
Há alguns anos fui chamado a Lisboa devido à saúde do meu pai. Parti de urgência, deixando a família (a nuclear, claro) para trás. Dias depois ele morreu. Nessa noite, pois sozinho em casa e para evitar solidões reflexivas e convívios arrastados, meti-me no cinema “Londres” – que também já foi – a ver um filme de “Sherlock Holmes“, personagem também do agrado do meu pai, e cujos casos eu lera na totalidade. O dia não seria o melhor para aguçar a fruição cinéfila mas o que é certo é que saí do cinema indignado. E horrorizado. O filme era péssimo. E era também um atentado à obra, transformando o arquétipo do método científico numa espécie de herói da Marvel actualizado para o lumpen-milenar.
Ontem à tarde fui ver, com a minha filha, o “Crime do Expresso do Oriente”, que um tal de Branagh – nome que me lembro ter sido há décadas anunciado como futura enorme figura do cinema e teatro britânico – decidiu fazer. Claro que ao livro o li há quarenta anos. E que por essa década vi (e revi) o esplêndido filme de Sidney Lumet, exímio a reconstruir o ambiente de “género” de Agatha Christie, a elegância, a típica abordagem psicológica daquele mesmo ambiente, e o “suspense” com verdadeiro “frisson”. Agora? Uma incapacidade de manter o suspense, de mostrar (criar) personagens, e uma torpe apropriação da mítica personagem, tornado dono de um pateta bigode envolto em cenas de pancada e tiros. Enfim, a mesma abjecta ideia de que “actualizar” é abandalhar.
Regressámos a casa. A filha desiludida. O pai indignado. Googlo o filme, para comprovar que o “Morte no Nilo” está em preparação, como a soez ameaça do final do filme deixa adivinhar. Pois este está a ser um enorme sucesso comercial. Praguejo com a perspectiva. E depois apanho uma crítica ao filme, feita por Eurico de Barros [aqui]. Até me comovo, parece que me leu os pensamentos. Nem vale a pena dizer mais nada. Até porque de nada servirá apelar ao boicote das futuras branaguices. O homem já assassinou “o crime no expresso do oriente”, continuará a matar outros. E o “espírito do tempo” alimenta-o.
Ou será que?, se nos juntássemos todos, e o “terminássemos” colectivamente numa qualquer carruagem? Poirot, estou certo, perdoar-nos-ia … E Dame Agatha Christie também empunharia o punhal.

O Poirot parece um palerma com um tapete a fazer de bigode. Só de ver os anúncios na tv do filme fiquei agoniada. Nem sequer vou ver .
E faz muito bem.
Eu vi o filme.
Depois do Albert Finney, do Peter Ustinov e da série televisiva com uma excelente composição do David Suchet, fiquei a pensar que afinal o Kenneth não se conseguiu descolar do Loveless de WWW, e arrastou consigo uma obra intemporal, que felizmente não sairá sequer chamuscada .
Devia haver um rol dos maiores Desperdícios de tempo e dinheiro de 2017. Este entrava directamente para a lista na categoria de 7a arte.
O problema é que não é um desperdício, o filme tem sido muito lucrativo e mostra um filão – aliás o cabotino realizador tem declarações sobre um universo a criar a partir das obras da A. Christie.
David Suchet é sem dúvida o que melhor soube interpretar Hercule Poirot, sendo o mais fiel ao retrato feito por Agatha Christie. Talvez porque teve mais tempo em episódios para representá-lo. Toda a série é imperdível. Pena que nos canais nacionais não a passem.