
O Prémio Camões é um prémio político. É-o porque é estatal (e por natureza tudo o que o Estado produz é um acto político). Mostra-o o “costume”, que é orientação explícita, da alternância anual luso-brasileira da premiação (e não me venham com coisas, que conheço um punhado de ex-jurados, e isto é uma verdade factual). Um critério nacional, administrativo, assim um critério político, extravasando completamente a questão literária. Isso não o indignifica. O que o pode indignificar é o que os Estados podem fazer dele. Morreu, “de morte matada”, nessa sua condição política, no ano passado com o silêncio português (é um prémio luso-brasileiro) aquando do inaceitável discurso do ministro da cultura brasileiro quando o gigante Nassar o recebeu. Estou a falar de política e de representação do Estado: o ministro brasileiro, um fascistóide agredindo de modo inaceitável o premiado, também reclamou (como se en passant) para o seu Estado o monopólio da premiação. A apatetada representação portuguesa calou-se. E o “campo literário” português nem tugiu nem mugiu. Não veio mal ao mundo. Mas mostrou a tralha em questão, a do prémio e a das gentes do tal “campo”. Adiante.
O Camões vale assim o que vale. Sendo, como é, e repito-me, um prémio político, consta no seu pacote, e nisso extravasando critérios literários, de quando em vez ser atribuído a um escritor “africano”, vulgo “lusófono”. Nesse estreito âmbito o facto de um monstro como o polissémico, múltiplo, ambivalente, grandioso, único, verdadeiramente único, sublinho, uma lente solitária na literatura em português, Ruy Duarte de Carvalho nunca ter sido premiado mostra totalmente a irrelevância dos “cordatos” critérios que premeiam. E não me venham dizer que eu não sou especialista: sou leitor. Ou seja, o mais especialista que a literatura pede, e assumo o populismo do dito. E só me posso rir com um prémio dado aos angolanos Vieira e Pepetela e que não lhe foi atribuído – sublinhando que para a “África lusófona” se premeia fundamentalmente segundo critérios da história política da literatura. E nem história social é, porque então outras coisas haveria para dizer sobre Xitu ou sobre as magníficas páginas da desequilibrada obra do Khosa (e que mais pedir a um demiurgo do que ser desequilibrado?). Mas isto já me faz entrar em Moçambique, num corpo literário que me convoca o riso, entristecido, diante do Camões atribuído neste XXI antes de o ser a Borges Coelho, mas enfim, são os critérios da “africana” lusófona …. Inenarrável. E letal para qualquer vontade prestigiadora do prémio CPLP da literatura, vulgo “Camões”, nome do desgraçado poeta, que morreu miserável e 430 anos depois ainda é assim aviltado.
Dito tudo isto, que desagradará alguns amigos queridos, ex-jurados, escritores e, mais do que tudo, leitores militantes (os “grandes leitores” como se disse em milénios passados), o Camões só me serve para me convocar às livrarias (“ihh, o Trevisan!!!”, exclamei há anos, envergonhando-me do esquecido que andava, embrenhado noutros assuntos). Por isso nem me choca que agora tenha sido dado a Alegre. Um prémio político para um político que é poeta menor e ficcionista irrelevante, o corolário da cultura do funcionalismo público português (e, muito provavelmente, do silêncio dos académicos brasileiros agora jurados, envergonhados com a horrorosa cena do ano passado). Um prémio político para um político, qual a surpresa?
Agora o que me choca é estas patetas declarações (o “discurso”) do premiado aquando da recepção da honraria, que decerto serão indiscutidas pelo tal “campo” da literatura, desistido e cúmplice, na ânsia das prebendas, pois o prémio e o passado político convocam à sacralização das suas doutas (não “santas” que o homem é socialista, republicano e laico) palavras. Diz Alegre, sobre o estrado da premiação (e da inconcebível proposta para o Nobel), que a poesia é o território da “resistência”, assim não só postulando a sua mundividência mas também legitimando-se como laureável.
Francamente …!, estamos em 2018.E ainda temos que ouvir isto e até anuir ao dislate. A poesia é o lugar da desistência, da rendição, do desabar, da desgraça, do triunfo, do júbilo, da ejaculação, da resistência (sim, também), do tudo e do nada. E vem-me este homem tonitruar o vazio. Demagógico? Apenas pobre. De facto aquilo que alhures se diz (desvaloriza) como poesia de combate.
E mais, pior ainda, fazendo jus ao epíteto de “Pateta Alegre” (que saudades do meu pai António) na converseta “lusófona”, que nem ideologia (aquilo da “falsa consciência” a la Marx) é. Nisso das ruas africanas, americanas, asiáticas (os PALOPs) que “falam Camões”. Não ó Alegre, não falam. Fala-se, não só mas também, português. Não “Camões”. Que é aquele, como me diziam agora mesmo na Ilha, com candura, o “monstro que está a pedir dinheiro”, aquela estátua do Camões na Ilha, incompreendida no hiato que existe. Essa estátua, essa Ilha, esse mundo, e o próprio Camões que nele andou, que Jorge de Sena (um verdadeiro “Prémio Camões” avant la lettre) soube interpretar e que estes laureados e seus sequazes incompreendem. Tal como incompreendem o mundo. Para eles de “Camões”. Lusófono. Enfim, o “destes” prémios.

“O Prémio Camões é um prémio político. É-o porque é estatal (e por natureza tudo o que o Estado produz é um acto político)”
O homem é um animal político, a atribuição de um prémio de literatura é sempre um ato político, seja quem for que o faz. Só não seria se existisse um instrumento rigoroso para medir o mérito literário, o que é evidentemente um disparate.
Não compreendo as pessoas que odeiam o Estado e ao mesmo tempo lhe atribuem monopólios que ele não tem. As suas escolhas de escritores são políticas, a menos que tenha lido todos os livros do mundo e tenha exatamente as mesmas preferências de toda a gente no mundo.
e disparate igual será acreditar que há algum instrumento que meça a seriedade de atos políticos
Não tenho como lhe responder, está num grau zero de argumentação, e muito convicto. É uma patacoada, cheia de prosápia alimentada da incompreensão do que terá lido ou, mais provavelmente, do que foi ouvindo.
É uma resposta ao comentário 1º, anónimo.
” Um critério nacional, administrativo, assim um critério político, extravasando completamente a questão literária. Isso não o indignifica.” E ainda não se lembraram das quotas por sexos, como muita gente já reclama para o Nobel.
Eu já pensei nisso.
Nem da questão racial.
A voz de Argel ao pódio.
Todo aquele e toda aquela que combateu a ditadura salazarista merece o louvor de todos os democratas, quer de esquerda, de direita ou do centro. Quanto a anti-democratas como você, pode sempre ir a Santa Comba Dão! Ou ainda melhor: emigre para países com regimes que você tanto adora: Turquia, Irão, Arábia Saudita, Coreia do Norte, China. Tem muito por onde escolher.
25 de Abril sempre! Fascismo nunca mais!
Que patetice. Indigna, ainda por cima, nesse seu anonimato.
Agora é que já não há prémios que valha a pena receber. Que cáfila.
“Agora é que já não há prémios que valha a pena receber” Não exagere, não gostava de receber um prémiozito acompanhado e uma quantia razoável!! Há é inveja e muita.
Os prémios são honrarias, e têm esse merecimento – há quem a elas seja mais atreito, há quem seja indiferente, depende. E são também recompensas, tanto as pecuniárias como as de divulgação das obras – estou ciente que, pelo menos estas últimas, são válidas para os escritores. Que, na sua esmagadora maioria, escrevem para serem lidos (o que não quer dizer que montem as suas obras em função dos leitores, como deverá ser óbvio).
Porque pretendem ignorar José Rodrigues dos Santos?
José Rodrigues dos Santos nunca soube ser imparcial. Foi o que se viu quando recorreu a factos alternativos sobre o povo grego.
José Rodrigues dos Santos representa o que há de pior no jornalismo português.
2º anónimo, tal como respondi ao 1º anónimo, não conheço o trabalho literário de José Rodrigues dos Santos. Agora há um ponto fundamental: JRS até pode ser um péssimo jornalista e totalmente parcial (é a sua visão) – mas isso não terá nada a ver com as suas qualidades de ficcionista. São coisas diferentes, “esferas” se se quiser, que não se correlacionam.
Não posso responder, nunca li esse escritor.
O Manuel Alegre nunca escreveu uma linha que merecesse ser lida.
Quanto mais ganhar um “prémio”!
Não concordo com o que diz. Um coisa é negar a particular relevância literária de uma obra, outra é dizê-la dotada de total demérito. Não é esse o sentido do meu postal, o que não invalida o seu comentário mas que dele me faz distanciar.