ABSTENÇÃO: UM ESPECTRO NA EUROPA
Um espectro percorre a Europa. Mas não é o espectro do comunismo de que falava o velho Marx. Nem sequer o dos socialistas, que respondem à crise – a todas as crises – com o aumento do peso do Estado. Nem o dos ‘neoliberais’, esses tigres de papel que tremem ao primeiro abalo de uma bolsa de valores. O espectro que percorre a Europa é o da demissão cívica, que atingiu nestas eleições níveis gigantescos um pouco por todo o continente, desacreditando esse farol da democracia que se chama União Europeia. De Paris a Praga, de Madrid a Riga, de Lisboa a Haia, a maioria dos eleitores virou costas às urnas, acabando por votar com os pés.
O que nos disseram esses militantes da abstenção sobre o fabuloso ‘projecto europeu’, maravilha fatal da nossa idade? Que lhes é indiferente se o Parlamento se reúne em Bruxelas ou Estrasburgo, se a Comissão perde ou não poderes perante a eurocâmara, se a Turquia entra ou faz que entra, se o Tratado de Lisboa não passa de uma miragem no horizonte, se a Europa funciona a uma ou duas velocidades, se o pacto de estabilidade serve mais para divergir do que para convergir ou se a imortal frase ‘porreiro, pá’ vai sendo repetida em redor de Durão Barroso, servindo-lhe de mote num segundo mandato.
Ninguém quer saber – nem na Grécia, onde o voto obrigatório não evitou que 40% dos eleitores pecassem por falta de comparência às urnas. Os gregos parecem portugueses: decretam normas que depois não são aplicadas nem sequer merecem uma suave sanção. Por lá, como por cá, nada mais relativo do que aquilo que é ‘obrigatório’…
Em 30 anos de votações, esta foi a que contou com menos eleitores, facto que deve fazer reflectir todas as cabeças pensantes no espaço europeu: a prazo, tamanha vaga abstencionista ameaça fazer ruir a democracia representativa à escala do continente.
Como despertar um novo fôlego de cidadania na UE? As grandes caminhadas arrancam com pequenos passos. Nada melhor, para inverter este ciclo, do que começar por respeitar a vontade dos povos – esses mesmos, os que são consultados em sucessivos referendos até o veredicto que emitem se coadunar com as teses eurocratas. Se no Outono o Tratado de Lisboa voltar a ser chumbado no referendo irlandês, chumbe-se de vez o tratado – não se chumbe a Irlanda.
Publicado no DN


“acabando por votar com os pés.”
Espreite lá se puder. Verá como sou rebuscada, mas, ao mesmo tempo, como me identifico com o que diz neste texto.
:))