Perante o injusto não se calava


modosdever,

Conheci-o no Tempo. Era um devorador de livros, um apaixonado pelo cinema, um comedor de conhecimento. Trabalhava com calma, imune às tensões, incluindo as das horas de fecho. Nunca alimentou peneiras de quarto poder. A ironia era nele uma defesa, não um modo de vida – e se era bom nela! A sua escrita era rigorosa, informada, incisiva se fosse caso disso, e elegante, escrevesse sobre política, cultura ou desporto. Uma vez, por esses anos, desapareceu durante dias sem aviso prévio ou mensagem de doença. Quando o motorista do jornal lhe bateu à porta, encontrou-o com uma barba de dias e um monte de livros à direita, lá lidos, e outro à esquerda, por ler. Admirou-se que andassem à sua procura. Chamava-se Albano Matos, tinha 59 anos, trabalhou no DN até Junho do ano passado, quando o meteram num pacote de dispensáveis e o mandaram fora. Tinha outra coisa rara: perante o injusto, não se calava. Também por isto vai fazer falta. 

Blogue da semana


modosdever,

 

Portuguese Riders Crew é um blogue arrítmico, sem trincheiras políticas ou ambições literárias. E muito naiv. É um bloco de notas de jovens caminhantes portugueses, alguns cientistas, que lá vão deixando as suas pegadas, do Senegal, dos Galápagos, da Austrália, tão despreocupadamente que às vezes até se esquecem de dizer de onde escrevem – por acaso sei que Banfora é no Burkina Faso, cenário da mais recente das historinhas, a do jovem Siaka, que nos deixa a saudade dos mitos. Na foto, a floresta dos wokoulonis. 

Holocaustos


modosdever,

 

Houve mil holocaustos, não houve só um. Negacionismo é passar sobre todos eles. Acabei de ler um: Holocausto brasileiro, da jornalista Daniela Arbex. Este foi também no século XX mas no Brasil, no centro “hospitalar” de Colónia, Barbacena, Minas Gerais. Milhares de pessoas, homens e mulheres, de todas as idades foram ali internadas por supostos transtornos mentais entre 1903 e o fim dos anos 80. Morreram 60 mil. A maior parte, 70 por cento, não tinha nenhum diagnóstico de doença mental. Eram epilépticos, alcoólicos, homossexuais, prostitutas, meninas engravidadas por patrões, mulheres despachadas para que os maridos pudessem viver com as amantes, brigões, pessoas só entristecidas. Sobreviviam comprimidos, metidos às centenas em armazéns, dormiam sobre palha, entre piolhos e carraças, andavam nus, eles e elas, bebiam água de esgotos, comiam mal e quase nada. Os bebés sobrevindos eram vendidos. Morriam todos os dias, às vezes da cura – era o tempo dos electrochoques. Depois eram vendidos ao quilo às faculdades. E tudo isto durante décadas, com a conivência de médicos, enfermeiros, funcionários e do Governo brasileiro. Basaglia, o psiquiatra italiano que levantou a voz contra os manicómios, foi lá em 1979:  “Estive hoje num campo de concentração nazi. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como essa”. Uma das melhores reportagens da mais-do-que-premiada Daniela Arbex, que salvou milhares de pessoas do esquecimento e devolveu o nome a muitos sobreviventes. Faz-me bem saber que vive no mesmo mundo que eu. 

Um gangster na CPLP


modosdever,

A fase 1 da Guiné Equatorial acabou, vamos à fase 2: a CPLP deve expulsar o novo membro para evitar transformar-se num gang. Os motivos são os mesmos por que não deveria ter sido aceite e mais este aqui, acabadinho de me chegar: http://www.diariorombe.es/obiang-nguema-quien-quiere-perder-a-un-miembro-de-su-familia-sin-ninguna-razon/. Mas podem ver melhor aqui sem filtros: http://coupdegueuledesamuel.blogspot.pt/. Está em castelhano e francês, claro. Numa tradução livre para português poderia ficar assim: “Então, ó papalvos, vocês acham mesmo que eu ia acabar com a pena de morte? Mas que tansos!” 

Delitos poéticos (19)


modosdever,

 

Habito na Possibilidade –

Uma Casa mais bela do que a Prosa –

Em Janelas mais numerosa –

Em Portas – superior –

 

De Quartos como Cedros –

Impregnáveis ao Olhar –

E por Telhado Duradouro

Os Telhados do Céu –

 

De Visitantes – a mais bela –

Isto – para a Ocupar –

O abrir largo as minhas Mãos estreitas –

Para colher o Paraíso –

 

Emily Dickinson

Blogue da Semana


modosdever,

Para quem tenha dificuldade em distinguir um castanheiro de uma erva aromática, não saiba que há flores que também se comem ou pense que a permacultura é uma técnica de reprodução humana em laboratório, clique aqui no Malva Silvestre e cure a ignorância. É o blogue da Fernanda Botelho, onde ainda pode ficar esclarecido de como, e porquê, as cenouras amam os tomates, e encontrar receitas extraordinárias como um risotto de urtigas. Se sofrer de urticária, também encontra lá jeito de a curar. E tudo acompanhado de belíssimas fotos. Se quiser saber mais, então terá de ir à Tojeira, para os lados do Magoito, Sintra. 

Um livro muito acima


modosdever,

Uma coisa é não conseguirmos dormir, outra é darmo-nos a vigílias; refiro-me, calma aí, à Piada Infinita, de David Foster Wallace. Muito, muito, muito mais do que um livro, saberei no fim porquê… Saboreio-o sem pressa, como aprendi a ler. Felizmente que vou nas primeiras páginas das 1198 que tem, sem poder garantir que não volte ao princípio…

Quando o diabo assobia


modosdever,

Às vezes são os acontecimentos que vêm ter connosco. É raro. Foi assim esta manhã quando fui espreitar o dia, na Praia do Magoito. Na linha dos olhos, o vento tinha arrancado o telhado da esplanada em frente e espetado madeiras, plásticos e telhas em três postes, deixando a casa perto dos intestinos. Isto depois de o diabo ter passado a madrugada a assobiar. O resultado está à vista. Se a arte dispensasse a intenção, diria que é arte. Aproveitem, pois nenhum media chegou a tempo. 

 

 

INVICTUS


modosdever,


Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul. –
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed. –
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find me, unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate;
I am the captain of my soul. 

(O poema de William Ernest Henley, que acompanhou sempre Mandela)

A violência só pode aumentar


modosdever,
“É impossível sossegar indefinidamente os cidadãos”, disse esta manhã, em entrevista à Antena 1, o sociólogo Moisés Martins, director do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho. Sem uma mudança das políticas que são contestadas, a violência dos protestos deverá aumentar nos próximos tempos. O investigador argumenta que a classe política em geral – com a condescendência dos média – descolou do país real e dos cidadãos reais, ou seja, do sofrimento da população. Refere ainda que é difícil para os cidadãos terem voz, visto que o espaço público foi tomado de assalto pela classe política, com os profissionais da informação a desistirem de informar e formar os cidadãos cercando-se de analistas comprometidos com os partidos, pelos banqueiros e financeiros. O poder político, que feitas as contas ao pormenor representará uma minoria do eleitorado, espera dos cidadãos um desespero, um sofrimento, um protesto “cordato”, isto é, que não incomode. A raíz do problema é o sistema político e económico em que vivemos. E não atacando a raíz do problema, a violência só pode aumentar. Uma entrevista a ouvir aqui. 

Mas afinal suicidou-se ou mataram-no?


modosdever,

 

Parece que Allende poderá não se ter suicidado… A dúvida volta a agitar o Chile. A tese de que o antigo Presidente preferiu pôr termo à vida do que entregar-se foi defendida durante anos por colaboradores próximos e a família. Em 2011, para acabar com zunzuns de que não fora nada assim, que o tinham era morto, um juiz ordenou que o exumassem. Terminada a peritagem, os médicos forenses puseram-se de acordo: matara-se mesmo, com um disparo da AK-47, que Fidel Castro lhe oferecera. E o cadáver voltou a ser sepultado, com a sua verdade. Mas dois jornalistas e um médico chilenos não ficaram convencidos, esburacaram no episódio e encontraram indícios de que muito, muito provavelmente foi mesmo morto pelos assaltantes de La Moneda, na manhã do dia 11 de Setembro de 1973. São dos títulos que mais estão a vender na Feira do Livro de Santiago, a FILSA, nos 40 anos do golpe de Pinochet. Um é assinado por Maura Brescia e o outro por Francisco Marín e Luis Ravanal (médico). Brescia por exemplo enumera contradições e inconsistências nas conclusões forenses, diz que o líder da Unidade Popular foi atingido por dois disparos na cabeça, tendo o segundo sido feito para encenar o suicídio. E que este não foi de nenhuma AK, espingarda que de resto nunca foi encontrada. Bom, se tiver sido assim, e não vai ser fácil prová-lo, os militares sairão bem pior da história. Para Allende e o mito será indiferente.