Não é preciso ser druida


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Escrevi “O ministro da defesa ainda o é (ele que disse que se calhar não tinha havido roubo em Tancos – estamos a brincar?, não é óbvio o que o homem sabia?)” – num postal de 27.9 (e podia ter sido de há meses), e boto eu sem fontes, mero civil, e ainda por cima emigrado.

O traste lixou-se agora em tribunal: a que horas será preso, é o que me ocorre perguntar? E já agora, a ministra do mar, aquela que nomeia a sócia para gerir os portos (g’anda lata …), já se demitiu? Irá presa?

Isto com esperança, que ser sportinguista é ser esperançoso, de que ainda haveremos de chegar aos kamovs. Apesar das progenituras anticolonialistas. Devagarinho …, e decerto que só depois do Celo de Sousa ter caído. Mas haveremos de lá chegar. Até às barragens. Até às barragens chegaremos. A essas se calhar já só em registo de “história”. Mas ficarão as “histórias”, pelo menos para se reconhecerem os apelidos dos descendentes. Destes socialistas.

Olivais (e não só) nos anos 70s


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Inaugura hoje na Casa de Cultura dos Olivais, Lisboa – à Rua Conselheiro Mariano de Carvalho, entre os Olivais Velhos e a Expo – e ficará até 27 de Outubro, esta exposição fotográfica do Sandro (João Alexandre Taborda). É uma memória única – que então fotografar era muito mais raro – da geração lisboeta, olivalense, dos anos 1970s e início dos 1980s, roupas, hábitos, personagens, artefactos usados, e a arquitectura vivida daquele bairro. Pura história cultural, se quiserem. Há dias em que custa estar longe …

Quando o Sandro morreu, há (já!?) um ano, deixei um breve postal – Driol (o grão-diminutivo que nos merecia), e recupero agora um pouco do que dele disse, e que se associa a esta exposição: 

“O Sandro era da “geração acima”, 4-5 anos mais velho. Por isso então a seita dele era outra, esses que a gente conhecia de vista e nome, cobiçando-lhes as motos e as maravilhosas namoradas. Ou pelos irmãos mais novos. Mas, vizinho, também acampava por vezes, e, mais tarde, já nós mais crescidos, ainda mais, já ombreando. O Drinô (como alguém graffitou em fugaz era de influência do “glamour rock”) era um dos tipos mais idiossincráticos que havia (…) 

Mas o que muito marcou a imagem pública do Driol foi o ter ele sido o fotógrafo “oficial” daquela nossa geração: raros eram os que tinham máquina, ainda menos os que tinham dinheiro para rolos e revelações, apenas dois ou três os que tinham o gosto, mas só ele trazia a tiracolo a paixão de fotografar. (…) E fez um arquivo lindo sobre aquela época de “dias gloriosos”.

Nesta foto (a do cartaz da exposição) estava a fotografar os irmãos mais novos da sua geração, os finais dos anos 70s, os putos a descerem (descermos) as ruas nos carrinhos de rolamentos. Em tantas outras tem os outros, as andanças de nós mais-velhos. Voltar ao acervo do Driol é uma delícia, cada um encontra-se e aos seus queridos de então, na beleza da memória. Certo, há uma “patine” afectiva que nos convoca, coisas até da nostalgia. Mas há outro registo, bem mais alargado, pois tem muito mais nesse legado do Driol. Encontra-se a memória da paisagem urbana como foi: as vestes, os tiques, os penteados, as poses – e quão cinéfilo tudo parece, ainda para mais naquele preto-e-branco. As ruas, os carros, as motos, a arquitectura então tão nova.  Mas é ainda mais do que essa memória social. Pois o Driol teve um olhar, amador, jovem de juvenil a júnior, mas muito cuidado e assim tão adulto, sobre a sua geração naquele tão especial bairro. Por isso nessa sua colecção o que nós encontramos não é o retrato daquela geração. É mesmo um auto-retrato, a voz própria de uma “malta”, esses que nos sonhámos “heróicos” naqueles confusos tempos do pós-pós-Abril. E, se calhar, fomos.”

 

Vão ver, para saberem (como se que recordando) como foi, como fomos e nos fizemos:

 

 

A propósito de Bolsonaro


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Mais dois textos péssimos sobre Bolsonaro, o “Quem tem medo de Bolsonaro” no “Público” e o “#VocêsTambémNão” no “Observador”. Ambos higienizam Bolsonaro, até dulcificando-o. O primeiro é mais simples, criticando as deputadas portuguesas por protestarem com o candidato fascista brasileiro mas sem se oporem a Maduro, o títere venezuelano, o que lhes ilegitimará a “virtude” denunciatória. Sim, tem alguma razão, e vários factores justificam a nossa atenção na Venezuela – o respeito pelos princípios democráticos logo à cabeça, a grande comunidade emigrada e lusodescendente, o facto de ser um enorme produtor de petróleo e, claro, a rábula do “Magalhães”, mais um item da tramóia socratista que até hoje assombra o nosso país.

Mas este argumento, que é muito comum, tem algo que se lhe diga: é que políticos, articulistas e locutores de redes sociais que se aprestam a invectivar Maduro também se calam face a Duterte, excepto, porventura, quando o pérfido líder do maior país católico asiático insulta o papa; e se protestaram contra o (ex)marxista Mugabe nada dizem face aos desmandos do (nada)marxista Museveni; e se lhes ocorre criticar a teocracia iraniana não leio muitos “militante do CDS” – como assina Borges de Lemos, assim explicitamente associando o seu partido na tralha que alinhavou – a invectivarem a ditadura ateocida saudita, nem a do Qatar, para onde a Federação Portuguesa de Futebol, organismo tutelado pelo estado, contribuiu para enviar o apetecível negócio do Mundial de futebol. Ou seja, se isto é para criticar os zarolhos, então é melhor que o “militante do CDS” que desarticula no “Público” se dezarolhe, tal como os seus concordantes se devem dezarolhar. Porque assim estão a cuspir para o ar, a ilegitimarem as suas “virtudes” críticas, políticas.

O segundo texto, de Rui Ramos, é mais refinado, a expressão alta, editada, em voz de intelectual relevante de uma linha de textos em jornais e redes sociais de figuras menores sobre esta matéria. Confesso a minha irritação, repulsa mesmo, vendo que pessoas que se reclamam de uma direita democrática (ou mesmo de um centro-direita) – os termos valem o que valem, acima de tudo têm usucapião simbólico – diante da erupção de um tipo como Bolsonaro num país que nos é tão relevante (política, cultural e economicamente) como o Brasil, têm como pulsão da escrita não a crítica a esse energúmeno mas sim à dos críticos ao energúmeno. Para Ramos a questão da ascensão de Bolsonaro, tal como a anterior de Trump – assim elidindo que, por menos que se goste de Trump, os discursos de ambos não são compagináveis -,  centra-se nisto: a malevolência dos discursos e práticas da esquerda radical. Isto não é, como faz com muito tino, Luís Menezes Leitão considerar que as modalidades histriónicas de luta anti-Bolsonaro são incompetentes, alienam opositores. Isto é apontar o cerne da questão à esquerda e não ao movimento fascizante. 

Isto tem dois corolários e uma dimensão prévia: o primeiro é, que pela ausência de discursos de políticos, de intelectuais e de sub-intelectuais de direita/centro e até mesmo da esquerda democrática – e decerto que em muitos casos por higiene, pela aversão dos hipotéticos locutores em se verem misturados com o trauliterismo da extrema-esquerdalhada -, se deixa o monopólio do repúdio aos movimentos anti-democráticos às expressões dessa extrema esquerda e da esquerda folclórica. Há o abandono de um campo de (re)afirmação dos valores democráticos a esse corropio de agit-prop. E depois queixam-se que são estes desvairados movimentos que causam e/ou reforçam os fenómenos à extrema-direita. Isto tem algum fundamento? Em tudo isto há mesmo o matizar da bestialidade, que transpira condescendência: “Bolsonaro tem um jeito agressivo e grosseiro“, reduz Ramos! Estará o autor a brincar? Ou está a deixar que só entre a tatuada Isabel Moreira e os enverhoxistas Rosas e Fazenda se diga o óbvio: que Bolsonaro é um fascista do piorio, completamente avesso aos valores democráticos – esses mesmos que o centro e a direita afirmam.

O segundo corolário bem que se casa com este, e vem, até por coincidência, no belo texto de ontem de Adolfo Mesquita Nunes,  “A afirmação da direita” no “Diário de Notícias: uma direita politicamente deprimida e intelectuamente deficitária que pensa a realidade em função do posicionamento da esquerda (seja lá o que esta for), esta é que é o pólo dinamizador (“a esquerda não gosta do Bolsonaro?” “então eu até nem digo mal do gajo”).

E nisto tudo continua-se a dizer uma semi-verdade que é de facto uma falsidade (“com a verdade me enganas”): que são estas expressões trauliteiras e maximalistas, estas tipas com as mamas e as bundas à mostra nas manifestações, que reforçam os bolsonarismos, que os causam, que é a extrema-esquerda que os “empodera” (como agora se diz em péssimo português). Não é verdade, o que potenciou Trump – fenómeno que R. Ramos associa ao de Bolsonaro – foi, em primeiríssimo lugar, a incapacidade dos republicanos (da direita americana, se se quiser) de promover dentro de si (Trump nem era do partido, convém lembrar) uma alternativa enérgica e consistente o suficiente para enfrentar uma estafada Clinton. Tal como o que reforça Bolsonaro é a incapacidade do centro e da direita brasileira (naquele espectro político demencial) de afirmarem movimentos e personalidades o q.b. significantes. Essa é a verdade factual, não são os guinchos da Isabel Moreira, quais bateres de asas da borboletas no Atlântico Austral, que há limites para isso da “fractalidade” fazer medrar o mal.

Esta esquerda folclórico-neocomunista demoniza os adversários do momento, como o RR avança? Sim. E nós, bloguistas portugueses vimos isso em Portugal, e até podemos sorrir na memória, como Pacheco Pereira do Abrupto era o diabo na terra, a reencarnação de Primo de Rivera ou coisa assim e desde que passou a ser o ideólogo da geringonça regressou ao estado humano. E notei-o, chocado, no meu regresso ao país, nesta constante invectiva dos geringôncicos socratistas aos seus críticos como “invejosos, ressentidos, ressabiados”, o tal argumento que imputa deficiência moral ou doença mental (ranço/podridão, raiva) aos adversários políticos, típica modalidade bolchevique. E está espalhado esse tique velho-comunista. Mas, sem rodeios, não é essa a questão importante face ao bolsonarismo.

Finalmente, há o tal ponto subjacente. É que o matizar da relevância bolsonar, esta remetência para uma mera “grosseria”, estes sorrisos que se vão vendo nos textos e sub-textos das redes sociais diante de um aparente mero “politicamente incorrecto”, esta pulsão da escrita direccionada para a crítica ao críticos e não para a imundície, denota algo de profundo: em muitos, para além do paroquialismo do isabelomoreiracentrismo, há uma muito superficial (para não dizer pior) adesão aos valores democráticos. É isso que sai por todos os poros destes textos, por mais militantes ou simpatizantes do partido de Amaro da Costa, Francisco Lucas Pires ou Mesquita Nunes surjam. De facto e se, tal como o RR escreve, não há grandes diferenças entre Sanders e Trump quanto à valia dos tratados internacionais também não há grandes diferenças quanto à valia dos principios democráticos entre os Fazendas e Mortáguas e estes redutores de Bolsonaro a um atrevido algo grosseiro.

Aznavour e o rap


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Ainda há dias me surpreendi ao ver um cartaz (dos muitos espalhados na cidade) anunciando um seu concerto aqui durante Outubro – um Matusalem em palco. Morreu agora. Cantou viveu até aos 94. Grande vida. E, como aqui se vê, sempre pronto para a crista da onda …

O Vício Blogal


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O vício blogal é tramado, um tipo lê as notícias de uns dias e, por mais que diga “tenho mais que fazer, que se lixe …”, cai nas teclas: MRS diz que não saudou o PR americano por respeito à posição portuguesa sobre o multilateralismo. Ou seja, explicita que as suas formas de saudação denotam a posição do país, dado que ele PR. Muito bem. E a posição portuguesa, do Estado e da sociedade, sobre a laicidade, essa conquista da democracia? Pode o PR saudar o Papa neste gesto de “islão”, de submissão expressa no beijo ao anel? Não. A “direita” portuguesa, mais ou menos católica, (pelo menos disto) gosta. A “esquerda” portuguesa, entre os descendentes da capela do Rato e a igreja PCP, encolhe os ombros. Está-lhe grata, pela protecção ao governo na cena dos fogos, pela protecção ao regime na cena da PGR – e é estruturalmente avessa à laicidade: eu recordo o meu espanto, então recente torna-viagem, com o sucesso, aplausos e partilhas, de tantos intelectuais compatriotas ao abjecto texto do padre Leonardo Boff a defender limites ao direito à blasfémia logo após o atentado ao Charlie Hebdo. E passeiam-se por aí, a dizerem-se democratas, anti-censura. E os “tudólogos”? Falam do resto …

Aos 13 na escola li “Esteiros” de Soeiro Pereira Gomes (e depois o “Engrenagem”). Antes lera “Os Putos” de Altino de Tojal (livro que vendia imenso). Chamavam-lhes neo-realistas, havia um Alves Redol (que nunca li) ou um Manuel da Fonseca (que li logo depois e gostei – tenho que lá voltar) e acho que um jovem Cardoso Pires, se não estou em erro. Nas casas de muitos burgueses, e para além de bustos de Lenine e obras de Marx e Engels, constavam reproduções dos desenhos de Cunhal. E de Cipriano Dourado, e talvez outros. E juntavam o Gorki ao Caldwell e ao Saroyan, enquanto desdiziam um bocado do Jorge Amado, “apesar de …”, pois “enfim …”. A coisa era apresentar a todos nós, burgueses, a grandeza e a beleza ética e estética dos outros, esconsos e oprimidos, seus modos de vida e legítimas aspirações. O (neo-)realismo foi saindo de moda, tinha havido até umas polémicas, e poucos quererão hoje saber das mentes e desejos das belas e robustas catarinas eufémias e dos valentes proletas da praça da grève. O “must” de agora, nada (neo-)realista, diz-se, é louvar a ética e a estética dos gajos que metem chicotes pelo ânus acima … “Épater le bourgeois”, seja com a virilidade proletária seja com a do lumpen prostituído, mas nada mais do que isso. Bom para os “tudólogos”.

De resto, em 3-4 dias? O ministro da defesa ainda o é (ele que disse que se calhar não tinha havido roubo em Tancos – estamos a brincar?, não é óbvio o que o homem sabia?); a polícia da tropa vê os seus graduados presos; os generais assobiam, quais meros milicianos da administração do rancho. O ministro da saúde manda à merda a democracia e diz que só vai ao parlamento daqui a 6 meses. O PM goza com o ter faltado à “palavra de honra” (mas tudo está bem, há uma entrevista da mãe dele a confirmar que ele é bem educado; e o Ferreira Fernandes, já agora, lembrou que o pai dele era antifascista e anticolonialista, não vá a gente esquecer-se). A ministra do mar põe a sócia a dirigir os portos, é ilegal, mas (também ela) não tem agenda para responder aos jornalistas. Nem para se demitir. O arquitecto Salgado surge em mais uma marosca, e logo tudo desaparece das notícias. Um antigo professor meu publica um texto contra Medina, a propósito da apropriação privada de um miradouro – logo partilhado pelos “companheiros de estrada” naquela “esquerda”. Afirma(m) que Medina tudo faz para preparar a cidade para os turistas. Alto, mas não é isso que se critica ao presidente da câmara, essa sua ideologia do “jardinismo”, desde há anos? Ah, sim, mas a gente é de “direita”, somos só ressabiados. Eles não, agora a crítica é justa (e pós-Robles, já agora: “cá se fazem, cá se pagam”).

As deputadas portuguesas fotografam-se contra Bolsonaro. Este é um traste. Um cafajeste, como se dizia nas velhas novelas dos anos 1970s. Aliás, o homem é um fascista, não é preciso outro adjectivo ou outro insulto. Mas as senhoras deputadas não acham que têm, portas dentro, tralha suficiente (ainda que não tão abjecta) para estarem contra? Não querem fazer, não acham que o deviam, uma “usie” contra esta cloaca? E a semana ainda vai a meio. Sabe-se lá o que antes do fim-de-semana ainda virá, neste estertor de regime …

Mourinho está com problemas no Manchester United. E o tipo que foi do Rio Ave para o Nantes também. Mas o Eder(zito) marcou um grande golo na taça da Rússia. Há esperança.

Carta para os meus amigos-reais aí em Portugal


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(Longa carta, intimista, para os amigos – e conhecidos – reais que botei no meu mural de FB e no meu blog. Deixo-a também aqui, pode ser – presunção e água benta … – que a algum leitor DOfilo possa interessar.)

 

A “nova” “narrativa” já aí está, anuncia-a o Expresso, nada demoraram: Sócrates como vítima de uma cabala da direita jurídica. Ao que se juntará, muito em breve, outra alínea, a de Salgado como grande banqueiro que tentou tornear os malévolos constrangimentos induzidos pela crise financeira internacional.

Todos os regimes, todos os sistemas políticos, são permeáveis à corrupção e ao nepotismo. Só alguns evoluem para o patrimonialismo e menos ainda para a pura criminalização do Estado. Nestes últimos casos muito pelo silêncio, oprimido às vezes, timorato e/ou corporativo outras, dos cidadãos.

Estou-me a lembrar que há anos o reitor de Lisboa criticou o governo de então. Li um coro de elogios (e de partilhas) oriundo da classe profissional ligada à academia (entre a qual alguns amigos e muitos conhecidos meus). Então havia uma carga fiscal enorme, e tantos deles protestavam (até em conversas pessoais quando eu ia a Lisboa). As críticas à privatização da saúde, objectivo do governo, eram constantes e até preocupadas (envelhecemos, todos nós). Nisso muitos saudaram Sócrates no seu regresso de Paris, feito especialista de Rimbaud e teórico da repressão estatal, até prefaciado por Eduardo Lourenço. Haviam-se apressado a recuperar a excelência do PEC4, maldizendo o demissionismo do governo de então. A ideia de que se pavimentava o seu caminho para Belém era evidente.

Voltei em 2014 a Portugal. Esse meio socioprofissional, os detentores de “capital cultural”, estava activíssimo nas “redes sociais”. Pouco depois foi efervescente o caso de uma edição da revista académica “Análise Social”, dada a tentativa de controlo tentada pelo presidente do instituto editor. E por aí fora: vieram as eleições, legislativas e presidenciais, a formulação inédita de uma coligação governamental à esquerda, o final do troikismo. Bem como atentados na Europa, as polémicas com Brexit, Catalunha, refugiados. E Trump ou o movimento metoo. Bem como situações domésticas, para este meio verdadeiras majordências, como as leis “do piropo” ou da mudança de género para menores. Olhar para a sociedade portuguesa e para a sua “classe de trabalhadores intelectuais” (que não é sinónimo da velha definição de “intelectuais”) desta época exigirá um dia (como?) vasculhar o FB (e o twitter), tal como para a década passada exigirá o mesmo para os blogs. Não só, claro, mas também – e lá está a velha questão, como fazer o arquivo das práticas sociais inscritas na internet?

O que vejo agora? O reitor de Lisboa critica o governo. Silêncio neste meio. Correia de Campos, ex-ministro socialista da Saúde critica a deriva do SNS. Silêncio neste meio. A carga fiscal é compatível com os piores anos do troikismo. Silêncio neste meio. A substituição da PGR (a “candidata da direita” como lhe chamou o grão-apparatchik Seixas da Costa) teve os contornos que teve e envia a mensagem que envia, para a corporação jurídica (esta é interpretação minha, claro) e para a sociedade (esta, francamente, é objectiva). Silêncio neste meio – nem sequer um, a la um tardio João Soares, “se a mulher está a fazer um bom trabalho é deixá-la ficar”.

Alguns continuam a apontar os críticos do “estado da arte”, dizendo-os “ressentidos” (ou “invejosos”, “ressabiados”). Um argumento que colou, tanto que é nitidamente um fenómeno social. Eu estou a falar (a olhar, míope que seja) para gente das ciências sociais. Que vêm reproduzindo esta linha de “argumentação”. Mas é evidente, no conteúdo dos textos, que não estão a aludir a um “ressentimento” sociológico (um tema na sociologia, e lembro umas belíssimas páginas de Bourdieu, esse sim um “intelectual” como dantes se dizia). Estão constantemente, porque se tornou um mote comum, a aludir aos putativos estados psicológicos alheios, a dar-lhes estatuto explicativo. Ora a gente passa a vida a criticar o economicismo. E o que vemos é a adesão generalizada de “profissionais intelectuais” a discursos psicologistas, ainda mais deficitários do que aquele, ainda mais incompetentes. E fazem-no sem rebuço, sem auto-crítica. E, dada a sua condição profissional, surgem assim como se desnudados e disso impudentes.

Mas, de facto, o que eu vejo, neste meu canto de tomada de pontos de vista, é uma redução gradual do frenesim da opinião politizada neste meio. É limitada, claro, a minha abrangência, mas é o que vejo. Mas mantém-se, ainda e mesmo que gradualmente minorada, a solidariedade com isto. Pelo conforto identitário (a “esquerda” está no poder, dizem). E por derivas corporativas (o governo cria algumas centenas de empregos na área, em modalidades menos precárias).

Mas é evidente que tem que haver mais. O silêncio conivente corporativo durante a década passada pode ter muitas explicações. A adesão no princípio desta década pode ser remetida para a terrível crise de então. Mas, raisparta, que razões objectivas, e mesmo subjectivas, é que sustentam que núcleos socioprofissionais particularmente informados e expectavelmente com um ethos crítico possam continuar a apoiar este enorme sindicato do crime que é o PS? As tradicionais características similares que o PSD apresenta? Não chega para tamanha adesão, para tanta conivência, para, inclusive, muita cumplicidade.

Enfim, este lençol vem a este propósito. Os próximos tempos aí estarão destinados à sedimentação destas “novas” “narrativas” e à da continuidade deste belíssimo e “inovador/reformista” governo. Para mim é machamba que deu mandioca. A pedir pousio.

Ontem inscrevi-me na rede de bibliotecas comunais, uma colecção de BD que faz (e fez-me) salivar. Continuarei a blogar (no meu blog, às vezes aqui no Delito de Opinião e no sportinguista És a Nossa Fé). Sobre esses livros (tipo bloguista “intelectual” e chato) ou minudências que me possam vir a ocorrer.

Sobre o resto, o Portugal que adoro? Deixo. Até pela consciência, óbvia e de sempre, que o que digo nada afecta, nada importa, a não ser como explanação, vaidosa até à encenação, do meu “eu”. Associada à consciência que a nós, emigrantes de longo prazo, não nos faz bem nenhum estarmos fora a olhar para o país, que aquilo que nos cumpre e nos é saudável é irmos vivendo o que no nosso cá d’agora nos vai acontecendo. Que dele falem os antropólogos do BE, os sociólogos do PS, os historiadores maçónicos, os estudiosos culturais sei lá o quê, alguns psicólogos etc. e tal e todos eles em vice-versas enrodilhados. Os tais psicologistas.

Apenas uma nota final: aquilo que estes todos vos vão vender agora, em troca do apoio a Sócrates & Salgado, Ltd. – como há uma década o fizeram em troca da lei do casamento homossexual -, é a racialização da sociedade, a criação de categoriais raciais para discriminar os cidadãos. Vejam lá se pelo menos isso, essa javardice, conseguem evitar.

Eu vou ali para a BD. E para a vida.

Como sempre, abraços, beijos, cumprimentos, conforme preferirem.

Zézé, Flávio, José Teixeira

A transparência de Marcelo


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João Gonçalves, que fez o Portugal dos Pequeninos e transitou para um afiadíssimo mural de Facebook,  sobre Marcelo Rebelo de Sousa: “(Marcelo) saiu-se com esta charla: “É o meu estilo. Eu entendo que a democracia é isso, é transparência. E quanto mais clara for a intervenção, melhor“. Ai sim? Ora alguém que nem a composição da Casa Civil tem no site – para talvez acharem que faz tudo sozinho – e que nem os textos dos discursos publica, para ser mais difícil ser apanhado em falso, é “transparente” e “claro”? Só se for nas límpidas águas fluviais do Centro entre duas mudas de calções de banho.”.

Pumba!

A expulsão de Ronaldo


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A expulsão de Cristiano Ronaldo ontem em Valência (nesta ligação vê-se o lance em grande plano, o que as imagens mais comuns não fazem), foi uma decisão totalmente injustificada. Que demonstra perfeitamente o sexismo no mundo do futebol, pois no futebol feminino já vi coisas bem piores do que esta passarem sem castigo. E mostra também o racismo que grassa, tão notório é que a pérfida decisão do árbitro alemão Brych denota o desprezo pelos latinos, vistos como menos-brancos.

Pena que Ronaldo, abatido pelos acontecimentos, não tenha feito a imediata denúncia destas maleitas ideológicas que afectam o desporto-rei.

Um outing no Muppet Show


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Vai para aí um arraial feliz, na notícia que dois bonecos Marretas saíram do armário. E logo os mais estupores percorrem a galeria de personagens BD e animação, declarando risonhos “outings” na galeria dos heróis – o pacto de leitura que estes letrados cometem mostra-os bem limitados,  até descendentes daquele tão fora de moda “neo-realismo”, não há volta a dar, é o triste fado.

Após 1989, com o final do genocidismo, a esquerda europeia gringou-se e nisso virou identitarista. A sacra aliança operários-camponeses virou mulheres-homossexuais, os livros de Marx foram para as arrecadações e Foucault passou a “ficar bem” na decoração de interiores.

Agora mesmo, com todas estas saudações festivas ao casal de fantoches, ocorre-me – na enevoada memória, pois não vejo um episódio dos Marretas há 40 anos – que a única personagem feminina (“pessoa do género feminino e da comunidade branca”, como a descreveria um antropólogo se escrevendo no Público) era a vaca da porca Piggy, uma megera, desleal ninfomaníaca, egocêntrica, obesa desafinada e que, pior do que tudo, azucrinava a cabeça do seu pobre e sofrido namorado (“pessoa do género masculino e da comunidade verde, como o descreveria um antropólogo se escrevendo no Público). Um “must” em termos de estereótipos sexistas …

Camaradas feministas estamos à espera de quê? Agora que todos louvam a pertinência dos fantoches Marretas não exercerão a vossa crítica ideológica, não apontarão a série como uma vil manobra anti-pessoasdogénerofeminino? Ou a aliança de classe, perdão, de identidades sobreleva-se, a bem da unidade do Partido, coisa do centralismo democrático? E ficar-se-ão no elogio ao casalinho fantoche?

 

Moçambique 2018, a África desta era


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(Postal daqui)

 

O meu amigo João Xavier acaba de publicar estas suas fotografias, de um prédio novo na centralíssima avenida Eduardo Mondlane, em Maputo. Não valerá a pena dizer muito, são mais do que explícitas da era que se vive, em Moçambique na África global. Ao vê-las foi-me imediata a recordação da célebre foto do Ricardo Rangel, tornada ícone da denúncia do racismo colonial (esse que tantos de nós, portugueses, estuporadamente continuamos a negar):

 

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Ao olhar estas novas imagens, não surpreendentes pela realidade que gritam, que essa é óbvia, mas sim pela desfaçatez que demonstram, estanco naquela tão bela expressão moçambicana, o “estou a chorar”.  Como é isto possível?, como decorreu o processo nacional para que se aceitem as aleivosias desta nova interacção de XXI?

Quando nós, portugueses ou europeus em geral, resmungamos com as modalidades, absolutamente predatórias da articulação chinesa com África, e com Moçambique em particular, a reacção local é imediata, aventando que isso é fruto da “nostalgia colonial”, dos tempos em que “nós” mandávamos. Mas é tão óbvio que não é isso. É certo que as relações entre Moçambique (e África) e a Europa (ou o “mundo pan-europeu”, como Wallerstein muito bem especificou) não têm sido absolutamente virtuosas, nem isentas de mecanismos de apropriação, nem decorrem simétricas. Mas é notório que, muito pelos processos de independência africanos mas não só, se geraram nas sociedades “pan-europeias” constatações e conflitualidades, preocupações ecológicas, derivas desenvolvimentistas, ideologias democratizadoras (sistematizadas na “condicionalidade política” que vigorou de facto durante breve período de tempo), e até uma feroz auto-crítica societal quanto às relações com o dantes chamado “Terceiro Mundo”, etc.

Este é um processo histórico, com corolários culturais e ideológicos, que a China desconheceu. E a abordagem que a sociedade chinesa, seu poder e suas empresas, tão articulados, faz a África é tipo “tábua rasa”. Com os preconceitos gritados (e não sussurrados como os de outros), com o descuido da issolidariedade óbvia, numa vertigem de apropriação de desrespeito. E nisto seria interessante perceber, o que exigiria um conhecimento profundo da sociedade chinesa actual, que estratos socioculturais chineses se envolvem na relação com África, e Moçambique, tanto na própria China como nos fluxos de migração sazonal (ou mesmo de assentamento).

E tudo isto é aceite. A troco de quê? De umas pontes, de umas estradas (tudo isso que virá a ser pago, entenda-se, e caro …)? Honestamente esta cena de tamanho profundo racismo, que mais audível (e assim visível) seria se percebendo mandarim, expressa neste apartar de “apartamentos” no centro da capital da cidade, é o grau zero da soberania. Convoca-me a dor d’alma, e nisso a demagogia, assumida: como é que no país de Mabote, de Machel, de Magaia, de Marcelino, de Mondlane, é permitida a situação que a isto conduziu?

(Ok, desabafo feito, podem vir apupar-me de “xi-colono”, saudoso do tempo em que “eu” é que mandava).

Pasta medicinal Couto


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Costa chega a Angola – depois de anos de relações difíceis entre Estado. Nestes propósitos … Nem valerá a pena dizer muito, é um político português …

Talvez apenas adiantar que fico à espera do tom sobranceiro dos “funcionários orgânicos” que tudo deste Costa saúdam. E que a isto explicarão. Rastejando, claro. Como lhes é habitual.

 

 

Enfiando a carapuça


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(inquisição)O tribunal da Inquisição, num óle

Ontem botei este texto aludindo à Hungria. O que conheço da actualidade húngara, de uma forma muito flanante, vem-me da imprensa internacional (aproveito, lateralmente, para recomendar uma preciosa aplicação, a paper.li, que permite que cada faça o seu “jornal”, escolhendo as fontes – até 10 na versão gratuita, até 25 se pagando – e as temáticas: há anos que assim recebo o meu jornal “Courelas“, que podem ver, até para aquilatarem do interesse de constituirem o vosso próprio).

De seguida o Luís Naves botou este texto, criticando o que havia eu colocado, juntando-lhe esclarecimentos sobre o país e a sua opinião sobre a interacção húngara com a UE, assentes num conhecimento vasto. Não vou assumir como letra de lei estas considerações, continuarei a olhar de soslaio para Orban, mas (ainda mais) estúpido seria se não as usasse, de agora em diante, para pensar sobre a Hungria actual.

Mas disto retiro duas ideias: a primeira é a de recordar o molde padronizador da padronizada imprensa global. É possível que haja textos mais compreensivos sobre a Hungria, que bastará aos interessados procurá-los. Mas o leitor mediano, relativamente desinteressado, constrói uma imagem na mescla de fragmentos, quantas vezes lidos/ouvidos na diagonal. E eles reproduzem-se, sedimentam-se, descomplexificam, facilitam e assim nos facilitam a vida. Ou seja, um tipo lê “umas coisas” (para não falar de outra, e rústica, maneira) e sente-se informado, segue todo pimpão.

A segunda ideia que retiro é pessoal. Blogo há 15 anos, 11 dos quais vivendo em Moçambique. Durante os quais tantas vezes me irritei com patetices, assertivas e convictas, vindas na comunicação social, nos blogs e, depois, nas “redes sociais” sobre aquele país. Gente, profissionais e amadores, a botarem com evidente prosápia um feixe de lugares-comuns, descabidos, desconhecendo a realidade moçambicana. E ontem à noite, ao ler o Luís Naves, o que logo me ocorreu foi um “olha eu, a fazer e-xac-ta-men-te o que aqueles patetas todos fazem”, nesta mania, volúpia até, de se (me) fazer ouvir, a vã vacuidade.

Está enfiada a carapuça.

Lisboa e a maldição do turismo de massas?


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“Nem tudo é bom na Baixa Pombalina. Cheia de gente durante o dia, quando o comércio atrai fregueses e os ministérios lhe dão vida, de noite fica entregue aos velhos que uma lei de arrendamento urbano ali permite viver por dois tostões, contribuindo para que os senhorios não possam, ou não queiram, renovar os imóveis. A sangria populacional é o resultado desta legislação aberrante. Os jovens oriundos da Rua dos Sapateiros, da Rua dos Retroseiros, da Rua dos Correeiros, foram forçados a ir para Benfica, Lumiar, Carnide. A cidade de Lisboa viu desaparecer, desde 1960, quase um terço da população. A freguesia dos Mártires, outrora uma das mais nobres, tem apenas 341 habitantes”.

 

(Maria Filomena Mónica, Passaporte: Viagens 1994-2008, Aletheia, 2009, pp. 46-47).

A Serena e o egípcio


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As “feministas” de hoje (acompanhadas de uns pobres patetas que também assim se pintalgam) continuam a rugir no sofá contra o árbitro de ténis machista porque este persegue as mulheres (negras, ainda por cima), como se comprovou ao ter penalizado a número 1 do ténis (negra ainda por cima) tal como o fez ao número 1 do ténis (apesar deste ser branco), um breve episódio deste final da “estação estúpida” que tanto assim se mostra viva nestes identitaristas.

Comparativamente os efeitos de outra notícia mostram bem a hipocrisia deste feminismo (racialista) que para aí anda. Uma pobre alma egípcia foi trabalhar para um hotel na Arábia Saudita, estupidamente filmou-se a comer com uma colega (atenção, não é comer a colega, é comer com ela) e colocou o filme numa rede social (vale a pena ver o filme, na sua candura sem-gosto). Foi preso, pois ali não se pode comer com mulheres desacompanhadas!

As “feministas” neo-comunistas e os pobres patetas pintalgados  dizem algo, afadigam-se em partilhas, em veementes protestos? Nada – a agenda deste lumpen intelectual é o “afrodescendentismo”, que se lixe o egípcio (apesar dele próprio ser afrodescendente mas que interessa isso, o que vale é ser “negro”, o resto vale nada) mais a atrevida da árabe, não é assim?

A notícia ainda é mais interessante, pois o malandro do egípcio não só é acusado de ter … comido com a colega como também de desempenhar funções vedadas aos estrangeiros, isso de trabalhar num hotel e ter acesso ao pequeno-almoço. Os camaradas sindicalistas, herdeiros do internacionalismo proletário (ainda que nem todos gostem de “”escurinhos”)? As boas almas que transformam todos os imigrantes na Europa em refugiados? As eurodeputadas que nazificam todo os que se opõem à abertura de fronteiras, e querem restringir direitos aos imigrantes? A clique de tudólogos e seus admiradores sempre atreita a criticar qualquer proto-desmando dos EUA/UE/Austrália e ilhas adjacentes (safa-se o Canadá) com os “refugiados (económicos)” que ali/aqui acorrem? Alguém desse núcleos diz algo sobre estas condições, estas barreiras laborais? Nada. Que se lixe o sacana do egípcio, e os como ele. Não desrespeitasse a lei e a identidade cultural lá do sítio.

 

Clima


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Um bom discurso de Guterres sobre as alterações climáticas. Duas notas, sobre a produção e a recepção. O mais relevante de tudo é compreender-se (no sentido de se aceitar a plausibilidade) que as informações sobre este processo são muito filtradas, surgem minoradas: por um lado, o secretário-geral da ONU tem que tentar dialogar com uma miríade de interlocutores, se radicalizar (“escatologizar”) o discurso perde a hipotética eficácia junto de muitos eixos da audiência. Mas há muito mais do que isso: os organismos especializados da ONU filtram a informação disponível. E os centros de investigação que os alimentam também o fazem – e muito porque perspectivas muito “pessimistas” têm efeitos perniciosos no mercado de financiamento. Os técnicos e cientistas usam, há anos, a auto-censura, dulcificando projecções para tentarem manter um diálogo frutífero com os poderes políticos (em especial os multilaterais). E no complexo institucional mundial os quadros mais radicalizados sobre esta questão – muitos devido ao simples processo do “tomar conhecimento” – vão sendo afastados dos “centros” dos organogramas. Isto são práticas com décadas. Ou seja, a situação é muito má mas ainda deve ser pior do que se anuncia, dada a confluência destes filtros todos. Para mais, as previsões integram desenvolvimentos tecnológicos que ainda … não estão. Apesar de já haver alarme nas elites institucionais estas ainda vivem num optimismo quase suicidário.

 

A outra questão é a da recepção. Nós, os cidadãos, não queremos ouvir falar de fenómenos que nos perturbem as perspectivas existenciais. Catástrofes ocasionais, crises epifenomenais, até animam o quotidiano. Questões estruturais já é outra coisa, são por demais complexas, cansativas, porque preocupações perenes. E, neste caso, por demais angustiantes. Sendo assim intrusivas, obstáculos ao rame-rame. Por exemplo, e ainda que português, o secretário-geral da ONU não é particularmente acompanhado pela imprensa nacional. Mas o CR7 sim. No passado sábado em Lisboa cerca de 20 000 pessoas foram votar para um presidente do Sporting. Mas apenas algumas centenas desfilarem na marcha pelo ambiente. Algo de estranho se passa nas mentes das pessoas, no como hierarquizam as suas prioridades. O anterior e o actual governo, em confluência que expressa o acordo social sobre a matéria, afadigam-se em projectos de exploração de petróleo e gás, em nome da riqueza e desenvolvimento do país. Correntes de pensamento ditas liberais negam a plausibilidade destas alterações climáticas advindas da industrialização – lembro do meu estupor, há mais de uma década, quando surgiram os liberais na internet portuguesa, e acima de tudo no blog Blasfémias, o chorrilho incessante de asneiras sobre a matéria, acicatadas pela discussão do protocolo de Quioto e no apoio ao bushismo, de facto assentes no inculto dogma, que julgavam o cerne do liberalismo, “o entrechoque dos interesses individuais é virtuoso” e como tal nada de tão mau disso pode surgir. 

 

Dentro de algumas décadas analisar-se-á esta nossa época, mundial. E decerto que uma das perguntas cruciais será a do “como é que tanta informação, tanta formação, tanta riqueza, promoveram tamanha alienação”? Vai ser muito difícil explicar. 

A Hungria e o social-fascismo


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Face à longa deriva húngara contra os princípios e tratados que sustentam a União Europeia, o Parlamento Europeu votou um excepcional procedimento contra o governo de Orban, o decano da extrema-direita no poder no interior da UE. É um momento fundamental, a defesa de uma democracia húngara mas, mais do que tudo, acto (e nisso também símbolo) de combate à vaga anti-democrática europeia – para cuja definição o termo “populismo” é manifestamente insuficiente.

O PCP votou contra. Pode surpreender se recordado que Orban já em jovem militou contra o líder comunista Kadar. E que foi o desabamento do regime húngaro o toque de finados do “bloco de leste” em 1989 – quando a Hungria abriu a fronteira com a Áustria e aconteceu o imediato êxodo que teve “efeito dominó” -, que culminou na desagregação da URSS, esta ainda este ano louvada por Jerónimo de Sousa. Ou seja, à primeira vista nada associaria o PCP ao actual poder húngaro, e até se poderia perspectivar um acinte simbólico.

Mas este voto é relevante por duas vertentes. A política é óbvia, o PCP diz não reconhecer à UE autoridade e legitimidade sobre direitos humanos e democracia. Na realidade o PCP refuta autoridade e legitimidade à UE, é só isso. Expressa, neste momento tão simbólico, a sua aversão à união “pós-confederativa”. Sublinhando que temos um partido no bloco político governamental que é anti-UE. E não há formas retóricas que o possam esconder, quando nem para votar contra um governo de extrema-direita o PCP cede nesse princípio.

A segunda questão é ideológica, de até pungente cegueira ideológica. Ao refutar à já algo acossada UE qualquer legitimidade política para afrontar a vaga anti-democrática, o PCP está, 80 anos depois, a reciclar a Terceira Internacional Comunista. Na desconsideração das democracias, em particular dos sociais-democratas, como “sociais-fascistas“, não os apartando dos movimentos nascentes nazi e fascistas. A história foi o que foi, foi vivida e foi escrita. O PCP nada disso retirou.

Um último ponto: o PCP sempre teve fama (e algum proveito) de ser ortodoxo e monolítico. Este voto de ontem mostra bem que isso (já) não é verdade, pois são evidentes as contradições. Devidas a luta de facções internas ou mera deriva em cabotagem, o futuro próximo o dirá. Pois é uma total contradição de termos, políticos e ideológicos, viabilizar um governo socialista (efectivamente “social-democrata”) – que não é uma “frente popular”, será muito mais um “compromisso histórico” -, pois “contra a direita”. E num âmbito europeu considerar que este tipo de articulação é impossível, que os poderes democráticos não têm legitimidade para enfrentarem a “(extrema)direita”. É um desnorte.

 

Antropologia


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Ignorantes todos o somos. E um francês avisou, há tempos, que quanto mais conhecemos mais percebemos o quanto ignoramos. A ignorância é assim um estado natural (universal), não há volta a dar-lhe.

 

Brutos todos o somos, primatas omnívoros aos quais cresceu o órgão da angústia devido à vertigem de sermos bípedes (se não foi o Desmond Morris a hipotisar esta, bem que poderia ter sido). É assim também um estado natural (universal), tal como o das porcas que torcem o rabo.

 

Agora, pirosos não. A piroseira é já um estado da Cultura, um ganho civilizacional uma particularidade que é conquista da História. 

 

Serena Williams estava a receber conselhos do seu treinador, coaxam os símios. A Serena Williams estava em coaching com o seu couche, pirosam os pirosos.

 

É assim a Evolução Humana neste Antropoceno.

O Brasil brasileiro


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“Vamos fuzilar” é a mensagem deste fascista, candidato presidencial que se calhar ganhará, recebida com guinchos e ululos pelos seus apoiantes. O Brasil será um país mais ou menos incompreensível e abjecto (aquela sessão parlamentar de demissão de Roussef mostrou um mundo execrável): país com uma sociedade assassina, devastadora da natureza como poucas, e fazendo-o com orgulho desmedido, mergulhado numa pandémica corrupção política, vergado a uma incultura abissal, alçando as seitas religiosas ao poder político, pequena potência com patéticas aspirações imperialistas.

Sei que há profundas relações históricas e muitos portugueses e seus descendentes por lá habitando. Mas é já momento de reconhecer, daquela amálgama pérfida não virá “nem bom vento, nem bom casamento”. Deixemo-nos de “afectos”, bons para turismo sexual ou para os pobre monófonos, e distanciemo-nos, como Estado e como país, daquele charco de miasmas, daquele verdadeiro Brasil brasileiro. E sim, também estou a falar de políticas de imigração.

O PREC


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MRS mergulha nos rios e a “esquerda”, que tanto lhe gozou e lembrou outros mergulhos tais quais, nada diz; MRS, desvairado, troca de calções em público e a Malta Central, antes implacável com o guarda-roupa da mulher de Cavaco Silva ou, agora, com a malha da de António Costa nas costas da cadeira, nada diz; MRS deixa-se entrevistar na Pastelaria Suíça, mastigando enquanto fala e a “esquerda”, ainda hoje “indignada” com o bolo-rei de Cavaco Silva, nada diz. Tamanha calmaria não deixa dúvidas, estão-nos a cantar uma ladainha vichyssoise enquanto decorre este PREC (processo reaccionário em curso): a instalação de um juiz maneirinho para o caso Sócrates e de um procurador-geral manso, que salve Salgado, e respectivos tentáculos. É o verdadeiro bloco central a funcionar, uma mão lava a outra, cada nicho com a sua agenda e lealdades, unidos nessa tarefa que lhes é prioritária, safar os seus, animar o “comboio descendente”. E o pior é que a maioria de nós todos rebola-se de prazer, d’”afectos”, com esta nojeira. E dos outros, os que torcem o nariz ao fedor, dizem-nos, seguindo a cartilha actual, “invejosos”, “ressentidos”, assim portadores de mal moral. Ou mesmo “ressabiados”, já mesmo sob doença física, rançosos a metastizarem. É o tique de antanho, os discordantes têm maleitas, mentais e físicas. E é assim que vamos. Ou, de outra forma, que ides. (“Pai, não escrevas palavrões no FB e nos blogs“).