixa daquele comportamento e disse, em remate final, “isto é do caraças!”. Fui algemado, detido, passei 3 horas algemado a um banco na esquadra, levado a Santos para me identificarem (as fotos de perfil, ritual que conhecemos do cinema e TV; impressões digitais; tatuagens – desta última busca isentaram-me, por especial favor). E fui convocado para ir a tribunal, acusado de injúrias à autoridade (“ide para o c….”, foi a versão que os dois polícias apresentaram). Dois ou três dias depois lá fui. Passei um dia inteiro, acompanhado da amiga advogada pro bono, dos amigos testemunhas do caso, do amigo testemunha abonatória. Às 20 horas fui chamado à sala, onde me iriam comunicar ter sido o julgamento adiado. Entrei na sala, minha primeira vez num tribunal. Um funcionário público, ao fundo da dita sala, sentado atrás de uma mesa elevada, com ar de juiz, perguntou à minha advogada (a amiga ali pro bono) “onde está o José?”. Ainda hoje lamento não ter tido a decência de lhe ter respondido aquilo que logo me veio à cabeça: “ó seu fdp o meu nome é Teixeira”. Pois, e deixemo-nos de rodeios, de aceitações acríticas dos “novos usos”, desta popularização do trato, só um “filho de uma nota de cem” (como antes se dizia), um qualquer Espírito Santo, adoptado na roda, é que se atreve a deixar cair o nome de família de um outro igual. Ou então um qualquer funcionário público, incompetente por incompreender que ganha o salário para me servir e não para se julgar acima de mim. Como aquele “sô dôtor juiz”, como me habituei desde criança a ouvir chamar o meu avô, julgou e decerto julga.  Uns dias depois lá voltei a tribunal, mais uma vez acompanhado do quarteto de amigos. Defrontei uma juíza, lisboeta, trintona, alourada, típica e trivial. Também ela me deu o “José”, ao que eu pensei, outra vez sem o dizer, “pdm”. Depois de nos ouvir deu como provada a acusação dado, segundo teve o desplante de dizer, bem digna do epíteto que lhe havia dedicado, que se os dois acusadores tanto se contradiziam isso constatava que não tinham combinado uma versão o que garantia a veracidade das suas afirmações. Não bateu com martelo na mesa (como vejo nos filmes) mas deu-me uma marretada de 900 euros e, muito pior, bem muito pior, o de ter sido condenado em tribunal. Isto não tem nada a ver com o caso mediático Carrilho vs Guimarães. Em si não tem. Mas também tem muito. Porque mostra que os juízes são uns meliantes. Ao desrespeitarem aqueles para quem trabalham. Os réus, em primeiro lugar. Não nas sentenças, mas no tratamento prévio. E é preciso dizer-lhes isso. São funcionários públicos, servem-nos. E têm que meter isso na cabeça (por mais alourada e trivial que surja). Ou mudar de profissão.

 

Os meus vizinhos


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Há ainda quem não goste do Facebook, e alguns sentem isso sem qualquer blaseísmo. Eu gosto, com a minha experiência de emigrado e agora de torna-viagem. Como fonte de informação. Mas também porque forma de contacto com amigos e conhecidos mais ou menos distantes, sabendo novas dos seus passos, relevantes ou quotidianos. Dos seus afazeres e gostos. Da sua vida. Dos seus prazeres, pesares e pensares. E, porque faz parte da vida – e a minha geração já chegou a essa idade, e devemos ombrear nisto -, da sua degenerescência, a miopia, surdez ou até já demência. Como a que reconheço agora em alguns mais ou menos próximos lisboetas, que avizinho no Facebook, há alguns anos indignados e/ou irónicos com a senhora Jonet porque recomendava que não se comesse carne todos os dias. E agora já calados, alheados, porventura no ensimesmamento da senilidade, com esta “raríssima” senhora. Ou, um ou outro, balbuciando, com a vetusta queixada em tremuras, “tecnoforma”.

Viva Spacey


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Já estive para blogar um texto “Je suis Kevin!” mas censurei-me (enfim, sou pai, que pensaria a minha filha? …). Mas esta nova notícia é espectacular, gargalhável, obriga-me a botar. Então não é que o mariola foi apalpar o príncipe lá da Sildávia, e no próprio palácio dele … O gajo é um radical, sem limites. Ou seja, literalmente desbragado. Será até, porventura, um pouco uma bicha louca (eu sei, a expressão é um bocado preconceituosa. Mas é usada também por homossexuais, assim entendo-a legítima). G’anda Kevin! A notícia tem também duas implicações políticas: a primeira, lateral, é um estalo nos pobres monárquicos, sempre ciosos de uma qualquer superioridade das linhagens. Pois é óbvio que um cavalheiro nunca falaria em público de uma coisa destas, quanto mais um genro de rei. Assim mostrando-se qual mero espectador de reality show, como qualquer sub-plebeu. Enfim, o episódio serve para fazer engolir a patetice monárquica.

A segunda é mais actual, pois isto mostra bem o ambiente e a injusteza (e injustiça) do execrável ambiente que vem acontecendo. Um tipo é jovem e lê, por exemplo, uns contos do Tennessee Williams e, apesar de tender para outro lado, acha-os o máximo. Como contos, acima de tudo, mas também como liberdade. Depois envelhece e vê este pérfido retrocesso, como esta horrível coisa que andam a fazer ao Spacey – despedido e até o apagam de filmes, pura censura diante do silêncio da dita “esquerda europeia”, sempre tão atenta às censuras e perversões de Hollywood. É de lembrar, isto é um ambiente criado pelo fundamentalismo “genderista” / “identitarista”. Em última análise é autofágico (pois cairá em cima dos seus mais acérrimos defensores, vituperando comportamentos ditos “alternativos).  Pois, de facto, a única coisa de que Spacey é acusado é de ser “promíscuo” (palavra que é um programa político, moralista). Foi moral e profissionalmente linchado por razões políticas – por não se ter assumido como homossexual, e como tal ser uma “fraude”, disse o primeiro delator. Ou seja, por não integrar as fileiras do movimento político “gay”. Nisso acusado de violências morais e físicas, e até pedofilia (a monstruosidade dos nossos dias). Mas de facto o gajo não é mais do que um atrevido, tanto apalpa o tal “príncipe” como diz ao jovem no bar “vamos lá …”. Não assenta o seu (in)comportamento no poder que tem, mas sim no risco (deve ser uma personagem …). Não é que eu esteja a secundar a abordagem (eu, a quem até o canto do olho se engasga, tímido e corado, quando passa alguma senhora mais apresentável). Mas isto não tem nada de violento (“é a vida”, como se diz em inglês) e está provocar a sua lapidação. Pelos radicais homossexuais (em formato autofágico, e nem parece estarem a compreendê-lo). E pelos moralistas mais conservadores. E, apanhando a crista da onda, como se na praia da Nazaré, pelas mais reaccionárias das militantes do “género”, excitadas em versão de mera tradução heterossexual deste fascismo, que tudo quer transformar em “assédio”. Mas, para além disto tudo, fica o fundamental – isto do sacaninha do Spacey ir lá apalpar o decerto que cagão do pseudo-príncipe. Yes!

Prenda de Natal


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Estamos já na época das prendas. Aqui fica uma sugestão: tem(ns) um parente/amigo que é algo dado à leitura? Dê(á)-lhe o “Almas Mortas” de Gógol. É uma delícia. E uma obra-prima. Características que nem sempre vão juntas, que há obras-primas que se vivem com labor. Mas esta nada disso. E isso é importante nestas coisas das ofertas. Entenda-se, o tal parente/amigo a ofertar não precisa de ser um “grande leitor”. Pois a prosa é fabulosa, o texto jovial, e um ir até ao osso da “sociedade russa de XIX” (entenda-se, da humanidade). Um tipo (re)lê exaltado de prazer. E um (quase) constante sorriso na cara, que é o da felicidade na leitura.

A tradução é de Nina e Filipe Guerra (ele um ex-bloguista e também facebuquista). E esta leva de livros é uma reedição (ou reimpressão, nunca sei como definir). O preço em livraria é de 20 euros (o que para a maioria de nós implica que o ofertado tem que ser bastante próximo). Mas o texto vale mais do que qualquer garrafa de uísque ou aguardente ou pacote de chocolate ou perfume, garanto. Comprado na internet vai a 15 euros – e sobrarão os 5 euros para as azevias.

Nota: atenção aos mais relapsos à poesia. Se o título na capa diz “Poema” o texto é em prosa, que isso não vos afaste da compra/leitura. (Eu, vil censor, informei as senhoras livreiras da Bertrand que talvez fosse melhor, comercialmente falando, tirar o livro da estante “Poesia” e deixá-lo no de “Literatura Estrangeira” – não vou comentar sobre estas etiquetas. O que elas se aprestaram a fazer. Não estou certo de que o escritor aplaudisse o acto. Mas espero que o editor tenha apreciado. Ou, pelo menos, o seu contabilista).

Olhar o Mundo (RTP 3)


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Tendo vivido duas décadas fora o que me mais me marcou no regresso a Portugal foi o estupor patrício face ao mundo. O que se nota nas opiniões individuais, quando peroramos diante de cervejas, uísques ou vinhos (é de ti que estou a falar; é de si que estou a falar). Mais ainda nos opinadores privados, antes frenéticos nos blogs, agora no FB. E imenso na mediocridade dos profissionais jornalistas, absortos entre o umbigo europeísta e o prepúcio lusófono (e laivos da obamaland saídos de um digest qualquer, claro). A desatenção, o desconhecimento, o “estar nas tintas” sobre o mundo – e, como tal, não compreendendo o que vai aqui à volta acontecendo – é uma espécie de gripe, toca a todos. Em três anos de Portugal nunca, repito, nunca encontrei alguém medianamente informado sobre o mundo. Encontrei, claro, a Helena Ferro de Gouveia, mas ela vivia fora (e vale ouro, o que a isenta da nossa demissão colectiva), e encontrei-a fora daqui, entre o Maputo e a Terra Blogal. De resto não vejo nada de jeito, escrito ou audível. A RTP, que vive dos nossos impostos em nome de um falsário “serviço público”, é uma desgraça. Espancável, literalmente falando. O resto é mais ou menos inexistente. Ou narcísico, como as coisas de Rogeiro.

Isto vem a propósito da minha surpresa. Por mero acaso, face a um penne take away tão mau que me levou ao fora-de-moda zapping, acabo de ver o programa “Olhar o Mundo” na RTP 3. O já velho António Mateus, que conheci na África do Sul e reencontrei, brevemente, em Maputo, aqui um bocadinho engravatado demais, com uma universitária (não apanhei o nome), a abordarem com densidade, informação, reflexão, rapidez (o Mateus deixa-a falar, o que é excelente), as questões do mundo. É às 14 horas, no sábado, na RTP 3, pouca gente verá. Servirá como álibi para a RTP, se calhar. É evidente que poderia ter um pouco mais de meios, para animar a emissão, e assim ser transmitida num belo horário generalista. Seria um acto de civilização. Contra o estupor actual. Que é tão gigantesco que as pessoas nem o percebem. Entenda-se, que nele vão.

 

(Adenda: à procura da imagem para encimar este postal escrito de rajada chego à página de FB do programa e percebo que há vários colaboradores e que um deles é Francisco Seixas da Costa. Aconselhar (e louvar) um programa que integra um colaboracionista destes impele-me a apagar o texto. Mas retenho-me. Continuo fiel ao meu princípio, há que os combater “rua a rua, prédio a prédio, flete a flete”. Para isso é melhor ouvi-los. Escutá-los, na sua perfídia.)

O pesar


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Um voto de pesar na Assembleia da República pelo falecimento de alguém não é a expressão de condolências pessoais, é um acto político. Como tal é perfeitamente legítimo, ainda que possa (erradamente) parecer antipático, votar contra a expressão política desse pesar. Belmiro de Azevedo foi um grande empresário português, um grande capitalista como antes se dizia, e também foi simbólico desta nossa via económico-social. Assim sendo é perfeitamente normal que o PCP, como adverso a esta via, vote contra a expressão política de um pesar pelo seu desaparecimento. É isto a política e a sua componente ideológica.

 

Agora o que não tem qualquer tipo de pertinência, o que é mesmo incompreensível porque inexplicável, é uma abstenção. Por outras palavras, ou sim ou sopas. E assim sendo este pequeno caso político, a posição da assembleia face à morte do empresário, mostra bem a vacuidade medíocre dos … abstencionistas.

 

 

A Sala José Soares Martins no Camões-Maputo


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Ao longo dos tempos fui escrevendo sobre José Soares Martins, cujo pseudónimo de historiador era José Capela. Um texto mais longo (26 páginas, aos mais pacientes bastará clicar aqui) e breves notas sobre alguns dos seus livros (1; 2; 3; 4).

Encontrei 3 grandes eixos na obra historiográfica de Capela, ainda que a esta não esgotando: a) uma abordagem às formas como os processos de formação do capitalismo português (então proto-metropolitano) moldaram as políticas assumidas na colonização de Moçambique e, como tal, as interacções com as populações locais; b) como o tráfico internacional transoceânico de escravaturas a partir actual território moçambicano, durante o período pré-colonial e as primeiras décadas do efectivo colonialismo, até à sua erradicação no início de XX, marcaram as perspectivas políticas e culturais do regime colonial. Assim agredindo ideias superficiais: as que afirmam um precoce regime colonial português (isso dos “cinco séculos de colonialismo”, partilhado pelo mitos coloniais portugueses e pelos discursos nacionalistas moçambicanos); a da precoce proibição efectiva do tráfico nos territórios africanos reclamados em XIX por Portugal; a da bondade do colonialismo português; c) a análise da especificidade e complexidade histórica das formações sociais na bacia do Zambeze, desde o estabelecimento do regime dos “Prazos”, demonstrando a centralidade do complexo fenómeno do “escravismo” naqueles contextos.

Para além desse trabalho historiográfico, pioneiro, e de referência, Soares Martins foi um excelso diplomata, durante 19 anos adido cultural português em Maputo, com obra de monta. Para além das sábias articulações que induziu e reproduziu, em época de grandes cesuras entre ambas as sociedades, constituiu, em condições muito difíceis, políticas e económicas, os então ditos “serviços culturais da embaixada de Portugal”, funcionando desde 1983 e que vieram a dar origem ao centro cultural português, inaugurado em 1997 (e não em 1996, como incorrectamente anuncia a literatura oficial). Nessas décadas iniciais foi muito relevante a constituição da biblioteca desses “serviços culturais”, obra de Soares Martins. Num Maputo bem diferente do que é hoje, a ausência de material bibliográfico era enorme, e lendárias eram as filas na rua de jovens leitores aguardando a sua vez para estudarem. Em finais de 1990s pude constatar que havia mais de 1000 visitantes diários.  Antes, na Beira dos anos 1950 e 1960, Soares Martins, sobrinho do célebre bispo Sebastião Soares de Resende, tinha tido grande papel na dinamização de uma imprensa que, ainda que coarctada pela censura do Estado Novo e pela oposição da sociedade colonial, entreabria a denúncia das tétricas condições que esta reproduzia.  Claro que os seus contemporâneos na Beira e em Maputo muito mais poderão adiantar sobre essa personagem extraordinária que foi José Soares Martins. Como intelectual, como diplomata. Como democrata.

Em 1997 Jorge Sampaio visitou Moçambique. Soares Martins reformara-se no ano anterior, e regressara a Portugal. Mas ali se deslocou para essa ocasião. Foi condecorado, com a comenda do Infante D. Henrique. E Sampaio, conjuntamente com Joaquim Chissano, descerrou esta (aparentemente) modesta placa – em madeira, propositadamente, para evocar o tradicional trabalho artesão moçambicano; de autoria do célebre carpinteiro português Silva, para significar as possíveis simbioses – que serve para nomear, e de modo tão justificado, a sala de leitura do centro cultural português (o Camões) de Maputo. Sua, antes de todos os outros, obra.

Agora, após 3 anos de ausência do país, fui a Maputo. E fui ao centro, apenas para me curvar diante desta placa. É muito bonito que ela esteja ainda – sabemos da tradicional amnésia das instituições estatais, e da vertigem dos funcionários em remodelar e pensar que antes deles era o Caos, que “a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo” e que deles, só deles, brota o Verbo Iluminador. E é muito bonito constatar que há sítios, locais, e pessoas, que sabem que não é assim, e que os antepassados respeitáveis, e iluminadores, são homenageados, lembrados (e seguidos, nas diferenças de cada era) no quotidiano. Fico contente.

Ponta Gea


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(lendo o “Ponta Gea” na Ilha de Moçambique)

 

João Paulo Borges Coelho, Ponta Gea, Caminho, 2017

 

Tornámos a vida num bazar de opiniões, frenético, feito do tropel dos nossos egos, tonitruantes, como se nós, assim gritados, algo fossemos verdadeiramente. Nisso se vão esgarçando os adjectivos, nesta nossa escalada de superlativos, sinónimos ou antónimos, que nos valham para sermos ouvidos, numa dança vã do exigir atenção, um patético xigubo de vaidades, digo-o já que em Moçambique.

Veio-me isto a propósito deste “Ponta Gea”, de João Paulo Borges Coelho, o seu 12º livro em registo ficcional, seu percurso começado em 2003 com o, para mim, deslumbrante “As Duas Sombras do Rio”. O qual fora antecedido pelas três bandas desenhadas publicadas na década de 1980. Pois agora, diante deste último livro, ficou-me a dúvida, esta de como o definir, adjectivar? Pois é óptimo e, de facto, opinião mais sonora é impossível, e este termo deveria ser o suficiente para convocar a atenção. E, como tal, assim fico: “Ponta Gea” é um livro óptimo.

O formato do livro é o de memórias, entre o rapazinho virgem de mangal que nele se aventura, descobrindo-o e a si próprio, e o finalista liceal, aprestando-se a partir para sempre daquele local que lhe foi infância e que lhe virá a ser o país estrangeiro e para sempre inatingível, esse que sempre é o passado.

Ponta Gea é um “bairro”, até mítico, da Beira colonial, e é do ambiente dessa cidade que emanam os quinze episódios, entrelaçados entre eles e com tantos outros que neles se invocam, do que consiste o livro. Neles ressurge a Beira – e um pouco do meridiano entre Sofala e Manica, até aquela Gondola – do ocaso colonial, entre 50s e o início de 70s, mas sem grama do tão recorrente saudosismo ou exotismo que polui a Africana, essa espécie “literária” muito em voga. O que “Ponta Gea” traz é uma Beira cosmopolita, coito de misteriosas personagens, uma vasta galeria de dançarinas eróticas e artistas circenses transoceânicos, pugilistas advindos do longínquo hinterland, prostitutas sem rumo, mágicos e sábios de vão de escada, assassinos e dementes, ladrões célebres e aristocratas ou seus avatares asiáticos. O que nele se desvenda é ter sido aquela Beira centro e cerne de enigmas até insondáveis, dos anónimos falecimentos no mangal às causas do assassinato do primeiro-ministro sul-africano, culminando na eterna questão do navio “Angoche”, abandonado no alto mar por uma tripulação para sempre desaparecida, do canal de Moçambique fazendo vedadeiro “triângulo das Bermudas”.

A escrita-ritmo do João Paulo Borges Coelho é aqui gloriosa: e se é deslumbrante o como narra a descoberta infantil do mangal é até comovente a página e meia dedicada à aprendizagem da degustação de sadza (xima, uchua, como se preferir), a massa de milho, com camarão frito, lição de mundo e disso do ser homem, não só mas também muito através do palato e da aceitação do protocolo alheio. Assim lição de cultura, acto de formação, no nada simples molhar os dedos na massa, misturando-a, de modo até voraz, com o camarãozinho.

Os ramos deste “Ponta Gea” são muitos, e mostram diálogos. Lendo-o é impossível não lembrar Sebald, e não só pelo meneio desta “assemblage” literária d’agora, na utilização de imagens alusivas – algo que jpbc já havia feito, mas restrito a imagens escritas, no seu “O Olho de Hertzog”. Mas não é só isso que nos avisa do tempero sebaldista. Pois a este notamo-lo naquilo que é já usual no autor, e que, de facto, lhe foi sempre projecto, a híbrida mistura das memórias próprias, da memória social do país, da vontade ficcional, da historiografia – de que é ele próprio profissional -, da autobiografia. É esta mescla, entre ficção até onírica e “memórias”, cerzindo os factos com a ficção, que aqui surge acima do que já havia feito nos livros anteriores. E é assim que o autor prossegue o que sempre persegue, aquilo do inventar a História que realmente foi, que aprendemos a cultivar com Borges.

Mas estas histórias vistas pelo rapazinho, ágil, sonhador curioso, até atrevido, cruzando as misteriosas vielas beirenses, atento aos seus esconsos habitantes, e até deles inquiridor, aparecem como um “romance de formação”, qual primeira parte do grande bildungsroman que talvez o autor nunca venha a completar. Pois tarefa porventura demasiado dolorosa, na apneia moral que exigiria, no desinteresse que a exagerada vizinhança, não coada pelo passar das décadas, implicará. O que não é defeito, nem em nada apouca este “Ponta Gea”. Pois, bem lá no fundo, o que ele mostra é um Tom Sawyer renascido (um Tom Sawyer, não um Huck Finn), encantado, cuja prodigiosa imaginação disseca o que aconteceu e o estabelece como foi, tal e qual.

Repito-me, “Ponta Gea” é um livro óptimo. Desde há muito que me surpreende como é que João Paulo Borges Coelho não é um escritor muito mais lido, cá em Moçambique e em Portugal, onde também é publicado. Durante anos lamentei-o. Já não. Egoísta até me apraz que não sejamos muitos os que lhe amamos os livros. Pois assim percorremos a “Beira”, suas vielas, arrabaldes e até avenidas e, cuidadosos, trocamos entre nós, só entre nós, seus leitores apaixonados, os nossos sinais de iniciados. E os outros, ileitores, seguem no seu mundo. Algo mais pobres do que nós … E tão mais sós.