Assédio?


jpt,

Fui professor durante quinze anos em Moçambique. Onde o problema do assédio sexual dos professores homens às suas alunas teve dimensões demográficas: num país que triplicou a população nos últimos quarenta anos, que herdou uma paupérrima rede escolar, e que teve as escolas e os professores dizimados, pois alvos preferenciais da guerra civil (1976-1992), a paz veio exigir um desenvolvimento apressado dessa rede escolar e, como tal, da formação de docentes. A qual se deparou, nos anos 90s e na década subsequente, com um problema tétrico: os professores eram uma das profissões mais devastadas pelo Sida – o qual, grosso modo, afectou 20% da população nacional. Foi uma hecatombe. Duas razões para isso: os professores primários e secundários, ao longo do país, e por mais mal remunerados que fossem (e são), eram dos raros assalariados, com acesso à moeda, e usavam-na para alcançar relações sexuais; os professores tinham múltiplas parceiras sexuais entre as suas alunas, dado que o exigiam em troca do tal dinheiro, da sua posição social reforçada, e para darem as suas avaliações positivas. Sobre esta temática não me vou por com exemplos, que conheço imensos, tão dramática, sociológica e … demográfica é. Incontornável. Também na universidade, onde fui professor, isso acontecia, ainda que em menor grau. Pois, de alguma forma, no país ainda pertence a alguma elite (num sentido muito amplo) quem chega à universidade, não estando assim tão desapoiado. Mas é uma realidade, e soube de vários casos, murmurados ou anunciados – o professor que não “lança” a nota, que “chumba” a aluna, pais de alunas que se vão queixar, etc. Assisti e saudei a criação do gabinete universitário de luta contra o assédio, interno à universidade, instaurado face à consciência do alastrar desse problema. O qual, evidentemente, emanava não só das concepções geralmente aceites sobre o “poder dos homens” mas também da continuidade das concepções (e práticas) existentes no ensino dos níveis anteriores. 

Ponho este arrazoado por causa do que vem sendo para aqui (e não só) dito sobre o “assédio sexual”. E sobre o “fundamentalismo”. Abaixo leio que os homens têm que assediar as mulheres para que haja reprodução. É uma patetice iletrada. Não há nada de animal nisto: as gatas têm cio e “assediam” os gatos. Dizer isso é apenas ignorância, remeter a questão para a léria de que os homens precisam das parceiras para se reproduzir. O corolário dessa ignorância é a naturalização da poliginia e a imoralização da poliandria. O que nós estamos treinados (cada vez menos, diga-se) é que sejam os homens a cortejar as mulheres e não o oposto, a nós homens o explícito, a elas mulheres o implícito. São códigos, muito do seu tempo, e em desaparecimento. O assédio não é explicitação do desejo, nem corte amorosa. É poder exercido: físico, económico, patronal, cultural, psicológico. Quem não percebe isso não estudou português, não aprendeu bem a língua,  não tem dicionários em casa, e não tem nos seus favoritos um qualquer dicionário informatizado. E perora. E qualquer tipo que tenha aprendido que não se vai para a cama com uma mulher (algo) inconsciente – aquela miserável cena do “só mais um copo” à rapariga -, com o livre-arbítrio reduzido, só pode desprezar quem assim pensa.

Debater isto não implica qualquer fundamentalismo, não há “fundamentalismos inevitáveis”, como Teresa Ribeiro defende. Há tempos escrevi aqui sobre o Spacey, que é inserível neste eixo. E este moralismo – de facto, a “contra-reforma” da revolução sexual de há décadas – instala-se a torto e a direito. Sob um ideal de justiça popular, que transformou este movimento num verdadeiro #you too. Isto não é um “fundamentalismo inevitável”, é uma justiça  popular perfidamente moralista.  A leitura do documento das “100 europeias”, por tantas energúmenas torpemente reduzido a um lamento da “velha” e “reaccionária” Deneuve – a “estrela” que deu a cara ao manifesto pelo direito à interrupção voluntária da gravidez, encabeçado por Beauvoir, e agora tratada como uma machista misógina caduca – é exemplo disso. É o corolário do mero radicalismo, confusionista. Porque, no seu moralismo pacóvio, censor, retira a questão do poder do centro da questão. Não há nada inevitável (a não a ser a morte … e os impostos). Muito menos o fundamentalismo. Recusar e combater o assédio sexual é uma obrigação. Mas o assédio não é “roubar um beijo” (como até a esta velha carcaça bloguista ainda por vezes fazem), “encostar suavemente a mama ao antebraço alheio” (idem) – isso é explicitação da disponibilidade. Gestos que nós, homens, estamos treinados a saudar positivamente, mesmo que desinteressados (“he pá, ainda mexo”, comenta para si-mesma a tal carcaça bloguista cinquentona). Um âmbito de gestos que, porventura, muitas mulheres entendem como prenúncio de outra agressividade, treinadas (socializadas) que foram de outra forma, e assim tornando-os incómodos. 

E o que muita gente diz, e o tal “manifesto das 100” explicita, é que o assédio não é isso, não é a mais ou menos desbragada corte, o “incómodo” acusável pela “justiça popular”. E as fundamentalistas (e os fundamentalistas também) que tudo confundem, para se fazerem soar, não merecendo levar com “panos encharcados” merecem, com toda a certeza, oposição. 

18 comentários em “Assédio?”

  1. Ainda não percebi por que razão os ecologistas militantes, muitas vezes fundamentalistas, radicais e oriundos do mesmo imaginário político dos que criminalizaram o piropo, ainda não se deram conta de que medidas como esta constituem o mais monstruoso dos atentados contra a biodiversidade.
    Como é possível?!
    João de Brito

      1. Uma coisa é não gostar, outra é criminalizar.
        Se se criminalizasse tudo de que eu não gosto, estávamos fritos.

        1. Você não parece muito inteligente, JL.
          Se eu vir alguém a comer ananás na pizza ou a dizer bem do Cavaco Silva, não gosto, mas estão no seu direito.
          Assédio por outro lado é crime.

  2. Bem escrito. Bem dito. Concordo e subscrevo.
    Eu não sou a CD, mas como já disse e repito, é preciso separar o trigo do joio, chamar os bois pelos nomes e não professar fundamentalismos e histerias colectivas, não desmerecendo os movimentos justos que denunciaram casos sórdidos de assédio.
    É preciso, é fundamental não generalizar. Isto não é a batalha naval! Bora lá afundar mais um!!!

        1. Face a um conjunto de mulheres que têm vindo a ter comportamentos inaceitáveis em democracia, veras energúmenas e que nem merecem a sua individuação através da numeração.

  3. “Quem não percebe isso não estudou português, não aprendeu bem a língua, não tem dicionários em casa, e não tem nos seus favoritos um qualquer dicionário informatizado”
    Como já li, não sei onde, a tradução de sexual harassement como assédio sexual é péssima e deu origem a toda esta confusão. Devia dizer-se molestamento sexual. Ora molestamento é muito diferente de assédio.
    ” Mas o assédio não é “roubar um beijo” (como até a esta velha carcaça bloguista ainda por vezes fazem), “encostar suavemente a mama ao antebraço alheio” (idem) – isso é explicitação da disponibilidade.” Isto não é molestamento. Talvez se pudesse chamar assédio ou até utilizar outra palavra menos forte. Por exemplo sedução ou “atirar-se”, não sei.

  4. Há muito puritanismo nisto e, sobretudo, muita hipocrisia. Vejam-se as declarações de Brigitte Bardot. Ela não esteve com meias medidas e foi directamente à questão. As mulheres são tão capazes de aldrabice como os homens, por isso não simpatizo com as atitudes paternalistas em relação a elas.
    Condeno a violência e a agressão. Nisto encaro mais as coisas como quem tem mais força a agredir quem tem menos do que homem contra mulher. Prefiro ver cidadãos em vez de homens e mulheres. Nenhum cidadão pode agredir outro. E é óbvio que as mulheres também se aproveitam do sexo para subir na vida ou vigarizar. As mulheres também têm orgasmos, a sociedade (incluindo as próprias mulheres) é que tem dificuldade em reconhecer-lhes o direito a isso. Detesto o paternalismo e o puritanismo.

    1. Podemos moralmente condenar as estratégias interesseiras de sedução – e no campo profissional podemos apelar à intervenção jurídica quando elas poluem, interferem, em concursos públicos. Mas é preciso distinguir algo, que a intervenção de Bardot (que diz o óbvio, mas que também esconde outro óbvio) vem confundir: uma coisa é usar o sexo para ter poder (é ao que a Bardot aludiu) – que nós podemos condenar moralmente, se quisermos; outra coisa é usar o poder para ter sexo (e é isso que é o assédio, justamente criminalizado).

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