Perante o injusto não se calava


modosdever,

Conheci-o no Tempo. Era um devorador de livros, um apaixonado pelo cinema, um comedor de conhecimento. Trabalhava com calma, imune às tensões, incluindo as das horas de fecho. Nunca alimentou peneiras de quarto poder. A ironia era nele uma defesa, não um modo de vida – e se era bom nela! A sua escrita era rigorosa, informada, incisiva se fosse caso disso, e elegante, escrevesse sobre política, cultura ou desporto. Uma vez, por esses anos, desapareceu durante dias sem aviso prévio ou mensagem de doença. Quando o motorista do jornal lhe bateu à porta, encontrou-o com uma barba de dias e um monte de livros à direita, lá lidos, e outro à esquerda, por ler. Admirou-se que andassem à sua procura. Chamava-se Albano Matos, tinha 59 anos, trabalhou no DN até Junho do ano passado, quando o meteram num pacote de dispensáveis e o mandaram fora. Tinha outra coisa rara: perante o injusto, não se calava. Também por isto vai fazer falta. 

0 comentários em “Perante o injusto não se calava”

  1. Comecei no jornalismo no mesmo dia que ele. Entrámos ambos por concurso (raridade, mesmo naqueles tempos…). Havia 8o candidatos para duas vagas. Ficámos nós.
    Muitas manchetes depois, muitas aventuras depois, muitos desencontros depois, reencontrámo-nos bastante mais tarde, noutro jornal. E festejámos juntos, num almoço que reuniu vários amigos e camaradas comuns, o vigésimo aniversário dessa data em que demos os primeiros passos no jornalismo profissional – ele uns anos mais velho que eu, quase miúdo ainda.
    Esta manhã, ignorando a triste notícia da morte dele, lembrei-me desse almoço. Vá-se lá saber porquê…
    Não foi assim há tanto tempo mas parece ter sido há uma eternidade. Porque quase tudo mudou. E não direi que foi para melhor. Na profissão que tanto nos atraiu, que tanto nos apaixonou, que tanto nos arrebatou e afinal nos segregou. Chegas a uma certa idade e tens de optar pela agonia lenta numa redacção, assistindo sem piar ao desfile de incompetências, ou rumar à porta de saída rumo ao incógnito.
    Estes dilemas ferem muita gente. E por vezes matam. Há assassinos sem rosto a matar grandes profissionais como o Albano. Todos os anos, todos os meses, todos os dias.
    Bem sabes a que me refiro, Fernando. Um forte abraço.

    1. Sei muito bem, Pedro, ao que te referes, mas ele ficou até poder e penso que é assim que o devemos lembrar. Enquanto teve mão nas palavras, não desistiu, irreverente, insubmisso – jornalista.

  2. Jornalistas como o Albano Matos eram fundamentais nas redacções, por serem intelectuais autênticos, por pensarem pela sua cabeça e por saberem pensar. Estas pessoas tinham conhecimentos, referências e memória, mas em certo ponto a palavra intelectual começou a ganhar uma conotação negativa, até se tornar numa espécie de insulto. Os jogos de poder e a ascensão burocrática nunca se comoveram muito com a escrita de qualidade, com as crónicas que brilham nem com textos que possuam verdadeiro conteúdo, sentido de humor e independência de espírito. O Albano tinha tudo isto e escrevia verdadeiramente bem; quando falava, as pessoas à volta ouviam o que ele dizia. Foi sempre muito respeitado, pelo menos até chegar o tempo em que já não encaixava. Assisti a uma parte da sua triste passagem pela prateleira e, felizmente, já não assisti ao injusto despedimento de que foi uma das vítimas. O Albano que prefiro lembrar tinha sempre opiniões fortes, embirrações e teimosias bem argumentadas, mas sobretudo cultura sólida, magníficas conversas e prosas a roçarem a perfeição. Muitas vezes, ele escrevia já de noite, quase a atrasar a edição, muito concentrado; ninguém o interrompia e era um gosto ler os seus textos no dia seguinte e pensar assim: “Quando é que eu vou conseguir fazer isto?”

    1. Pois que fique dele o exemplo, Luís, pois continuam a acontecer coisas todos os dias e alguém tem de as levar aos que as querem saber, e é bom acreditar que ele deixou um excelente exemplo de porque se faz e como se faz.

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