Hei-de perguntar


jmmcc,

Há um modo masculino de vestir com que embirro solenemente: rejeitar a gravata, mas usar blazer por cima de camisa para gravata. Não sei bem por quê, mas embirro. Talvez seja pelos colarinhos que não assentam, cheios entretela, rijos, com um dos lados descaído por dentro do casaco e o outro lado a espreguiçar-se cá fora todo esticado. Aquilo acaba por nunca assentar bem.

Se há homens que rejeitam a gravata, por que diabo alguns deles não hão-de rejeitar também as camisas para gravata abertas no pescoço? Ainda hei-de perguntar isso ao Louçã. Ou ao Ahmadinejad.

Quase em surdina


jmmcc,

A Ana Lourenço está na SIC-Notícias com um entrevistado. Ele tem a camisa branca como o primeiro-ministro, tem a gravatucha monocromática como o primeiro-ministro, tem o cabelo cinzento à escovinha como o primeiro-ministro. Ele tem a colocação de mãos estudada do secretário-geral do PS, tem os olhares estudados do secretário-geral do PS, tem as inflexões vocais estudadas do secretário-geral do PS. Tem tudo igual. Menos a voz: fala quase em surdina.

Não interrompe a entrevistadora, não se sobrepõe ao que ela está a dizer, não se irrita por achar que não consegue concluir tudo o que quer quando quer, não lança mímicas de reprovação, não eleva o tom da voz, não quebra o verniz, não sai da postura cordata, não descola de uma aparente humildade. A imitação é boa, mas está longe de ser perfeita: fala quase em surdina.

Não é fácil imitar uma pose arrogante.

Resistirei sempre…


jmmcc,

Tem-se acentuado de há uns anos para cá: à medida que o linguajar empobrece, as pessoas tendem a dizer todas as mesmas coisas com as mesmas palavras. Já não é um mero problema de "moda", mas sim de escandalosa falta de vocabulário. Fruto, necessariamente, de estarmos a criar gerações com mais habilitações e menos conhecimentos.

Lembrei-me disto a propósito do Prós e Contras, que ainda vai na primeira parte. Nem estou a prestar muita atenção, mas consigo perceber que é já a quinta intervenção no programa e concluo que devem estar todos a dizer o mesmo, porque todos eles têm falado à exaustão na mudança de paradigma. Mais para uns, menos para outros, a mudança de paradigma é algo que nitidamente os persegue e consome. Até a Fátima Campos Ferreira também já lhes dá a palavra a partir de uma ideia qualquer em torno da mudança de paradigma.

Na minha opinião, a reforma do ensino que continua por fazer era suposto voltar a pôr os portugueses a falar português. Por inteiro e com características individualizadas, porque andamos a assistir permanentemente a pedacitos de língua plagiados e indiferenciados, com total desprezo por direitos de autor.

Tenho feito um grande esforço para resistir a esta triste realidade, que já constitui um risco sistémico. E esta é que é a questão essencial, que era preciso, basicamente, colocar em cima da mesa. A bem da mudança de paradigma…

Quem se vê na TV (16)


jmmcc,

Os que falam para a geral

O grupo retratado é um mix de entrevistadores e entrevistados. Os que falam para a geral pertencem às duas esferas: uns são profissionais de televisão e outros não, do que resulta o subgrupo dos que falam para a geral e são perguntadores e o subgrupo dos que falam para a geral e respondem felizes.

Aquilo que os define – e essa é a característica comum que mostram – está no facto de nunca se olharem mutuamente. Tanto o que é entrevistador como o que é entrevistado, nenhum deles olha o outro. O entrevistador prefere encarar a câmara; o entrevistado, esse, não resiste mesmo à câmara. É raro encontrarem-se juntos, frente a frente. O habitual é apenas um deles pertencer aos que falam para a geral. Contudo, pode imaginar-se o que seria se ambos o fossem: ia parecer que a câmara estava a filmar uma espécie de plateia, embora apenas composta por duas pessoas.

Entre os melhores exemplos dos que falam para a geral e são perguntadores encontra-se a Catarina Furtado. Ela tem ali, não bem na frente e nem bem ao lado, alguém a quem faz umas perguntas, mas não é verdadeiramente a essa pessoa que ela se dirige: ela pergunta, sim, mas encarando a câmara, como se estivesse a perguntar alguma coisa aos telespectadores. A Sílvia Alberto, que tinha começado bem, anda a querer seguir-lhe os tiques. E há mais: basta que fiquem atentos.

Já no que toca aos que falam para a geral e respondem felizes, a explicação é bem mais prosaica: trata-se de um momento de glória sempre ansiado. Parece provável que nem tenham ouvido completamente a pergunta, mas desatam a língua com os olhos brilhantes postos na câmara e falam para a família, para os amigos, para os inimigos e para o prédio todo em que moram, tipo ó-p’ra-mim-na-televisão. Só não falam para quem lhes dirigiu a pergunta. Por um momento, sentem o estrelato, o chão que pisam passa a palco e é vê-los como se estivessem a declamar sob as luzes da ribalta em noite de estreia.

Se virem, um dia destes, um dos que falam para a geral a cruzar os olhos com o interlocutor – caso raro – podem ter a certeza de que está a acontecer-lhes aquela coisa extraordinária a que costuma chamar-se química. Se vierem a saber que, depois daquele momento televisivo, os dois combinaram encontrar-se nessa noite, então é físico-química…

Real socorro


jmmcc,

A fragata Corte Real continua ao largo da Somália, em operações anti-pirataria coordenadas pela NATO, embora não possa deter piratas por o crime de pirataria não estar previsto na lei portuguesa. Desta feita, porém, encontrou uma situação que pôde controlar: dizem as notícias difundidas entre nós que «socorreu um cargueiro indiano assaltado por piratas» e tal e coisa.

Os tripulantes do navio estiveram sequestrados dez dias pelos piratas, que já se tinham apropriado da carga e do combustível há muito. A Corte Real deu com o cargueiro sem tripulação nem carga, abandonado e à deriva. E os nossos realmente socorreram-no, que o coitado estava perdido e meio traumatizado. Devem ter-lhe dado um anti-depressivo e indicado o caminho para casa.

Pai à força?


jmmcc,

Portas abertas, o líder do CDS-PP deu uma entrevista intimista ao Expresso e disse que se sentiria muito feliz por ser pai. Parece não haver problema: o PSD começou logo a piscar-lhe o olho. Falta perceber o rebento que poderá sair do possível casório. À força e em segundas núpcias.

Descubra as diferenças


jmmcc,

«Oliveira e Costa: Testemunho de um Banqueiro». Conhecem este livro escrito por um jornalista de economia em exercício? Não conhecem. Porquê? Porque o livro não existe. José Sócrates enumerou as diferenças entre o BPN e o BPP, mas esqueceu-se de incluir o livro. As outras diferenças, essas, andam em torno do famigerado «risco sistémico». Risquei-as.

Manter, manter sempre!


jmmcc,

Face ao resultado das eleições europeias, o PS parece que aprendeu alguma coisa e já decidiu oficialmente dar nome à sua nova política: «Manter o rumo». É típico dos socialistas, que suportam a pesada herança soarista da "evolução na continuidade". Manter o rumo!… Se isto não é autoflagelação, o que é autoflagelação?

Risco Sistémico & amigos


jmmcc,

Ando baralhado com a omnipresença do Risco Sistémico em Portugal. Vem o ministro das Finanças e fala no Risco Sistémico. Vem o primeiro-ministro e fala no Risco Sistémico. Vem o governador do Banco de Portugal e fala no Risco Sistémico.

Pergunto-me: será o Risco Sistémico amigo da Mudança de Paradigma? Aparentado da Questão Fundamental? Não sei se fuja, se fique e me alie a eles todos.

O eczema


jmmcc,

Depois disto e disto, faltava-me ainda assinalar um dado curioso sobre as eleições europeias: a tendência notória para uma subida da direita no seio da UE. Inesperada para alguns vital-moreiristas, mais preocupados com a escolha de Durão Barroso para novo mandato do que com os sinais que haviam de penalizar os seus próprios partidos, os socialistas europeus – uns em exercício, outros na oposição – começam a sentir os ventos do deserto à sua frente.

O lado mais interessante do facto é que a família socialista europeia é generalizadamente arredada ou contida na sua capacidade decisória precisamente quando a UE vive uma crise mundial atribuída ao "neoliberalismo" de que a direita é acusada. Parece estranho? Pois este dado, contraditório na aparência, tem várias leituras. Uma delas é clara: o liberalismo está para virar e durar. Com nova regulação, com nova ética, talvez, mas a direita moderna ou a esquerda moderada não é para deitar fora. Não vale a pena ir rebuscar no baú receitas socialistas com cheiro a Fénix renascida, enquanto o socialismo não se modernizar e continuar o exercício dúbio de conciliar o inconciliável.

Nem sei o que chamar a esta contradição, na senda desta curta série sobre «O dilema» e «O "trilema"». Só sei que o facto em si mesmo é sentido à flor da pele pelos socialistas e gera por aí muita comichão. Eczema, talvez?…

O “trilema”


jmmcc,

Tentei aqui em baixo ensair um breve rescaldo sobre as eleições de ontem, referindo-me exclusivamente ao PSD, Manuela Ferreira Leite, Paulo Rangel, Pacheco Pereira, Passos Coelho, PS, José Sócrates e Vital Moreira. Tentarei, agora, alargar-me a três outros patamares.

 

CDS-PP – Nuno Melo e (espantosamente) Paulo Portas deixaram cair a sigla PP à vista dos resultados da noite e optaram pela designação histórica do partido de Freitas do Amaral e de Amaro da Costa. Tiveram motivos para rejubilar (não sei se também para a lágrima do líder): conseguiram alcançar os dois eurodeputados, quando o número de eurodeputados nacionais baixou, e atingiram uma percentagem de que poucas sondagens se aproximaram. O problema é que cantam vitória enquanto são ultrapassados pela esquerda baixa. Mas Paulo Portas tem mais que fazer: quer regressar ao governo a qualquer preço e acaba de descobrir que também precisa de negociar com o PSD como supostamente já negociou com o PS.

 

BE – Os bloquistas passaram a contar com a adesão de algumas faixas da juventude, que nem sonham o que aquilo é. Seguramente, colheram também parte importante do descontentamento da esquerda socialista. Daí o seu sucesso eleitoral. Porém, reduzido agora o PS a números mais modestos, tenho por provável que o BE não consiga repetir este sucesso. Para já, a proeza não é tranquilizadora, pois ninguém sabe em rigor o que eles são (nem muitos deles, que nem se entendem): no meio daquela salada política que muitos confundem com "esquerda moderna e civilizada", esquece-se que ali não falta quem ainda cultive a luta armada. Será bom não perder isto de vista, para que não se percam um dia outras coisas.

 

PCP – Sempre a puxar um partido virtual pela mão e sem que se perceba por que ainda o faz, o PCP não cumpriu o papel mais importante que se esperava dele: servir de tampão ao crescimento dos bloquistas. Teve capacidade para obter uma percentagem que já nem devia ser possível, tantos anos passados sobre a queda do Muro, mas foi incapaz de travar o BE e isso é imperdoável. Espera-se que o faça nas legislativas, porque o BE não tem um eleitorado fidelizado e o PCP tem traquejo e uma máquina que devia estar mais bem oleada.

 

Enfim: em conjunto, os três constituem o "trilema" que se abriu para as próximas legislativas.

O dilema


jmmcc,

A vitória do PSD é de Manuela Ferreira Leite? É difícil responder. É, sobretudo, de Paulo Rangel, o ‘tractor’ que puxou a líder e o partido. Mas o resultado é notável, já que ultrapassou (sem ainda resolver, como é evidente) um PSD fragmentado e desacreditado ainda há muito pouco tempo. Pacheco Pereira também pode dar-se por feliz: concretizou-se uma viragem em que ele se disse crente (mesmo quando parecia não estar muito certo disso), numa aposta em que arriscou a sua notoriedade. Perdeu Passos Coelho, que esperava conseguir agora mais espaço de manobra e que só entrou tardiamente na campanha para largar um presente envenenado. Vai ter de esperar sentado.

 

A derrota do PS é estrondosa. O líder socialista perdeu, o chefe do governo perdeu e o cabeça-de-lista perdeu. A má escolha de Vital Moreira acabou por ser também um monumental erro de José Sócrates. A falta de fair play demonstrada com a suposta quebra de uma boa tradição, como foi não terem cumprimentado de viva voz o vencedor, revelou ainda um mau perder insuportável, embora só possam queixar-se deles próprios.

 

Segue um País que tem o Verão pela frente. Falta saber o que acontecerá nas legislativas depois da época baixa que aí vem. Contudo, é inegável o seguinte: nada está garantido, mas está criada uma dinâmica que, como sempre foi e será, determina o início de um novo ciclo. Pior ou melhor, só o futuro o dirá; mas tudo será necessariamente diferente, o que já é bom. O PSD ainda tem de correr muito, sem qualquer dúvida, e não lhe adianta cantar de galo, embora se veja que reencontrou espaço. Já o PS precisa de tentar acertar o passo e não tem por onde acertá-lo: arrisca-se a ser lento ou a ir depressa de mais. Ou não chega lá e perde a maioria, ou cai no abismo e perde a maioria. Que dilema…

 

(Ganhou ainda o DELITO DE OPINIÃO, que vê arredados dos comentários por uns tempos os assessores que se preocupavam mais com a gravata monocromática do que com o bom senso das suas observações anónimas.)