A vitória do PSD é de Manuela Ferreira Leite? É difícil responder. É, sobretudo, de Paulo Rangel, o ‘tractor’ que puxou a líder e o partido. Mas o resultado é notável, já que ultrapassou (sem ainda resolver, como é evidente) um PSD fragmentado e desacreditado ainda há muito pouco tempo. Pacheco Pereira também pode dar-se por feliz: concretizou-se uma viragem em que ele se disse crente (mesmo quando parecia não estar muito certo disso), numa aposta em que arriscou a sua notoriedade. Perdeu Passos Coelho, que esperava conseguir agora mais espaço de manobra e que só entrou tardiamente na campanha para largar um presente envenenado. Vai ter de esperar sentado.
A derrota do PS é estrondosa. O líder socialista perdeu, o chefe do governo perdeu e o cabeça-de-lista perdeu. A má escolha de Vital Moreira acabou por ser também um monumental erro de José Sócrates. A falta de fair play demonstrada com a suposta quebra de uma boa tradição, como foi não terem cumprimentado de viva voz o vencedor, revelou ainda um mau perder insuportável, embora só possam queixar-se deles próprios.
Segue um País que tem o Verão pela frente. Falta saber o que acontecerá nas legislativas depois da época baixa que aí vem. Contudo, é inegável o seguinte: nada está garantido, mas está criada uma dinâmica que, como sempre foi e será, determina o início de um novo ciclo. Pior ou melhor, só o futuro o dirá; mas tudo será necessariamente diferente, o que já é bom. O PSD ainda tem de correr muito, sem qualquer dúvida, e não lhe adianta cantar de galo, embora se veja que reencontrou espaço. Já o PS precisa de tentar acertar o passo e não tem por onde acertá-lo: arrisca-se a ser lento ou a ir depressa de mais. Ou não chega lá e perde a maioria, ou cai no abismo e perde a maioria. Que dilema…
(Ganhou ainda o DELITO DE OPINIÃO, que vê arredados dos comentários por uns tempos os assessores que se preocupavam mais com a gravata monocromática do que com o bom senso das suas observações anónimas.)

João:
Excelente “post”, com uma análise, serena e real, da situação, criada ontem, com as eleições.
Nada está ganho para os lados da Lapa, mas que é um tónico, importante, não tenhamos dúvidas.
A conclusão final, é que ainda há, muita gente, que não entende, as derrotas, mas principalmente as vitórias.
Abraços, Carlos.
Ganhou o Delito de Opinião e ganharam os seus fieis leitores.Parabéns!
Ainda bem, Pedro. Obrigado.
Derrota que valeu a pena, só para ver o sapo ainda vivo, a debater-se no gorgomilo do nosso primeiro.
É que o dito não descia nem subia! Reparou?
Pobre sapo!
Hehehe…
Vá lá! Finalmente um post seu de fundo sobre as eleições… Parabéns 🙂
Mas não, João Carvalho, eu sei que custa a admitir, mas a vitória é indubitavelmente, e antes de tudo o mais, de Manuela Ferreira Leite.
Como aconteceria, rigorosamente, e bem, se tivesse havido uma derrota, que também teria sido dela, formal e substantivamente.
É ou não é assim? Podemos ser rigorosos?
Quem conduziu os destinos, firme, resistente e sólida, foi essa mulher de 70 anos que passou, consistente e coerentemente, a mensagem mais importante que havia a passar.
Verdade, despojo e desapego. Resiliência e serviço. Visão.
Como foi notório até ao fim (desta fase).
A vitória é também de Rangel, evidentemente. Que trabalhou muitíssimo bem e foi inteligentemente escolhido por ela, quer para o parlamento nacional quer para o PE. E merece integralmente todos os louros devidos pela sua prestação pessoal.
Mas o lado estratégico da condução de Manuela Ferreira Leite – que não tardaria a ser crucificada e galhofada no cenário alternativo -, é absolutamente iniludível nesta avaliação.
A política real, a tal que desmentiu as sondagens, tanto quanto nada tem a ver com os conjecturas de quem vê a massa crítica nacional confortavelmente sentado ao lado de D.José a cavalo – contemplando o país como se desaguasse todo ali, a seus pés, irrelevante e previsível como um mar da palha, baixinho e navegável – é mesmo assim. E é ele quem manda, não mandando nada.
Foi para ele que Manuela Ferreira Leite falou e decidiu, ponderada e cirurgicamente, cada uma das suas opções tácticas. As pessoas ouviram muito bem, avaliaram muito bem, perceberam que foram sempre a sua inspiração, mas não escreveram em jornais nem comentaram em blogues. Compreendo que dá para ignorar.
Nada aconteceu por acaso, você sabe isso muito bem.
Não leve a mal o meu delito de opinião.
Não foi por acaso que eu escrevi: «A vitória do PSD é de Manuela Ferreira Leite? É difícil responder. É, sobretudo, de Paulo Rangel, o ‘tractor’ que puxou a líder e o partido.»
Cabe à líder a escolha de Rangel. A vitória é dela, sem dúvida, até porque é a liderança que marca a grande escolha dos eleitores.
Porém, com outro no lugar de Rangel, num partido fragmentado, seria a mesma coisa? Duvido. Por isso, Rangel foi quem arrastou atrás dele a líder e o partido.
Em conclusão: podem partilhar a glória e dividir os louros, que ambos merecem.
Só mais uma observação, Chloé: nada me custa admitir seja o que for que me pareça de admitir. Nem sequer estou comprometido. E mesmo que estivesse, não costumo sofrer de cegueira mental. Repare como me referi a Pacheco Pereira e Passos Coelho. Sem o mais pequeno problema, posso garantir-lhe…
(Acha que eu poderia levar a mal algo vindo de si?)
Obrigada! Hands shaked, hehe.
Mas continuo na minha: o tractor foi mesmo Manuela Ferreira Leite.
Foi essencialmente nela que eleitores votaram. E nas suas (puras) verdades, sem nunca (friso) atirar areia para os olhos. Ou ser deselegante.
Parafraseando o “nosso” blogger Pedro Correia
«Inútil, à direita, supor que duas semanas com Paulo Rangel na montra conseguirão ocultar um ano de desempenho de Ferreira Leite».
Retive a frase, na altura, pela exactidão que a profecia encerrava, suspeitando deste desfecho e ainda de que, claramente, todos a estaríamos a ler a coisa de maneira diferente.
‘Hands shaked’, Chloé. Até porque, vendo bem, a ideia de tractor não lhe assenta mal de todo…
Pudera! Note que não é para todos, isto de guiar sem mudanças automáticas e sem GPS 🙂
De repente, recuei ao Sérgio Godinho
“um tractor, quando é usado com amor,
com o amor, o amor da terra nas rodas…”
Cruzes, credo:-)
Não era bem essa a ideia, mas ’tá bem. Hehehe…
Concordo consigo, Chloé. O povo é preguiçoso e indisciplinado mas vai registando o que se passa à sua volta, pela calada, guardando-se para uma sentença implacável quando acha que isso é preciso. Sempre assim foi: só reagimos in extremis, pressionados e de corda na garganta. Mas acabamos por reagir.
Além disso, quando os bolsos estão vazios e o emprego se vai, a política-espectáculo já não serve a ninguém. As pessoas querem quem tenha pulso firme e seja sério na governação, e sobretudo quem não esteja permanentemente ligado a escândalos e esgote todas as energias em propaganda e fogo de vista. E quem tem esse perfil austero, fiável e sério na política portuguesa actual? Duas pessoas, que eu veja: Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite. Doa a quem doer, inspiram confiança e é isso que os portugueses querem, instintivamente.
Não sei o que se seguirá e tenho a plena noção de que este PSD não pode garantir nada ainda, assim fragamentado e desvalido como está. Mas o descalabro em que estávamos não era solução e durou tempo de mais, com consequências que estão à vista.
Ana V., também é essa a minha convicção.
Foram valores que estiveram em causa.
Afinal ainda há por aí quem os tenha, cheguei a pensar que estávamos pior.
Gostei de ver.
Sobre o que nos espera, ah, pois…nada de bom, nada de fácil. Tudo é possível, mas certa, certa é a crise, implacável.
O que me dá alento é saber que ninguém ganhou com base em promessas fáceis e propósitos temerários. Agora, é preciso que as pessoas qualificadas – realmente qualificadas -, saiam das tocas para onde fugiram horrorizadas, e dêem a Portugal o seu saber, o seu talento, a sua criatividade. E que o façam sobretudo a troco de nada, que é como se deve estar na coisa pública
(o que é dizer que não nos tirem o pouco que ainda resta!)
Enfim, abriu-se uma porta e um caminho, e foi “só” isso… Venha quem acredita!
Quanto aos outros vencedores (BE) entalaram indubitavelmente o PS.
O PS de agora, mas sobretudo o do futuro.
Há que cerrar fileiras… 😉
E viver, civilizadamente, com um “brilhozinho” nos olhos.
Agora, mãos no trabalho, que senão….. roubam-no;)
Excelente análise, compadre. Subscrevo na generalidade. E subscrevo na especialidade a nota final, dedicada aos assessores blogueiros que andam hoje de orelha murcha. Basta espreitar hoje alguns dos tascos onde se acoitam para perceber isso.
Exactamente, compadre. Sabes que até já lhes sinto a falta? Começo a ficar mesmo triste, olha: hehehe…
Subscrevo. Penso que uma nova era começou ontem. É o momento de separar das águas, e do regresso das ideologias e isso é bom. Mas penso que falta concluir a sua uma análise com a subida o Bloco, a contenção da CDU e à consolidação do CDS-PP . O dilema não se esgota na contenda eleitoral entre PS e PSD, com os graves problemas que o próximo governo terá de enfrentar seja ele qual for. Até parece que já sei de cor os discursos de vitória caso seja um ou outro. Uma agonia. O problema vai ser o day after .
Isso fica para depois, Ariel. Para já, quis partilhar uma análise simples pelos partidos de topo.
Alguém me pode explicar esta dos assessores e das gravatas??
Não há pachorra. Adiante.
João e Pedro (Compadres)
Os assessores blogueiros estão de ressaca mas já anda uma no ar que é a da ingovernibilidade do país se não houver uma maioria absoluta do PS.
Portanto agora virá a chantagem e o papão coisa e tal que sem nós, enfim pelos vistos não perderam tempo, e com esta ideia irão massacar-nos até ás legislativas, a voz do dono obriga a isso e claro também há os muitos lugares em jogo, aposto que alguns sempre foram “laranjas” desde pequeninos.
Nós estamos cá para os topar e desmascarar.
Abraços para vocês dois, em grande.
Nada que não se espere.
Abraço.
Acima de tudo ganhou a política substantiva e por isso também a Democracia. Ganhámos todos uma nova esperança. Perdeu a política de baixo nível (cívico e intelectual) e o(s) excesso(s), também de estilo e de forma, que não são mais do que a compensação da falta de tudo o resto. Vai caindo a máscara – aos poucos e até Outubro – e para bem de todos são os eleitores que a vão arrancar da(s) cara(s) do Secretário Geral do PS. Pode controlar-se a máquina do partido, a comunicação social, as empresas de sondagens, os lugares da Administração mas o voto ainda é livre e severo. É o que nos vale. É também isso que prova que ainda somos uma Democracia. Só o voto pode derrotar a presunção socialista tão bem retratada na frase de Elisa Ferreira:”o dinheiro é do Estado, é do PS”
Gostei da tua lembrança, Gonçalo, sobre o voto ser não apenas livre, mas «severo». Tens toda a razão. E Elisa Ferreira parece que está com inexplicável pressa de seguir as pisadas de Vital Moreira: cada pontapé cada minhoca!
Gostei, sobretudo, de te ‘ver’ por aqui. Um abraço, meu caro.