Os que falam para a geral

O grupo retratado é um mix de entrevistadores e entrevistados. Os que falam para a geral pertencem às duas esferas: uns são profissionais de televisão e outros não, do que resulta o subgrupo dos que falam para a geral e são perguntadores e o subgrupo dos que falam para a geral e respondem felizes.
Aquilo que os define – e essa é a característica comum que mostram – está no facto de nunca se olharem mutuamente. Tanto o que é entrevistador como o que é entrevistado, nenhum deles olha o outro. O entrevistador prefere encarar a câmara; o entrevistado, esse, não resiste mesmo à câmara. É raro encontrarem-se juntos, frente a frente. O habitual é apenas um deles pertencer aos que falam para a geral. Contudo, pode imaginar-se o que seria se ambos o fossem: ia parecer que a câmara estava a filmar uma espécie de plateia, embora apenas composta por duas pessoas.
Entre os melhores exemplos dos que falam para a geral e são perguntadores encontra-se a Catarina Furtado. Ela tem ali, não bem na frente e nem bem ao lado, alguém a quem faz umas perguntas, mas não é verdadeiramente a essa pessoa que ela se dirige: ela pergunta, sim, mas encarando a câmara, como se estivesse a perguntar alguma coisa aos telespectadores. A Sílvia Alberto, que tinha começado bem, anda a querer seguir-lhe os tiques. E há mais: basta que fiquem atentos.
Já no que toca aos que falam para a geral e respondem felizes, a explicação é bem mais prosaica: trata-se de um momento de glória sempre ansiado. Parece provável que nem tenham ouvido completamente a pergunta, mas desatam a língua com os olhos brilhantes postos na câmara e falam para a família, para os amigos, para os inimigos e para o prédio todo em que moram, tipo ó-p’ra-mim-na-televisão. Só não falam para quem lhes dirigiu a pergunta. Por um momento, sentem o estrelato, o chão que pisam passa a palco e é vê-los como se estivessem a declamar sob as luzes da ribalta em noite de estreia.
Se virem, um dia destes, um dos que falam para a geral a cruzar os olhos com o interlocutor – caso raro – podem ter a certeza de que está a acontecer-lhes aquela coisa extraordinária a que costuma chamar-se química. Se vierem a saber que, depois daquele momento televisivo, os dois combinaram encontrar-se nessa noite, então é físico-química…

Heheheh. Fazes muito bem em prosseguir esta série, compadre. É excelente. Quanto aos que falam para a geral, nada melhor do que seguirem o exemplo do Emplastro: esse ao menos não fala, só se mostra.
Tens razão. Hehehe…
E vão 16. Muito bem. Digo eu aqui da geral.
:)))
No seu caso, Maria do Sol, a geral é muito particular. Ou seja: é particularmente importante quando fala. Obrigado.
E se nunca mais aparecerem na televisão, então é porque houve explosão no laboratório?
Boa, João. Já tinha saudades desta série. 🙂
Obrigado, Ana. Esta gente, hoje em dia, já nem sabe o que é um ‘buummmm’ como deve ser!
Pois é… já não se fazem vasos comunicantes como antigamente!
Essa é que é a questão essencial!