Derrotados (20)


Pedro Correia,

 

ABSTENÇÃO: UM ESPECTRO NA EUROPA

 

Um espectro percorre a Europa. Mas não é o espectro do comunismo de que falava o velho Marx. Nem sequer o dos socialistas, que respondem à crise – a todas as crises – com o aumento do peso do Estado. Nem o dos ‘neoliberais’, esses tigres de papel que tremem ao primeiro abalo de uma bolsa de valores. O espectro que percorre a Europa é o da demissão cívica, que atingiu nestas eleições níveis gigantescos um pouco por todo o continente, desacreditando esse farol da democracia que se chama União Europeia. De Paris a Praga, de Madrid a Riga, de Lisboa a Haia, a maioria dos eleitores virou costas às urnas, acabando por votar com os pés.

O que nos disseram esses militantes da abstenção sobre o fabuloso ‘projecto europeu’, maravilha fatal da nossa idade? Que lhes é indiferente se o Parlamento se reúne em Bruxelas ou Estrasburgo, se a Comissão perde ou não poderes perante a eurocâmara, se a Turquia entra ou faz que entra, se o Tratado de Lisboa não passa de uma miragem no horizonte, se a Europa funciona a uma ou duas velocidades, se o pacto de estabilidade serve mais para divergir do que para convergir ou se a imortal frase ‘porreiro, pá’ vai sendo repetida em redor de Durão Barroso, servindo-lhe de mote num segundo mandato.

Ninguém quer saber – nem na Grécia, onde o voto obrigatório não evitou que 40% dos eleitores pecassem por falta de comparência às urnas. Os gregos parecem portugueses: decretam normas que depois não são aplicadas nem sequer merecem uma suave sanção. Por lá, como por cá, nada mais relativo do que aquilo que é ‘obrigatório’…

Em 30 anos de votações, esta foi a que contou com menos eleitores, facto que deve fazer reflectir todas as cabeças pensantes no espaço europeu: a prazo, tamanha vaga abstencionista ameaça fazer ruir a democracia representativa à escala do continente.

Como despertar um novo fôlego de cidadania na UE?  As grandes caminhadas arrancam com pequenos passos. Nada melhor, para inverter este ciclo, do que começar por respeitar a vontade dos povos – esses mesmos, os que são consultados em sucessivos referendos até o veredicto que emitem se coadunar com as teses eurocratas. Se no Outono o Tratado de Lisboa voltar a ser chumbado no referendo irlandês, chumbe-se de vez o tratado – não se chumbe a Irlanda.

Publicado no DN

Um comentário em “Derrotados (20)”

  1. “acabando por votar com os pés.”

    Espreite lá se puder. Verá como sou rebuscada, mas, ao mesmo tempo, como me identifico com o que diz neste texto.
    :))

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